O Reino das Bruxas
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Notas iniciais
Essa tarde meu irmão finalmente chegará depois de dois longos meses. Após tanta espera e tantas conversas por hologramas, finalmente poderei vê-lo. Estou muito ansiosa pela sua chegada. Como nosso falecido pai viajava constantemente e nossa mãe nos abandonou quando eu tinha apenas três anos de idade, fomos criados pelos nossos tios paternos, e desde então fiquei mais próxima ao meu irmão mais velho. Para mim, ele era um tipo de herói, sempre me salvando de problemas e me protegendo de tudo e todos. Passar dois meses longe dele me causava muita ansiedade e saudade, comprimidas em meu peito.
Desde que descobri sobre meus poderes aos 12 anos, estudo no Colégio Excalibur. O Colégio Excalibur tem como prioridade treinar bruxas, em Hellbring. Lá, aprendemos como controlar nossos poderes e lutar com nossas vidas para o bem do país e da realeza, que nos mantem unidos e perseverantes na guerra.
Nossas aulas são organizadas com base em nossos talentos, geralmente somos separados por dois tipos: Os bruxos místicos e os bruxos dominadores. Os bruxos misticos são aqueles que não são capazes de fazer magia sem um ritual especifico para cada feitiço usado. E os dominadores, não precisam de nenhum ritual como os místicos para manifestar sua magia, e são divididos em subníveis: dominadores da água, do fogo, do vento, da terra e do espirito.
Meus poderes são do tipo dominador. Posso criar ou controlar o vento e o fogo. Sendo que a dominação de dois ou mais elementos não sejam realmente comuns hoje em dia, e são habilidades muito úteis em batalha. O que me dá grandes chances de ser um guarda do palácio ou ir para o exército, o que de alguma forma não me anima tanto quanto deveria. Não conseguia me imaginar lutando bravamente pela realeza ou pelo país. Me satisfazia lutar pelo o que acreditava, pelas pessoas que eu amo, contudo, como poderia proteger e dar minha vida por pessoas que mal conheço? Que não sinto qualquer empatia ou simpatia? Não parece certo.
Meus pés pisavam lentamente no cascalho a cada passo. Caminhava calmamente entre os prédios espelhados que tanto admirava. Minhas mãos seguravam com firmeza as alças da bolsa por de trás das costas; O Sol irradiava um amarelo tímido atrás das nuvens, e o vento ondulava meus cabelos com uma leve brisa em meus ombros. Gostava de caminhar, sentir um mundo puramente novo e tão nostálgico ao mesmo tempo.
Observava, cantarolando as pessoas à minha volta. Muitas estavam apressadas e caminhavam olhando para o relógio no pulso. A maioria estava tão distraída que mal reparavam na presença um do outro. Suspirei, são em dias como esses, calmos e solitários, que aconteciam as maiores surpresas da vida. Pelo menos era o que eu acreditava à alguns anos. Essa rotina era realmente tranquila. Tão tranquila e previsível que me dava angustia só de imaginar uma vida tão monótona. Agora, as surpresas não me agradavam mais.
A minha última surpresa que tive, foi à dois anos atrás. Quando meu pai morreu. Foi em um dia calmo e agradável. Os pássaros cantavam animadamente, as pessoas riam e deleitavam com a calmaria diária. Estava na escola, pensando o que faria para a janta. Mal sabia cozinhar, mas com o uso da magia tudo era possível. Estava pensando em fazer sua comida favorita.Uma sobremesa agradável. Dá-lhe um enorme abraço quando chegasse depois de tanto tempo morrendo de saudades. Porém, meus planos foram arruinados no momento em que me chamaram para a sala da diretora. Primeiro, pensei que tivesse infringido alguma lei ou que fiz algo que não gostaram. Mas não. Quem dera que fosse tão simples. O que me disseram, me deixou incrédula. Não poderia aceitar tal realidade: Meu pai tinha morrido protegendo a rainha em um ataque ao castelo. Protegeu com sua própria vida. Morreu como um herói pelos olhos de todos.
Talvez fosse errado não pensar que ele foi um herói como todos diziam. Talvez eu só fosse uma filha ingrata que não passou tempo suficiente com seu pai. Ou simplesmente ele tenha sido um idiota por ter se sacrificado por uma rainha que mal sabia de sua existência, e nem ao menos hesitar ao pensar em como seus filhos sentiriam sua falta.
Com tantos pensamentos, mal tinha percebido o portão dourado com um slogan feito de água cristalizada, escrito “Colégio Excalibur” se materializar à minha frente.
