O Rei Das Trevas (0)
6 Capítulo 6: Ele chegou!
Capítulo 6: Ele chegou!
Aquele belo teto abobadado se erguia alto, com todos aqueles arabescos dourados e filetes decorativos das mais variadas cores brilhando intensamente. Em seu centro, um lustre imenso, com inúmeras chamas amareladas brilhando em seu interior, realçava a beleza conjunta dos móveis: um armário gigante, amarronzado e que ocupava quase toda a área da parede mais à esquerda, dois pilares que cercavam uma bela estátua prateada, a qual ilustrava um ser vivo — provavelmente do sexo feminino — que possuía longos cabelos que desciam até os seus pés e trajava um vestido longo e branco, ocupavam a parede da extremidade oposta. Apresentando olhos pequeninos e orelhas pontudas, o ser vivo representado na estátua tinha uma beleza sem igual e carregava um grande escudo atado ao seu braço esquerdo.
Toda a beleza do aposento conseguiu, por um momento, interromper os numerosos pensamentos que borbulhavam no interior da cabeça de Seluen. Os criados do senhor Bernysh tinham recebido a ordem de preparar aquele aposento para ela e, a julgar pelo aspecto, tinham cumprido tal tarefa com bastante sucesso. O cheiro era mais do que agradável, algo que lembrava a mistura de doces perfumes e que fazia a Bour ter vontade de respirar mais do que era necessário, apenas para que aquele maravilhoso odor pudesse entrar pelas suas narinas. A cama era a mais confortável sobre a qual já havia deitado em toda a sua vida. Era tão ampla que cerca de quatro seres vivos, de uma altura relativamente média, podiam dormir ali, juntos, de uma maneira bastante confortável. Os lençóis brancos e muito limpos emanavam aquele mesmo doce cheiro que tomava conta do restante do aposento e uma fina linha de luz atravessava a cortina púrpura semiaberta da alta e estreita janela à frente. Ao lado da cama, uma mesa de cabeceira escura e brilhante servia como suporte para duas velas de chama azulada além de uma chave dourada, e mais ao lado, um cabide onde estava pendurado o lindo vestido branco de Seluen. Trajava agora uma longa camisola, igualmente branca, algo providenciado também pelos criados de Bernysh.
Ainda não conseguia acreditar naquela moradia. Era realmente uma mansão, fantástica, com decorações por todos os cantos. Impressionara-se quando chegara, mas estava com tanta fome que não reparara nos detalhes tanto quanto reparou quando Bernysh a conduziu, junto com seu filho e cunhado, para os seus cômodos.
Tinham abandonado aquele aposento no qual comeram o Prick, localizado no quarto andar, e o esplendor já começara no corredor. Um tapete vermelho, com contornos dourados nas laterais, ocupava o chão de ponta a ponta e, em uma das extremidades, estava localizada uma estátua alta que chegava a tocar o teto e que, nitidamente, representava uma antiga senhora pertencente à raça dos Krullian: cabelos que chegavam a praticamente metade das costas estavam presos num rabo de cavalo e seu nariz era ainda maior e mais curvo do que o de Bernysh. O material com o qual havia sido fabricada apresentava uma cor azul idêntica à cor de pele natural da raça. Quando passaram por ela e começaram a descer a escadaria que desembocava no terceiro andar, o pequeno Lynop sentira vontade de perguntar quem era aquele ser, mas ficara tímido e permanecera calado.
Desceram pelos ocos degraus, os quais, por sua vez, apresentavam pedras preciosas cravejadas nas laterais. Seluen achava aquilo tudo muito bonito, mas, por vezes, sentia-se com medo de quebrar alguma coisa ali dentro, pois tudo o que via parecia custar uma verdadeira fortuna. No terceiro andar, um corredor mais amplo — tanto em largura quanto em comprimento -, com portas e mais portas espalhadas por ambas as paredes e, acima delas, quadros e mais quadros representando cenas de guerras, diversos seres vivos e mais criaturas fantásticas, tudo com uma beleza inacreditável; até mesmo os seres e criaturas mais feias ficavam belas naquele conjunto espetacular de pinturas.
Continuaram descendo mais degraus até que, finalmente, chegaram no segundo andar. Não se depararam com um corredor e sim com um salão bem grande de chão esbranquiçado e limpo e paredes da mesma cor. No centro, uma mesa grande e marrom sobre a qual se encontrava uma grande esfera transparente. Os três Bours — até mesmo o rabugento Hacy-Jul — ficaram curiosos para saber o que ela era, mas ninguém falou nada.
— Ali dentro encontrarão os aposentos de hóspedes que mandei meus criados prepararem — Bernysh apontava para a única porta do andar, ao fundo do salão. — Gostaria de saber se desejam mais alguma coisa antes de descansarem.
Seluen já havia ficado um tanto sem graça de pedir qualquer coisa, mas se tinha realmente necessidade de lhe pedir algo, aquela era a hora.
— Senhor Bernysh, se nos permite, eu gostaria de me lavar antes de descansar — disse muito timidamente.
— Quanto a isso não se preocupe, senhora. Podem se banhar dentro dos aposentos, existem compartimentos específicos para tal. Acho que seria um pouco cansativo demais para nós, moradores, se tivéssemos que sair de nossos quartos sempre que desejássemos nos lavar, não acham?
