— Vamos formar uma banda? — perguntou um dos seus amigos durante um lanche que faziam. Era Pedro, um dos colegas de classe que havia entrado durante o sono da garota. Será que alguém percebera que ela estava dormindo? Talvez a professora; talvez quem estivesse sentado ao lado dela...

— Sim, vamos! — respondeu com largo sorriso e grande alegria — De rock, não é?

— Claro — disse-lhe com expressão de obviedade.

— Meu sonho é ter uma banda — ela olhava distante, talvez tivesse na mente uma imagem formada dela cantando e tocando seu violão, junto com o resto da banda em um palco apresentando-se para milhares de pessoas eufóricas, gritando as músicas e chorando —, vamos formar uma.

— Eu estava pensando sobre isso ontem — Pedro falou entre uma mordida e outra no pedaço de pizza — e pensei, por que não?

Safira mostrou-se muito feliz com a ideia, era realmente um grande sonho. Mas como ela, sendo rei das palavras, poderia sonhar com música? Devia continuar escrevendo suas palavras, sendo o seu rei. Mandando e desmandando na ordem e nas ideias, nos fatos e narrações, nas palavras, textos e frases... Mas, por outro lado, se fizesse música, de algum modo continuaria com as palavras que não seriam lidas ou escritas, mas cantadas. Por um momento esqueceu-se do outro sonho, o de fazer suas palavras serem conhecidas: escrever um livro.

— Gostei muito da ideia, Pedro. Vamos em frente! — e continuaram seu lanche, enquanto, em momentos, a garota das palavras insistia em descrever tudo o que via, acontecia, falava e vivia. “Ela pulava internamente, explodindo e alegria e animação”, narrava mentalmente, certamente sobre si mesma, “começava a primeira parte de seu grande sonho”.

Tempos na escola acabaram, e então com a mochila, o cansaço e sol pesando-lhe os ombros, Safira retornou a sua casa na companhia de um amigo-vizinho, enquanto riam e mal percebiam os movimentos ao redor. Tinha de caminhar todos os dias exatamente duas quadras, dobrar no canto que tinha uma padaria e andar mais duas até enfim chegar à escola Brilhante Sol. Já havia alguns anos que realizava esse percurso, então na mente tinha tudo o que veria em cada canto. A farmácia do Roberto, um velho gordo e rabugento que era amigo do seu pai; o Salão Florência, aonde sua mãe ia todos os finais de semana saber da vida de todos os moradores de perto e, de quebra, arrumar cabelos e unhas; a casa abandonada que os meninos da vizinhança se desafiavam a invadir uma noite na semana, inclusive seu irmão; e no canto mais próximo de sua casa, morava ele, o rapaz que ela atacara com uma bola de papel.

— Você conhece o menino novo lá da minha rua? — ela perguntou a seu amigo, que morava descendo a sua rua. Ele havia se mudado há uns dois anos, e a amizade começou de repente, quando os dois descobriram que dividiam de um mesmo amor: livros. Safira lia na porta de casa quando Fernando parou e teve de falar com ela, criando toda a coragem que tinha, porque antes disso já vinha a observando, sempre tentando achar um jeito de falar com ela. Naquela tarde, ele conseguiu. Mas até hoje só recebera a amizade de Safira, coisa que o entristecia.

— Aquele branquelo? — disse enciumado. Detestava quando ela falava sobre outros garotos, e assim que viu o novo rapaz na rua, sabia que Safira se interessaria. Ela conhecia a amiga. Amiga. Detestava admitir que fosse apenas isso.

— Ah, não fala assim dele...

— Mas ele é branquelo. E o que tem ele?

— Nada, só queria saber se você o conhecia.

— Não, apenas ouvi umas histórias sobre ele. E eu conheço você, Safira. Você está gostando dele. — e tentava não demonstrar a tristeza nessas palavras.

— Hm — ironizou — e daí se eu estiver? E o que você quer dizer com “histórias”? O que você ouviu sobre ele?

— Coisas nada boas. Mas eu não vou contar. Não sei se é verdade, então não quero ser divulgador de mentiras. E não me pergunte mais sobre isso. Na verdade eu nem deveria ter falado isso, só provoquei sua curiosidade, que droga... Sou um idiota...

— Ah, mas é um idiota legal. Tudo bem. Até amanhã — e despediu-se com um sorriso que ainda mais destruía Fernando. Ela entrou em sua casa, fechou a porta e ele continuou a descer a rua, com os pensamentos matando-lhe “Será que eu falo para ela? Se eu falar, talvez ela se desinteresse por ele, afinal não posso competir com o cara...”.

O que Safira pensava sobre Fernando? Ele gostaria muito de saber, mas tinha de conter-se com a ideia de que ela o considerava apenas um amigo. Ele nunca tentou demonstrar nada além, nunca se sentiu seguro disso, sempre teve medo de como ela poderia reagir. Não poder tê-la como namorada era ruim, mas não tê-la nem como amiga seria pior.