A marca em meu pulso irradiava uma luz alaranjada e um formigamento quase irritante que já estava tão familiarizada. O processo durava somente alguns segundos, até o portão me reconhecer como uma aluna do colégio.
Enquanto caminhava pelo pátio da escola, que ficava de frente ao portão, sinto alguem segurar meu ombro com firmeza, de uma maneira que não chegava a ser rude. Giro meu pescoço em sua direção. Assim que nossos olhos se encontram, minhas bochechas queimam de vergonha pela proximidade dos nossos rostos. Seus olhos violetas me encaravam com simpatia. A cada segundo que passava meu coração pulava desesperadamente assim como minha respiração acelerada.
–Amy, você está bem? — Disse ainda segurando meu ombro preocupado.
–S-sim. E-eu estou bem, Sam. — Respondi com a voz falha. Cautelosa , me afastei de seu toque.
Ele me olhou desconfiado, e prosseguiu:
–Se você diz… Soube que seu irmão chega hoje.
– Ah, é verdade… — Confirmei. Não sabia como ele soube que meu irmão chegaria, normalmente só avisam a família. .- Ele chegará hoje á tarde. Por quê?- Perguntei desconfiada. Passei as mãos pelo cabelo em um ato nervoso. Ainda sentia minhas bochechas arderem como se tivesse ficado um dia inteiro na praia. E essa minha pose de quem não se importava, foi completamente uma falha.
– Não acho que você se lembre, mas meu pai foi na mesma missão que o seu irmão. Estão voltado no mesmo avião. Quando conversei com meu pai ele mencionou que vinha com o Adam.
–Realmente não me lembro. — Disse para mim mesma.- Bom, qual é a sua primeira aula, Sammy? — Disse em tom de deboche.
– Hahaha.Engraçadinha. Poderia ser uma palhaça de circo mundano — Sugeriu Sam.
– E você o macaco travesso!
Sam aperta minhas bochechas.
– Aí! Isso doí, macaco de circo! -Falei rindo.
– Você é um palhaça mesmo, não é?
Sam apertou ainda mais minhas bochechas. Ficamos discutindo por mais alguns minutos, quando ouvimos o hino tocar por todo o colégio. Nos soltamos e fomos, ainda discutindo, para nossas salas.
–A próxima vez que apertar minhas lindas bochechas, te transformo em um macaco de verdade! — Assegurei com um olhar ameaçador, que o fez rir exageradamente.
– Nem pense nisso. É capaz de me transformar em um gorila! Você é péssima com feitiços de transformação. — Explicou com um belo sorriso nos lábios me incentivando a fazer o mesmo.
Nos despedimos e fui direto para sala. Sentei na cadeira mais próxima da janela. Com o rosto apoiados nas mão. Suspirei, e pensei em como foi bom ter encontrado o Sam logo de manhã. Mal consegui conter um sorriso nos lábios. Toda vez que estava com ele era tudo tão suportável, ou até mesmo como se todos os meus problemas sumissem. Provavelmente, estava com uma cara boba e sonhadora quando Alrya chegou.
–Menina… Você encontrou o Sammy, não foi?- Perguntou Alrya apoiada na minha mesa. Seus longos cabelos azul-escuros espalhavam-se pelos seus ombros e costas em cascata; Seus pequenos olhos azul- esverdeados com pigmentos roxos me encaravam com graça por de trás dos óculos.
– Hum… Quem sabe…- Disse brincalhona.
–Você não me engana, não, Com essa cara de sonsa. Te conheço muito bem. E suas bochechas te entregam totalmente. — Pronunciou a última parte com um sussurro em meu ouvido.
Coloquei instintivamente minhas mãos nas bochechas, com os olhos arregalado pelo sobressalto. Alrya riu alto, como se estivesse rindo de uma piada que eu tinha contado.
–Você é tão fofa Amy! Queria...-Elogiou Alrya, mas foi interrompida pelo professor quando entrou na sala.
Sentamos corretamente em nossas cadeia imediatamente. Uma hora ou outra passávamos recados uma para outra em papeis enfeitiçados. Depois que a aula acabou contei À ela, que meu irmão, Adam, chegava hoje à tarde.
– Fico feliz por você, Amy. Aposto que está pulando de alegria com a volta do Adam!- Supôs, dando pulinhos animados enquanto caminhávamos pelo corredor principal.
–É… Finalmente poderei vê-lo. Espero que tenha trago os meus presentes, ou atormentarei pelo resto da vida!
–KKKKK, como se você já fizesse isso!
–De que lado você está? — Perguntei, empurrando levemente seu corpo com meu ombro.
–Do seu é claro, idiota!- Respondeu, devolvendo o empurrão com seu quadril.
