O Reino de Telmamlet - O Castelo de Gelo
7 Um novo amigo
Notas iniciais
O homem me levou pra dentro e me deu um cobertor bem pesado. Depois de ter conseguido controlar as lágrimas ele me deu uma caneca com alguma coisa fumegante e me mandou tomar. No começo fiquei receosa de tomar, nem sabia o que era, mas ele me garantiu que ia me fazer bem. Apesar de tudo a bebida realmente me fez bem.
― Muito obrigada por me acolher. ― eu disse encarando a caneca.
― Não é como se eu pudesse te deixar na chuva pra morrer. ― ele disse.
― Você pelo menos vai me explicar alguma coisa? ― eu perguntei já sem esperanças.
O cara me lançou um olhar gélido. Será que ele não tinha outra expressão? Deu um suspiro bem longo e entrou no silêncio novamente. Eu olhei para minha caneca, encarando aquele líquido estranho.
― Já que você não vai dizer nada mesmo ― eu disse tirando o cobertor das minhas costas ― eu vou embora. ― e estendi a caneca pra ele.
― Sente-se ― ele disse com a voz grossa, mas não tão ríspida quanto antes.
Eu me sentei e recolhi a caneca para perto do corpo. Ele ficou em silêncio por mais um tempo antes de começar.
― Sua mãe era a princesa do reino. ― pausa ― A mãe dela, sua avó, era a rainha e também uma bruxa, mas sua mãe não. Por causa disso, sua mãe era desprezada pela própria mãe, e sua avó acabou tomando como filha uma criança do castelo, Jesse, filha de uma das empregadas, que é a Rainha. ― ele se remexeu um pouco e foi para a janela ― Sua avó foi envenenada quando Helen tinha vinte anos, e sua mãe, a filha da empregada, uma Arqueira e um Guarda Real foram atrás do antídoto. No meio dessa jornada, sua mãe achou essa pérola que está no seu pescoço. ― Ele apontou para o colar e eu levei a mão até ele, tentando absorver a história ― Sua mãe seguiu com a jornada e conseguiu reunir os ingredientes do antídoto, mas não voltou para a casa. Jesse levou o antídoto para a rainha, mas era tarde demais. Tenho em mente que sua mãe não sabia que a mãe dela estava morta.
Ele olhou para mim, mas meus olhos estavam fixos no chão e a mente em outros lugares. Todo esse tempo minha mãe estava se escondendo da própria mãe. É um pouco triste saber disso tudo.
― Depois que essa Jesse virou rainha ela falou que minha mãe morreu?
― Sim, mas foi a pedido de sua mãe. ― ele respondeu. ― E sem mais perguntas. ― disse ele, voltando com o seu rancor ― Já falei demais.
― E qual é a sua parte nisso tudo? ― Ele lançou um olhar rancoroso para mim. Me encolhi um pouco, ele ainda me dava arrepios.
― Isso não é da sua conta.
Eu assenti e tomei mais um gole do líquido duvidoso. Minhas roupas ainda estavam molhadas e eu tinha a vaga lembrança que tinha uma tia me esperando em casa. Não sabia quanto tempo eu tinha estado ali. Tia Madelyn podia estar em casa e ficar furiosa com o meu sumiço.
― Obrigada por tudo, ― eu disse entregando-lhe a caneca ― mas eu preciso ir.
Ele pegou a caneca da minha mão e colocou em cima da mesa. Ele continuou olhando pra mim sem nenhuma expressão, esperando que eu desse o fora daquele lugar.
Sem despedidas então.
Fiz o que tinha que fazer e no instante seguinte, já estava em casa.
–*-
A minha sorte foi que no instante em que eu cheguei, tia Mad estava subindo as escadas e me chamando pelo nome. Mais alguns segundos e eu estaria em uma grande enrascada.
― Lexie! ― Tia Mad gritou de novo
― Estou aqui. ― eu disse abrindo a porta.
―Não ouviu os meus chamados?
― Não. Eu estava no banheiro. ― foi nesse momento que eu percebi que minhas habilidades de mentir estavam melhores.
― Hum... Está com fome?
― Não muita, pra falar a verdade.
― Ok. O jantar será servido ás sete em ponto.
Jantar? Balancei a cabeça mostrando que tinha entendido e escondido minha surpresa. Quantas horas eram?
Já estava fechando a porta novamente quando Mad me chamou de novo.
― Lexie, tente sair desse quarto. Você fica aí o dia inteiro.
― Só estou um pouco cansada. Hoje foi um dia bem longo. ― ela me olhou com uma cara de quem diria que estava relativamente preocupada, mas não iria insistir muito para que eu realmente saísse dali. Tia Mad balançou a cabeça e desceu as escadas e eu finalmente fechei a porta.
Joguei-me na cama e finalmente olhei para o relógio. Eram quase cinco horas da tarde. Eu tinha ficado oito horas naquele mundo. Horas e ainda não conseguia assimilar tudo o que tinha escutado e conhecido durante esse tempo.
Eu sei que isso tá ficando repetitivo, mas minha cabeça estava tão confusa que o resto da noite foi um borrão. Me lembro vagamente de ter ido jantar com minha tia, de termos conversado bem pouco, de ter levado represálias por coisas que nem me lembro mais, e quando dei por mim já estava na cama, pensando em tudo de novo até cair no sono.
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