Seluen e Lynop riram um pouco, mas Hacy-Jul se manteve sem reação. Sem mais nenhuma palavra, Bernysh os conduziu através daquela porta e adentraram em um corredor bastante semelhante àquele que se podia encontrar no quarto andar. Em cada parede, estavam presentes três portas e, ao fundo, uma outra, maior do que as demais.
— Bem, ali está o aposento que designei para o pequeno Lynop, aquele é o da senhora Seluen e, por fim, o do senhor Hacy-Jul — disse, apontando, respectivamente, para a porta da esquerda mais ao fundo e para as duas primeiras da direita — Naquele aposento — e apontou para a porta maior, ao fundo — poderão encontrar todos os dez criados que designei para atendê-los, não apenas Taars e Mertry, mas todos eles poderão ajudá-los, logo, caso precisem de algo, é só bater naquela porta.
— Creio que não será necessário, senhor Bernysh — Seluen falou educadamente, sempre querendo incomodar o mínimo possível. — Bem... agradeço mais uma vez por tudo o que está fazendo por nós.
— Disponha, senhora. Se permitem — e o Krullian fez uma reverência breve. — Ah, já estava me esquecendo de lhes contar. As portas já estão abertas e tomei a liberdade de pedir aos meus criados que deixassem as chaves dos respectivos aposentos nas mesas de cabeceira que encontrarão ao lado das camas e também os ordenei que preenchessem os armários com vestimentas para que possam se trocar, caso seja necessário. Agora, irei me retirar. Podem ficar totalmente à vontade e espero que tenham um ótimo descanso.
Bernysh se virara e saíra do corredor, fechando a porta ao sair. Hacy-Jul não dirigira uma palavra sequer aos outros dois Bours e seguira para uma das portas à direita, enquanto que Seluen e Lynop ficaram um pouco parados no corredor.
Seluen não estava tranquila com toda aquela situação, naturalmente, mas não era apenas com Lark que estava preocupada, existia um outro assunto que atormentava os seus pensamentos.
— Aguarde um momento, filho — dissera a Lynop e o deixara ali, parado no corredor.
Correra rapidamente, abrira a porta pela qual havia entrado anteriormente e fora capaz de encontrar Bernysh ainda no salão onde se localizava a mesa com a esfera transparente.
— Senhor Bernysh — gritara.
O Krullian se virara rapidamente.
— Senhora?
— Posso conversar com você? — Seluen se encontrava um pouco ofegante.
— Sim, mas... sobre o que exatamente? — Bernysh estranhava a repentina ação de Seluen.
— Bem, é que... o senhor conhece bem o temperamento de Hacy-Jul, certo? E estou com medo do que ele possa fazer, caso acabe se descontrolando. Viu como se comportou e o que disse enquanto estávamos comendo.
Bernysh soltara um pequeno risinho.
— Entendo perfeitamente esta sua preocupação, senhora Seluen, mas asseguro-lhe de que ela é desnecessária. Toda a mansão está cercada de guardas muito bem treinados para nos proteger caso haja um eventual ataque de Logrus. Ninguém entra e ninguém sai sem passar por eles antes. E isso não exclui Hacy-Jul. As portas de entrada estão trancadas e apenas eu e os guardas temos as chaves e, sabe, mesmo que Hacy-Jul acabe conseguindo obter as minhas chaves, terá que passar por todos os guardas lá fora. Portanto, eu lhe asseguro, fique tranquila, pois, mesmo que queira, ele não vai fazer nada de maneira precipitada.
Seluen sorrira um pouco de maneira tímida, aquele sorriso que o Krullian tanto admirava.
— Entendo... agradeço mais uma vez senhor.
Bernysh lhe dera um carinhoso tapa no ombro.
— Tudo dará certo no final, senhora Seluen, garanto. — o Krullian disse muito educadamente. — Lark sobreviverá, estou certo disso. Não sei quanto ao destino da CIV, mas confio que vocês voltarão a viver confortavelmente, como uma família comum.
Seluen acenara com mais um sorriso e Bernysh desempenhara mais uma reverência.
— Com a sua licença.
A Bour permanecera olhando o Krullian se distanciar por alguns momentos e depois regressara ao corredor, para o lado de seu filho. Acariciara os seus cabelos cacheados e alaranjados da maneira mais carinhosa possível.
— Queria que ainda fosse pequeno para que pudesse pegá-lo e mantê-lo no meu colo durante todo o tempo.
A expressão do pequeno era bastante triste.
— Não quero dormir sozinho, mamãe.
— E nem precisa.
Agarrara-o pelo braço e o levara para uma das portas à direita. Adentrara o aposento e deixara o filho ali, deitado naquela confortável cama e se dirigira para uma pequena porta escura à direita, por trás da qual se localizava o banheiro sobre o qual Bernysh havia falado. Despira-se e lavara cada mínima parte de seu corpo com a água quente que enchia a grande banheira, secara-se com uma toalha perfumada que se encontrava à sua disposição, saíra e escolhera uma bela camisola branca de dentro do grande armário marrom da parede da esquerda.
E, agora, ali estava, acariciando o seu filho, o seu bem mais precioso. Daria banho nele, mas quando Seluen regressara à cama, ele já estava totalmente adormecido.
