O Reino De Copas - A História Da Rainha De Copas
4 Cortem a cabeça
– Nunca vi mais lindo! Tem uns detalhezinhos brilhantes na cintura e a parte de baixo parece ser feita de rosas vermelhas! Simplesmente, o vestido mais lindo que eu já vi! — Dizia Samanta feliz e saltitante com o vestido novo.
O rei abriu a porta do quarto de Samanta e viu o vestido maravilhoso.
– Aonde conseguiu esse vestido, Samanta? — Perguntou o rei.
– A rainha me deu de presente para que eu use no jantar de hoje a noite! Gostou?
– Bom... Eu acho um vestido maravilhoso. Porém, ainda acho estranho que Jeanice te peça desculpas, e ainda te presenteie! O único presente que ela dá, é uma foice atravessada no pescoço de alguém!
– Eu já lhe disse, majestade! Se isso está acontecendo, é um sinal de que Jeanice está se tornando uma boa pessoa! Não percebe?
– Você não entende, Samanta! Ela manda cortar a cabeça das pessoas por qualquer coisa! E, pelo que aconteceu, você já estaria morta quando pisou aqui.
– Isso é mesmo verdade?
– É claro que sim! Eu não aguento mais ser marido dessa mulher!
– E por que ainda está casado com ela?
– Porque se não eu perco a minha cabeça.
– Se acalme! Isso tudo ainda vai mudar.
O rei ainda não estava convencido, mas resolveu não discutir mais com a moça. Ela estava tão feliz que não conseguia enxergar nada de ruim nas situações.
Enquanto isso, a rainha estava em reunião com duas cartas de baralho de copas que eram seus soldados.
– Tenho uma missão importantíssima para vocês! Preciso que cortem a cabeça de alguém.
– De quem se trata, majestade?
– Da nova moça que está morando aqui no palácio.
– Samanta? Mas ela é tão doce, tão jovem, tão meiga...
– E é por isso que eu quero sua morte! Com todas essas qualidades que eu não tenho, ela está conquistando o rei. E se ele se casar com ela, ela será a nova rainha!
– Mas não deve gostar do rei por causa do poder, majestade! Devemos nos casar por amor!
– Isso é problema meu, seu imbecil! Efetuem a tarefa! Ela estará no salão de jantar, com um vestido vermelho! Hoje a noite! Matem-na e pendurem sua cabeça na parede do salão das cabeças.
– Como quiser, majestade.
Samanta foi aproveitar o dia e saiu um pouco do palácio para conhecer o Reino de Copas.
Ela encontrou uma lebre e um homem com uma cartola cheia de corações tomando chá.
– Ei, você! — Disse o homem — Venha cá! Sente-se conosco, e beba um pouco de chá!
– Bem, eu estou passeando para conhecer melhor o reino. — Samanta respondeu.
– É você que está morando no castelo? Lá é mesmo um lugar muito belo! — A lebre comentou.
– Você deve achar lá é uma região harmoniosa, mas não faz ideia do quanto a rainha é má e impiedosa.
– Eu já passei pela experiência! — Ela respondeu. — Vocês são assim mesmo? Sempre falam rimando?
– Somos doentes!! Essa é uma doença que ataca nossas mentes!
– Nós nos irritamos com nós mesmos! É uma doença irritante, uma pena que nós a temos.
– Como se chamam?
– Eu sou o Chapeleiro de Copas e esta é a lebre dos corações. Nos conhecemos há muito tempo, bem unidos, dois amigões.
– É muito bom ver amizade assim! Mas se me derem licença, eu estou atrasada para um importante jantar no palácio! Tenho que ir! Adorei conhecer vocês.
– Apareça amanhã aqui outra vez. Vamos tomar um chá quentinho, só nós três!
– Tudo bem! Até mais!
Samanta saiu e voltou para o palácio. Precisava se arrumar para ir jantar com a rainha.
Em seu quarto, a rainha escolhia as roupas.
– Vou assistir a morte dessa inútil muito bem arrumada! Vou colocar o meu vestido mais chique! O vinho! E mesmo sendo os últimos momentos da vida dessa energúmena, ela não pode saber que eu estou ali, pois se meus soldados falharem, ela contará ao rei! Usarei um véu sobre o meu rosto! Assim, tudo sairá perfeito!
Ela colocou seu vestido vinho, o véu sobre o rosto, e se dirigiu ao salão de jantar. Ela entrou no salão, se sentou em uma cadeira e aguardou Samanta.
Samanta estava em seu quarto, e ainda não estava totalmente arrumada.
– Tomara que a rainha tolere uns dez minutinhos de atraso! Não quero ir toda desarrumada ao jantar chiquérrimo!
Os dois baralhos de copas entraram no salão de jantar.
– Ali está ela! — Disse um deles baixinho.
– Quem? — O outro perguntou.
– A Samanta! A moça que a rainha pediu para que cortássemos a cabeça.
– É ela mesmo? Não pode ser! A rainha disse que ela estaria usando um vestido vermelho!
– Ah é? E de que cor é aquele vestido?
– Vinho! Não vê?
– Ah, mas de vermelho para vinho não tem muita diferença! O vinho é apenas um vermelho mais escuro.
– Não sei não... Já pensou se aquela ali for a própria rainha?
– É claro que não! A rainha não seria tão burra a ponto de vir usando um vestido de uma cor que a pessoa que ela mandou que matássemos também estaria usando! E ainda mais com um véu sobre o rosto.
– É verdade... Vamos executar a tarefa! Pobre Samanta... tão jovem, e já vai morrer...
Eles se aproximaram da rainha com o véu sobre o rosto, e disseram:
– Desculpe, mas a rainha nos ordenou que cortemos a sua cabeça!
Eles não esperaram a resposta dela! Pegaram-na pelo braço e a levaram para onde se cortam as cabeças.
– Solte-me!! Eu sou a rainha!! Ordeno que me soltem!
– Desculpe, Samanta! Desculpas esfarrapadas não funcionarão conosco!
Eles seguravam seu braço tão forte de modo que ela não conseguisse mexer e tirar o véu do rosto.
Colocaram-na numa cama de aço, prenderam seus braços e suas pernas, e pegaram a foice.
– Prefere tirar o véu do rosto dela para que possa cortar mais facilmente?
– Eu não conseguiria matá-la olhando aquele doce e sensível rosto!
A carta tomou coragem e deu com a foice no pescoço da rainha com o véu sobre o rosto! Mal sabiam os dois que aquela era a Rainha Jeanice, e não a Samanta!

Fale com o autor