O Rei Negro
3 Portas fechadas
Algumas tábuas da parede tinham se partido por causa do impacto. No chão, manchas de sangue contornavam o corpo caído da garota, que não reagia aos chamados desesperados do seu irmão, já em lágrimas. Gabriel, cujos olhos tinham voltado ao verde, tentou se aproximar, mas Kar o encarou furioso e vociferou:
-Pra trás! Não chega perto, fica longe dela!
-Eu não sabia que…
-Cala a boca! Sai daqui, seu desgraçado! Sai ou eu vou te matar!
Foi como se um nó tivesse surgido em sua garganta. Se sentia mal, impotente e, o pior de tudo, usado. Porém, ouviu a voz da razão, vestiu a camisa amarela emprestada que tinha largado sobre o sofá antes de dormir, destrancou a porta e saiu às pressas da casa.
A rua principal estava quase deserta, exceto por dois casais aqui e ali. Mas o verdadeiro interesse do rapaz estava na taverna que, para o seu alívio, encontrava-se aberta. Ele correu e passou pela porta vai e vem, se aproximando do balcão e percebendo que o taverneiro não estava ali. Se lembrou da porta à esquerda e, sem pestanejar, adentrou a cozinha, onde um Heitor sonolento acabava de limpar as bancadas de madeira.
-Gabriel? Deveria estar dormindo, teremos muito trabalho amanhã e…
-Senhor Heitor! – interrompeu desesperado – Precisa ajudar a Liz! Por favor, ajuda a Liz!
-Calma… ei, o que está havendo? – indagou o homem aflito.
-Ela está machucada! Com ferimentos, eu não sei dizer ao certo. Precisa ajudar ela agora mesmo, senhor! Por favor!
-O que houve? – dessa vez foi Heler, vestindo um pijama branco de bolinhas vermelhas e toquinha.
-Minha filha, pegue algumas faixas de pano, depressa! – mandou e ela, apesar de confusa, foi buscar – Vejamos, sobrou um pouco de calêndula. Aqui, segure o pilão, sim?
Gabriel recebeu o objeto e viu o mais velho apanhar a mesma garrafa que usara na queimadura. Minutos depois, os três saíram com rapidez em direção a primeira casa da rua principal. Antes de entrarem, o rapaz entregou o pilão a Heitor, que franziu o cenho na hora.
-Por que isso? Vamos entrar!
-Não posso, senhor. Depois eu explico, se é que vai acreditar em mim. Por favor, se apresse.
Embora confuso, o homem entrou e Heler também, mas não antes desta lançar um olhar analítico sobre o jovem.
Sentindo-se incapaz de fazer algo a mais, ele se jogou sentado no chão de terra e se recostou na casa, perto da porta. Por várias vezes esfregou as mãos no rosto e nos cabelos, perturbado porque não conseguia entender o que tinha acontecido.
Ela estava me estrangulando. Eu ouvi uma voz macabra e não consegui me mexer. Eu…
-Merda, que porra é essa?! – passou a pensar alto – Será que aquilo não era real? Será que foi uma alucinação? Droga!
Heler desceu os três degraus da escadinha da casa, olhando para ambos os lados da rua a procura do rapaz, até o ver ali, encolhido no chão. Um tanto receosa, se aproximou, pois não conseguia enxergar o rosto dele, encoberto pelas mãos.
-Ei… — tentou, mas não teve sucesso.
A garota se agachou e segurou nos pulsos do rapaz, forçando devagar a abaixar as mãos. E ficou surpresa com o que viu, pois não esperava encontrar lágrimas nos olhos da mesma pessoa que se mostrou tão forte ao trabalhar pesado, embora estivesse ferido. Já Gabriel não a encarava, fitando uma direção vaga e visivelmente atordoado.
-Eu não queria machucar a Liz. Não queria, não queria…
-O que aconteceu?
-Não adianta falar, você não vai acreditar em mim. Ninguém vai. Eu mesmo não acreditaria se estivesse no seu lugar.