— Tudo dará certo no final, meu filho — disse num tom de voz bastante baixo, ainda que não acreditasse totalmente naquilo. Desferiu um longo e carinhoso beijo sobre aqueles alaranjados cachos.
Olhou para o teto abobadado e ficou admirando-o por alguns momentos. Pensou em toda aquela situação, na CIV, no seu amado Lark, em como o senhor Bernysh estava sendo gentil e também pensou em Hacy-Jul...
O aposento designado ao irmão de Lark era exatamente igual ao de Seluen, tão amplo quanto, também com um banheiro, com uma vasta cama e com aquele mesmo odor doce. A única diferença era que não havia ali nenhuma estátua, mas, por outro lado, o chão era coberto por um lindo tapete, o qual representava uma grande família de seres azulados e com narizes longos sentados ao redor de uma grande mesa preta. Hacy-Jul o notara momentos depois de ter entrado no aposento e poderia jurar que ali estavam representados todos os seres vivos pertencentes à raça dos Krullian a julgar por aquela imensa quantidade de seres.
Não tomara nenhum banho quando chegara ali, deitara-se direto na cama. Estava furioso, mas cansado, e ficou satisfeito por poder relaxar cada membro de seu corpo. Dormiu por pouco tempo, mas o mesmo já havia sido suficiente para que sonhasse...
Havia sido um sonho ruim, na verdade, um pesadelo. Lark se confrontava com inúmeros e imensos seres vermelhos, os quais rodeavam-no por todos os lados. Debatia-se e atacava e debatia-se mais uma vez, porém nada adiantava. Os Logrus pareciam não ter fim e pareciam também ser imortais. Aos poucos, o Bour indefeso estava sendo trucidado. Primeiro o braço esquerdo foi arrancado e uma onda de altos risos daqueles cruéis monstros eclodiu. Foi a vez do braço direito e mais um conjunto de gargalhadas. Lark gritava cada vez mais alto e Hacy-Jul presenciava aquela cena há apenas alguns poucos metros. Tentava se mexer, tentava avançar para ajudar o seu irmão, mas era inútil, ele não era capaz de sair do lugar.
Foi quando os ataques dos Logrus cessaram e um deles, alto, com orelhas pontudas, bastante musculoso e de cabelos loiros, se aproximou das costas de Lark, que agora se encontrava ajoelhado, com uma quantidade absurda de sangue amarelo saindo pelos locais da onde, anteriormente, saíam dois braços. Chorava intensamente, enquanto que Hacy-Jul continuava, desesperadamente, tentando se mexer, mas continuava sendo inútil. O Logru musculoso e loiro, então, agarrou Lark pela cabeça e o ergueu a, no mínimo, uns três metros do chão. Pressionou ambas as mãos e finas linhas de sangue começavam a preencher o rosto do Bour, e Hacy-Jul ainda se mantinha imóvel.
As imensas mãos vermelhas fizeram ainda mais força e esmagaram a cabeça de Lark, a qual se transformou numa verdadeira massa de carne e sangue, que escorreu por entres os braços do Logru. A mais sonora das gargalhadas começou a ecoar enquanto Hacy-Jul gritava e chorava...
Ergueu-se da cama berrando com todas as suas forças e, por um rápido momento, achou que a cortina que fechava a janela à frente era um Logru e levantou-se rápido, assumindo uma postura de combate, quando realmente voltou ao mundo real e percebeu que estava dentro de um dos quartos daquela imensa mansão dos Krullian.
Balançou um pouco a cabeça em sentido negativo, tentando, inutilmente, expulsar todos aqueles pensamentos macabros. Andou lentamente de um lado para o outro dentro do aposento, sem saber muito o que fazer.
Não posso deixar que nada aconteça a Lark, pensou e estava determinado a fazer o que fosse preciso para evitar que qualquer coisa de ruim se abatesse sobre seu irmão. Desferiu uma rápida olhada para a chave dourada que repousava sobre a sua mesa de cabeceira.
Sua barriga, suas costas e seu rosto ainda doíam devido aos golpes que recebera e a tonteira ainda não havia passado por completo, mas Lark já avançava em velocidade na direção do Porto dos Pescadores. Gostaria de ter ficado muito mais tempo descansando, mas faria isto uma vez que estivesse na Cidade de Roul, longe dos Logrus; naquele momento não podia relaxar, era obrigado a se encontrar com os seus amigos.
Enquanto corria se desviando das árvores e dos arbustos — os quais pareciam ficar cada vez mais numerosos — sentiu pequenos objetos dentro de um dos bolsos do seu calção sujo. Relembrou a cena daquele imenso clarão esbranquiçado acompanhado do estrondo da explosão, quando então retirou mais um minúsculo objeto cinzento e quadrado com um círculo avermelhado no centro e o admirou.
Antes de invadirem a Morada dos Logrus, a organização CIV havia ordenado a compra de inúmeros itens para que pudessem auxiliar na missão. Alguns equipamentos mais simples como adagas, facas, escudos pequenos, ombreiras, placas de peito e cotas, além de ervas medicinais e poções que, quando ingeridas, eram capazes de provocar os mais variados efeitos... e as Bombas LW.
