O Resgate de Hadassah

9 O Tempo e o Silêncio



​O vento cortava as ruas no final daquela semana de tempestade. Parada diante dos grandes portões de ferro do Orfanato Santa Maria, Hadassah parecia uma sombra. Ela bateu três vezes na pesada porta de madeira, com a mochila velha nas costas e o rosto pálido, mas sem derramar uma única lágrima.

​Quem abriu a porta foi a Madre Teresa, uma senhora de feições calmas e olhar austero. Ao ver a jovem ruiva desamparada, ela a acolheu imediatamente para dentro do ambiente aquecido.

​Minutos depois, na sala da diretoria, a Madre analisava os papéis que Hadassah trazia no bolso. Seus olhos se arregalaram ao ler o sobrenome nos documentos de identidade.

​— Menina... aqui diz que o seu nome é Hadassah Lioncort. Você pertence à família que comanda a maior agência de publicidade do país. Eles estão procurando por você em todos os jornais. Por que está aqui?

​Hadassah engoliu em seco, sustentando o olhar da religiosa com uma frieza que não combinava com seus quinze anos.

​— Houve um erro nesses papéis, Madre — Hadassah disse, sua voz saindo firme, sem qualquer hesitação. — Eu não pertenço a essa família. Fui levada para lá por um engano, por um ato de caridade que acabou. Eu não tenho ninguém. Sou uma órfã.

​— Mas o registro... — a Madre tentou argumentar.

​— Por favor — Hadassah a interrompeu, a voz baixinha, mas carregada de uma dor antiga. — Se me devolver a eles, estará me mandando para uma prisão de orgulho. Eu prefiro a rua. Deixe-me ficar. Eu limpo, eu ajudo as crianças, eu estudo... Só me tire dos arquivos deles.

​Compadecida pelo sofrimento silencioso da jovem, a Madre Teresa suspirou e guardou os documentos na gaveta.

​— Se quer recomeçar, faremos do jeito certo perante a lei de Deus e dos homens. O arquivo dos Lioncort será encerrado aqui como fuga sem rastro. Daqui para a frente, para sua própria proteção, nós a registraremos sob o nome da instituição antes do acolhimento judicial. Você será Hadassah Telles.

​Ao ouvir seu novo nome, Hadassah sentiu como se uma pele velha estivesse sendo arrancada. Hadassah Telles. Sem o brasão do leão, sem o dinheiro de Jason, sem as humilhações. Apenas ela.

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​Os anos se passaram no confinamento seguro do orfanato. Hadassah focou toda a sua inteligência brilhante nos livros. Ela ajudava as crianças menores, estudava à luz de velas quando o orçamento do abrigo cortava a energia e se recusava a ser adotada por qualquer outra família. Ela tinha pavor de pertencer a alguém novamente.

​Quando completou 21 anos, o ciclo se encerrou. Pela lei, ela precisava deixar o orfanato. Com uma mala pequena e seu diploma do ensino médio conquistado com honras, ela se mudou para um abrigo de transição para jovens adultos órfãos no centro da cidade.

​Não demorou para que sua capacidade intelectual chamasse a atenção. Em poucas semanas, Hadassah conseguiu um emprego como assistente administrativa na recepção de uma empresa de logística de médio porte.

​— Aqui estão os relatórios de faturamento que o senhor pediu, Sr. Álvaro — Hadassah disse, entregando uma pasta impecavelmente organizada sobre a mesa do chefe. Ela agora era uma mulher feita: os cabelos ruivos ficavam presos em um coque alinhado, e ela usava óculos de leitura que davam um ar ainda mais focado às suas feições marcadas.

​— Impressionante, Hadassah — o homem elogiou, folheando as folhas. — Você organizou em dois dias o que o assistente anterior levou um mês para errar. Seu futuro é brilhante aqui, Telles.

​— Obrigada, senhor. Só faço o meu trabalho — ela sorriu de canto, um sorriso contido. Ela gostava do anonimato. Ninguém ali sabia quem ela fora um dia.

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​Enquanto a vida de Hadassah recomeçava na simplicidade, a mansão Lioncort havia se transformado em um mausoléu de mármore e ressentimento. Seis anos haviam se passado, e o sumiço da ruiva destruíra a dinâmica da família.

​Marta Lioncort vivia atordoada, cercada por remédios para dormir e uma tristeza profunda. Ela raramente descia para as refeições. Alycia, agora com 22 anos, havia abandonado as futilidades da moda para se dedicar integralmente a agências de investigação e buscas por pessoas desaparecidas.

​Na sala de estar, Alycia jogou uma pasta cheia de papéis sobre a mesa de centro, onde Jason tomava uísque em silêncio.

​— Nada, Jason! Mais uma vez, nada! — Alycia gritou, as lágrimas de frustração caindo por seu rosto. — Os investigadores reviraram cada abrigo, cada necrotério, cada cidade vizinha. É como se a Hadassah tivesse evaporado da terra! E a culpa é sua!

​Jason, agora com 30 anos, parecia ainda mais imponente, mas seu rosto exalava uma amargura assustadora. Seus olhos azuis eram duas pedras de gelo. Ele não respondeu à irmã. Apenas virou o copo de uísque de uma vez. A raiva que sentia de si mesmo e o luto pelo sumiço dela o haviam transformado em um tirano na Lioncort Publicidade; funcionários eram demitidos por um olhar errado, e ele não tocava em uma mulher há anos. O sexo selvagem do passado perdera o sentido. Ele vivia em uma abstinência autoimposta, punindo-se diariamente pelo erro que cometera.

​— Eu sei que ela está viva, Alycia — Jason disse, sua voz saindo tão fria e profunda que fez a irmã estremecer. — E eu não vou morrer até encontrá-la.

​— Se você a encontrar, Jason, reze para ela ter esquecido o monstro que você foi — Alycia rebateu com amargura, virando as costas e deixando-o sozinho.

​Jason caminhou até a janela da sala, olhando para a noite chuvosa de Nova York. A mesma chuva da noite em que a encontrara no lixo. Ele apertou o copo de cristal na mão até que os nós dos dedos clareassem.

​Onde você está, minha ruivinha?, seu pensamento gritou no silêncio da mente. Ele não sabia, mas a quilômetros dali, em um pequeno quarto de abrigo, Hadassah Telles organizava suas poucas roupas para o dia seguinte de trabalho, completamente livre das correntes do passado que ele tanto tentava resgatar.