A pequena garotinha esfregava seus cabelos castanhos curtinhos, pois não conseguia entender o motivo da discussão entre seus pais. Olhava de um para o outro e esboçava uma expressão realmente fofa de confusão, porém estava longe de se preocupar como seu irmão mais velho, que parecia indignado e irritado, torcendo o nariz sempre que fitava a mulher bem-vestida, como quem está de viagem.

-Querido, pare, está assustando as crianças. – apelou, enquanto guardava alguns calhamaços na grande bolsa de couro – Será uma viagem rápida.

-Uma viagem rápida, Lara. Rápida coisa nenhuma! – protestou um Heitor mais jovem, que além da bigodeira, tinha negros cabelos lisos escorrendo e cobrindo toda a cabeça – Navegar pela Linha da Morte é loucura!

-Eu preciso pesquisar sobre aquele lugar, descobrir qualquer pista, qualquer peça que ajude a montar esse enorme quebra-cabeças. É isso que faço e você sabe disso.

-E seus filhos? Não pensa neles? – questionou, apontando para os irmãos parados na porta do quarto – O que vai acontecer se eles perderem a mãe? O que vai acontecer comigo se minha esposa… — tomou fôlego e embora estivesse vermelho como um pimentão, seus olhos aos poucos se enchiam d’água.

-Eu sempre penso em vocês, Heitor. Está sendo injusto! – respondeu com firmeza – Alguém precisa fazer alguma coisa sobre a Escuridão do Sul. É o que muitos dizem, mas ninguém tem feito nada sobre isso. As pessoas colocam muita fé em dois pilares de pedras, acreditando que serão suficientes para evitar o desastre que se abateu sobre Valtara. Se eu não pensasse em todos vocês, não teria motivos para ir até lá.

-Não tem que ser você, Lara! – suplicou, a segurando por ambos os braços e olhando para cima, de maneira a fitá-la nos olhos.

-Gabriel Eichen está reerguendo a antiga nação de Emberlyn e os outros reis e rainhas pelo mundo estão com suas atenções voltadas para ele. Não podem ignorar um homem que colocou Calendria de joelhos. Ninguém está olhando para a direção certa e isso é tudo o que o inimigo precisa para agir livremente.

-Você… você está certa, mas… mas…

-Querido… — disse ela carinhosamente, segurando em seu rosto e perpassando os polegares em suas bochechas – Pode, por favor, me apoiar?

-Se quer ir embora, melhor que vá mesmo! – gritou o garoto, chutando a porta e saindo correndo em seguida.

-Heron! Heron! – chamou a mãe, mas sem sucesso – Heler, vá atrás do seu irmão.

-Sim, mamãe. – respondeu a garotinha, mostrando os dentes em um sorriso.

Aquele dia nublado chegou ao fim, trazendo uma noite escura e fria sobre a Vila dos Farrapos. Muitos moradores estavam reunidos em frente a taverna, onde uma carroça repleta de bugigangas aguardava.

-Boa sorte, senhora Hallas! – desejou um idoso.

-Tome cuidado, minha querida. Oh, céus. – lamentou uma mulher corpulenta, enxugando um dos olhos com a borda do avental.

-Obrigado, seu Nondin. Pode deixar que tomarei todo o cuidado do mundo, Lurirta. – disse Lara, se esforçando para erguer a pesada bolsa e gesticulando com a mão quando um homem se apresentou para ajudá-la – Tudo bem, tudo bem, Nicolas. Eu consigo.

-Volte para casa, querida. – pediu Heitor, ficando nas pontas dos pés para beijá-la brevemente.

-Voltarei, meu amor. Eu prometo. – sorriu, então se abaixou para beijar a testa de uma inexpressível Heler – Seu irmão ainda está emburrado no quarto. Dê um beijo nele por mim, minha joia rara.

-Você vai voltar mesmo, mamãe?

Lara deixou que uma poderosa expressão fraternal se apossasse de suas belas feições.

-Eu vou. Voltarei para você assim que tudo acabar.

Ouvindo isso, Heler abriu um grande sorriso e a abraçou, erguendo a cabeça para cima.

-Deixa comigo, eu cuido do papai e do maninho!

-Oh, que corajosa! – disse Lara orgulhosa, acariciando os cabelos castanhos da filha e olhando dela para o marido – Até logo, meus amores.

-Que Nymira te proteja, querida.

-Até logo, mamãe!

A carroça foi puxada por dois cavalos através da estrada em direção ao sul e, concomitantemente, os moradores erguiam tochas, gritavam, acenavam e se despediam da senhora Hallas com muito afeto.