Safira descrevia Fernando, para si mesma, como “um fofo”. Ela já havia pensado nas possibilidades de avançar o nível de amizade, mas desconsiderava a cada vez que percebia que talvez Fernando não tivesse o mesmo interesse — enganava-se — então preferiu continuar como estavam, e até então nunca mais pensou nisso. Ele havia se fixado como apenas um amigo.

A garota das palavras não deixou de pensar um segundo sequer o que seria que Fernando sabia sobre o novo rapaz. Seria tão ruim assim? Ela subiu as escadas sem força alguma e sem nem notar o que fazia, pois os pensamentos estavam longe... Ou nem tanto, aliás, o rapaz morava perto de sua casa. Depois de trocar a roupa, ela foi para a sacada, tentar espiar o rapaz caso ele estivesse por ali. Ele havia a cumprimentado, então não deve ter ficado com raiva pelo ocorrido.

— Não queria me apaixonar... — ela sussurrava para si mesma, como tinha mania de fazer — As coisas sempre acabam mal.

O rei das palavras desceu para a cozinha, pois não se alimentava só de palavras.

— Como foi na escola? — sua mãe perguntou, enquanto colocava três pratos na mesa.

— Como sempre... Normal — Safira olhou o número de pratos —. Papai não vem almoçar?

— Não, ele está cheio de trabalho — sua mãe respondeu com palavras pesadas, virando-se para o fogão, evitando olhar nos olhos da filha.

O pai de Safira era secretário do gerente da Editora Leurt Land, ganhava o suficiente para manter a família bem. Porém seu trabalho era sempre puxado. O gerente Andrew Faulkner era exigente e autoritário, e até verdugo; além de sempre encarregar tarefas pessoais a Paulo, pai de Safira. Isto sempre ocupava horas da vida de Paulo, muitas vezes tirando-lhe tempo para sua própria vida. Fato que muito desagradava Mary, sua esposa.

Paulo poderia não ser muito feliz com o emprego, mas a importância que ele dava ao salário que recebia, o fazia achar que todo aquele sacrifício valia a pena.

— O que temos para o almoço? — o irmão de Safira, perguntou.

— Bolo de carne.

— Mãe, por que o nome é bolo se não é bolo?

— Para ser mais atrativo, Roger — ela respondeu sorrindo.

Roger era um ano mais novo que a irmã, o que o fazia ainda estar no Ensino Fundamental, que ele odiava. Era grande, se comparado aos seus colegas, e por isso mais ainda queria sair de perto de “crianças”.

O garoto, porém, ainda gostava de diversão, e sempre brincava com os meninos da rua, mesmo que as brincadeiras fossem um nível diferente das que aconteciam na escola. As diversões da rua incluíam tocar campainha da casa dos vizinhos e correr; jogar bola num campinho onde os meninos menores gostavam de empinar pipas; e bancar os valentões... E a brincadeira mais divertida ainda era entrar na casa abandonada à noite.

A casa abandonada, ou Casa do Diabo, como eles denominaram, era um casarão antigo que ficava no canto da outra rua. Ninguém morava ali desde que se lembravam. Uma vez na semana, os quatro garotos se reuniam para entrar no local, vasculhar e levar sustos. Uns afirmavam que ouviam alguém andando na casa, mas muitas vezes não passava de um gato ou rato no velho chão de madeira. As lanternas iluminavam cada canto da casa, mas nunca viram nada além de móveis velhos, retratos desbotados, e livros empoeirados. Ainda assim, não se cansavam de ir ali. Era melhor do que qualquer filme de terror que já viram.

Sentados à mesa de quatro lugares, mãe e dois filhos comiam silenciosamente. Safira pensava no que Fernando sabia sobre o novo vizinho. Roger pensava na noite que viria, ele e os amigos iriam à casa abandonada, enquanto a mãe tinha os pensamentos voltados ao marido.

Safira queria ficar sozinha com os pensamentos, por isso almoçou depressa e logo subiu para seu quarto, correndo nas escadas, o que sempre fazia a mãe a repreender, alertando de que não havia necessidade de toda essa presa, pois o seu quarto não sairia do lugar, um alerta que sempre era ignorado pelos filhos.

Deitou-se na cama, enquanto enrolava os fios loiros e ondulados de seu cabelo no dedo, perdendo-se em pensamentos. “Fernando, o que você sabe sobre o vizinho? O que pode ser ruim assim? Será que ele usa drogas? Será que é isso? Aliás, qual o nome dele? Branquinho de olhos verdes, semitransparentes... Tão lindo!”. Safira dava sorrisinhos que nem percebia. “Hm, talvez Fernando saiba o nome dele. Vou pedir que me diga ao menos isso”.

Safira nem precisou levantar da cama para pegar seu celular. Ele estava no bolso da mochila. Ela o apanhou, e escreveu uma mensagem ao amigo “Fernando, venha aqui hoje à tarde, umas 3h. Não ouse faltar, a não ser em caso de doença J”. Ela riu ao ler a mensagem, e a enviou. Virou-se na cama, e dormiu, pois o céu estava ficando um pouco nublado, como se fosse chover, e ventos frios batiam às janelas.