O Rei das Palavras
7 Capítulo 7
Teria um longo dia pela frente. Apesar do fato terrível, o tédio ainda impregnava na garota, que já imaginava a monotonia do dia. Subiu as escadas para livrar-se de sua bolsa e fardamento que julgava ser ridículo.
Jogou-se na cama e levou seus pensamentos a Fernando. Pensou no suave beijo em que lhe deu. Em como as coisas repentinamente estavam diferentes... Por mais que estivesse perdidamente apaixonada por Miguel, tinha sentimentos de cuidado e carinho por Fernando. Sempre julgara serem sentimentos de amizade, mas nos últimos dias, a proximidade entre os dois se estreitou ainda mais.
Lembrou-se de um dos piores livros que leu: Crepúsculo. A saga vampiresca que pensava ser totalmente a coisa mais ridícula do mundo; o romance mais idiota já escrito; o pior filme já feito e os mais estranhos atores já contratados... Se bem que o filme não tinha muito a ver com o livro, mas, se tinha o nome Stephanie Meyer pelo meio, então não podia ser bom. Sua mente foi levada à saga estúpida por causa do triângulo em que se encontrava. Infelizmente ela estava no papel da chata Bella Swan, Miguel como o vampiro-fada Edward Cullen e Fernando como o único personagem que era um pouco legal, Jacob Black, o lobisomem, que na verdade nem era lobisomem de verdade.
Safira odiava admitir, mas era exatamente como estava se sentindo. Uma pessoa morta na escola, assim como pessoas morriam em Crepúsculo. Isso nem a incomodava tanto. Ela se sentia dividida entre dois amores, mesmo que de formas diferentes. Ou mais ou menos. Na saga, Edward ama Bella. O que Miguel sentia por ela? Bem, ele tentara beijá-la, mas isso não significava sentimento. Podia ser apenas atração. Ela humildemente reconhecia ser uma garota bonita, talvez fosse isso que chamara a atenção de Miguel. Isso e nada mais... Porém Fernando, assim como Jacob, era amigo dela e a conhecia há mais tempo. Os sentimentos dele ela conhecia muito bem. Até então Fernando e Miguel não eram naturalmente inimigos mortais. Apenas Fernando odiava profundamente Miguel, enquanto este pouco se importava com qualquer coisa. Se Fernando fosse um lobisomem, era uma vez Miguel.
Safira finalmente se deu conta de o quanto viajara mentalmente. Sempre tinha de comparar sua vida com os livros. Sempre achava uma história para encaixar. Odiava o fato de agora ser o “romance” que mais tinha nojo ser seu atual fardo.
De qualquer modo, precisava descobrir o que se passava na cabeça de Miguel. Da forma como estava apaixonada por ele, temia que o jovem nada quisesse com ela e ele fosse apenas mais um item na sua coleção de ilusões. Ela encolhia-se em dor já pensando na desilusão. Não conseguia conter seu lado pessimista. Para tentar concentrar sua mente em outras coisas, apanhou um livro de sua nova coleção e pôs-se a lê-lo.
Na hora do almoço, uma forte chuva banhou a cidade. E assim seguiu o dia todo, para a tristeza de Safira. Ela planejava sair, finalmente ir à casa de Fernando, após tantos meses que não o visitava em sua casa. Por outro lado, seria bom no momento evitar encontrá-lo sozinho. Precisava organizar seus pensamentos e sentimentos um quanto antes.
O fim de semana seguiu sem surpresas, ela mal falou com Fernando. Safira passou boa parte do tempo na sacada, com a velha desculpa de estudar, apenas para espiar quando Miguel aparecesse. Estava no auge da paixão adolescente, precisava ver o seu objeto de desejo a cada instante. Por um momento breve, seus pensamentos se voltaram ao terrível fato de uma professora ter sido morta na escola. Ela ficou sabendo do sujeito, aquele que ela vira, era o grande e único suspeito apontado pela secretária da escola, pois fora provavelmente a última pessoa a ver a senhorita Jane viva.
— Filha — Paulo apareceu numa das vezes que ela estava na sacada —, eu vi a notícia do assassinato na sua escola.
Era noite de sábado, o vento soprava frio, a chuva sempre ameaça e cumpria as ameaças. As estrelas se escondiam nas nuvens carregadas, mas as luzes da cidade iluminavam a noite e davam o ar delicioso de inverno e um início de natal — a melhor combinação do mundo.
— Foi uma coisa terrível. Fernando que a encontrou.
Seu pai se sentou do lado de Safira. Ela olhava os telhados molhados e o horizonte pingado de luzes amarelas, brancas e outras indecifráveis cores.
— Quer mudar de escola?
Ela pensou por um instante.
— Não... É quase final de ano, acho que não dá pra mudar mais — ela se abraçou quando o frio ficou intenso —. De qualquer forma, eu gosto de lá.
Eles permaneceram em silêncio. Safira pensou em como às vezes parecia tanto com seu pai. Ele, apesar de ausente durante a semana inteira, cuidava para que sua família não se esquecesse dele ou se acostumasse a sua ausência. Ele se esforçava no trabalho, recebia serviço demais de um patrão rude, mas fazia tudo de maneira humilde pelo bem maior.
— Pois bem — ele suspirou e levantou —. O jantar já está pronto. Sopa — ele fez uma careta divertida que provocou uma risada gostosa na filha. Ela disse que já descia. Queria ficar pensando em tudo enquanto o frio penetrava sua pele. Seus cachos dourados dançavam ao vento. Ela prestava atenção nos sons de trânsito, TV passando novela, gente conversando, brigando, animais fazendo seus respectivos barulhos, mas da casa de Miguel não percebia movimentação alguma. Eles eram no mínimo estranhos, “queria que ele viesse ser estranho aqui comigo”, um sorriso maroto desenhou o lindo rosto da menina. Ela desceu e foi jantar.
Como eu descrevia estas cousas que se sucedem? Essas perguntas tolas, ou de suma importância, sabe Deus! Eu mergulho no mar da minha própria angústia, mar tempestuoso, repleto das feras emocionais, dos vacilos do coração, das negações da razão... Quanto quisera eu conhecer tua mente, ou conhecer minha imagem nos teus olhos, quisera eu saber como tua boca se move ao falar de mim, se é que em algum breve instante, oriundo de qualquer insignificante motivo tu te lembras de mim...! Como me arrasto, Deus! Faço da lama minha cama, rasgo a terra com minhas mãos, cavo minhas passadas com meus joelhos, tudo por um profundo desespero, como se minha alma fosse sofrida! Desconheço eternamente o sofrimento. Ainda que meu coração, que é feito de vidro e está equilibrado tão alto e caísse, e se estilhaçasse em um milhão de pedaços, ainda assim eu não conheceria o verdadeiro sofrimento... Mas ainda assim me rastejo em lamento! Lamento por um cara que eu não sei se gosta de mim, eu só me beijou porque me achou bonita, e só quer me dar uns pega mesmo. Caramba, acabei com o texto literário que eu tentava fazer. Safira sorriu de sua criatividade e assinou o fim do texto, do caderno onde escrevia suas narrações.
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