O Retorno - A Jóia da Rainha - (Livro 1)

1 A menina que sofria preconceito


Victoria estava sentada no banco do shopping lendo um livro quando viu uma senhora idosa em pé.

— Senhora, pode se sentar aqui se quiser.

— Não! — respondeu grossa. E saiu.

Victoria ficou sem reação. Pegou seu livro e saiu, queria sair dali, entrar no seu quarto e ficar ali para sempre.

Era sempre assim. As pessoas olhavam para ela como se ela não fosse humana, apesar de ser completamente normal. Pareciam ter nojo dela. Ela não tinha nada demais: 15 anos, dois olhos, um nariz, uma boca e um par de orelhas, branca como açúcar. Dois olhos verdes água como o mar das praias gregas, nariz perfeito, um pouco arrebitado, boca delineada, vermelha como uma cereja e orelhas proporcionais, além de um lindo cabelo ruivo cacheado. Qualquer garoto babaria por ela, não fosse aquele estranho preconceito que ela sofria.

Chamou um táxi e pediu para que lhe deixasse em casa. Victoria morava num bairro nobre de São Paulo com sua família, era filha única. Era rica de berço, sua família era influente, histórias familiares diziam que eles eram parentes distantes da antiga família real portuguesa.

Ao chegar em casa, entrou em seu quarto, ignorando a faxineira que limpava-o.

— Desculpe te atrapalhar — disse Victoria — Pode continuar seu trabalho, vou apenas ficar aqui na minha cama lendo meu livro.

— Já terminei. — respondeu a faxineira.

‘’Só me faltava essa. Ser ignorada até em casa.’’ Pensou.

Pegou seu livro e começou a ler, lia As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

‘’Esse autor é um gênio!’’, pensou, quando leu um trecho de O Sobrinho do Mago:

‘’Breve, muito breve, antes que envelheçam, grandes nações serão governadas por tiranos parecidos com a Imperatriz Jadis, indiferentes à alegria, à justiça e ao perdão. Avisem ao mundo sobre esse grande perigo.’’

O modo pelo qual o autor fez uma alusão a Adolf Hitler era impressionante. Victoria era fascinada por história e filosofia, fazendo de Nárnia um dos seus livros preferidos.

Acabou o livro. Já devia ser a décima vez que lia. Decidiu ir tomar um banho.

Pegou suas roupas, seu iPod e foi em direção ao banheiro. Despiu-se e ligou o chuveiro. Depois ligou seu iPod, sem fones, no último volume. Amava música eletrônica e pop, por isso ligou sua música preferida no momento: We'll Be Coming Back, de Calvin Harris. Que era seu DJ preferido.

— We'll be coming back for you one day… na na na na na na — cantava. Um dos maiores prazeres da vida de Victoria era cantar no banho. Ela tinha uma linda voz. Porém durante a música lembrou-se de um detalhe infeliz: Era o último dia de suas férias.

‘’Ótimo, amanhã vou ter que ver a cara daqueles infelizes’’ pensou. Victoria simplesmente odiava a sua classe da escola. Na verdade não odiava, eles odiavam ela. Por aqueles mesmos motivos que ela não sabia.

Saiu do chuveiro e se trocou. Colocou os fones e foi se deitar, naquele dia os pais trabalhariam até tarde. Seu pai era arqueólogo da USP e estava no litoral escavando ruínas jesuítas. Sua mãe era professora de História Antiga do Mundo Grego da mesma universidade.

Ficou deitada na sua cama pensando na vida, caiu no sono.

Naquela noite ela teve um sonho estranho: Estava num local escuro, iluminado por tochas, à sua frente um enorme portal. As paredes eram rodeadas de hieróglifos egípcios. Quando ela se viu, assustou-se vestia uma túnica branca e seu cabelo estava com tranças e fios de ouro. Percebeu logo que aquilo era uma peruca, uma peruca negra e de cabelos lisos, com uma franja que lhe cobria a testa. Estava se vestindo como uma egípcia antiga. Foi em direção ao portal, entrou e ali estava um balcão no centro da sala, iluminado por um feixe de luz da lua. Havia algo ali que parecia um apoio para livros, colocou então no apoio um olho de Hórus banhado em ouro e com uma esmeralda no centro. Ao tocar o apoio, a sala estremeceu, as tochas do túnel que havia antes do portal se apagaram e uivos soaram.

Victoria acordou com o despertador, que sonho estranho! Ficou pensando naquilo e chegou à conclusão de que não passava de uma obsessão que estava tendo por Egito que havia afetado seus sonhos.

Colocou seu uniforme e seguiu para a cozinha, tomou seu café da manhã e seguiu para a garagem, onde seu pai a aguardava para levá-la a escola.

— Bom dia, filhona! — e lhe deu um beijo.

— Bom dia, pai! Como foi de viagem? — perguntou.

— O de sempre... Cruzes, caveiras e pedras — respondeu, rindo.

Victoria riu, seu pai era a única pessoa que ela conhecia que não tinha nenhum preconceito por ela. Até sua mãe, mesmo sendo sua mãe, tinha sérios problemas com a filha. Certa vez não a levou a um casamento, pois achava que estragaria a festa.

No caminho foram conversando à respeito da viagem, seu pai lhe contava sobre a história do Brasil, falava dos negros, contava sobre o preconceito...

— Sabe pai, às vezes acho que nasci negra, e não branca, e na época errada. — disse ela.

— Por que, minha Branca de Neve? — respondeu o pai, com o apelido que lhe dava por ela ter a pele extremamente branca.

— Por esse preconceito que fazem comigo! Nunca fiz nada para ninguém! Pelo contrário!

— Sabe, filha, as pessoas são estranhas. Não se deixe levar pela opinião dos outros, o que importa é você, dependa de você, viva por você.

Victoria estava chorando um rio de lágrimas. Seu pai continuou:

— Não ligue para os outros. E saiba filha, sempre, sempre você vai poder contar comigo, seja como for.

— Te amo, pai.

— Também te amo, filha, você é meu maior presente.

Chegaram à escola, Victoria deu um beijo em seu pai, que retribuiu.

— Boas aulas, querida.

Desceu do carro com um sorriso, porém seus olhos ainda úmidos.

Notas finais
Bom pessoal, é apenas meu começo aqui, conforme for, continuarei a história! Espero que tenham gostado! Comentem e se encontrarem algum erro, por favor, avisem!