O Reino Que Nunca Dorme

1 01 - O Reino Que Nunca Dorme


5h — início da manhã no Reino Doce

O céu ainda estava escuro. Uma névoa fina passava pelas ruas de açúcar, deslizando entre postes coloridos e casas feitas de biscoito e marshmallow. Algumas luzes permaneciam acesas no castelo, mesmo naquela hora silenciosa. O Reino Doce parecia dormir em paz. Parecia. Porque alguém ainda estava acordado. Observando tudo.



👑 Princesa Jujuba

Laboratório secreto abaixo do castelo. O laboratório subterrâneo era iluminado apenas pelas telas azuladas dos monitores. Centenas deles. As imagens mostravam: ruas vazias, padarias fechadas, guardas fazendo ronda, doces dormindo em suas casas. A princesa digitava rapidamente numa mesa cheia de papéis, gráficos e cabos espalhados. O cabelo preso às pressas. Olheiras suaves. Caneca de café esquecida ao lado. Ela olhava uma tela específica:

Praça Central — setor leste.

Tudo normal.

Ela apertou outro botão. Agora: Casa do Pão de Canela. Roncos altos. Ela suspirou aliviada.

Outro monitor: Patrulha dos Guardas Banana. Sem ameaças.

Ela anotou calmamente:

“Nível de segurança: estável.”

Mas continuou olhando. Como se procurasse um perigo invisível. Atrás dela, uma voz calma surgiu.

....

Mordomo Hortelã

Laboratório secreto — junto com Jujuba. Mordomo Hortelã apareceu silenciosamente carregando: café quente, biscoitos doces, uma pasta cheia de relatórios. Ele parecia acostumado àquilo. Como se aquela rotina acontecesse todas as madrugadas.

Mordomo Hortelã

— A senhorita ainda não dormiu. — Jujuba continuou olhando as telas.

— Dormir durante falhas de segurança seria irresponsável. — Ele colocou o café perto dela. Olhou discretamente os monitores. Telas demais. Informações demais.

— O reino está seguro esta manhã. — Ela demorou alguns segundos pra responder.

— Porque eu garanto isso. — O silêncio ficou estranho depois da frase.

...

Guarda Banana Carlos, Guardinha Banana Tina


Portão principal do Reino Doce. Os dois faziam a troca do turno da madrugada. Carlos segurava uma lanterna quase apagando. Tina tremia de frio enrolada num cachecol rosa claro.

Tina

— Você viu a luz do laboratório ligada de novo? — Carlos olhou rapidamente para o castelo. No topo: uma janela iluminada.

Carlos

— A princesa trabalha mais do que todo mundo.

Tina

— Ainda assim… acho estranho alguém acordado todo dia nessa hora. — Carlos tentou rir.

Carlos

— Talvez gênios não durmam.

Mas enquanto falava… ele continuou olhando aquela luz no castelo. Como se aquilo incomodasse ele também.

...

Pão de Canela

Casa pequena perto da padaria central. Pão de Canela ainda dormia profundamente. Espalhado na cama. Cobertor no chão. Metade do corpo quase caindo. Na mesinha de cabeceira: uma rosquinha mordida, leite derramado, um desenho infantil da princesa Jujuba.

Na imagem: ela aparecia sorrindo com uma coroa enorme. Escrito torto embaixo:

“A melhor princesa do mundo.”

Do lado de fora da casa… uma pequena câmera escondida girou lentamente. Observando a janela.

...

Marceline

Casa abandonada perto da floresta doce. Marceline dormia pendurada de cabeça pra baixo perto do teto. O baixo jogado no sofá. Botas no chão. Janela aberta deixando entrar vento frio. Ela ainda dormia…mas uma das músicas antigas no rádio começou a falhar. Chiado. Estática. Depois silêncio.

De volta ao laboratório… Jujuba observava todos os monitores em silêncio absoluto. Os olhos cansados refletidos nas telas.

Mordomo Hortelã percebeu algo estranho. Ela não olhava as imagens como alguém protegendo o reino. Ela olhava… como alguém tentando impedir alguma coisa de acontecer.

