O Resgate do Mousse
6 Capítulo 6
O espaço interior daquele armário era tão apertado que Mousse não conseguia suportar mais dois minutos encarcerado. Como não existia nenhuma sobra, esse jogou seu corpo contra a porta sem dó, caindo bruscamente no chão, tamanha era o impacto.
Mousse arregalou os olhos quando viu um quarto fora dos padrões atuais, sem telefone e nem televisão. Algo estava estranho. Era como se ele voltasse no tempo da Antiga China. De repente, escutou duas vezes gritando de prazer.
– Ahhh... isso... vai... não pára... – a mulher gemia alto na cama, submissa as estocadas incessantes do seu parceiro.
– Eu... eu vou... – essas foram as últimas palavras do homem antes do casal chegar ao ápice e desfalecer um no braço do outro, sob efeitos de orgasmos múltiplos.
Com a mão no rosto, Mousse tentou sair dali sem ser visto pelos dois, infelizmente ele pisou falso e tropeçou nos próprios pés, chamando a atenção dos amantes. A mulher escondeu-se debaixo do cobertor e o homem envolveu o lençol cintura abaixo.
– Um invasor! – gritou, saindo para o corredor em busca de reforço.
Embora Mousse não lembrasse de nada, silenciou o escandaloso num único golpe certeiro, como se seus punhos tivessem vida própria. Em seguida, os outros soldados com trajes típicos da época imperial, fecharam o cerco do Mousse.
– Acabem com ele! – o homem que parecia o líder do grupo ordenou.
Os combatentes partiram para cima do invasor, mas foram facilmente derrotados. Um deles que ainda estava lúcido, reuniu forças do além e avisou o chefe antes de desfalecer: — Cuidado senhor, esse homem usa armas desconhecidas que nunca vimos por essas regiões...
Ao vê-lo ajeitar seus óculos garrafais, o líder esboçou um sorriso vitorioso e golpeou os olhos, arrancando as enormes lentes e na sequência homem arriscou fincar a cabeça do Mousse, imaginando-o vulnerável. Surpreendentemente o “suposto” indefeso imobilizou o sabre num movimento rápido e desarmou o homem, jogando a lâmina num canto distante.
– Como isso é possível? – o homem indagou, assustado.
– “Aquela senhora tinha me falado que o colírio curava todas as maldições, creio eu que isso inclua a minha cegueira” – Mousse pensou.
Nesse instante, alguns soldados de elite surgiram para reforçar o ataque, cercando-o pelos quatro cantos. Mousse surpreendeu a todos, atirando suas ferramentas que estavam escondidas debaixo das mangas compridas contra eles.
Assim que o tumulto diminuiu, um homem vestido com uma indumentária preta surgiu nas costas do invasor e atingiu-o na região embaixo das orelhas. Mousse só teve tempo de olhar o rosto do oponente antes de perder os sentidos. O corpo do desfalecido caiu para trás, sendo amparado pelo guerreiro misterioso.
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Mousse abriu os olhos ainda embaçados e viu a presença daquele que lhe derrotara num só ataque. Tentou se mexer, mas percebeu que suas mãos e pernas estavam amarradas firmemente numa corda. Então o jovem deu as costas para ele e começou a balbulciar palavras desconexas.
– Têmporas, jian tu, costelas, axilas, órgãos sexuais, rins, osso sacro, abaixo das orelhas... – o homem continuou – os oito pontos vitais que podem levar um ser humano à morte – virou-se para o refém e completou, cínico – qualquer praticante de artes marciais deveria saber isso, a não ser que você tenha sido um aprendiz preguiçoso que faltava as aulas teóricas...
– Do que você está falando? – Mousse indagou.
– Eu só quis elogiar suas habilidades – disse, cheio de ironia.
– Eu continuo sem entender... – balançou o corpo violentamente.
Com um pouco de demora, Mousse desatou o nó que imobilizava seus braços e rapidamente recuperou os movimentos, tomando posição de combate.
– Eu quero saber em que época estou – Mousse disse.
O chinês caiu na gargalhada e respondeu: — Você é um bom contador de piadas!
– Eu não estou brincando – explicou – vim para cá recuperar minha memória, mas antes preciso que ano eu estou, onde eu estou...
