O Sol despontava no horizonte. Ritmado, contínuo, lentamente iluminando e amornando todo o Reino que se estendia para além de onde a vista alcançava. Sara despertou conforme os primeiros raios do Astro Rei atingiam seu rosto e, ao abrir os olhos, ofuscavam sua visão ainda turva pelo sono. As janelas do aposento eram amplas, majestosas, e permitiam que a brisa e o calor invadissem o quarto imperial. De onde estava deitada, podia enxergar o céu azul de verão que encobria toda a Terra; ouvia ao longe o barulho dos pássaros que despertavam cedo e dos trabalhadores que iniciavam mais uma jornada. A vida no Reino começava lá fora... Estava na hora de se levantar.

Porém, como se levantar ao sentir aquilo ? Antes que pudesse se erguer, tocar os pés no chão de pedra do castelo e espreguiçar o corpo ainda adormecido, Sara sentiu um braço forte abraçando-a por trás e uma respiração gostosa em seu pescoço. O Rei apertava-a com ternura, ainda semi-adormecido naquela manhã tão morna. A Rainha sorriu, e, com agilidade, virou-se na cama, ficando de frente para o homem às suas costas.

Vinícius abrira os olhos, ainda pesados, e encarava sua esposa de perto. Retribuindo o sorriso de sua esposa, levou uma das mãos ao rosto de Sara, afagando delicadamente seus cachos que caiam como cascatas sobre a face lisa da mulher. Ficaram ali, por alguns minutos ou mais, regozijando a companhia um do outro. Bastavam apenas um olhar e leves toques para saberem e sentirem o que se passava em seus corações. Sara olhou atentamente as linhas fortes do homem que encarava. Perdeu-se em cada detalhe, em todos os pedaços. Vinícius era um espécime particularmente belo entre os homens. Além do porte musculoso e da postura rigorosa, possuía traços perfeitos e simetria admiráveis no rosto de queixo largo. Naquela manhã, estava com a barba por fazer, o que lhe escurecia um pouco a pele, mas dava-lhe charme e masculinidade. A verdade era que Sara gostava de seu Rei de qualquer forma, com qualquer físico: amava Vinícius pela força interior que possuía, não pelo físico que ostentava. Aproximou-se, então, de seu amado Rei, e, com delicadeza, pousou os lábios macios nos lábios dele, que retribuiu o gesto apertando-lhe a carne entre os braços e passeando com as mãos pela cintura e pelas costas da mulher; ela dormira nua ao seu lado devido à quente noite que se passara – calor este proveniente do verão, mas, também, proveniente dos toques ardentes que trocaram durante horas a fio pela madrugada.

Sara afastou-se, entretanto, quando ouviu um bater de mão cerrada na porta dos aposentos reais. Vinícius, que nada ouvira, sorriu malicioso, achando que sua Rainha estava com joguinhos de sedução, e tentou-lhe beijar novamente a boca carnuda, porém ela o impediu, conforme ria e pedia que ele parasse para escutar. Novamente o bater na porta se fez ouvir, e, desta vez, logo em seguida pôde-se distinguir a voz de uma criança do outro lado.

_ Mãe ! Pai ! Acordem ! Já está na hora, vocês me prometeram que eu poderia ir à cidade esta manhã !

Vinícius desmoronou na cama, de braços abertos, revirando os olhos por ter esquecido o passeio com o filho. Sara projetou o corpo para cima dele e, pousando a mão na barba por fazer do marido, sorriu-lhe e disse:

_ É, querido, é preciso levantar. Você sabe que nessa idade os meninos são impacientes e levados, e Thomas não é muito diferente.

