O Retorno - A Jóia da Rainha - (Livro 1)
10 Quem é Victoria
Dessa vez Ricardo não ficou tão feliz assim com a suspensão da filha:
— Filha, você deve aprender a se controlar!
— Me controlar? — respondeu Victoria, grosseiramente — Me controlar exatamente do quê!?
A noite de inverno estava gelada, o vento sussurrava alto pelos galhos das árvores fora da casa de Victoria, alto o suficiente para que ninguém escutasse o carro que parava em frente à casa.
Raquel limpava a sala onde Ricardo e Victoria estavam, Fernanda não havia voltado para casa, o silêncio estava mortal. A enorme casa tinha apenas os três lá dentro, indefesos. Como náufragos numa ilha infestada de perigos.
— Pai, o que você tanto esconde de mim? — questionou Victoria.
Ricardo olhou o chão, como se estivesse se sentindo inseguro de algo. Raquel parou de limpar o aparador que lustrava e encarou Ricardo como se fizesse um gesto de aprovação. Ricardo encarou Raquel por alguns segundos e então limpou a garganta se virando para Victoria.
— Filha... Bem... Acho que você escutou... Escutou o que sua mãe disse quando foi embora. Algo que para você não fez sentido algum. — começou Ricardo.
— Sim, algo sobre... Atlântida? Não me lembro bem...
— Bom, sim. Bem, como eu posso começ... — escutaram um vidro sendo estilhaçado. Ricardo se levantou. Raquel congelou onde estava.
— Não fui eu! — disse Raquel.
— Não... Foi lá em cima... — disse Ricardo. Mais sons de vidros se estilhaçando foram escutados pelos três na sala.
— Pai... — começou Victoria.
— Filha, silêncio! — disse Ricardo, que assim como Raquel olhava para o chão. Tentando se concentrar para saber de onde vinha o barulho.
— Pai! — gritou Victoria, alto o suficiente para que Ricardo se desse conta de que estava em uma linha de tiro.
Quatro figuras negras encapuzadas os encaravam do parapeito da escada. Um deles apontava uma arma em direção a Ricardo, na direção de seu pé.
Um estalar de gatilho. Um tiro. Uma pessoa no chão. Gritos abafados.
Ricardo havia levado um tiro no pé, o que o fez cair. Rapidamente os homens encapuzados não armados dominaram Victoria e Raquel. Que queriam gritar mas não podiam. O homem armado colocou a arma na cabeça de Ricardo e deu ordens gestuais para os outros homens, que apagaram Victoria e Raquel estrangulando-as até desmaiarem.
A última visão de Victoria foi seu pai sendo encapuzado e arrastado.
Acordou com Raquel a abanando com um pano de chão.
— Meu pai... — balbuciou Victoria — Meu pai... Meu pai! — disse, sobressaltando-se — Cadê meu pai? Liga pra polícia Raquel!
— Não adianta — disse Raquel, ainda atordoada — Eles não poderão fazer nada...
— Como não! Raquel! Eles são a polícia, Raquel! Raquel! Meu pai foi sequestrado Raquel!
— Não podemos fazer nada! — gritou Raquel — Apenas esperar que os sequestradores tentem nos contatar!
Victoria caiu de joelhos no chão com as mãos no rosto.
— Não são sequestradores comuns, Victoria. — disse Raquel, para si mesma, como se mesmo falando com Victoria, não quisesse que ela escutasse — São Érisos.
— Ériquem? — perguntou Victoria.
— Um segundo, vou fazer uma ligação. — disse Raquel.
***
Após alguns vinte minutos, a campainha da casa de Victoria toca.
— Atenda, Raquel! Deve ser a polícia!
— Não é, Victoria. — disse Raquel.
Caio, o professor de história de Raquel estava de pé na entrada da sala de Victoria.
— Professor?
— Me chame de Caio, Victoria.
— Pelo visto você já conhece meu irmão, Victoria — Victoria olhou Raquel como se dissesse ‘’O que ele está fazendo aqui?’’ — Ele conseguirá te explicar o que está acontecendo com você. — respondeu a faxineira. Victoria fez uma cara de interrogação.
— Victoria, não foram apenas sequestradores que levaram seu pai. — começou Caio.
— Foram uns tais de Éricos? — questionou Victoria, mesmo não sabendo do que falava.
— Érisos — corrigiu Caio.
— Ahm. E quem são esses ‘’Érisos’’?
— Não sei como te contar isso. — disse Caio.
Victoria encarou Raquel, como se dissesse ‘’Por que diabos então você trouxe ele aqui?’’