Certamente, aquelas bombas faziam parte do conjunto de itens que apresentava o nível tecnológico mais desenvolvido dentre aqueles que tinham sido comprados pela organização. Eram bombas especiais fabricadas exclusivamente por seres vivos da raça dos Pylomanis, habitantes da grande Cidade de Parak-Shu, localizada no extremo norte da Dimensão de Luk. Podiam explodir no momento em que eram lançadas, mas eram mais utilizadas por espiões principalmente devido ao fato de que podiam ser programadas, o que significava que ela também era capaz de explodir somente depois de um determinado tempo estipulado pelo dono. Isto era muito útil quando se desejava, por exemplo, preparar alguma emboscada para um inimigo — exatamente como Lark havia feito — e, tal item, portanto, era de extrema importância em uma missão de roubo a uma fortaleza como a Morada dos Logrus.
Os Pylomanis eram seres vivos que nunca tomavam partido de algum combate, mas estavam envolvidos com conflitos e guerras, mesmo que indiretamente. Com um nível de inteligência bastante raro, a sua fama havia se espalhado com velocidade pelo fato de os seus produtos sempre serem fabricados com um considerável nível tecnológico, o que, naturalmente, tornava os seus preços muito mais elevados do que o preço de uma espada ou de um escudo, por exemplo. As suas bombas especiais se dividiam em três tipos de acordo com a capacidade destrutiva que possuíam. As utilizadas por Lark — e também pelos demais Bours durante a invasão à Morada — eram Bombas LW, de "Lae Wac", que significava "Baixa Potência" no idioma da raça dos Pylomanis. Existiam também as Bombas QW e AW, cujas iniciais eram provenientes, respectivamente, de "Qif Wac" e "Af Wac", que significavam "Média Potência" e "Alta Potência".
As Bombas LW, quando detonadas, eram capazes de provocar explosões que chegavam a afetar um diâmetro aproximado de cinquenta metros, ou próximo disso. Não era considerada lá muito efetiva no que dizia respeito ao poder destrutivo, mas era capaz de tirar facilmente a vida de um ser vivo caso este fosse atingido em cheio pela explosão. Já as Bombas QW apresentavam uma potência consideravelmente maior e poderiam colocar abaixo a Morada dos Logrus sem deixar absolutamente nada dela para contar história, fazendo até mesmo com que os seus escombros ficassem transformados em cinzas. Entretanto, nada se comparava com as Bombas AW. Apenas uma, e a Cidade de Lunn inteira voaria pelos ares em um simples piscar de olhos e, certamente, não haveria chances de sobrevivência para qualquer ser vivo que estivesse dentro da cidade.
Devido ao elevado grau de periculosidade das Bombas QW e AW, elas não eram comumente fabricadas pelos Pylomanis. Quando algum ser vivo desejava obtê-las, tinham, primeiramente, que encomendá-las. Os seus preços eram extremamente elevados, sendo muito superiores ao de Bombas LW, por isso, quando a organização CIV ordenara a compra dos itens que seriam usados na missão, compraram apenas a de potência mais baixa.
A potência destrutiva das bombas, entretanto, não estava apenas relacionada à explosão em si. A fumaça gerada depois da detonação era consideravelmente tóxica para o organismo da grande maioria de seres vivos, logo, mesmo que houvesse sobreviventes da explosão, era quase certo que a morte viesse apanhá-los por intermédio da intoxicação e o nível de toxicidade também era diferenciado dependendo da classificação da bomba, sendo crescente da LW para AW.
Era bastante comum que os Pylomanis espalhassem os seus produtos por diversas regiões da Dimensão de Luk através dos seus representantes comerciais e fora justamente de um deles que a CIV comprara as Bombas LW. Não havia nenhum representante na Cidade de Lunn, portanto a compra havia sido feita na pequena Cidade de Uholla — a mesma em que Amn havia trabalhado como vendedor antes de entrar para a vida de criminoso — onde encontraram dois representantes da raça e deles, compraram uma considerável quantidade daquelas bombas. Tinha sido, de longe, o maior investimento da CIV nos últimos tempos, afinal, o fato de o tipo LW ser o mais barato dentre os três tipos de bomba vendidos pelos Pylomanis, não significava que o seu preço era baixo.
Lark ficou satisfeito por não ter usado todas na missão, caso contrário, era provável que já estivesse morto e com seu cadáver devorado por aquelas inúmeras bocas nojentas dos Logrus. Pensou neles e, de relance, lembrou-se do Comandante da equipe que acabara de enfrentar...
Ele não havia saltado assim como os demais, ficara lá embaixo, tramando alguma coisa que não teve tempo de colocar em prática, pois a explosão fora mais rápida. Mas será que ele foi atingido o suficiente? Lark estava mais do que certo que os demais estavam mortos, ou no mínimo, tão feridos que a morte seria apenas uma questão de tempo. A explosão havia sido violenta e acontecera há centímetros deles... mas este não era o caso do Comandante. O maldito era o mais forte daquele bando e o que ficara mais longe da bomba, Lark definitivamente não sabia o que poderia ter acontecido com ele. Talvez estivesse muito ferido, talvez estivesse apenas com alguns poucos arranhões mas, com sorte, poderia estar morto.
