O Regresso do Desespero
1 Prólogo
Notas iniciais
Ela estava caída numa sala de aula vazia, completamente presa por diversas correntes que lhe prendiam o corpo.
Na sua frente, um urso. Ou uma pelúcia de um urso, um robô, uma coisa estranha que nem a própria mulher conseguia compreender. Uma das suas metades era branca, com um olho do tamanho de um botão preto. Seria até adorável se não fosse pela outra metade, preta, com olho em forma de morcego vermelho e um sorriso demasiado grande para ser considerado sequer amistoso. O ar rarefeito estava dificultando a respiração da mulher cuja idade rondava os trinta. Definitivamente, aquele não era o lugar onde ela queria estar naquele momento.
A Crushing Goodbye
Subitamente, a mulher ouviu uns sons eletrónicos estranhos acima dela. Esticando a cabeça de modo a conseguir olhar para cima, notou a sua origem: No teto da sala, diversas bombas-relógio estavam espalhadas, todas elas com o contador em apenas alguns segundos. Dez. Nove. Oito.
A mulher não olhou para o urso antes de começar a reagir. Em desespero, começou a tentar se livrar das correntes que lhe impediam os movimentos, só que estas recusavam-se a libertá-la. Sete. Seis.
Não havia tempo para tentar tirá-las. Ela tinha de chegar à porta. Começou a rastejar, usando todas as forças que tinha, tentando ignorar o protesto dos seus pulmões por falta de ar. A porta estava quase, a porta estava quase… Ali mesmo, rápido, tente abri-la. Não pode usar as mãos, então use a cabeça, os dentes, qualquer coisa serve, desde que gire essa maçaneta. Cinco. Quatro. Três.
O urso riu ao ver a situação. Certamente, aquele era um espetáculo digno de aplausos, a ser apreciado apenas pelo estranho ser. Mas não estaria ele com medo de, também, ser pego pela explosão? Não estaria ele em perigo também?
A mulher virou-se para o animal num último rasgo de esperança ao perceber que a porta não abriria, pensando que aquilo talvez fosse um bluff. Talvez nada fosse acontecer, era só uma brincadeira. Porque haveria aquele urso de pelúcia se suicidar para matá-la? Não fazia sentido, contudo era completamente lógico. Contraditoriamente correto. Dois.
O urso ainda estava na zona onde a mulher tinha acordado. Subitamente, uma pequena plataforma começou a descer debaixo dos seus pés. A mulher entendeu. Era uma armadilha. Se ela tivesse ficado quietinha onde acordara, também ela estaria naquela plataforma, descendo para a segurança. Contudo, ela não estava lá mais, e tinha menos de um segundo para alcança-la. O urso riu com ainda mais prazer, humilhando-a até ao último momento. Ela ainda tentou rastejar de volta para onde acordara, mas era tarde demais. Os risos do urso cessaram quando a única saída da sala se fechou. Um.
Não havia mais nada a fazer. A mulher fechou os olhos. Certamente, algo nos seus planos havia corrido mal. Mas talvez, pelo menos eles tivessem conseguido fugir… Essa era a sua última esperança.
As bombas se detonaram, e automaticamente o teto começou a ceder. Em poucos segundos, a mulher foi esmagada pelos escombros, e a vida abandonou o seu corpo.
– — — -
É agora. O momento pelo qual eu estava esperando faz imenso tempo finalmente chegou.
A minha barriga estava dando voltas, o nervosismo chegando a me dar ligeiras náuseas. Afinal, eu estava à frente da mais prestigiada escola do país. Hope’s Peak. E, de algum jeito que eu ainda não entendi direito, fui convidado a estudar aqui.
Eu sou um garoto completamente normal, que fez algo completamente anormal. O meu nome é Isao Kimoto, um nome que ultimamente tem sido repetido algumas vezes nos media em geral. Por causa do que eu fiz, recebi fama e prestígio que realmente não merecia assim tanto. Alguns, como os superiores de Hope’s Peak, parecem considerar isso um talento. Será mesmo um talento, ou uma pura coincidência? Nem eu mesmo sei dizer.
Estávamos todos numa visita de estudo a Tóquio. Naquele dia, tínhamos decidido subir à torre, uma das poucas atrações que ainda nos faltava ver. Até aí tudo bem. Só que, depois de estar lá em cima, apareceram dois homens armados de enormes caçadeiras e bombas. Aparentemente, estavam planeando um atentado à torre, tendo conseguido de algum jeito passar pelos seguranças sem serem notados. Eles fizeram maior parte dos estrangeiros e minha turma se deitarem no chão, prontos para muito provavelmente morrer. Contudo, eu não estava com eles. Eu tinha me separado do resto do grupo, pelo que quando voltei para ir ter com eles, me deparei com aquela cena. Entrei em pânico. Não sei se foi por causa disso, mas quando um dos homens se separou deles, eu surgi pelas sombras e o asfixiei, com uma força que eu nem sabia que tinha. Depois disso, tirei a caçadeira dele e me joguei no outro. Literalmente, fiz a coisa mais estúpida que alguém pode imaginar: Corri na direção dele com a caçadeira em mãos, não para disparar mas para usá-la como um bastão e ataca-lo. O homem tentou disparar contra mim mas errou. E assim que cheguei perto o suficiente, atingi-o com toda a força na cabeça dele. Ele caiu inconsciente. É, foi isso, a situação mais estúpida, sortuda e estranha de toda a minha vida. Até hoje não sei porque é que eu agi assim.
Por causa disso, eu fui declarado por tudo e todos como um “herói da nação”, por ter salvo a Torre de Tóquio de um atentado.
Isao Kimoto – Super High School Level National Hero
Uma coisa é certa, isso me garantiu um lugar nessa escola, e não importa o quanto eu saiba que nunca mais vou repetir a coisa, estou feliz por tê-lo feito. Hope’s Peak é uma escola de ensino médio para génios, gente que é a melhor em alguma coisa. Apesar do meu grande feito, eu nunca seria selecionado para um lugar assim, afinal, eu sou apenas… Comum, comparativamente aos outros. Contudo, aqui estou eu, e dizem que quem se graduar dessa escola tem sucesso na vida quase garantido…
Engoli o medo e o nervosismo e dei um passo em frente. Apenas um passo… E eu estaria lá dentro.
E, como com muitos outros, esse foi o passo que eu preferia nunca ter dado.
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