O Reino de Março
3 Oroa Skens
Notas iniciais
Abele Edmond
Eu gritei, mas ele continuou ali, com os olhos fechados, como se o mundo estivesse na maior tranquilidade. E ele tinha chifres, sim, chifres, mas mesmo assim era bonito, na verdade não era feio (meu argumento para quando não quero admitir que achei uma pessoa bonita). Ele é loiro também, e os chifres são escuros.
—Quem é você?-perguntei quase gritando, mas nada.
Peguei minha...minha... faquinha do bolso, que eu sempre levava comigo caso alguém me sequestrasse, nunca se sabe.
—Me responda senão eu te corto com a minha... faquinha!-nunca me lembrava.
—Sua o que?-ele pergunta rindo, com os olhos abertos, seus olhos eram mais escuros do que uma noite com nuvens, eram lindos.
—Você é surdo?
—Talvez, mas se eu respondi significa que não sou surdo, não é?
—Talvez-respondi, o imitando, ele ri, não sei como ele consegue rir numa situação dessas.
—Quem deveria estar assustado era eu, que chega em casa e encontra uma garota dormindo em minha cama.-diz ele levantando-se e indo para a cozinha.
—Mas a porta estava aberta.
—Mas isso não quer dizer que você pode ir entrando na casa dos outros-ele olha para a mesa-e comer um pacote inteiro de batatas.
—A fome é mais forte que a inocência.-eu digo sorrindo.
Eu estava falando com um estranho, que tinha chifres e ainda por cima estava sorrindo, eu preciso tomar alguns remédios
—Qual o seu nome?-pergunto indo em direção a mesinha, que tinha comida, muita comida.
—Oroa.
—Então você é o garoto que desapareceu em 2014?
—Não são muitas pessoas com esse nome, não é?- ele diz, pegando um pacote de coisas desconhecidas por mim.
—Pois é.
Eu pego o pacote de batatas e devoro uma por uma, sem dar tempo de pensar em nada, era só eu e as batatas.
—Essas batatas são ótimas.-eu digo, ainda com a boca cheia.
—Que falta de educação, falar com a boca cheia-diz ele fazendo um movimento negativo com a cabeça.
—Não estou nem aí.-ele ri, indo em direção a uma porta, depois volta com um balde nas mãos, cheios de água.
Ele chegou perto de mim e eu me protegi, mas na verdade ele iria encher os copos, ele riu da minha reação, depois me entregou um copo, eu estava morrendo de sede, aquelas batatas estavam trancadas em minha garganta seca, eu estava prestes a morrer, talvez meu exagero tenha sido desnecessário.
—Você parece um elefante bebendo água, caramba.
—Não bebo água desde que comi aquele pacote inteiro de batatas, você esperava o que?
—Eu esperava que você fosse delicada como uma garota, não como um elefante.
—Talvez eu seja um alien, que necessita de água e batatas para sobreviver-eu digo rindo, igual a uma foca tentando tirar um pedaço de peixe de sua garganta, depois rio ainda mais com meus pensamentos e Oroa fica ali, rindo também, provavelmente de minha risada.
—Provavelmente-diz ele limpando uma lágrima, que de tanto rir, pediu para ser liberta.—Qual é o seu nome?
—Abele, Abele Edmond.-digo também limpando uma lágrima.
—Hum, você estudava na mesma escola que eu, não é?
—Sim, eu era a ''esquisitinha''-digo fazendo aspas no ar.
—Com esse cabelo mais preto do que carvão e essa pele mais branca que neve.
—Por isso o apelido...-eu murmuro, como se mexesse apenas a boca. Minha mãe me chamava assim quando eu tinha 5 anos, ela me chamou assim até os 8, quando ela morreu.
—O que?-ele pergunta confuso.
—Nada, só estava lembrando de algo.-forço o sorriso.
—Hum, tenho que comprar mais batatas, já que você comeu todas, quer vir comigo?
—Sim.-falo, desta vez dando um sorriso verdadeiro.
—Vamos pegar roupas novas pra você também.-ele fala apontando para mim, de cima para baixo, só agora que percebo que estou de pijama, uma camisola com o desenho da quarta temporada de American Horror Story, que era daquele palhaço nada psicótico com a máscara de um sorriso.
—Que cidade é essa?
—Na verdade é um reino, O Reino de Março.
—Como assim?
