O Residente

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem ^^

O Residente

A lua iluminava o céu encoberto pelas suas espessas e pesadas nuvens negras enquanto que o vento ricocheteava nas janelas das casas, localizadas no Oeste de Londres, onde vivia a parte nobre da sociedade, com todo o seu requinte e luxo que o dinheiro pode oferecer.

O relógio já marcava mais de meia noite, as luzes das casas estavam todas apagadas com exceção de apenas um casarão antigo e mal cuidado, o jardim que outrora fora cenário de encontros românticos, agora não passava de ruinas, sua fonte jazia seca em meio as ervas daninhas que crescia entre as pedras profanando a gloria de outros tempos.

O casarão era o maior daquela rua e o mais antigo também, ninguém nunca havia visto o seu morador, alguns diziam que era um fantasma que ali residia, outros que era apenas alguém que preferia a solidão, pois no inverno a única coisa que se via daquela casa era a fumaça branca que saia pela chaminé e se misturava com o nevoeiro branco produzido pelas grandes indústrias, mas ao que todos sabem fantasmas não sentem frio.

O que essas pessoas não sabiam é que estavam certas de alguma forma, afinal quem vivia ali, não era um fantasma, mas possuía seus próprios fantasmas.

A arquitetura da era vitoriana enobrecia ainda mais aquela construção, os cômodos eram todos mobiliados com requinte, ostentando todo o luxo e riqueza que aqueles que ali moravam possuíam, agora seus moveis não mais utilizados eram corroídos pelos cupins que apesar de destruir os moveis não poderiam jamais destruir as memorias que aquele morador carregava em sua alma atormentada.

Era na biblioteca daquela casa que se escondia o único residente vivo, as paredes cobertas por livros, que iam desde os romances clássicos aos livros científicos, uma mesa de mogno depositada em frente a uma enorme janela com vista para o jardim, se é que se podia chamar de jardim, a janela coberta por um cortina já empoeira e corroída pelas traças, vários papeis e vidros quebrados se encontravam espalhados pelo carpete, a poeira cobria os moveis e mesmo assim o residente permanecia naquele ambiente sórdido.

O homem ali sentado na cadeira de couro atrás da mesa possuía a as marcas da idade avançada cravada em sua face, os cabelos sujos e mal cortados na altura da orelha já brancos lhe cobria a cabeça, o nariz torto deformava seu rosto, seus olhos negros agora sem brilho, mas que em sua mocidade foram motivos dos suspiros das donzelas. Agora só lhe restava às lembranças dos tempos passados, que teimavam em tortura-lo.

As lembranças agora vivas em suas memoria mostrava aquele casarão nos seus melhores dias, em que o jardim e a casa brilhavam com toda a sua imponência, era ali que se realizavam os melhores bailes da alta sociedade. As carruagens estavam paradas na rua em frente à mansão que a família Blake residia, varias pessoas bem vestidas adentravam aquele casarão, as mulheres com seus belos vestidos e os homens com seus trajes bem cortados esbanjando elegância.

Todos se encontravam no melhor cômodo da casa as enormes janelas dispostas de forma a proporcionar uma bela visão do jardim interno, os moveis bem colocados para tornar o ambiente confortável, uma melodia tocada ao piano soava pelo salão, as mulheres estavam sentadas conversando enquanto que um grupo de homens conversava sobre negócios.

Já fazia algum tempo que aquele homem de cabelos louros e olhos azuis encantadores conversava com o amigo, ou melhor, monologava com outro cavalheiro, igualmente atraente possuidor de feições másculas, cabelos um pouco a baixo da pescoço e aqueles olhos antes sem brilho agora em sua juventude pareciam duas pedras de ônix hipnotizantes ,capazes de fazer as mulheres se apaixonarem facilmente.

O louro percebendo não possuir a atenção do amigo reparou o ponto fixo no qual ele mirava, não foi nenhuma surpresa reconhecer a dama que lhe atraia o olhar, se não uma das mais belas jovens do salão com seus longos cabelos acobreados lhe emoldurando a face em cachos presos delicadamente, contrastando com seus brilhantes olhos verde oliva seu vestido simples na cor creme a deixava elegante dando destaque a joia que estava exposta em seu colo alvo, cada movimento feito por ela eram de uma delicadeza e ternura que encantava a todos, o jovem estava tão alheio à conversa que só voltou a prestar atenção no amigo após receber um discreto beliscão deste.

_Sabe Charles, você deveria parar de observar tão indiscretamente sua cunhada, não se esqueça de que em breve ela será mulher de seu irmão. – comentou o louro

_ É o que veremos Jack, é o que veremos – sorvendo o ultimo gole de sua bebida, Charles saiu do cômodo com um sorriso presunçoso em direção à biblioteca.

Alguns minutos depois saiu da biblioteca com uma taça de vinho em mãos, caminhando em passos lentos em direção à bela Elizabeth.

_ Com licença, será que eu poderia falar com a minha querida cunhada?

_Mais é claro Charles – se levantou sorrindo e acompanhando os passos de Charles até a biblioteca

Ao adentrarem o cômodo Charles lhe serviu uma taça de vinho, enquanto ambos conversavam.

_Você ama meu irmão?