Os dias que se seguiram também foram nublados e só era possível ver o contorno do sol às vezes, enquanto não estava chovendo, sufocado atrás das nuvens. A pequena Heler ficava sentada perto da saída sul, brincando com calêndulas e olhando várias vezes naquela direção vazia. Sempre que alguém se aproximava da vila, ela levantava de supetão, mas logo voltava a se abaixar e a cada vez que isso acontecia, sua frustração aumentava. Então, chegou o dia em que uma caravana se aproximou, cerca de trinta homens e, destes, dois traziam estandartes bem diferentes daqueles usados pelos calendrinos. Eram pretos, mas com um grande sol vermelho bordado e, no centro, o desenho de um olho aberto.

Quando Heler olhou para os rostos deles e viu que pareciam cheios de raiva, se assustou e correu em direção a taverna, se encontrando com o seu pai e o seu irmão que estavam atrás do balcão.

-Vamos nos esconder! Vamos nos esconder! Rápido! – disse a pequena com urgência.

-O que aconteceu, minha filha?

-Fala logo, Heler! – cutucou um Heron zangado, mas seu rosto logo foi tomado pelo medo quando vários homens entraram no estabelecimento.

-Bem-vindo, senhores! O que posso servir para vocês? – adiantou-se Heitor, visivelmente nervoso.

Ambas as crianças ficaram cada qual de um lado do pai, enquanto um homem de estatura mediana, cabelo preto e curto, barba rala, vestindo roupas comuns e, no entanto, carregando uma espada chamativa na cintura, se aproximava com certa pressa deles. Os demais, de espadas em punho, ameaçavam os clientes da taverna, impedindo qualquer um de sair.

-Nem seu sangue poderia ser servido, seu calendrino desgraçado. – respondeu o sujeito, fuzilando Heitor com seus olhos cor de avelã – Eu ainda me lembro dos gritos das mulheres de Emberlyn quando foram arrastadas pelas ruas, algumas estupradas em suas casas, aos pés dos maridos mortos e na frente dos filhos pequenos. – contou, lançando um olhar de desprezo para as crianças e tão logo tornando a fitar o taverneiro, que as segurava mais perto de si.

-Por favor, nós nunca fizemos nada contra vocês. E todos sempre foram bem-vindos aqui na vila. – apelou Heitor.

-Foi exatamente isso que dissemos. – replicou o sujeito, apontando para o peito do outro – Mas adiantou alguma coisa?

-Por favor… — tentou Heitor outra vez, em tom de súplica.

-Quebrem tudo! – ordenou o homem – Coloquem fogo nessa vila imunda.

-Não! Por favor! Não! – desesperou-se o pai.

Com uma facilidade sobre-humana, aquele homem segurou o taverneiro pelo colarinho, o tirando de trás do balcão e o atirando violentamente contra um amontoado de cadeiras. Heron gritou, se agachou e cobriu os olhos, enquanto Heler correu até o agressor e o chutou no tornozelo.

-Ai! Ora, sua vadiazinha! – vociferou ele, a segurando pelo pescoço e a erguendo até conseguir olhá-la nos olhos. Para a sua surpresa, mesmo que estivesse sufocando e cheia de lágrimas, aquela garotinha tinha um olhar feroz que não combinava com a sua pouca idade – Gostei de você. Talvez tenha alguma utilidade além de ser uma mera escrava, só que eu não tenho tempo para lidar com crianças agora. – e a nocauteou com um tapa no rosto.

As chamas se alastravam em vários pontos da vila e alguns corpos podiam ser vistos em uma rua outrora tranquila. A fumaça já se confundia com aquela tarde nublada, tornando tudo ainda mais cinzento e dando um toque a mais de desespero em um cenário carente de esperança.Vários homens carregavam para fora os barris cheios da taverna, enquanto outros se preparavam para incendiá-la.

Quando Heler abriu os olhos, mal conseguia enxergar o que estava em volta. Sentia uma forte dor em todo o rosto e no pescoço, com os sentidos atordoados, sem saber onde estava e, principalmente, como tinha ido parar ali. Suas mãos e suas pernas estavam amarradas por cordas, mas não só isso, sentia pequenos puxões vindos tanto pela frente, quanto por trás, além disso, era como se estivessem em movimento, pois o chão trepidava sem parar.

-Heler… Heler, você está bem? – questionou uma fraca voz, porém inconfundível.

-Papai? Papai! – respondeu ela, se empurrando para trás até sentir o calor dele.

-Minha filha! Obrigado, Nymira! – agradeceu numa mistura de choro e alegria – Heron está na sua frente. Amarraram todos os sobreviventes da vila e nos jogaram nessas carroças. Não sabemos o que está acontecendo lá fora.