-Só tenta… — pediu ela, largando os pulsos dele e lhe dando um tapinha de leve no ombro esquerdo – O que aconteceu lá dentro? A Liz tá muito machucada, parece que bateu com a cabeça na parede e…
-Ela vai ficar bem? – interrompeu angustiado, finalmente olhando nos olhos castanhos de Heler.
-Não sei dizer, mas o papai está fazendo o que pode.
-Meu Deus… — proferiu ao esfregar os cabelos pretos outra vez.
-O que aconteceu, Tral?
Os olhos verdes e cheios d’água a encararam, vendo nela uma compreensão confortante. Não o julgava sem antes ouvir o que tinha a dizer.
-A gente foi dormir e até aí, estava tudo bem. – começou, enxugando os olhos e pigarreando – Eles estavam no quarto e eu fiquei no sofá da sala. Quando apaguei, tive um sonho muito estranho e tão nítido que parecia real. Estava em um navio e tinha muitas pessoas, a maioria homens. Só que tinha uma mulher também. Estou te contando isso porque acho que pode ter relação com o que aconteceu, mesmo parecendo loucura.
-Não tem problema, continua.
-Mesmo que fosse noite no sonho, tinha uma coisa muito esquisita que cobria tudo, em todas as direções, como se fosse um paredão ou qualquer coisa assim. Era tão escuro que não dava para ver nada do outro lado.
-Só existe uma coisa no mundo que se parece com isso. A Escuridão do Sul. – disse ela pensativa – Tá, e depois?
-A mulher queria ver o que tinha dentro da escuridão, mas um homem não deixou. Ela o chamava de capitão e disse que poderiam usar um telescópio, assim não precisariam atravessar.
-Que doido isso. – comentou Heler, sorrindo – Já tive essa ideia maluca uma vez, mas, com certeza, não daria certo. Se fosse tão fácil, já teriam feito. E aí? O que aconteceu?
-Bom, depois disso, eu ouvi uma voz… e era bem diferente de todas que eu já escutei. Essa voz disse alguma coisa, uma palavra estranha que não consigo lembrar. Foi aí que eu acordei ou quase isso. – suspirou e involuntariamente começou a esfregar ambos os braços, como se sentisse frio – Meu corpo não se movia, estava escuro e eu tive certeza de que tinha alguém em cima de mim. Dois olhos me encaravam e estavam perto, tinham um brilho forte na cor roxa, arregalados de um jeito assustador. Senti duas mãos no meu pescoço, começando a me estrangular. Eu não conseguia dizer nada, não conseguia me mexer e estava com tanto medo, mas de repente, senti raiva… muita raiva e foi aí que eu consegui me mexer e falar. Segurei aquela pessoa e joguei para longe. Vi quando o brilho roxo se apagou na escuridão, até que o Kar chegou com uma vela e só aí entendi que a pessoa era a Liz.
Heler estava estupefata e acabou sentando no chão de terra, sem se importar em sujar o pijama. Ela olhou em várias direções e comprimiu os olhos algumas vezes, como se tentasse processar tudo o que tinha acabado de escutar. Em seguida, segurou o queixo de Gabriel e o ergueu um pouco, vendo que haviam marcas roxas e vermelhas em sua pele tão branca.
-Verdade, alguém tentou mesmo te estrangular. – constatou, o soltando – Cara, tudo isso parece loucura! Eu não consigo entender, Tral. A Liz nunca machucaria ninguém!
-Então por que isso aconteceu? – perscrutou angustiado – Eu jamais faria mal a ela, Heler! Mas estava escuro e sinistro. Aqueles olhos, aquele terror. Se eu não fizesse nada, estaria morto.
-Espera. – pediu ela, se levantando para ir até uma casa vizinha e apanhar uma tocha.
-O que vai fazer? – estranhou Gabriel, se levantando de supetão.