Ainda teve a fumaça, Lark se recordou. Havia se esquecido por completo da toxicidade da fumaça gerada a partir da explosão da bomba, mas partira rapidamente do lugar, então não fora capaz de saber se o Comandante ficara envolto por aquela densa nuvem cinzenta ou se ele escapara rapidamente dali, logo a sua dúvida se realmente estava a salvo daquele brutamontes permaneceu atormentando-o.
O incômodo, entretanto, desapareceu de seu interior quando os seus ouvidos foram invadidos pelo barulho das ondas. Agora, o Porto dos Pescadores estava perto, tinha certeza. Sentiu-se mais aliviado e esperançoso.
O silêncio que abalava o porto era acompanhado de pura tensão. Inicialmente, Amn, Juhs e Krink achavam que a preocupação de Luyul era um tanto exagerada demais, porém, os três estavam começando a concordar com a ideia de que algo realmente devia ter acontecido ao Lark, caso contrário, não estaria demorando tanto.
Luyul permanecia de braços cruzados, seus olhos nem piscavam e muito menos se moviam, estavam vidrados no píer. Marrncifer o observara a cada instante. O seu amado tinha um temperamento difícil, ela sabia, e estava extremamente apreensivo com a ausência do amigo. Desejava ir falar com ele, desejava acalmá-lo e tentar fazê-lo se sentir melhor, mas sabia que qualquer palavra errada, mesmo que fosse pronunciada involuntariamente, poderia abrir as cortinas para uma discussão, já que ele estava envolto pelo nervosismo, e certamente uma briga naquele momento era o que menos se necessitava, portanto segurou-se ao máximo para ficar quieta...
...Mas foi inútil. Arriscou-se a entrar numa discussão, mas não podia deixá-lo daquele jeito sem lhe dar sequer uma única palavra de apoio:
— Querido, o que Amn disse antes está certo — começou cautelosamente. — Lark chegará aqui em breve, tenha fé e confiança, mesmo que ele tenha encontrado inimigos pelo caminho, ou algo assim...
— Eu já sei de toda essa conversa, Marrncifer — Luyul a interrompeu rispidamente.
Marrncifer ficou mais nervosa do que já estava. Havia aborrecido-o ainda mais com suas poucas palavras e esperou qualquer coisa dele naquele momento: que começasse a brigar com ela, que começasse a elevar o tom de voz e chegou até mesmo a considerar o caso mais extremo de que ele começasse a xingá-la de algo... mas jamais seria capaz de imaginar que pudesse acontecer o que aconteceu.
Vislumbrou um brilho diferente nos olhos de seu querido companheiro e, por um momento, não conseguiu identificar a fonte de tal brilho, mas quando conseguiu, gelou por dentro. Algumas poucas lágrimas tinham começado a brotar de seus olhos e não demorou muito até que escorressem através de suas bochechas. Marrncifer ficou destruída por dentro, afinal, jamais havia visto Luyul chorar. O momento em que chegara mais perto fora no nascimento de Diell, mas nem naquela ocasião ele havia derramado lágrimas.
— Você... — ela começou, mas não soube que palavras poderiam dar continuidade àquilo que queria dizer, ou melhor, não sabia, ao certo, o que realmente queria dizer.
— Muitos de nós já morreram, amor... — começou ele com uma voz um pouco mais rouca do que o normal e com leves soluços entre as palavras.
— Sim — ela começou a se recompor do susto aos poucos. — Você disse que foram traídos na missão e, por isso, quase toda a equipe morreu... não tiro a razão de você estar preocupado, querido, mas de nada adiantará ficar tão apreensivo...
— Não é só a esta missão que me refiro — ele a interrompeu. — Estou falando de todos os que já morreram. Não se lembra de quando Diell nasceu?
E como eu poderia esquecer? Havia sido uma época extremamente difícil, marcada profundamente pela guerra e por um grande número de mortes.
Já fazia tempo que existia uma animosidade entre a raça dos Tyu e as raças um pouco mais pobres da Cidade de Lunn, dentre elas, a raça dos Bours. Os Tyu sempre desejavam ter o privilégio sobre a caçada das criaturas da cidade e, isto, por vezes, irritava consideravelmente as demais raças. Acordos eram feitos e desfeitos, discussões ocorriam eventualmente, e o que sempre prevalecia era a competitividade em relação à raça Tyu.
Eventualmente, entretanto, tinham começado a ocorrer alguns acontecimentos especiais para que tal animosidade pudesse começar a diminuir e, de início, tais acontecimentos estavam dando muito certo. Reuniões em que o fruto da caçada era dividido igualmente foram se tornando cada vez mais frequentes e, com o passar do tempo, aquela rivalidade fora diminuindo.
Entretanto, havia sido em uma das reuniões em que toda a história daquelas raças mudaria. Dividiam a carne de uma grande criatura morta recentemente que recebia o nome de Shie, algo que ficava entre o boi e o elefante, porém com uma carcaça muito maior do que estes dois animais juntos, um nariz mais ou menos longo e orelhas muito proeminentes, com uma bela cor azulada brilhante... dera origem a uma carne muito saborosa e suculenta. Enquanto comiam, os Tyu e as demais raças confraternizavam de maneira harmoniosa até que chegou um pequeno grupo de raças mais pobres com mais carne de Shie e ambos começaram a comê-la. Naquela ocasião, Luyul e Marrncifer já se conheciam e ela já até estava grávida, ainda que tivessem se conhecido há pouco tempo — fora em uma daquelas inúmeras reuniões que eram realizadas que os dois começaram a conversar e, rapidamente, começaram a gostar bastante um do outro — e eles também estavam ali naquela confraternização.