Com grande custo, o Rei ergueu-se do leito e afastou os lençóis. Em alguns minutos, estava pronto para sair, vestindo roupas de passeio simples e leves, que não lhe cairiam desconfortáveis durante a caminhada pela cidade. Sara observou, discretamente, o corpo e as feições de seu amado enquanto este se trocava. Vinícius era, simplesmente, inexplicável, impossível de se acreditar. A pele levemente bronzeada trazia marcas de batalha, cicatrizes que contavam sua história e diziam ao mundo todo como ele era valente, pois o Rei era homem de ação, não de apenas palavras; em campo de guerra, quando seus cavaleiros eram obrigados a encarar a morte e o dever com orgulho nos olhos marejados de emoção e medo, lá estava ele, à frente de toda a sua tropa, empunhando a espada ferozmente e gritando palavras de incentivo que incendiavam de amor e respeito o coração dos que ali lutavam por ele. Vinícius não era homem de deixar que os outros morressem em prol de sua causa; e, por tal motivo, muitos o faziam, pois amavam-no verdadeiramente. Um Rei digno de seu povo. Um Rei digno de sua Rainha.

Sara logo aprontou-se também, escolhendo um vestido vermelho escuro para passear pelos jardins do castelo naquela manhã. Queria muito ir à cidade com eles, ambos eram tudo o que ela mais prezava em vida e sentia imensa angústia de ter que se afastar por uma manhã inteiro dos dois ao mesmo tempo, porém sabia que aquela seria uma boa oportunidade para pai e filho sentarem e conversarem sozinhos. Thomas ainda era uma criança, mas o tempo é inimigo da felicidade e logo o menino seria homem, e, portanto, nunca era tarde para iniciar os ensinamentos do Reino a ele. Dando uma última ajeitada nas mechas que lhe caíam sobre os ombros, foi em direção à maciça porta de madeira que separava-os da criança ao lado de fora, e girou a maçaneta, dando de cara com o corredor de pedra elegantemente iluminado pelo sol da manhã. Thomas encontrava-se ali, sentado no chão e de pernas cruzadas, cantarolando uma música qualquer, porém levantou-se rapidamente ao ver a mãe do outro lado do batente, abrindo-lhe um sorriso e correndo para lhe abraçar as pernas. Era uma criança muito bonita, o príncipe. Herdara os belos cabelos marrons do pai, porém as pontas de seus fios começavam a dar sinais de cachos, provenientes da linhagem da mãe; os olhos eram castanhos, mas puxavam o tom avermelhado dos olhos do Rei, dando-lhe um ar selvagem e imperioso, embora ainda não passasse de um menino de oito anos. Tinha uma energia extremamente agitada e muita empolgação nos gestos, e não conseguiu conter a palavras de excitação ao ver o pai aparecer atrás da mãe.

O Rei riu com graça e verdadeira alegria, já deixando completamente de lado a preguiça que lhe dominara o corpo naquela manhã quente de verão. Pegou o garoto no colo e colocou-o sentado nos ombros, dizendo frases de entusiasmo e atiçando ainda mais a vontade do príncipe de irem se aventurar além dos portões do castelo. Caminhou acelerado pelo corredor ao som da cantoria que Thomas iniciara, porém não antes de voltar-se para sua Rainha, segurando-lhe a cintura com firmeza e dando-lhe um beijo profundo e cheio de carinho, afastando-se logo em seguida para lhe sussurrar um ardente “Eu te amo...”.

Observando o príncipe e o Rei se afastarem, ficou paralisada ainda por um tempo, sorrindo de forma dócil e já cheia de saudades. Fechou a grande porta atrás de si e caminhou a passos calmos e tranquilos até o jardim do castelo, onde sentou-se em um banco de pedra e abriu um livro que pegara para ler antes de sair. Não havia nada igual em todo o Reino àquele esplendoroso lugar ! Árvores muito altas e muito velhas enraizavam-se no chão de terra escura, fazendo sombras mornas e graciosas no jardim, as flores eram diversas, coloridas e cheirosas, os pássaros eram vários, e piavam dos troncos superiores, e a brisa era fresca, leve e revigorante. Inspirando o aroma do lugar, Sara fechou os olhos e perdeu-se por alguns segundos em pensamentos cheios de satisfação; logo, porém, levou o olhar ao livro que repousava em suas pernas e abriu-o no capítulo um. Foi quando concentrou-se na primeira frase do romance que assustou-se, de repente, com um pigarrear grosso e forte vindo de seu lado direito. Girando o pescoço em direção ao local de onde viera o barulho, encarou o homem que ali surgira, tão silencioso e sorrateiro, que Sara não pôde perceber a sua presença anteriormente. Franziu o cenho, deixando de lado qualquer resquício de sorriso que outrora lhe estampara a face, e firmou a atenção nos movimentos que o homem fazia ao se aproximar.