—Você por acaso viu algum carro passando? Ou alguma pessoa vestida ''normalmente''-ele disse fazendo aspas no ar.
—Que país é esse?-falei, logo depois lembrei daquela música do Legião Urbana, ele riu, provavelmente lembrando também.
—Não sei, não entendo as pessoas daqui, elas me olham como se eu fosse um monstro.
—Não deve ser porque você tem chifres?-falo apontando com as duas mãos para a minha cabeça, fazendo o formato de chifres.
—Pois é.-ele diz suspirando.
—Por que você tem chifres?
—Porque eu violo as regras daqui.-ele diz sorrindo, como se violar regras fosse a melhor coisa do mundo.
—Que tipo de regras?
—Roubar, matar, mentir e enganar.
—Hum...
Eu olho em volta e vejo uma mulher batendo em seu filho, e quando eu digo batendo, é batendo MESMO. O filho dela estava gritando, e todo mundo estava passando como se fosse a coisa mais normal do mundo. A mulher me olha, e eu desvio o olhar, ela era assustadora.
—Chegamos!-ele diz fazendo um gesto de cavalheirismo para mim, enquanto entro.-Primeiro as damas.
—Eu não sou uma dama, sou um alien, esqueceu?-falo sorrindo.
—Ah, claro.-ele diz rindo e andando na miha frente.
As roupas eram lindas, eram antigas, e lindíssimas. Eu fiquei olhando um vestido branco, parecia de casamento, com babadinhos, fofo. Oroa estava conversando com o atendente, pareciam ser amigos.
—Ei Abel, que roupa você quer?-ele me chamou de Abel, Ana me chamava assim.
—Qual é a roupa mais normal daqui?-pergunto, realmente queria saber qual era, pois não conhecia nada desta época. O atendente ri e aponta para um vestido, marrom na parte de cima e em baixo, branco, era lindo.
—Pode ser.-falo dando um sorriso, e logo me lembro que ainda estou com a camisola, as pessoas devem estar achando que sou uma espécie de alien mesmo.
—Ótimo, vai experimentar.-ele diz apontando para uma cortina no meio da loja.
Eu vou até ela e começo a me despir, coloco o vestido e saio da cortina, procurando algum espelho, eu estava parecendo uma madame, chique. O vestido não era daqueles duros, que apertam até sufocar, era molinho e leve.
—Ok, qual a troca, Bert?-ele pergunta ao atendente, Bert.
—A roupa que ela estava antes.-Bert diz e eu arregalo os olhos, olhando para Oroa.
—Não vou dar a minha camisola de jeito nenhum!
—Então não ganha o vestido, mocinha.-Bert diz, apontando para mim.
—Tudo bem, sem vestido então.-digo indo em direção à cortina.
Não dou a minha camisola nem que seja por um bilhão de dólares, ou seja três ou quatro bilhões de reais, nossa, estou me sentindo uma pessoa inteligente agora.
Eu troco de roupa e saio da cortina, chego perto do balcão e paticamente jogo o vestido na cara de Bert, eu estava bem brava com ele, com vontade de arrancar seus olhos com uma colher e fazer uma sopa, ia ficar delicioso.
—Até logo, Bert.-Oroa diz indo em direção à porta.
—Até, Skens.
—Skens?-pergunto quando já estamos fora da loja.
—Meu sobrenome.
—Hum...-olho para cima, como ele é uns vinte centímetros mais alto que eu.-Você tem quantos anos?
—Dezenove.
—Ah, claro, você tinha dezessete quando desapareceu...-falo, pensando alto.-Espera, você está há dois anos neste lugar!?
—Hum-hum.
—Caramba...-penso alto novamente.
Uma senhora se materializa em nossa frente, acho que era a mesma senhora que me disse que eu não iria encontrar motivos para felicidade.
—Como estão, os escolhidos?
—Estamos bem, dona Carmelia, mas precisamos ir para casa, está tarde.
—Sim, sim, claro. Vou deixa-los ir.-e ela simplesmente some, preciso urgentemente tomar alguns remédios.
Caminhamos em silêncio até chegar em casa, talvez eu comece a considerar minha casa também, afinal, Oroa não iria me deixar dormir na rua, não é? Ou iria?
—Lar doce lar.-ele fala abrindo a porta com uma chave.
—Então agora você resolve ser inteligente e trancar a porta, não é?
—Hum-hum.
Eu entro e me jogo na cama e fecho os olhos, adormecendo em seguida.
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