— Vamos direto ao ponto. — recomeçou Caio — Digamos que... Você é a última descendente de uma civilização que não habita mais a Terra e agora está dando sinais de quem você realmente é, logo, o inimigo está tentando exterminá-la.
Victoria quase caiu de costas. — O quê? Explica esse negócio direito. Eu? Descendente de uma civilização perdida? Por favor, vocês dois estão loucos!
— Victoria, isso é sério. — disse Raquel.
— HÁ! — ironizou Victoria — Daqui a pouco vocês vão falar que eu sou uma super heroína que pode salvar o mundo!
— E é mesmo. — disse Caio.
Victoria fechou a cara. — Vocês estão começando a me assustar. Explica isso direito, ‘’Caio’’.
— Bem, precisamos começar isso dos primórdios.
— Pré-história?
— Antes.
— Tem antes?
— Sim, muito antes.
‘’Há muito, muito tempo atrás, um meteoro atingiu a Terra, devastando grande parte da vida no planeta. Aquilo que hoje em dia chamamos de dinossauros. O que o ser humano atual não sabe, é que aquilo não era um meteoro, e sim uma nave espacial colonizadora. O primeiro contato da Terra com uma raça totalmente evoluída e de fora do planeta. Os chamados Cauzos.
Sim, o nome do deus grego ‘’da criação’’, o chamado Caos, está totalmente relacionado à esses seres. O nome do Caos filosófico, aquele que a filosofia sempre tentou colocar Ordem, vêm desses seres. Caos, o primeiro. Caos, o que o humano odeia.
Bom, continuando, os Cauzos se estabeleceram na Terra, porém precisavam prosperar e continuar a colonizar o Universo, criando domínios para seu planeta natal, a Cáusia. Após a destruição em massa da vida no planeta, os Cauzos resgataram alguns mamíferos pelo planeta Terra, pois os mamíferos foram os únicos que conseguiram sobreviver bem resistentes ao desastre do pouso, e desses mamíferos começaram a criar novas espécies. Espécies que são aquelas que hoje conhecemos como ‘’protótipos do homem’’, como os Australopitecus.
Os protótipos realmente são protótipos, protótipos do que hoje chamamos de homem, Homo sapiens sapiens. Após a criação dessa espécie de homem, os Cauzos perceberam que poderiam, agora, continuar sua jornada pelo universo, pois a nova espécie conseguiria cuidar de seus domínios. Uma espécie que, por sinal, era parecida com eles.
Porém, durante a criação, a civilização Cauza se estabeleceu na Terra. Logo, os Cauzos decidiram deixar uma família que pudesse liderar a civilização cauzo-terráquea. Os reis e rainhas da Terra, estabelecidos num continente criado apenas para eles, conhecido como Atlântida.
Os Cauzos colonizadores foram embora. Deixando no Terra a família real Cauza, a população Cauza de Atlântida, agora conhecidos como Atlântidos, e o homem, que cuidava do resto do planeta.
A família real se deixou tomar pela ganância e começou a abusar do homem. Começou a criar impostos altíssimos para os terráqueos, criar grandes desastres apenas para mortes em massa e prazer dos Atlântidos... O homem se revoltou, e, juntos, dominaram Atlântida. A primeira revolução da História. A Revolução Atlântida. Os homens tomaram o poder e mataram toda a civilização Cauza, exceto a família real, que usava como bonecos contra a Cáusia.
O imperador de Cáusia, sabendo do problema na Terra, enviou suas tropas para nosso planeta. O homem logo foi dominado. Mas os Cauzos não queriam a morte, a destruição, queriam tratar, em paz, o governo de Terra.
Surpresos, os homens aceitaram as propostas Cauzas. Ficou decidido que uma nova família real Cauza subiria ao poder, porém receberia como mãos de ajuda duas famílias humanas, cada uma com influência em um hemisfério. Hoje conhecidos como Érisos e Nemêsicos.
A família Éris, com ciúmes da família Nêmesis, que era a preferida dos reis Cauzos, criou, secretamente, levantes entre os humanos comuns para derrubar a família Nêmesis. O que não esperavam era criar uma nova revolução contra o governo Cauzo. Dessa vez, os imperadores da Cáusia, revoltados, destruíram quase toda a população humana, não inteira, pois, apesar de tudo, ainda existia algum conceito de ‘’perdão’’. Eles apenas queriam castigar os humanos, criando um ‘’quase’’ apocalipse. Os Cauzos, porém, nunca realmente perdoaram os humanos.
Após um longo período de ódio humano contra os Cauzos, uma mulher da família Nêmesis encontrou, em uma das cidades destruídas pelo exército da Cáusia, um documento onde existia um acordo de levante entre a família Éris e os humanos comuns. Os levantes que levaram às revoluções.
