O Reino Amarelo.
10 Último suspiro.
Notas iniciais
Meus passos eram apressados, o cheiro do fogo e o barulho que transmitia quando se acendia era tão ruim. Isto é proibido aqui! Quem está aqui além de Garry e Ib, eles não podem ter algo tão perigoso assim! Meu desespero era cada vez maior, meus passos eram cada vez mais rápidos e minha farsa respiração estava acelerada, havia me acostumado muito com os atos que tinham os humanos que esqueci que era apenas um quadro... Era isso, eu não precisava respirar, afinal, eu sou um quadro. Eu não tenho vida, mas tudo o que eu queria, era uma.
Este é seu ponto fraco, Mary. Você é um quadro.
Senti o cheiro mais forte, parecia vir da... Oh não! Isso não pode estar acontecendo, é impossível! Isso vem da MINHA sala! Mas que droga, Ib! Só me atrapalha como Garry! Corri o mais rápido que podia, arfava de modo desesperado, sem parar de me preocupar. Cheguei na minha sala, onde eu fui criada pelo meu pai, onde me lembrava de seu pincel altamente caro importado passando pela tela branca e vazia que me tomava naquele momento pensando em meus tranços, os traços de Mary. Um pequeno arrepio me tomou, ali, estavam Ib e Garry, eles estavam de costas e pareciam curiosos, eu comecei a me assustar, comecei a pensar se era possível um quadro sofrer a um ataque cardíaco, caso pudesse, eu estava prestes a morrer de um, mas aquela não era hora para as minhas curiosidades desnecessárias. Minha visão estava um pouco embaçada, eu estava tonta. Conseguindo ter uma visão melhor da sala, percebi algo, que me levou a um frio na barriga. Garry tinha um isqueiro?! Meu olho estava cheio de lágrimas de tinta azuladas e sofridas, guardadas por tempos, querendo sair desse lugar, querendo uma família e amigos, e a única amiga que tive, me traiu por um adulto imprestável, minhas lágrimas se transformaram em puro ódio e raiva.
–O que estão fazendo aqui?– Perguntei com os olhos opacos, arfando de raiva. Minha voz estava estranha, parecia um pouco... distorcida. Ah, isso não importa agora. -Saiam agora...– Murmurei apertando a faca em minha mão, olhando para o chão sem um minuto não estar incrédula com tal situação. -Agora...– Olhei para frente, meus olhos refletiam um ódio interminável dos que estavam a minha frente, quantas qualidades que tinham os mocinhos da história! Eles tinham uma vida humana! Eu virei a vilã, então? Mas... Eu só queria uma família e amigos, eu queria alguém pra compartilhar minhas idéias e alguém que eu possa perguntar. Meu sonho foi destruído por eles, eu nunca senti tanto ódio assim... Mas por que Mary sentiria ódio? -SAIAAAAAAM!– O chão começou a tremer, mas meus pés estavam firmes o bastante e permaneci no chão, no mesmo lugar em que estava, sem mexer um músculo, levantei a faca em minha mão e comecei a correr atrás de ambos, soltando um grito agudo, daquele grito, foram demonstrados todo o ódio que eu sentia sobre Ib e Garry. Garry parou na frente de Ib como barreira, Garry parecia assustado, mas tomava uma expressão séria e determinada, até o mesmo jogar o isqueiro em suas mãos para Ib.
–Ib! Não tem outro jeito!- Gritou Garry, seus olhos pareciam conter um pouco de lágrimas, afinal, Garry estava assustado, não conseguia esconder isso. Eu me assustei, gelei. Ib começou a tentar acender, enquanto Garry estava preocupado, suando cada vez mais.
–Ib, não!– Berrei chorando para Ib, a tinta escorria pelos meus olhos alagados, logo, deixando algumas marcas de tinta em meu rosto, se misturando com as minhas cores naturais. -Por que me odeia tanto?!- Perguntei com voz de choro, desesperada e ainda incrédula, entre sussurros como 'Não' e 'Não faça isso' e soluços assustados. E então as chamas vindas do meu quadro criadas pelo isqueiro que Ib acendeu sem dó nem piedade disseram em seu eterno silêncio a triste verdade. Logo o meu corpo era possuído por uma labareda interminável, a tinta se misturava com o fogo, mas algo era estranho. A tinta não derretia, apenas sentia a dor de ter uma pele, e meu corpo ardendo insuportavelmente, não haviam mais 'lágrimas' para derramar.
Eu não encontrei meu pai...
Não encontrei o outro mundo...
Papai, por que não me salvou?
Você também me odeia?
Ib e Garry olham para mim com um ar frio e aliviado, até meu último suspiro para o sono eterno, por mais que eu não queira que isso acontecesse.
Eu odeio os dois.
Eu odeio o meu pai...
Eu odeio humanos.
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