O Regresso do Desespero
15 Unstopping Compass
Notas iniciais
Essa é a história, a doce história de como duas pessoas completamente loucas e quebradas se conheceram pela segunda vez.
Tique taque, tique taque. March Hare passava muito tempo vendo as horas passarem no seu pequeno relógio de bolso, que balançava lentamente na sua frente. Era um objeto antigo, mas ainda funcionava na perfeição. Os segundos passando lentamente, a um ritmo constante, deixavam-na com uma sensação de sintonia com o mundo que lhe trazia uma certa calma. Ela não tinha essa sensação há muito, muito tempo. Esse tipo de sensação fazia parte do antigo ela, que fora abandonado após passar pela situação mais desesperante da sua vida. Oh, o que o desespero não fazia com as pessoas?
Tique taque, tique taque. Mas isso não interessava. Ela não estava mais sozinha, afinal. Naquele momento, March Hare tinha agora Mad Hatter para salvá-la. O único problema era que também a outra estava completamente insana e desprovida de senso comum. Tique taque, tique taque. Mas o que interessava isso num tempo daqueles?
"A garota chorava no meio do parque. O seu vestido manchado de sangue das pessoas que chacinara no seu surto deixava-a com frio. Muito frio. Mas ela não sabia se tremia por causa da temperatura ou porque o terror do que havia feito dominara completamente o seu corpo. Talvez ambos. A pilha de corpos à sua frente não ajudava. Porque a garota sabia, no fundo, que quem fizera tudo aquilo era ela. Mesmo que impulsionada a fazer tal coisa por aquela pessoa, no final a culpa seria sempre, sempre dela.
“E qual é o problema disso?” Inquiriu a mais velha, aparecendo subitamente atrás dela. March Hare deu um salto com a voz, caindo de cara no chão. A outra deu uma risada. Mad Hatter estava também com a sua roupa num terrível estado, e o facto de estar em pé no meio de uma fonte (que naquele momento já era mais escarlate do que água límpida) só deveria de piorar as condições nefastas em que ela se encontrava. Mas Hatter não tremia, nem parecia estar minimamente incomodada com o frio.
“E-Eu… Matei pessoas… Eu—“
“E daí?”
“Matar é errado…”
“Não.” Corrigiu a mais velha prontamente “Matar ERA errado. Nesse momento, duvido que alguém se interesse se você matou ou não. Além disso, não fez isso por vontade própria? Não se sentiu bem enquanto o fazia?”
Hare assentiu prontamente, sem nem pensar duas vezes. Depois, arrependeu-se do que fizera e logo se corrigiu.
“N-NÃO!” Gemeu, encolhendo-se na berma da fonte, como se quisesse se esconder. Seria de se esperar que Hatter reagisse de uma forma irritada. Contudo, não o fez. Em vez disso, sorriu e esticou uma mão para a mais nova.
“Querida… O que você passou, o que todos nós passámos foi imperdoável. É claro que você ficou com um trauma. É claro que você mudou, todos nós mudámos com o que aconteceu. E essa sua vontade de não querer mais saber do mundo… É apenas natural. Não lute contra isso. Porque a verdadeira você morreu há muito… Não, talvez a verdadeira você não exista. Talvez sejamos todos uma mentira criada pelos deuses para o seu entretimento.” A garota parou um pouco para ponderar no que dissera, e então sorriu. “Então vamos vivê-la como queremos. Não devemos simpatia a mais ninguém além de nós mesmos.”
March Hare foi puxada para cima pela mão caridosa de Mad Hatter. Logo elas estavam abraçadas, numa situação que seria quase romântica se não fosse o sangue e a morte que as rodeava. Hare chorava, e Hatter afagava-a. Entre soluços, a mais nova soltou umas palavras.
“Sabe o que eu quero?” Inquiriu, numa vozinha assustada.
“O quê?”
“Um relógio. Um relógio de bolso… Sempre quis ter um.”
“Então vamos arranjá-lo.” Respondeu a outra numa voz doce, libertando-se do abraço e puxando a outra para procurar o tal relógio."
Perguntava-se se o seu nome não estava errado. Talvez devesse ser White Rabbit, pela sua obsessão pelo tempo. Contudo, Hatter insistiu que fosse March Hare. Dizia que combinava com o seu nome, que elas podiam ser as MH. Uma sombra de sorriso aparecera nos lábios da garota.
Tique taque, tique taque. Mas estava mesmo correto, num mundo naquele estado, deitar tudo fora? Todos os seus ideais? Suas morais? Sempre que pensava nisso, March Hare chegava a apenas uma conclusão: Essas coisas mais valiam nunca ter existido para começar. Que inúteis eram elas naquele mundo. Pior ainda, que inúteis eram elas no mundo anterior. Essa era a desesperante verdade, que apenas aqueles que vivenciaram o mais absoluto desespero conseguiam compreender. E March Hare, Mad Hatter e todos os outros compreendiam. Compreendiam perfeitamente. Porque eles passaram por isso.
Tique taque, tique taque. O tempo continuava passando enquanto ela se limitava a pensar naquelas questões filosóficas. O seu tempo escasseava. March Hare não podia perder mais tempo com essas coisas, era inútil. O que ela devia fazer era aproveitá-lo. Deixar de lado a sua racionalidade, os vestígios da garotinha amável que existiam dentro de si. Era o que Mad Hatter fizera, era o que todo o planeta fizera.
Tique taque, tique taque. March Hare levantou-se do seu quarto para ir ter com a sua amada, aproveitando o tempo que tinha. Afinal, cada vez que aquele relógio dava um passo adiante, mais próxima estava ela da morte.
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