– É claro que sim. — Respondi sorridente.
Passamos pelo portão, então nos separamos. Mesmo que o tempo tivesse passado rápido, eu estava muito impaciente. Não conseguia passar um minuto parada. Fiquei em pé, de frente para a porta esperando meu irmão abri-la. Após algumas horas meu irmão chegou. Assim que vi o seu rosto. Meu sorriso alargou de orelha a orelha. Pulei em seu pescoço sem nem hesitar.
–Calma, Amy…- Adam ficou parado por alguns instantes, mas logo retribuiu o abraço. — Senti saudades.-Falou Adam, sua voz saiu tão baixa que foi mais como um sussurro.
Seu cabelos estava mais longo do que me recordava. Os fios ondulados batiam na altura de seus ombros, assim como os meus. Seus olhos eram verdes cintilantes, diferentes dos meus que eram caramelados.
–Também senti saudades.- Disse por fim.
A noite foi realmente animada. Comemos três bolos inteiros. Adam, como havia prometido, havia trago presentes para todos. Ele nos contou suas aventuras lá em Andrômeda e as piores coisas que lhe aconteceram. Adam parecia extremamente feliz em ter voltado.
Já eram duas horas da manhã quando todos foram deitar e subi para o meu quarto. Comecei a fazer minha redação “ Como uma poção do amor afeta a mente de um humano”para a aula de Poções e Encantamentos. Na metade da atividade fiquei com muita sede e desci para beber suco. Porém, encontrei Adam e o Tio Roberts conversando na cozinha. Abrindo uma pequena fresta da porta escutei o que conversavam e vi com poucos detalhes o que acontecia.
–Humanos?- Perguntou Tio Roberts, com a testa franzida.- Você quer dizer que meros humanos conseguiram invadir o palácio?
–Sim. Mas, não eram apenas simples humanos eles possuíam poderes. Os nossos poderes. Não sei como fizeram, mas eles podiam controlar os elementos e possuíam uma força sobrenatural. Se estivesse lá, como eu estive, teria sentido. Era magia negra.- Escutava tudo com muita atenção. A amargura na voz do meu irmão era evidente. A tensão que se formou era quase palpável.
–Magia negra? Humanos não podem praticar magia!- Assegurou meu tio,batendo o pulso com violência na madeira polida.
–Faça silêncio! — Alertou meu irmão com o dedo indicador pressionando os lábios.- Não podemos deixar que ninguém descubra! Muito menos a Amy. O que aconteceria se soubesse que agora sou um guarda do palácio? — Meus olhos arregalaram com aquelas palavras. Meu coração apertou em meu peito e senti meus olhos arderem. Coloquei minha mão sobre a boca abafando minha raiva que estava presa em minha garganta.
Não sabia como meu irmão estava servindo como guarda. Muito menos o porquê dele ter escondido. Mesmo que eu odiasse a corte, não o impediria de trabalhar que nem um escravo para eles. Então, se Adam é um guarda, o que ele faz aqui em vez de estar no palácio protegendo a rainha? Muitas perguntas passavam pela minha cabeça. Tive que me segurar para não sair do meu esconderijo e deixar jorrar todas minhas perguntas entaladas em minha garganta como água em uma cachoeira.
–Enfim…- Continuou Adam, sua mão pousava em seu rosto em um gesto preocupado.- Ninguém pode saber que estou trabalhando para a rainha. Tenho que me infriltar entre os praticantes de magia negra. Preciso descobrir se é algum bruxo que está colaborando com os humanos. — Prosseguiu.-Vários anos em guerra, e quando finalmente estamos em “paz” entre as espécies, aparece alguem só para criar discórdia entre as raças.
–Então o quer que eu faça? — Perguntou meu tio ainda confuso com sua tarefa.
– Eu quero que você cuide de Amy. E não deixe que ela descubra nada sobre o plano. — Meu tio começa a falar algo, mas meu irmão o interrompe.- Eu sei que em uma situação normal tudo já estaria resolvido. Porém, sei que Amy tem uma ótima intuição e uma imensa curiosidade.
Tio Robert afirma rapidamente com um aceno de cabeça.
– Então já que estamos resolvidos…- Falou, pondo um fim a conversa. Levantou-se repentinamente, fazendo com que a cadeira se desequilibrasse por alguns instantes.
Percebendo que se não saísse dali imediatamente, minha presença indesejada seria descoberta. Assustada, saí o mais rápido que pude de trás da porta e me tranquei em meu quarto, ofegante. Querendo ou não, com certeza me vingaria de Adam. Nem que precisasse segui-lo em suas missões. Ou impedir que as completasse.
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