Sérgio sentou-se ao lado da Rainha sem cerimônias, sem pedir licença ou, sequer, dirigir-lhe alguma palavra educada. Trazia um sorriso nos lábios finos... lábios esses cheios de escárnio e maldade. Parecia que aquele homem carregava traços de sadismo nas faces brancas até mesmo quando nada fazia, apenas olhava. Pois era um olhar cheio de demônios, e o negrume de sua íris representava a escuridão de sua alma. Sara encarou-lhe a face por todo o trajeto que o cavaleiro fez, até que ficaram lado-a-lado, com os rostos quase na mesma altura – ele ainda acima, por ser bastante mais alto. Sérgio a lhe sorrir cinicamente, ela a lhe olhar cheia de frieza. A bem da verdade era que, embora a Rainha pudesse perceber claramente as energias negativas que emanavam do cunhado, não saberia dizer exatamente o porquê de sentir tanto desprezo por ele... Sérgio era o cavaleiro comandante da guarda real, um homem de confiança na corte e, o mais importante, um amigo e irmão leal ao seu amado, o Rei de Pedra Cinzenta. Então, de onde surgira tamanho repúdio ? O sorriso cheio de ironias ? Os gestos afetados, medidos e repletos de arrogância ? Ou então... ah, sim... Então, o olhar. O olhar cheio de desejo. Sempre que se encontrava a sós com Sérgio, como acontecia naquele exato momento, era como se sentisse todo o seu corpo sendo apalpado de forma violenta por seus olhos indiscretos e ferozes, que varriam-na de cima a baixo, quase capazes de enxergar sua nudez pálida por trás dos panos das vestes. E ficaram ali, apenas se defrontando sem palavras por cerca de alguns minutos, quando, de repente, o silêncio foi quebrado e Sara estremeceu ao ouvir algumas poucas palavras serpenteando para fora dos lábios do cavaleiro ao seu lado:

_ Está muito bonita hoje, Vossa Majestade. O vermelho combina com seus cabelos.

Palavras tão simples, um elogio tão cortês, porém ela sabia distinguir qualquer entonação de malícia naquelas frases. Sem responder, levantou-se depressa do banco e deu as costas a Sérgio, já não mais suportando o peso daquele sorriso cruel. Aquele homem era como uma víbora traiçoeira... Nada em suas ações ou palavras poderiam denunciar-lhe as más intenções e os desejos sem honra, e, por tal motivo, Sara sabia que jamais conseguiria acusar-lhe de qualquer coisa. Suas insinuações eram tão subjetivas, tão bem disfarçadas em falsas palavras de cortesia, que Vinícius nunca acreditaria na essência tão demoníaca de seu próprio irmão. Os únicos gestos de Sérgio que o traíam eram os olhares penetrantes e lascivos, sempre lançados de modo muito bem escondido e veloz.

Virou-se para o cunhado. Não queria conversar com ele, sentia-se incomodada por estarem ali sozinhos e, em silêncio, cumprimentou-o reverencialmente, caminhando decidida em direção à saída do jardim. Estacou, todavia, quando ouviu, mais uma vez, aquela voz tão cheia de afetos:

_ Por que foge de mim dessa forma tão deselegante, Vossa Majestade ? Acaso pensa que irei lhe morder ? – e o sarcasmo banhava cada letra, pois era exatamente isso o que ele queria fazer.

