O Rei das Palavras
1 Capítulo 1
Um solo de guitarra. Um gatinho abandonado na rua brincando inocente. Uma conversa animada entre dois homens velhos e gordos. Tosses. Uma garota escrevendo, perdida em pensamentos. Talvez ela estivesse esperando por alguém, nem mesmo ela sabe. Ela olha pela janela da sacada da casa em que está, enquanto interrompe suas palavras no papel. Ela tem um olhar vazio, decepcionado, não saciado. De repente chega quem ela talvez estivesse esperando. Sua respiração, por instantes, se torna ofegante. No fundo ela esperava que isso acontecesse, mas não queria.
O alguém que acabara de chegar envia-lhe um olhar. Ela o retribui, pasmada com o que lhe ocorre internamente. Ao seu olhar junta-se um malicioso sorriso que ela, aliás, se preparava para evitar. Mas não pôde. Fora fraca. É fraca.
Assim que o alguém some de seu campo de visão, ela se decepciona, sem saber exatamente com o quê. Talvez com sua própria vida. “Talvez perdera o sentido”, ela sussurra para si mesma. Em seus olhos pesa o sono, e o cansaço domina suas mãos. As palavras que escrevia se alongaram, tornando-se um enfadonho texto. Ela risca as palavras que não gosta. Troca por outras. Comete erros. Ela sussurra o que escreve como se ditasse para si mesma. Talvez o sono começasse a lhe roubar o juízo, como fora na noite passada. Não tinha como ela não lembrar. Ela ri. Sinal de que lembrou.
Mas, antes de relatar o acontecimento, é preciso esclarecer fatos. Toda garota tem sua paixão, quer seja de escola, rua, igreja, vizinhança, astro de cinema, enfim! E esse rapaz que ela acabara de ver era a sua. Talvez fosse uns dois ou três anos mais velho, ela não sabia bem, ele se mudara recentemente, mas ainda assim fora tempo suficiente para encantar a menina das palavras, que mais tinha motivos para escrever. Já o havia descrito pouco depois de tê-lo visto pela primeira vez. “Olhos verdes como límpidos e cristalinos mares; pele branca como nuvens, e talvez tão macia como tais; cabelos negros como a noite escura, sem lua ou estrelas, e lisos como puro mel; lábios avermelhados e convidativos, talvez ainda mais macios que a pele de sua face, quisera eu saber. E seu olhar: profundo, terno, obscuro, como um poço que quero cair, como um abismo onde quero perder, como um mar que quero mergulhar, como uma vida que desejo viver”.
Então ela relembrava do ocorrido da noite anterior. Estava dentro de casa, na sala, escrevendo como de costume. Depois de ler e reler o pequeno texto escrito em seu caderno, fez uma careta de desapontamento e reprovação, lançou mão ao caderno, arrancou a folha e a amassou numa pequena bola cheia de raiva. “Não sei escrever nada de bom, sou muito ruim”, pensava enquanto se levantava do macio sofá e abria a porta para jogar na rua aquela folha de frases ruins, para que o vento, a chuva e também o sol a destruíssem de vez. Assim que arremessou com toda a sua força a bola, viu que alguém seria acertado por ela: o tal rapaz.
— Ai, que isso?! — ele gritou de repente, tentando descobrir de onde vinha o ataque. Havia levantado os braços, como defesa, e olhava assustado para todos os lados.
— Meu Deus! — a garota levou as duas mãos a boca, desesperando-se com o alvo que havia acertado. “Por que justo ele? Vai me odiar para sempre!” — Desculpa! Você se machucou?
— Com uma bola de papel? — ele ria assim que havia entendido o que ocorrera. Olhou curioso para a menina, enquanto esperava por uma explicação.
— Eu... — ela gaguejava. Desejou falar com o rapaz desde a primeira vez que o viu. Mas não dessa maneira nem por um motivo tão ridículo como esse — Me desculpa, se eu soubesse que alguém estava passando eu... Desculpa mesmo...!
Ele tornava a sorrir, agora mais calmo e menos confuso.
— Tudo bem, eu sou a prova de papel — os dois riram, e garota sentia que estava morrendo com esses simples momentos —. Bem, tenho de continuar meu caminho, boa noite. Até mais.
— Até... — ela suspirava. Balançou então a cabeça numa tentativa de recuperar-se, inutilmente. Estava apaixonada, não havia cura.
E depois de se lembrar dessa cena, a garota de palavras saiu da sacada, e antes, escreveu o próprio nome no papel, com tinta cor de sangue. Numa frase rápida deixa: “Não gosto de vermelho. Safira Martins”.
* * *
Mais uma vez a menina se pôs a escrever, mas dessa vez não estava numa sacada. Ela não via paisagem ou casas. Ou até mesmo o céu. Estava em uma sala fechada, artificialmente iluminada e climatizada. Não via nada mais que paredes brancas e cadeiras cor de laranja. E por isso mesmo escrevia.
Nos intervalos de descanso a mão, parava para observar ao seu redor. Pessoas, baixas conversas, aquele ruído vindo de todos os lados. E mais que isso. Via também raiva, medo, dúvida, alegria, insegurança, decepção... A decepção era ela que sentia, então sabia bem.
“Ele levantou para falar com ela”, a garota voltou a escrever depois de observar as pessoas, “mas alguma raiva ela tinha, mesmo que respondesse ‘nada’ quando ele a interrogou. O clima entre eles era de romance, e talvez agora chegassem a sua primeira dificuldade”.
Um sono começava a invadir a garota escritora. Ela não conseguia segurar sua própria cabeça nem tinha forças para manter os olhos abertos. Começava então, debaixo de um cortante frio, uma grande luta interna: cair em sono ou manter-se alerta. O primeiro ela queria, mas não podia. O segundo ela deveria, mas não conseguia. A desatenção causava a decepção que ela antes percebera em sim mesma. E de repente, sem que notasse, adormeceu em cima de suas próprias palavras.
Logo despertou em desespero calmo. A voz que falava quando ela adormeceu continuava no mesmo ritmo lento e cansado, então nada perdera nem fora motivo de piada, como ela temia. Havia novas pessoas na sala, que sem dúvida chegaram quando ela estava descansando. Não sabia quanto tempo esteve na terra do sono, mas agora estava de forças renovadas. Ou quase. O forte frio estava a consumindo devagar. Apertava a bolsa contra o corpo, e tinha esperança de que as duas blusas que usava lhe protegessem.
Safira era uma adolescente de quinze anos. Havia pouco tempo que começara o temido (para ela) Ensino Médio. Olhava para os lados e sentia-se diferente de todos. Talvez fosse. Talvez não. Não era a única garota que escutava música agressiva, tinha bela voz e acompanhava com instrumento. Mas de uma coisa tinha certeza que era diferente de todas as outras. Ela era o Rei das Palavras.
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