– Ai, desculpe é que realmente achei engraçado – ele finalmente parou de rir e disse – aqui é a Cidade Proibida e estamos em 19XX e você está a um passo de ser executado por esses soldados que estão só esperando as minhas ordens...
– Como? – indagou, desconfiado – Quer dizer que eu voltei tanto assim no tempo?
– Bom – falou – eu não sei e nem quero saber dos seus problemas mentais – completou – o imperador apenas quer que eu teste suas habilidades de combate corpo a corpo para ver se vale a pena investir em você.
– A troco de que? – indagou, confuso.
– Oras, para servir esse império – respondeu.
– E o que aconteceria se eu recusar? – questionou, receoso.
– Será executado por invasão – comentou – aliás eu realmente gostaria de saber como você conseguiu ultrapassar a enorme muralha e chegar até aqui sem demonstrar nenhum cansaço...
– Eu já disse – insistiu, encarando o olhar do guerreiro – vim de uma outra época mais avançada em busca do meu passado...
– Chega – falou, irritado – eu cansei dessas suas piadinhas – concluiu com uma voz ameaçadora – de duas, uma: ou você morre lutando ou você morre sem lutar.
Uma terceira voz masculina tratou de interromper o clima tenso e atemorizador entre os guerreiros prestes a travar uma disputa. O homem deixou Mousse um pouco de lado e correu até alcançar o mensageiro. Eles ficaram a cochichar por alguns instantes e logo o chinês retomou sua posição.
– Agradeça que nosso imperador está bem humorado hoje – prosseguiu, sorrindo – a condição ficou mais favorável para o seu lado – explanou – se você conseguir me atingir uma única vez, ele te aceitará como soldado e eu te aceitarei como meu aprendiz e suportando o treinamento árduo que darei todos os dias, será nomeado o general mais jovem dessa dinastia.
– “Seu” aprendiz? – disse, convicto – Nesse caso, se eu vencer você receberei recompensas maiores – indagou – ou eu estou errado?
– Se tem tanta certeza da vitória, tente me acertar primeiro – falou.
Mousse apertou os passos em direção do oponente, lançando suas armas ocultas sobre ele, que fugiu das ferramentas com facilidade. O guerreiro desconhecido desviou de todos os ataques como se dançasse, tamanha era sua leveza.
– Com essas arminhas de brinquedo você jamais me atingirá e muito menos vencerá – aquelas palavras serviram de estimulo para o amazona.
O sentimento de raiva, a tranquilidade e o desprezo do inimigo, começou a perturbar o amazona, estimulando-o a libertar sua ira. Com movimentos calculados e rápidos, Mousse formou uma espécie de gaiola com as correntes de aço para distraí-lo, atingindo a face direita do adversário.
Mousse continuaria tentando atingí-lo se o imperador não se aproximasse dos lutadores e fizesse o sinal de pare. O amazona foi recebido com aplausos pela pequena pláteia de autoridades ali presentes.
– Olha – o homem comentou, massageando a região machucada do rosto – fazem anos que não aparece alguém que me acertasse – complementou – e ainda tão jovem.
– O que me diz caro Liang Hu? – o imperador indagou.
“Liang Hu” significava “Tigre Excelente”. O homem de meia idade temido por muitos era praticante de kung-fu e braço direito do imperador. Ele tinha cabelos negros e amarrados num rabo longo, combinando perfeitamente com sua feição marcante. Costumava trajar indumentárias de cores escuras listradas de dragões.
– Irei transmitir todos os meus conhecimentos a esse jovem com maior prazer senhor – Liang respondeu, em reverência.
– Ótimo – o imperador comentou, satisfeito.
O imperador trocou duas palavras com o Liang e desapareceu da sala de treinamento acompanhado pelos conselheiros, retomando o seu posto.
– Espere – Mousse tentou chamá-lo de volta – eu não quero me tornar servidor desse império!
– Desista jovem – Liang disse – você já está sob a minha responsabilidade e de hoje em diante dirija-se a mim para qualquer assunto.
– Então me tira daqui! – gritou, segurando a gola do Hu.
– Isso eu não posso fazer – respondeu, friamente – independentemente de onde você veio, à partir de agora estarei aperfeiçoando suas habilidades de combate.