Sara pensou em retrucar, argumentar de alguma forma, atingi-lo com as palavras, mas segurou a língua e manteve toda a indiferença que carregava na expressão e no andar. Quando, porém, deu seu primeiro passo, sentiu, de súbito, um arrepio gélido lhe percorrer a espinha, proveniente de uma queda brusca na temperatura e de um rápido desaparecer do Sol. Olhou ao redor: grossas nuvens negras dominavam o céu e corriam pelo firmamento tão velozes que chegava a assustar. O choque entre as pesadas massas cinzentas acima deles fez um enorme estrondo, seguido de muitos relâmpagos e raios. O vento soprou forte, a terra pareceu tremer e o tempo simplesmente transformou-se em um pesadelo em questão de segundos. Nunca outrora a Rainha presenciara uma mudança tão brusca e grotesca de um belo dia verão para um terrível dia de calamidades climáticas. Aquilo, definitivamente, não era normal... Parecia-se até com magia. Olhando para cima assustada, Sara chegou a esquecer da presença de Sérgio no jardim sombrio, e, girando no mesmo lugar, perdeu-o momentaneamente de vista. Foi de repente que o sentiu às suas costas, tão próximo que ela podia sentir a respiração descompassada do cavaleiro em seus cabelos. Ele segurava-a pelos ombros tão firmemente, que Sara não teve espaço para reação, e, quando se deu conta, Sérgio havia lhe virado o corpo, deixando os dois frente a frente. O mundo parecia ruir a sua volta, árvores tombavam por todos os cantos, trovões ensurdeciam seus tímpanos e raios projetavam luzes que formavam sombras estranhas e sorrateiras, porém nada a aterrorizou mais do que encarar aqueles poços negros que se tornaram os olhos cruéis do cavaleiro, tão cheios de maldade e, principalmente, prazer. Sentiu-se, então, sufocar, quando Sérgio trouxe-a para perto de seu rosto e comprimiu os lábios na boca fechada da mulher. O vento cortava-lhe a carne, mas eram as mãos fortes dele em seu corpo que a machucavam ainda mais.

Foi quando ele desgrudou-se dela que Sara sentiu estar na presença de uma alma tão maligna quanto fosse possível. Ele encarou-a, sorrindo-lhe de modo demente, e, antes que o jardim ruísse em cima de ambos, Sara pôde ouvi-lo sussurrar:

_ Você ainda irá gritar para mim, Vossa Majestade !

E ela gritou. Foi com o próprio berro arfante e agonizante que Sara acordou sobressaltada, sentando-se em sua cama. Os ricos lençóis verdes banhavam-se no suor que escorria de seu corpo, as almofadas encontravam-se espalhadas ao pé da cama, caídas no chão, e a fina camisola que a Rainha usava em seu sono grudava-se em seu corpo quase que fundindo-se a ele. Sara olhou ao redor afoita, com a respiração descompassada, sem reconhecer de imediato que estava em seus aposentos escuros. Temia encontrar em algum canto aqueles olhos gélidos em meio às sombras, perfurando-a furiosamente, porém, nada via, nada escutava, nada sentia. Estava só, e sua única companheira era a Lua cheia no céu que se estendia lá fora. Levantou-se depressa, despindo a roupa e jogando-a ao chão. Sentia-se zonza, talvez pelo susto do terrível pesadelo que, mais uma vez, atormentava os seus sonhos. Caminhou até o parapeito da janela e sentiu a brisa noturna a roçar gentilmente em sua pele nua... talvez o vento fosse capaz de levar para longe os maus pensamentos. Há 10 anos que a Rainha era assolada periodicamente por aquelas visões quando dormia. Elas sempre começavam felizes, com a lembrança que tinha dos últimos instantes que passara ao lado de seu amado Rei e de seu precioso filho, antes que ambos fossem tragados pela morte e pela tragédia, mas as visões sempre terminavam daquele mesmo modo: o mundo desmoronando ao seu redor, enquanto ela era subjugada por Sérgio, o atual Rei, comumente chamado de o Rei Tirano.

Afastou-se das janelas e voltou a descansar o corpo no colchão macio. Suspirou, ainda guardando resquícios do temor que a atingira minutos antes. Por alguns segundos, sentiu-se envergonhada de si mesma... embora o orgulho não lhe permitisse nunca que o fizesse em frente ao Rei, era fato que Sérgio havia conseguido tirar dela o que lhe exigia todas as noites: um grito de pavor e desespero. E foi com o eco da própria voz ressoando em sua mente que Sara fechou os olhos e adormeceu, torcendo para que, dessa vez, as flores de seus sonhos não se transformassem em estrume.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.