O imperador da Cáusia veio pessoalmente à Terra quando ficou sabendo do ocorrido, o que levou alguns humanos à loucura quando viram sua forma. O imperador, furioso, fundiu a família real Cauza às famílias Éris e Nemêsis, com um acordo específico.
De anos em anos nasceria na família uma criança especial. Uma criança com sangue legítimo Cauzo. A criança deverá dizer se o ser humano merece ou não continuar vivendo. Pois a Cáusia criou o humano, e a Cáusia destruiria o humano. E como já foi dito antes, os Cauzos nunca realmente perdoaram os humanos. Após isso, o imperador de Cáusia afundou Atlântida, deixando apenas uma mensagem, que ele voltaria para seu juízo final. Foi embora, também, apagando toda a memória humana comum sobre os Cauzos, apenas o ódio humano prevaleceu. Afinal, o imperador, no fundo, queria acabar com a raça humana por suas traições’’
— Engraçado, algumas partes disso me lembram a Bíblia — disse Victoria.
— Engraçado... Alguns dos participantes da Bíblia foram crianças escolhidas, assim como descendentes daqueles que viram o imperador e tiveram suas memórias apagadas, criando um Deus. Como Abraão.
— Então é por isso que todos me odeiam? Digo, essa história do ódio prevalecente? — perguntou Victoria, interessada.
— Sim... Enfim, continuando...
‘’A família Nêmesis, sempre boa, decidiu que ensinaria suas crianças a aprenderem o que os humanos trouxeram de bom ao domínio da Cáusia. Enquanto a família Éris matava todas as crianças que dessem indícios de serem as Cauzas legítimas. Pois tinha ódio dos humanos comuns que deixaram o imperador saber o que realmente havia acontecido, e agora, queria a destruição dos humanos comuns. E com ''matar as crianças escolhidas'' incluem-se as crianças Nêmesis que dessem indícios e que pudessem ser capturadas. Indícios como poderes sobrenaturais, visões... Poderes que apenas o povo de sangue puro da Cáusia possui.
Sabemos, também, que a o perdão que os Nêmesis construíram é acumulativo, ou seja, quanto mais escolhidos decidirem perdoar os humanos, mais argumentos teremos para salva-los. Para isso, muitos dos escolhidos deixaram registrados seus argumentos finais, para que ajudasse com o próximo escolhido, afinal, nunca se soube quando o imperador de Cáusia retornará. Porém não sabemos quem são os antigos escolhidos, pois os registros se perderam com o tempo. Apenas os escolhidos atuais poderão saber quem são os ancestrais escolhidos para recolher seus argumentos. E você, Victoria, é a escolhida atual. Você sabe quem é a escolhida que lhe deixou o primeiro argumento. Essa escolhida lhe levará aos outros.’’
— Sitiah. — disse Victoria.
— Sitiah... — disse Caio, como se estivesse sabendo de tudo aquilo — Espere! Você disse Sitiah?! A rainha?
— Sim?
— Meu Deus! Agora tudo faz sentido! A fortaleza de Tutmés... O olho de Hórus... — exclamou Caio, pensativo.
— Ok, Caio, mas agora me explique, o que todo esse blablabla tem a ver com o sequestro do meu pai?
— E você não vê, Victoria? Você é a escolhida. A família Éris ainda que dispersada pelo mundo, ainda existe, assim como a Nemêsis. Com o tempo as famílias foram se dispersando, tendo casos com humanos comuns, mas ainda, querendo ou não, as famílias continuam juntas!
— Como assim!?
— Existe alguém que você realmente odeie com todas as suas forças? — perguntou Caio.
— Os Maldotti...
— Prazer, eles são os Éris atuais, conhecidos como Érisos. Éris, aqueles que querem te destruir. E existe alguém que querendo ou não você tenha muito afeto?
— Meu pai, Raquel, que cuida de mim desde pequena, e... Você, mesmo não sabendo o porquê.
— Prazer, nós somos os Nêmesis, hoje conhecidos como Nêmesicos. Como você pode ver, querendo ou não, ainda convivemos juntos em nossas vidas: Nêmesicos e Érisos.
— Então quer dizer que os Maldotti decidiram se vingar de mim sequestrando meu pai? Tudo por causa da aranha? Querendo se vingar dos Nêmesicos?
— Não! Victoria! Entenda uma coisa: Eles não querem seu pai, de algum modo que ainda descobrirei, eles querem você. Você está em perigo, Victoria. Muito perigo.
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