A carne acabou, todos tinham ficado muito satisfeitos. Um tempo pequeno se passou, algumas mais caçadas aconteceram, porém, nenhuma destas havia sido capaz de gerar comida o suficiente para que uma nova e grande reunião como aquela voltasse a acontecer.
Então, foi quando os Bours e as demais raças mais pobres viram praticamente tudo aquilo que tinham ser destruído. Os Tyu logo anunciaram que um grande número deles havia morrido por envenenamento e tiveram a certeza absoluta de que o mesmo fora proveniente da tal carne de Shie. Tanto os Tyu quanto as demais raças sempre tinham cuidado de analisar o fruto da caça cautelosamente antes de comerem, justamente para que a saúde não fosse prejudicada, portanto acusaram de que o envenenamento havia sido parte de uma trama daquelas raças mais pobres que — segundo os Tyu — ainda nutriam um grande sentimento de animosidade e inveja. As outras raças, inclusive a dos Bours, negaram tal fato, mas já era tarde demais. As confraternizações, as reuniões e as ações de boa convivência tiveram um fim definitivo e amargo quando os Tyu caíram sobre os demais seres com tudo o que tinham.
Não apenas os Bours, mas quase todas as demais raças de seres vivos começaram perdendo aquela guerra, mas, apesar de sua pobreza, não eram fracos e estavam em maior número e não demorara muito até que os Tyu começassem a recuar e no fim, com a informação especial de um espião secreto ligado às demais raças, o conflito terminara e a raça Tyu fora expulsa da Cidade de Lunn. Os Bours e os demais acabaram saindo vitoriosos — se é que aquilo podia ser chamado de vitória — mas suas casas, seus bens e quase todo o resto havia se perdido por causa da guerra e, nisto, Luyul e Marrncifer estavam inclusos. Até então, não se podia dizer que levavam uma vida boa e confortável, já passavam por dificuldades, mas nada se comparava com a pobreza extrema que se abateu sobre eles ao término daquela guerra, até porque, fora exatamente naquele momento que o precioso Diell chegara à Dimensão de Luk. Marrncifer ficara grávida pouco antes de a guerra começar e o pequeno Bour nascera um pouco depois de ela acabar... era como se sua gestação definisse exatamente o tempo daquele conflito.
A partir daquele momento, as dificuldades só aumentaram e aumentaram... até que, um tempo depois, a proposta de uma organização criminosa chegou como uma ponta de esperança de que suas vidas pudessem melhorar. Até mesmo para que seu quase recém-nascido filho não passasse por severas necessidades, Marrncifer e Luyul aceitaram servir à organização como criminosos, ainda que contra a vontade. Inicialmente, tinham certeza de que ficariam ali por pouco tempo, imaginavam conseguir alguns recursos apenas para que conseguissem reconstruir suas vidas... no entanto, agora, tempos depois, ali estavam, com Diell bastante crescido, mas ali, no Porto dos Pescadores, fugindo da raça dos Logrus devido à mais uma missão da CIV, à mais de uma das inúmeras missões da CIV.
A lembrança de Marrncifer do período de guerra invadiu a sua mente e as lágrimas vieram em maior abundância do que as de Luyul. Gostaria de lhe falar mais alguma coisa, mas não conseguiu pensar em nada útil, então ele prosseguiu:
— Desde aquela época, querida, passamos por inúmeras dificuldades. Sou grato a Raikus por ainda termos as nossas vidas e, melhor, a de nosso filho, mas ainda assim... eu sonho com o dia em que poderemos viver em paz, eu realmente sonho.
Marrncifer chorava mais, porém, se esforçava para que seu choro fosse o mais silencioso possível. Conversavam num tom de voz baixo e um pouco mais distante dos outros, não era do seu desejo que todos ali vissem que os dois choravam.
O ruído das águas aumentava e agora a sua visão já era invadida por aquele belo horizonte esverdeado. Ao longe, via o princípio do píer. Um sorriso de orelha a orelha se abriu no rosto de Lark e, momentaneamente, a dor que tomava conta de seu corpo pareceu desaparecer por completo... até que veio o susto. Escutou um estrondo ensurdecedor e um tremor ligeiramente forte na terra, o que o fez parar de correr no mesmo instante. O que foi isso?, se perguntou, mas já sabia.
Há vários metros atrás, como se fosse uma besta furiosa — o que não deixava de ser verdade — Ryumann avançava com verdadeiros saltos, pisando com força no chão e derrubando algumas árvores à medida que seguia. Sua expressão era de uma fúria intensa, a baba amarelada podia ser vista em grande quantidade por todo o comprimento de seus lábios e seus pontudos dentes estavam extremamente à mostra.
O Bour assustou-se, virou-se na direção do Porto dos Pescadores e, mais uma vez, começou a correr alcançando o máximo de velocidade que conseguiu. Como eu imaginei, o desgraçado sobreviveu! E deve estar vindo para o porto numa velocidade absurda, precisamos ir embora rápido!