-Tá louco? – retrucou ligeiramente ofendida – Acha que vou te queimar com isso? Anda, deixa eu ver.
Heler iluminou o pescoço de Gabriel e, com o indicador da mão livre, perpassou sobre a tez, seguindo as marcas ao mesmo tempo em que observava as mãos dele.
-Foi o que pensei. O tamanho das marcas e a posição dos polegares, é impossível ter sido você.
-O que está fazendo, Heler? – questionou um Heitor aborrecido – Saia de perto dele, vamos embora!
-Papai…
-Está despedido! – disse o homem a Gabriel – Suma daqui!
-Papai! – protestou Heler furiosa – Trate de me ouvir agora!
O pai ficou perplexo com a reação da filha, que ao se dar conta disso, deu-se por satisfeita.
-Olha as marcas no pescoço do Tral. Alguém tentou estrangular ele enquanto dormia.
O taverneiro se aproximou para verificar, alisando a bigodeira, enquanto o rapaz lhe encarava bastante receoso.
-É verdade… Mas o que isso quer dizer? – indagou confuso.
-Vamos para a taverna, lá ele vai te contar. – pediu a jovem.
Minutos mais tarde, quando o rapaz repetiu tudo o que já tinha contado para Heler, o senhor Heitor jogou as costas largas sobre o encosto da cadeira e respirou fundo.
-Por Nymira! O que está acontecendo aqui? Você sonhou com a Escuridão do Sul, se é que dá para chamar de sonho e aí acordou em uma situação muito pior. Eu só não entendo como é possível que a Liz tenha feito isso. Ela é uma boa menina, não machucaria ninguém.
-Foi o que eu disse, papai.
-Kar está furioso, disse que não quer te ver de jeito nenhum, Tral.
-É, ele me disse coisas muito piores, mas não posso culpá-lo. Ele colocou um estranho dentro de casa que machucou sua irmã. No lugar dele, eu não sei o que faria.
-Você estava se defendendo. – consolou Heler.
-Mas e se não foi a menina? Pode ter sido alguém de fora tentando matar os dois. – cogitou Heitor.
-Duvido. – rebateu a garota – O Kar sempre tranca a casa antes de dormir. Lembra quando tentamos fazer aquela surpresa de aniversário da Liz, papai? – perguntou e logo olhou para Gabriel – A gente queria levar o bolo na cama dela, mas o imbecil tinha trancado tudo, mesmo depois de combinar comigo que deixaria aberto. Ficamos igual a tontos batendo na porta de madrugada. Depois ele disse que tinha se esquecido, que ódio.
O rapaz deu um sorriso fraco, então se lembrou de algo:
-A porta estava trancada quando eu saí.
-Viu só?
-Penso que o melhor agora é esperar a menina se recuperar e perguntar a ela o que aconteceu. – sugeriu Heitor – Eu nunca ouvi falar de nada parecido com isso. O melhor que posso fazer por você, meu rapaz, é te oferecer o nosso depósito para que possa dormir. Tem os estábulos, mas alguém poderia entrar lá enquanto você estivesse dormindo. O depósito pode ser trancado por dentro.
-Já está ótimo, senhor Heitor. Muito obrigado! – disse Gabriel, outra vez esboçando um sorriso fraco.
Uma hora depois, ele já estava deitado sobre um monte de palha e panos. Era desconfortável, um espaço pequeno, com uma janelinha com grades quase na altura do teto, muitas caixas de madeira e um cheiro forte de mofo. Ainda assim, sequer pensava nisso, pois a única coisa que queria era a recuperação de Liz. Teve medo de voltar a dormir, se esforçou para ficar de olhos abertos, mas o esforço nos trabalhos do dia anterior e todas as circunstâncias cobraram seu preço, o fazendo apagar em um sono profundo e, dessa vez, sem pesadelos.