– Eu não entendo as regras desse lugar – bufou, revoltado – isso aqui está bem diferente do que li nos livros de História... – acrescentou – vocês não pensaram que eu poderia ser um ladrão, um espião ou o raio que parta?
– Estamos em guerra e não temos mais tempo para escolher caminhos e qualquer reforço é bem-vindo – explicou – agora chega de falatório e vamos começar o treino.
– Será que eu não tenho nem direito de pensar o que quero fazer da vida? – indagou, indignado.
– Ou permanece aqui vivo ou sai daqui morto, a escolha é sua – disse.
– Isso quer dizer que ao menos eu posso tentar fugir dessa prisão de luxo – falou, decidido – e não me importo se me pegarem e... – antes que ele pudesse terminar o raciocínio, Hu interrompeu.
– Eu nunca ouvi um absurdo desses – indagou, surpreso – você não pensa em viver e ser feliz?
– Com certeza estaria mais feliz se soubesse quem sou eu de verdade – desabafou, abaixando a cabeça – eu perdi a memória num acidente e não lembro de nada...
– Sendo assim – disse, tentando incentivá-lo – você pode começar sua vida aqui e agora, como se começasse do zero.
– Não é o que queria para mim, mas... – Liang interferiu mais uma vez.
– Logo logo você irá se acostumar – sorriu – a vida de um general aqui não é só sofrimento, tem suas regalias e vantagens.
– Mas eu ainda não sou general, mal virei soldado – comentou.
– Então se quiser virar logo um deles vamos treinar o quanto antes – continuou – venha comigo.
Liang conduziu o novato para o jardim privado que apenas as autoridades tinham acesso. Todos os soldados que cruzavam o caminho deles, reverenciavam em respeito afinal, poucos conseguiam tornar-se aprendiz do grande mestre Hu.
O jardim era enorme e exuberante. Mousse nunca apreciara na sua vida um lugar tão belo, bem cuidado e sereno. Sentia uma tranquilidade e paz interior apenas em contemplar toda aquela natureza. Nesse estado de êxtase, continuaram a caminhar até uma frondosa árvore com belas folhas vermelhas.
– Preste bem atenção no que irei demonstrar – Hu disse – eu quero que fique bem perto de mim para não perder nenhum detalhe porque mostrarei somente uma única vez.
Mousse ficou ao lado do seu mestre e fitou-o atentamente. Liang começou a gesticular lentamente os braços, e fazendo movimentos típicos de kung-fu, socou com a mão aberta no sentido da árvore, porém sem encostar nela. As folhas cairam aos poucos, formando um tapete vermelho no chão.
– Antes de tentar, eu quero que retire todas as armas ocultas e jogue-as fora – continuou – você não irá mais precisar deles para nada.
– Como? – contestou – Mas eles eu não consigo lutar!
– Justamente por isso – explicou – você precisa eliminar esse ponto fraco e aprender a lutar somente com a força dos braços e pernas.
Mesmo a contra gosto, Mousse tirou arma por arma que incluia correntes, kunais, bolas de aço, ganchos, garras de metal. Hu ficou surpreso, olhando para todas aquelas ferramentas pesadas sendo retirados de um simples tecido de roupa.
– Olha – Hu comentou – eu admiro por suportar tanto peso.
– A verdade que eu não sei como aprendi a usar tanta coisa... – ele respondeu, cabisbaixo.
– Agora que se sente mais leve, tente fazer o que acabei de mostrar – disse.
Mousse respirou fundo, fechou suas pálpebras para concentrar toda a energia nos braços e repetiu o golpe do Hu apesar de não cair uma folha sequer.
– Eu fiz igual a você – lamentou – como não consegui derrubar uma folha?
– Faltou o mais primordial dos ingredientes para executar esse ataque: o equilíbrio mental – acrescentou – você precisa se acalmar jovem.
– Como quer que eu me acalme se perdi minha memória e vim parar nesse fim de mundo sem minha vontade? – descarregou a revolta – E para piorar, virei seu aprendiz sem ninguém saber se eu quero ou não?
– Eu vejo que você precisa de um estímulo – olhou para as outras árvores e disse em voz alta – não adianta se esconder Yu, apareça.