-Por que estão fazendo isso, papai? A gente não fez nada pra eles. – disse Heler inconformada.

-Porque são uns miseráveis! – retrucou Heron irritado.

-Shhh! Pare com isso! Vão te escutar! – repreendeu Heitor.

Foi então que a carroça parou, para a mais profunda aflição de todos ali que, em burburinhos, temiam pelo que poderia acontecer se, de fato, as palavras do Hallas primogênito tivessem sido ouvidas.

-O que significa isso? – questionou uma voz grossa, acompanhada pelo ruído forte de ferro chacoalhando no ritmo dos passos constantes e cada vez mais próximos.

-São os vermes da Vila dos Farrapos. Pensei que poderia mostrar a eles um pouco do sofrimento que nos causaram durante séculos. – respondeu aquele mesmo homem da taverna.

-E como o sequestro de pessoas inocentes vai curar a dor de Emberlyn, Materazzo?

-Não podemos deixá-los sem punição, general! – retrucou indignado – Usaremos essas pessoas como exemplo para os rebeldes da capital.

-Atacar vilas pequenas e violentar seus moradores não é o tipo de exemplo que Nova Emberlyn deve dar! – contestou o homem de maneira impetuosa.

-Você disse que eles responderiam através do medo!

-Sim, eles responderão através do medo! Quando colocamos seus governantes de joelhos e mostramos o que pode acontecer aos poderosos que ficarem em nosso caminho, deixamos claro que não terão outra escolha senão aceitar sua nova realidade. E aqueles que quebrarem as regras da nova ordem, esses também sofrerão as consequências. Me corrija se eu estiver enganado, contudo, as pessoas dessa vila não quebraram nenhuma regra.

-Tsc… Você está ficando muito mole, Gabriel.

-Experimente repetir isso, Materazzo… e descobriremos se você está certo. – proferiu Eichen sem elevar a voz e, ainda assim, soando terrivelmente ameaçador.

Houve um perturbador instante de silêncio, até que Materazzo finalmente disse mais comedido:

-Perdoe minha insolência, general.

-Libertem todos imediatamente! Os levem de volta para a vila e reconstruam tudo o que destruíram. A partir de agora, todos vocês estarão sob a minha supervisão direta.

-Sim, general! – responderam vários homens.

Então, a luz invadiu o interior da carroça e Heler teve dificuldade para se adaptar ao que estava vendo. Quando conseguiu, notou que dois homens, outrora violentos, estavam ajudando as pessoas a desembarcarem e os desamarrando. Quando, depois de Heron, finalmente chegou sua vez, ela acabou escorregando e caindo de pé no chão… ou quase isso… pois quando se deu conta, estava pisando em um pé várias vezes maior do que o seu.

-Perdoe a minha filha, senhor Eichen! Ela é atrapalhada! Por favor, perdoe-a! – desesperou-se o pai de mãos juntas, apesar de já estar desamarrado.

Heler ergueu a cabeça para cima e, lá no alto, viu um rosto grande, a princípio assustador, exceto pelo par de olhos verdes, como se houvesse uma floresta no interior deles. Aliás, era a primeira vez que tinha visto uma armadura como aquela, tão bonita e ao mesmo tempo assustadora. Era negra como a escuridão.

-Muito atrapalhada. – concordou Gabriel, abaixando-se até a encarar de igual para igual – Como se chama?

-Heler, senhor Eichen. -respondeu a garotinha, piscando involuntariamente mais do lado que tinha sido esbofeteada.

-Está doendo? – perguntou ele ao se dar conta, estreitando os olhos.

-Não. Meu pai apanhou mais, preciso estar bem para tomar conta dele. – disse a menina sem cerimônias.

O homem esboçou um quase imperceptível sorriso e afagou a mão sobre a cabeça dela, bagunçando seus cabelos curtinhos.

-Seus amigos não vão mais machucar a gente? Você deu uma bela bronca neles.

-Não, eles não vão, tem a minha palavra, Heler.

Ela percebeu quando Materazzo torceu o nariz e riu baixinho, fazendo o homem bufar de raiva. Já Gabriel, outra vez de pé, encarou, sério, um Heitor apreensivo, com um corte na cabeça, outro na altura da testa e várias escoriações nos braços.

-Certas coisas não podem ser reparadas, mas aquilo que pudermos, nós faremos. Sua filha, o senhor e todos aqui estão seguros.

-Obrigado, majestade! – disse o taverneiro e o mesmo disseram vários dos moradores, muitos ainda em choque com o tratamento dado por alguém cujos boatos não eram nada bons.