O galo já cantava por horas, mas ele só acordou quando ouviu batidas na grossa porta de madeira do depósito. Sonolento, se levantou devagar e girou a chave de ferro, abrindo-a e se deparando com Heler, já vestida com uma calça marrom, camisa bege e botina.
-Bom dia! – disse ele rouco.
-Bom dia! Deixei você dormir um pouco mais, só que a gente precisa se apressar.
-O que foi? Como tá a Liz? O que aconteceu?
-Calma! Olha, eu já falei com o Kar e tentei explicar o que você me disse, mas ele é um cabeça dura. A Liz não está reagindo, continua apagada e com febre.
-O que?
Gabriel passou pela porta e seguiu apressadamente até a saída da taverna.
-Tral! Tral, espera! O que vai fazer?
-Precisamos da ajuda dela, Heler. – respondeu sem olhar para trás.
-De quem? Espera! De quem?
-Da bruxa da floresta. – respondeu determinado.
-Você ainda nem comeu nada! E a bruxa não faz nada de graça, nós não temos como… espera!
-O que está acontecendo? – quis saber Heitor, atrás do balcão – Onde estão indo?
-Pode deixar, papai, eu cuido desse idiota! Porra, por que tem tantos homens teimosos no mundo?
A passos largos, o rapaz seguiu em direção a primeira casa da rua principal, seguido pela irritada filha do taverneiro que o chamava sem sucesso. Ele abriu a porta da casa e foi até o quarto, se deparando com Liz em uma cama, coberta por um lençol e com a cabeça enfaixada na altura da testa. Estava pálida e com os lábios secos. Ver isso foi como receber um golpe na barriga, bem mais forte do que a joelhada de Jake na floresta.
-O que está fazendo aqui? – questionou Kar que, até então, estava sentado ao lado da cama dela, sobre um dos troncos da cozinha que servia de banco.
-Precisamos ir até a bruxa da floresta. – respondeu Gabriel.
-Tá de sacanagem? – irritou-se por muito o outro – Você quase matou a minha irmã e ainda continua se preocupando com os seus próprios interesses?
-Não é por esse motivo! – retrucou – Talvez ela consiga tratar a Liz. Você não disse que ela a curou uma vez?
-Não fode! Sai daqui! – vociferou.
-Parem com isso agora! – gritou Heler – Aqui não é lugar para isso, só vão piorar a situação da Liz. Tral, vem. – segurou no braço dele, porém este se desvencilhou.
-Está sendo idiota, Kar!
-Nisso a gente concorda. Eu fui um idiota por ter acolhido um canalha como você. Vai saber se tudo o que me disse é verdade, Gabriel.
Heler congelou.
-Olha só, pelo visto ele não te contou tudo. – continuou Kar ao perceber a reação da garota – Você nem sabe o nome desse maldito e ainda assim fica protegendo ele.
-Como se eu tivesse culpa de ter o nome do Rei Negro! Olha, eu sei que você está irritado e não tiro a sua razão. Acha que eu menti sobre tudo? Ótimo, tanto faz. Apenas me diz onde posso encontrar a bruxa, antes que seja tarde demais!
-Vai pro inferno.
-Seu filho da puta teimoso! – vociferou Gabriel, então olhou para uma atordoada Heler – Me diz como faço para encontrar a bruxa, por favor.
-Isso é verdade? – perguntou ela, atônita.
-Heler! Me diz onde encontrar a bruxa! – apelou desesperado – Por favor, eu imploro! Olha, eu respondo tudo o que você quiser depois, mas agora eu só preciso ir até ela.
-A estrada de Ederith, em direção a Calendria. Assim que sair da vila, você… espera… — ela respirou fundo, segurando no rosto dele e olhando no fundo dos seus olhos – Impossível.
-Assim que eu sair da vila… o que mais? – se sentiu horrível por não conhecer a geografia daquele lugar, dada a urgência da situação – Heler…
-Eu vou com você.