Mordomo Hortelã

— Alteza… do que exatamente estamos protegendo o Reino Doce? — Ela ficou imóvel. Os dedos pararam sobre o teclado. Então respondeu baixinho:

Jujuba

— Do dia em que eu não conseguir ver tudo a tempo.

...

Princesa Jujuba

Laboratório subterrâneo secreto — abaixo do castelo. As paredes iluminadas por telas azuladas deixavam o rosto dela ainda mais pálido. Centenas de câmeras mostravam: ruas vazias, guardas em patrulha, cozinhas apagadas, quartos dormindo. Ela segurava uma caneca de café já frio.

Na tela principal: o corredor secreto piscava repetidamente. Erro de sinal. De novo. Ela digitava rápido. Os olhos cansados. Olheiras profundas. Cabelo preso de qualquer jeito. Atrás dela, vários monitores mostravam cidadãos doces dormindo tranquilamente.

Como se aquilo fosse normal.

— Não faz sentido… — ela murmurou baixinho.

A tela piscou outra vez. ERRO DE ACESSO. Jujuba congelou. Ninguém além dela deveria conseguir entrar ali.

Ela abriu outro monitor. Imagem: corredor vazio. Outro. Nada. Outro.

Uma sombra passou rápido demais. Ela se levantou imediatamente.

— Quem entrou aqui…? — O sistema respondeu sozinho:

ACESSO NÃO IDENTIFICADO

O coração dela apertou. Pela primeira vez em muito tempo… o Projeto Aurora tinha falhado.

...

Mordomo Hortelã

Corredores do castelo. Enquanto o reino dormia… Mordomo Hortelã caminhava silenciosamente carregando uma bandeja com: café novo, documentos, pequenos cubos de açúcar. Ele já sabia: ela não tinha dormido. Nunca dormia quando algo dava errado.

Ele parou diante da porta secreta escondida atrás da biblioteca. Ficou em silêncio alguns segundos. Como se estivesse ouvindo. Então bateu duas vezes.

— Alteza? — Nenhuma resposta.

Ele entrou lentamente. As luzes das telas refletiram nos olhos escuros dele. Jujuba nem percebeu a entrada. Continuava olhando os monitores.

— O sistema falhou — ela disse sem olhar pra trás. Mordomo Hortelã ficou imóvel. Isso nunca acontecia.

— Guardas invadiram o laboratório? — perguntou calmamente.

— Não.

— Então foi alguém interno?

Ela demorou pra responder. Muito.

— Não sei.

E aquilo assustou ele mais do que deveria.

...

Guarda Banana Carlos

Portão leste do Reino Doce. O Guarda Banana Carlos fazia patrulha. Enrolado num cachecol amarelo torto, ele andava sonolento segurando uma lanterna pequena. Ao lado dele: Guardinha Banana Tina tomava chocolate quente numa caneca rachada.

Tina

— Você ouviu aquilo ontem?

Carlos

— Ouvi o quê?

Tina

— O barulho vindo do castelo. — Carlos olhou imediatamente pra torre principal.

Carlos

— Não fala disso alto. — Ela abaixou a voz.

Tina

— Minha prima trabalha na cozinha real… — ela disse que a princesa tá acordada faz dias. Carlos ficou desconfortável.

Carlos

— A princesa sempre sabe o que tá fazendo. — Mas nem ele parecia acreditar totalmente nisso.

Lá no alto da torre… uma luz acendeu sozinha. Os dois guardas olharam ao mesmo tempo.

...

Pão de Canela

Pequena casa perto da praça central. Pão de Canela dormia profundamente enrolado em vários cobertores. Ronco alto. Baba no travesseiro. Ao lado da cama: um prato com metade de um cupcake.

A janela do quarto estava aberta. O vento frio entrou devagar. E por um segundo… uma pequena luz vermelha apareceu do lado de fora da janela. Como um olho observando. Depois sumiu.

No laboratório… as telas começaram a piscar mais rápido. Uma por uma. Rua central. Corredores. Torres. Cozinhas.

Erro.

Erro.

Erro.

Jujuba respirou fundo tentando manter controle. Mas as mãos tremiam. Então… a tela principal ligou sozinha. Preta. Silêncio. E uma frase apareceu lentamente:

“Bom dia, princesa.”