Não demorou muito até que Luyul percebesse uma estranha movimentação lá no início do píer. Secou rapidamente as suas lágrimas com as costas de suas mãos e quase não conseguia acreditar naquilo que estava vendo.
— É ele... — murmurou quase para ele mesmo, mas Marrncifer estava ao seu lado, portanto conseguiu ouvir e, então, também dirigiu o seu olhar para o píer.
Lark vinha correndo em alta velocidade e Luyul gritou mais alto para que os demais ali conseguissem ouvir:
— É ele! É ele!
Krink, Juhs e Amn, os quais estavam um pouco mais afastados e até mesmo Diell se aproximaram rapidamente e comprovaram aquilo que Luyul acabara de dizer com tanta animação. Em questão de poucos segundos, Lark já estava ali ao lado deles, ofegante, ferido e sujo, mas ali, são e salvo e pronto para escapar.
— Lark, o que foi que aconteceu? — Krink foi o primeiro a perguntar.
— Estou feliz que esteja a salvo, amigo — Luyul estava ainda mais emocionado do que nos momentos anteriores, mas as lágrimas tinham desaparecido por completo dos seus olhos.
— Eu também estou, mas não temos tempo — Lark estava desesperado e as palavras saíram atropeladas pela sua boca. — Eu fui encurralado por um grupo de Logrus e consegui me livrar da maioria, mas um deles está vindo atrás de nós neste exato momento e... o que foi, Amn?
A expressão do amigo só ilustrava medo e desespero e seus olhos não encaravam mais Lark e sim o píer do Porto dos Pescadores. Um rápido momento de silêncio se abateu sobre o local quando então todos se viraram na mesma direção para a qual Amn olhava... e lá estava ele. Mesmo à distância era possível identificar a presença de um brutamontes avermelhado lá no início do píer. Gelaram e o terror os invadiu como se a própria morte personificada tivesse vindo até ali para buscá-los. Lágrimas começaram a sair involuntariamente pelos olhos de Diell.
— Finalmente os encontrei, meus preciosos Bours! — Ryumann gritou e as palavras atravessaram o ar, chegando como um trovão nos ouvidos de todos.
— Vamos embora, rápido! — Luyul gritou, virando-se para os seus amigos em desespero.
— Não! — Lark rebateu no mesmo tom de voz.
— O que quer dizer? — Krink foi aquele que perguntou.
— Ele é muito mais forte e rápido do que vocês podem imaginar, acreditem! — Lark falou alto e atropelado mais uma vez. — Se ele perceber que iremos fugir, ele virá atrás de nós e matará todos antes mesmo de conseguirmos colocar aquela canoa em movimento, e...
Os olhos de Lark se viraram um pouco para Diell e os dos demais fizeram o mesmo. Luyul e Marrncifer se encararam por um rápido instante. Não podiam arriscar a vida do seu precioso filho daquela maneira.
— Querida — Luyul começou, colocando carinhosamente suas mãos nas bochechas dela. — Faça o que será melhor para nós. Apanhe Diell e o leve para a canoa, enquanto que o restante de nós fica para encarar o Logru.
A ideia não a agradou nem um pouco, afinal, não desejava deixar o seu amado entregue ao perigo daquela maneira, mas sabia que seria o melhor para o seu filho.
— Venham de uma vez, malditos! Não acham que podem escapar de mim agora, ou será que acham? — e uma sonora gargalhada ecoou da boca de Ryumann. O medo aumentou em cada um dos Bours.
— Vá! — Luyul agora agarrava Marrncifer fortemente pelos braços, sacudindo-a.
Sem dizer mais nada, Marrncifer apenas mexeu a cabeça rápida e nervosamente em sentido positivo, agarrou Diell por um dos braços e o puxou fortemente na direção da canoa que balançava levemente para cima e para baixo nas águas, enquanto que os demais Bours se viraram para o píer.
Começaram a avançar, mas não deram nem dois passos até Krink ver todo o cenário rodar. Caiu fortemente de joelhos no chão, olhando para baixo, seus olhos quase fechando.
— O que houve? — Amn foi aquele que perguntou e os demais companheiros também regressaram um pouco.
Os quatro se ajoelharam rapidamente em volta do amigo caído.
— Krink, nos diga, o que aconteceu? — Luyul pousou uma das mãos em suas costas.
— Eu não sei, acho que foi só uma tonteira, nada mais... — Krink agora estava preocupado, não apenas consigo mesmo, mas com os seus companheiros e com o destino que aquela batalha poderia ter.
Luyul, Amn, Juhs e Lark se entreolharam por breves momentos e todos pareciam ter o mesmo pensamento por detrás de suas cabeças.
— Escute, Krink — uma pontada de piedade estava presente na voz de Amn. — A sua recuperação foi realmente incrível, mas acredito que ainda esteja consideravelmente debilitado, não está nem de longe em suas condições normais. Acredito que... seria melhor acompanhar Marrncifer e Diell naquela canoa, não se preocupe que nós quatro encararemos aquele monstro maldito.