-É isso aí, seja feita de otária. – debochou Kar
-E você cala essa boca! – vociferou ela – Desde ontem que eu percebi seus segredinhos. A história da cachaça, aquilo não me enganou.
-Eu achei que estava ajudando uma boa pessoa, não um assassino.
-Você só está escutando a sua raiva e não a razão. Se ele fosse um assassino, teria matado vocês dois e não ficaria pelos cantos chorando, cheio de hematomas no pescoço. Nem assumiria sua dívida. – argumentou apontando para a queimadura no peito de Gabriel.
-Ele só quer voltar para o mundo dele ou sei lá o que. – retrucou Kar, como alguém que se sente encurralado.
-Não sei o que isso quer dizer, mas agora não é o momento. – e se voltou para o outro – Vou com você até a bruxa e a gente vai dar um jeito nisso. Mas depois, você vai me contar tudo o que eu quero saber.
-Prometo. – respondeu Gabriel sem hesitar.
Ambos se retiraram da casa, mas não antes dele notar o olhar cético e acusador de Kar, o qual preferiu ignorar.
Heler voltou da taverna com um saquinho amarrado na cintura, junto com a faca artesanal dentro de uma bainha feita de couro. Ambos seguiram até os estábulos, mas o senhor Heitor não tardou a chegar também.
-Não deveriam ir! É perigoso demais. Ninguém nunca sabe o que aquela velha está pensando, além disso, vocês podem ser abordados por algum bandido. – protestou ele.
-Sem tempo para isso, papai! Enquanto a gente fala, a Liz tá ficando cada vez pior. – respondeu a filha, enquanto preparava a sela de um cavalo marrom – E eu já sou bem crescidinha para saber me virar.
-Você é uma cabeça de vento. – lamentou o pai – Se demorar, vou colocar todo mundo atrás de vocês, estou avisando!
-É melhor o senhor voltar, a taverna está sem ninguém. – advertiu ela, então encarou Gabriel – Sabe cavalgar?
-Não.
-Certo, a gente vai no mesmo cavalo. – determinou a garota, montando no animal – Vem!
E ele não se demorou a subir, sentindo mais facilidade porque, dessa vez, havia uma sela. Em seguida, ela comandou o cavalo que começou a contornar os estábulos, deixando um preocupado senhor Heitor para trás, cena essa que somente Gabriel viu. Eles entraram na rua principal e passaram pela casa de Kar, a qual o rapaz também encarou, notando que a porta outra vez estava fechada.
Heler não se importou em ir o mais rápido que sua montaria permitia e ele precisou se cuidar para não cair e se tornar um estorno ainda maior. Diferentemente do caminho de onde veio no dia anterior, a estrada rumo ao norte ficava em um campo aberto e não tinha obstáculos como árvores ou rochas, exceto pelo pequeno matagal no entorno. Haviam florestas dos dois lados, mas ambas estavam distantes, a cerca de quinhentos metros. Em determinado momento, ele notou o barulho de moedas muito perto e viu o saquinho que ela tinha amarrado na cintura.
-Você trouxe moedas?
-Todas que eu tinha. – respondeu a jovem indiferente.
-Juro que vou te pagar cada uma que você gastar.
-Esquece isso, cara. Uma coisa de cada vez.
O cavalo deixou a estrada e entrou no matagal a direita, seguindo em direção a floresta. Quando as árvores dominaram a vista, ele se viu cercado pela mesma paisagem de antes, com um porém. As raízes daquelas árvores eram ainda maiores e traiçoeiras, além dos sons de folhas se movendo em todas as direções, o que trazia a suspeita de haver uma fauna mais presente naquela área. Uma cobra verde caiu ao seu lado e quase o atingiu, lhe causando um certo desconforto, mas nada que sequer chegasse perto do que tinha sentido nas últimas horas.