_Mais é claro que o amo, ele é o homem pelo qual eu me apaixonaria mil vezes – bebericou sua taça- pode não parecer mais ele me completa e não se preocupe eu quero a felicidade de seu irmão tanto quanto você – completou sorrindo inocentemente, sem perceber as intenções do cunhado.

_Eu não duvido disso.

Assim que chegou ao salão e não encontrou seu anjo de olhos verdes, tratou logo de perguntar á Jack se ela já havia chego.

_A sim ela estava aqui há alguns minutos, mais saiu com seu irmão em direção à biblioteca.

_Obrigado Jack.

Andava a passos apressados, estava ansioso por vê-la hoje faria o pedido oficial de noivado, entrou na biblioteca sem nem ao menos bater.

_Ah irmão que bom que chegou

_Olá Charles, Elizabeth, senti sua falta – falava enquanto a abraçava e esta lhe sorria o mais doce dos sorrisos.

_William, querido – cumprimentou o soltando de seu abraço.

_Deixe-me lhe servir uma taça de vinho Will- para logo em seguida Charles entregar a taça a William, que a depositou em cima da mesa junto a taça de sua amada para assim poder dar um beijo casto nos lábios rosados de sua noiva.

Elizabeth não se cansava de admirar o amado, possuidor de longas madeixas cor de ébano preso num rabo de cavalo baixo, com seus olhos negros hipnotizantes, mas diferentes dos do irmão mais novo seus olhos possuíam bondade e sentimentos inexistentes no do outro, com sua pose aristocrática que o deixava mais atraente aos olhares femininos. Após as suas observações a respeito de seu futuro marido, tratou de pegar a taça que estava na mesa e tomar o restante do vinho.

Charles e William que estavam conversando a alguns passos da dama, apenas ouviram o baque surdo, William ao ver Elizabeth desfalecida correu para ampara-la, mas já era tarde de mais.

_Por que Deus dos desgraçados levar alma tão pura e inocente? – gritava enquanto lagrimas corriam-lhe pela face antes sorridente.

_Não, não era pra isso acontecer, não era – Charles não para de murmurar tais palavras que tomou a atenção de Will, levantando-se tomado pela cólera e agarrou o irmão pelo colarinho.

_O que não era para acontecer? – interrogou William jogando o irmão em cima da enorme estante de livros, derrubando alguns exemplares no chão – RESPONDA MALDITO.

Charles tomado pelas lagrimas se deixou escorregar até o chão, segurando a cabeça com força como se isso fizesse tudo voltar a ser como era antes.

_Eu...eu a amava, a queria para mim – William ouvindo isso de seu próprio irmão o levantou e lhe deu um soco no nariz, pelo estralo ouvido podia se dizer que estava quebrado.

William foi até a gaveta da mesa da biblioteca e tirou de lá uma Colt 1894 Bisley, Charles vendo a arma nas mãos do irmão mais velho já sabia qual seria o seu destino e agradecia mentalmente por isso.

Um tiro foi ouvido.

A música tocada no salão parou. As mulheres ficaram desesperadas algumas gritando, outras desmaiando, os homens se entreolhavam para saber que iria ver o que havia ocorrido, o escolhido para tal ato foi Jack, o amigo dos irmãos Blake.

Com passos temerosos se dirigiu a biblioteca da mansão, sua mão tremia sob a maçaneta dourada da porta com receio do que iria encontrar no interior do cômodo, engolindo a seco girou a maçaneta.

Livros caídos no chão, taças quebradas, vermelho tingindo o carpete, os longos cabelos negros se misturavam aos fios acobreados, o vermelho pintava o vestido creme de Elizabeth, enquanto suas mãos unidas simbolizavam mais que uma união dos corpos e sim uma união de duas almas apaixonadas.

Jack logo avistou seu amigo ajoelhado ao lado dos corpos sem vidas da única família que possuía.

_ O que foi que aconteceu aqui Charles? – perguntou se aproximando do único sobrevivente dos Blake

_Saia daqui, mande todos irem embora, quero ficar sozinho.

_Mais Charles...

_EU JÁ MANDEI SAIR JACK – isso foi o suficiente para afastar o amigo e todos os outros de si. Ao contemplar sua solidão um solilóquio foi inevitável – William você é muito mais cruel do que imaginei, não me deu nem ao menos a chance de morrer pelas suas mãos e assim quem sabe me redimir, você fez algo pior, me deixou vivo para conviver com isso pelo resto da vida, para ser torturado todos os dias, mas não se preocupe aceito o destino que eu mesmo tracei.

Se levantando ainda com o nariz sangrando se deixou sentar na poltrona negra, o tempo se passava e Charles via o corpo de seu irmão e da cunhada serem devorados pelos insetos e ratos enquanto entravam em estado de putrefação ansiando o dia em que aqueles mesmo insetos iriam lhe devorar a carne e quem sabe assim ir para inferno terminar de pagar suas dividas.

As lembranças do velho Charles já se desfaziam seus olhos antes sem brilho agora estavam opacos, os ratos esfomeados sem mais nada para comer naquela casa, já esperavam o momento para corroer as poucas carnes do ultimo Blake, e quem sabe assim dar lhe um pouco de paz em sua vida atormentada pelas suas escolhas egoístas.

Notas finais

Espero que tenham gostado, essa foi minha primeira fic original ^^
Reviews??
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!