Assim que caíra de joelhos, Krink percebera que não devia estar com o corpo apto para o duro combate que viria e soubera que seria melhor ficar de fora, pois, se entrasse no combate, poderia até mesmo atrapalhar os seus companheiros que ficariam mais preocupados com ele. Mas, mesmo assim, as palavras de Amn o acertaram como uma espada afiada e sentiu uma forte dor dentro de si, desejando que a mesma pudesse se converter em dor física, mas era impossível. Não acreditava que, no momento mais decisivo, não poderia participar.
Abaixou ainda mais a sua cabeça e permaneceu em silêncio por alguns momentos.
— Precisamos ir, ele não vai esperar por nós durante muito tempo — e Luyul desferiu uma rápida olhada para o Logru lá longe.
— Vão — Krink disse ainda de cabeça baixa, era como se estivesse com vergonha de direcionar os seus olhos aos amigos. — Podem ir... encontro com vocês em Roul.
Sem mais nenhuma palavra, os quatro se levantaram e quando estavam começando a avançar novamente, foram surpreendidos:
— Esperem! — uma voz feminina acabava de gritar às suas costas.
Todos se viraram de imediato e Marrncifer agora estava um pouco mais próxima deles. Podia ser a maior loucura que cometeria em toda a sua vida, mas respirou fundo e disse:
— Deixe-me ir com vocês.
Os quatro se entreolharam. Juhs, Amn e Lark fizeram uma expressão de estranhamento enquanto que Luyul simplesmente arregalou os olhos. Apressou-se a se aproximar dela e agarrou os seus braços.
— Querida, no que está pensando?
— No melhor para Diell, no melhor para o nosso filho! — começou com algumas lágrimas nascendo de dentro dos seus olhos, mas obrigou-se a ser forte e as retraiu. — Pensem comigo — seu tom de voz aumentou um pouco para que não apenas Luyul, mas também o restante fosse capaz de ouvir. — Krink está debilitado e isto, de certa forma, deixa a equipe desfalcada. Tenho consciência de que sou uma Bour feminina e não tenho a mesma força, resistência e habilidade de vocês, mas ainda assim, posso ser útil, afinal, comigo, estaremos em maior quantidade e aumentaremos as chances, mesmo que elas sejam pequenas, de derrotar aquele Logru ou mesmo de segurá-lo por um tempo, o qual Krink pode usar para escapar com Diell. Mas, se forem apenas os quatro, será mais fácil de o Logru derrubá-los e é mais provável que não consigam segurá-lo por tempo suficiente para que Diell fique longe daqui. Compreendem o que quero dizer?
O rápido discurso de Marrncifer havia sido dito nervosamente, mas ainda assim, apresentava firmeza e todos se tocaram consideravelmente com suas palavras. Era visível a sua preocupação com o filho e tudo aquilo que havia acabado de dizer fazia sentido. Luyul, no fundo, sabia que era loucura e que ela correria um imenso perigo enfrentando o Comandante, mas ambos estavam de acordo que a prioridade máxima naquele momento era a segurança de Diell.
— Eu entendo, querida — Luyul passou a mão carinhosamente pelos seus ombros. — Precisamos ir então...
Marrncifer apenas acenou e se dirigiu a Krink, o qual se ergueu e cambaleou um pouco. Ela fez menção de esticar os braços para que pudesse segurá-lo, mas ele conseguiu se equilibrar por conta própria, ainda que com um pouco de dificuldade.
— Cuide de meu filho, eu lhe imploro — ela pediu com mais um início de lágrimas nos olhos. Krink havia sido um dos primeiros que ela e Luyul tinham conhecido quando entraram na organização CIV, logo, era um companheiro que possuía a sua inteira confiança.
Luyul se aproximou também.
— Fique bem, certo? — disse calmamente. — Prometo que regressaremos sãos e salvos.
Krink deu um rápido e preocupado aceno com a cabeça quando o grito de desespero de Diell ecoou pelo porto.
— Não! Mamãe, por favor, não! — não conseguia acreditar que aquilo pudesse ser verdade. Não apenas o seu pai, mas também a sua mãe o abandonaria... aqueles que tinham cuidado dele por toda a vida estavam deixando-o para trás.
Do outro lado, mais um grito:
— Estou cansado de esperar, malditos! — o Logru estava realmente furioso naquele momento. Sua paciência havia finalmente se esgotado. — Estou indo colocar este porto abaixo!
— Não será necessário, já estamos indo! — gritou Amn e, logo em seguida, se virou para os demais, falando num tom mais baixo: — Agora realmente temos que ir, senão o pequenino também vai acabar se envolvendo no combate. Luyul, Marrncifer...
Os dois deram mais uma última olhada para o seus choroso filho e se seguraram para não irem correndo abraçá-lo. Também choraram, mas silenciosamente e então, se viraram para Krink uma vez mais.
— Tem a minha palavra de que nada de ruim acontecerá a ele, podem enfrentar o cretino sossegados — Krink disse com uma extrema confiança na voz.
Os dois acenaram e seguiram sem nem olhar para trás, enquanto que Krink se dirigiu a Diell, agarrando-o pelo braço e arrastando-o para ainda mais perto da canoa. Os outros cinco Bours começaram a avançar pelo píer na direção daquele imenso monstro vermelho. Luyul e Marrncifer desejavam, com todas as suas forças, serem surdos naquele momento para que não fossem obrigados a ouvir aquele grito de desespero e medo que saía sem parar da boca do pequeno Diell.
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