Sem nenhum dispositivo, era difícil ter uma noção mais precisa do tempo e graças as copas das árvores, sequer conseguia saber onde estava o sol. Contudo, tinha a sensação de já estarem cavalgando por bem mais de uma hora desde que entraram na floresta e durante todo esse tempo, não trocou uma única palavra com Heler. Em sua cabeça, as imagens da noite passada se repetiam sem parar, assim como a voz de Kar o acusando. Se sentia injustiçado e crescia em seu peito uma vontade avassaladora por descobrir o que ou quem tinha causado toda aquela desgraça. Estava tão imerso em pensamentos que não se deu conta de quando a paisagem mudara. Agora, estavam cercados por vegetação morta, um cheiro horrível e podre de animais mortos, bem como alguns esqueletos do que, talvez, fossem veados. E embora pudesse ver o céu, não enxergava o sol nitidamente, pois algum tipo de neblina ou fumaça cinzenta o bloqueava.
-Que lugar é esse? – perguntou em voz baixa.
-A Mata Morta. – respondeu Heler, ligeiramente incomodada – Nada nasce nesse lugar há muito tempo. Ninguém sabe o porquê desse cheiro podre, afinal, nenhum animal vem pra cá, eles fogem. O Cascudo só vem quando eu estou montando. Precisei dar carona para o Kar há algumas semanas, quando ele veio ver a bruxa.
Eles se aproximaram de uma clareira e, no centro dela, havia um barraco muito velho e precário, com janelas lacradas por tábuas e vários vasos de plantas mortas ao redor.
-Chame ela pelo nome. Senhora Lirdina. – advertiu a garota e ele concordou com a cabeça.
Assim que desceram do cavalo, Heler amarrou a corda do animal em uma árvore de tronco grosso, ainda que pouco confiável, pois estava tão seca que começou a descascar só com o nó. Então, olhou para Gabriel e este assentiu… estavam prontos para chamar a bruxa. Dois batuques na porta de madeira dados pela mão pequena da jovem foram suficientes.
-Entrem! – disse uma voz no interior do barraco.
Quando entraram, ele viu que o lugar era realmente pequeno, muito bagunçado, porém bem iluminado. Só havia um cômodo e nele, uma cama muito velha, um móvel com várias gavetas que o rapaz pensou ser um armário de roupas e uma mesa de madeira redonda, repleta de velas vermelhas, joias, muitas bugigangas estranhas, três caveiras que ele desejou não serem humanas e um pequeno espelho oval. Atrás da mesa, já os observando, estava uma velha baixinha, com cabelo grisalho armado e muito grande, dentes podres que formavam um sorriso tenebroso e, o mais chamativo, um nariz torto tão grande quanto Kar o descrevera.
-Senho… — começou Heler, mas foi interrompida.
-Vocês vieram mais rápido do que imaginei. – cortou a bruxa – Foram prudentes, crianças, pois a situação daquela menina não é muito boa.
Até a voz é de uma bruxa dos contos de fadas. Só nunca pensei que estar tão perto de uma seria assim desagradável.
-Sim e eu trouxe aqui algumas… — dizia a garota, mas outra vez foi interrompida.
-O que está achando desse mundo, meu rapaz? Mal chegou e já se meteu em problemas. – debochou a velha que desatou a gargalhar.
-Escuta! A situação é séria! – irritou-se Gabriel – Por favor, venha conosco e trate a Liz.
-Ela tentou te matar e mesmo assim quer salvá-la? Você está diferente. Acho que nascer de novo não te fez bem.
-Senhora Lirdina, acabou de dizer que a situação da Liz é ruim. Não podemos perder tempo. – apelou Heler.
A bruxa, porém, continuava a fitar Gabriel com descarado interesse, tamborilando os dedos tortos e cheios de anéis das mãos sobre a mesa.
-Cedo ou tarde, você ia me procurar em busca de respostas, não é mesmo, Gabriel? Para que assim, pudesse finalmente voltar ao seu mundo.
O rapaz ficou perplexo e a jovem percebeu na hora o quanto aquelas palavras, para ela sem sentido, o estavam afetando.
