O Rei

1 Capítulo 1


Entre lágrimas, tropeços e passos apressados, lá estava eu perdida no meio da floresta. Não podia voltar, não mais, minha única opção era continuar meu caminho, atravessando a densa neve entre a escuridão das sombras das árvores que resplandeciam na luz da lua cheia. A caminhada continuava a ficar cada vez mais pesada graças à acumulação de gelo em meus pés e o ascendente cansaço, não aguentaria percorrer a mata inteira até a vila mais próxima.

Em um pequeno momento de desatenção, acabei batendo o pé em uma pedra e caindo no branquíssimo chão, ajoelhada. Escuto o barulho de folhas se movendo pelo ar e as vejo, vermelhas como sangue, tocando o solo formando uma circunferência. Diante de meus olhos, uma criatura alada pousa entre as folhas com dificuldade, ela me encarava com tristeza.

Nunca havia visto nada assim em minha vida, o monstro possuía asas gigantescas como as de um belo gavião e o rosto demoníaco como o de um morcego; apesar disso, estava gravemente ferido, 3 lâminas negras atravessavam seu peito enquanto a escuridão do metal se fundia com a cor avermelhada de seu sangue. Não o conhecia, contudo senti uma imediata tristeza pela sua situação, sentimento esse que rapidamente consumiu todo o meu medo inicial.

— Me ajude.- Disse ele com uma voz amigável que adentrava meus ouvidos de forma doce e infectava minha mente como um feitiço.

Eu estava paralisada, não sabia o que fazer. A criatura, percebendo minha inocência, estendeu a garra ensanguentada em minha direção, em um lapso de consciência me afastei andando para trás:

— Quem é você? — A voz saiu de minha garganta de forma trêmula e insegura. A criatura sorriu:

— Eu sou o rei de tudo que o sol toca, de todos os seres que respiram e o criador de todos os eventos que já aconteceram e acontecerão. Entretanto, estou perdendo meu poder e preciso que você me ajude.

— Isso não é possível. — Respondi, confusa. — Ajudar no quê?

— Porque apenas um inocente recém convertido pode curar o rei. — Ele estendeu o peito para mim como se quisesse que eu arrancasse as lâminas que atravessavam seu corpo.

A situação e os meus pensamentos ficavam cada vez mais confusos em minha cabeça:

— Inocente? Não, você não entendeu. Eu...

— Eu sei de tudo que você já fez, querida. Eu sei porquê você está fugindo e porquê não pode voltar, você decepcionou a todos em seu mundo e agora tem uma chance no meu. Eu posso fazer de você minha rainha e então sua vida será como sempre quis, com todos os prazeres que consegue imaginar.

O rei começa a lentamente levantar-se como se seus ferimentos fossem insignificantes. Seus olhos avermelhados me encaravam com um charme irresistível e ele caminhava lentamente em minha direção.

Por alguns segundos, recuei andando para trás, porém ele ficava cada vez maior, abrindo suas asas e cobrindo quase toda a minha vista. Enquanto minha volta ficava completamente escura, percebi que suas penas eram, na verdade, ossos pintados. Quanto mais ele se aproximava, maior ficava um barulho de gritos de sofrimento que no início era apenas um sussurro.

No final, estendi minhas duas mãos e toquei em uma das lâminas que feriram o rei, estava fria como a neve que tocava meus pés e, bem nessa hora, infinitos pensamentos negativos invadiram minha mente enquanto eu arrancava o metal de dentro da criatura.

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