Yu apareceu na frente dos dois e cruzando os braços, disse: — Eu achei que o senhor nunca iria me achar...
– E você precisa aprender a esconder seu ki melhor – Hu disse – isso que dá se ausentar nos treinos...
– “Como eu não senti a presença dela?” – Mousse pensou, fitando-a inconformado.
– O senhor sabe do motivo que me faz ausentar dos seus treinos – Yu falou, ignorando o novato.
– Eu estava brincando – Liang fitou o seu novo aprendiz e mudando o tom de voz, continuou – eu quero que conheça o meu novo aprendiz.
Yu avaliou o amazona de baixo para cima e colocando a mão na testa, adivinhou os pensamentos do seu mestre: — Não me diga que eu precisarei dar assistência para esse fracote...
– E ainda por cima serei assistida por uma mulher? – Mousse murmurou baixinho, sacudindo a cabeça em sinal negativo – isso é o cúmulo da humilhação...
– Ah me poupe mestre – Yu reclamou, desanimada – eu pensei que fosse um homem mais interessante e não um moleque machista...
– Hei hei veja como fala comigo sua insolente – Mousse respondeu à altura, nervoso.
– Um guerreiro que nem conhece os princípios básicos do kung-fu não merece o meu respeito – Yu falou, dando as costas para ele.
– Mostre a ele como faz então – Liang aproveitou o rumo que seguia a discussão dos seus aprendizes e prosseguiu – assim ele deixará de desrespeitar você.
Yu demonstrou exatamente como seu mestre havia feito, deixando Mousse boquiaberto e sem reação. Em seguida, debochou do novato por não conseguir fazer algo tão simples e básico, uma vez que ela aprendera aquela técnica com facilidade.
– Bom – Liang – além de assistir aos seus treinos, Yu também lhe supervisionará nos dias que estarei ausente do palácio, portanto é bom que se acostume com ela.
– E que me respeite também – Yu disse, encaixando um bastão comprido nas costas como se carregasse um algodão.
– Você pode se retirar por hoje – Hu procedeu – por enquanto a sua presença bagunça toda a concentração do... – ele não conseguiu terminar a frase.
– Mousse – o amazona respondeu, enfrentando o olhar autoritário da mulher.
– Além de fraco tem um nome estranho – Yu falou, friamente.
Inesperadamente aquela mesma cena agonizante do desmoronamento das árvores atormentou a mente do Mousse e junto veio uma enxaqueca insuportável. Ajoelhou-se de tanta dor, pressionando as têmporas.
O amazona estava tão martirizado nas lembranças que Liang sacudiu os ombros do novato para trazê-lo de volta a realidade.
– Está tudo bem com você? – Hu ajudou o novato a se levantar – Desculpe pelas minhas brincadeiras de antes, eu não sabia que seu problema era algo tão sério assim...
– Além de tudo, ainda tem problemas mentais... – Yu murmurou, revoltada.
– Mulher insensível – Mousse falou baixinho.
– Yu tem seus motivos – Liang cochichou, olhando de lado para ela – eu peço que apenas ignore as provocações dela e se concentre no treino.
O mal-estar entre os aprendizes do Liang continuariam a persistir nos próximos dias de árduo treinamento do Mousse. Ele, por sua vez, tentou ignorar todas as provocações da Yu, concentrando-se inteiramente em masterizar kung-fu embora essa não fosse sua especialidade.
Começaria sua vida ali, naquela Cidade Proibida e acostumaria a viver sem passado. Serviria o império que era o seu único lar e tornaria o general mais respeitado pelos homens.
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Enquanto isso, um reencontro emocionante entre Cologne e Lien acontecia na cidade atual de Pequim, em frente a loja de antiguidades. As duas deram um longo e forte abraço, comovendo todos ali presentes, exceto a Shampoo que estava distante e aérea.
– Venha, entrem para conversarmos melhor – Lien chamou a atenção da amazona distraída – e você também.
Depois da Lien explicar sobre o Mousse, todos ficaram pálidos como a neve e ficaram em silêncio por algum tempo menos a amazona que já sabia da grave situação.
– Quer dizer que Mu-Tsu acabou voltando no tempo, mas ninguém sabe em que época e para onde ele foi? – Cologne indagou.
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