-Acontece que você não vai voltar.
-Como sabe que eu não vou voltar, sua velha? – vociferou ele, num rompante de raiva.
-Perdoa ele, senhora Lirdina, ele não quis ser…
-Eu quis sim, Heler! – retrucou, ainda alterado – Você não faz ideia do que essa bruxa velha está dizendo! Eu não posso ficar nesse lugar! Minha vida não é aqui!
-Oh… aí está ele… intenso como uma tempestade. – proferiu Lirdina, abrindo outro sorriso desdentado – Se um portal para o seu mundo fosse aberto agora mesmo, você o atravessaria? Se eu pudesse mandá-lo de volta para casa sem cobrar nada, você partiria?
Num estalar de dedos, cujas unhas eram negras e longas, a bruxa fez surgir uma espécie de vórtice. Pareciam nuvens girando no sentido anti-horário, com imagens opacas surgindo no centro, tendo por volta de um metro e meio de diâmetro. Ele flutuava no ar e quando Gabriel se aproximou, viu seu apartamento e sua cama desarrumada, do jeito que se lembrava. Então, ele se afastou e encarou a velhota cheio de frustração.
-Não posso ir. – respondeu, como se houvesse um peso gigante em seus ombros.
-Ah, você pode, apenas não quer. – rebateu ela calmamente, esfregando as mãos e com isso fazendo sumir o vórtice – Você poderia ter atravessado esse portal e deixado todos os problemas desse mundo para trás, contudo, não consegue. Quando Kar te falou sobre a Escuridão do Sul e se vangloriou por causa do Escudo do Mundo, você não se sentiu confortável.
-Como sabe tudo isso? – perscrutou ele.
Heler não sabia para onde olhar ou o que pensar de tudo aquilo e não quis falar ou fazer nada, pois desejava saber mais.
-Só o que importa é que você poderia ter partido, mas ficou. A decisão, como sempre, é sua, quer seja boa ou ruim.
-Chega dessa baboseira, sua bruxa velha! Ajude a Liz e pegue todas as moedas que quiser. Ela está com ferimentos sérios na cabeça!
-Como se parece com ele… mas não seja tolo, meu rapaz! Esses ferimentos já estão cicatrizando. O verdadeiro problema está na aura dela, que aos poucos será corrompida até que ela se torne mais uma no Exército da Inveja…
Todas as velas se apagaram e o barraco ficou escuro, pois a porta estava fechada e as janelas lacradas. Gabriel sentiu a cabeça ficar cada vez mais pesada e, então, uma voz ecoou em sua cabeça.
Aquela voz gutural e macabra…
Entardio… hamasho…
-Ouviu isso?
-Não ouvi nada. – respondeu Heler – Cadê você?
-Aqui! – ele a puxou pelo braço e escorregou até segurar sua mão – Fica perto de mim. Assim eu sei que é você.
Ouviu-se sons de engasgos e, receoso, o rapaz foi andando até aonde sabia que estaria a porta, sem para tanto largar a garota. Quando finalmente conseguiu abri-la e a fraca luz entrou, voltou sua atenção para onde deveria estar a bruxa… e lá estavam seus olhos brilhando numa cor púrpura intensa, repletos de insanidade. Viu também as mãos da velha apertarem o próprio pescoço.
-O que está fazendo? Vai acabar se matando assim! – gritou ele.
Mas a mulher já estava começando a tremer e a revirar os olhos. Foi quando, mesmo rouca, ela disse:
-Procure... Erilla… — então as unhas começaram a invadir seu pescoço, perfurando a carne e fazendo minar muito sangue – Gabriel… Eichen…
Da mesma forma que o brilho se apagara nos olhos de Liz, também aconteceu com a bruxa da floresta, Lirdina, mas esta acabara por ter uma morte brutal e só quando seu corpo despencou sobre a mesa repleta de artefatos, que a sensação horrível e a voz sumiram da cabeça dele.
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