O Regresso do Desespero
6 Death Unveiled
Notas iniciais
Não voltei mais para a sala comum naquele dia. Na verdade, nem sequer abandonei o meu quarto, preferindo ficar na cama o tempo todo, esperando que a sonolência tomasse conta do meu corpo e me desse, finalmente, algum descanso.
Contudo, nem em sonhos eu merecia alguma paz e sossego.
– Isao! – Chamou a loira num tom amigável, acenando-me com energia – Você está atrasado! O cinema está quase começando!
– Ahh, me desculpe, Natasha. – Disse, coçando a cabeça e rindo de uma forma constrangedora – Uh? Onde estão os outros?
– Evan não pôde vir… De novo. – Respondeu, bufando. Parecia um tanto irritada com isso – E Natsuri também está atrasada, como sempre. Quanto ao Connor… Eu posso ter “acidentalmente” falado a hora errada do filme para ele.
A garota me piscou o olho sugestivamente. Dei uma risada alegre com isso, mas logo Natasha pareceu incomodada novamente.
– Aquele garoto… Que saco! Sempre faltando a tudo por causa daquelas reuniões de evangelistas! Estou farta disso!
– Você parece um pouco chateada demais com isso, Natasha...
– Você acha? Mas eu só queria que ele sentisse um pouco de desespero!
– O quê!?
– Upupu.
Subitamente, eu estava no anfiteatro da escola. No lugar de Natasha, estava monokuma, segurando o que parecia ser a cabeça da minha mãe. Ele ria da minha cara, tão alto que chegava a fazer a minha cabeça doer.
– Então, Isao? Você sabia o que ia acontecer se não tivesse matado ninguém! Upupu! Você é um imbecil, Isao. Que espécie de herói da nação é você?
– Pare, cale a boca! Onde estão os outros?
– Mortos, é claro! Todos, todos eles estão mortos!
E, quando ele disse isso, subitamente olhei para o meu lado e vi, para todo o meu horror, o corpo de Tsubomi. Estava desmembrada, o pescoço torcido de uma forma pouco natural e sangue pingando da sua boca. Do outro lado, encontrava-se Teemu, que tinha todos os seus órgãos puxados para fora da barriga. Logo a seguir, Akatsuki encontrava-se sem cabeça, pois esta tinha explodido. E quanto mais olhava, mais dos meus colegas eu via, todos eles mortos, com o seu corpo de alguma forma mutilado grotescamente. Estavam sentados nos bancos ao meu lado, como se estivessem assistindo também o show do urso de pelúcia. Senti vontade de gritar, mas a minha voz não saiu. Tentei me levantar, mas minhas pernas não obedeceram. Aquela risada irritante ecoava nos meus ouvidos, e quando olhei, Monokuma se aproximava com uma faca. Era óbvio que eu seria o próximo alvo. Mas eu não conseguia fugir…
Acordei transpirando e ofegante. As lágrimas ainda caiam pelo meu rosto, provavelmente eu chorara durante a noite. Levei as mãos aos olhos, para limpá-las… E apercebi-me que tremia compulsivamente. Inspirei fundo, fechei os olhos e contei até dez, tentando me acalmar. Depois de dar uma olhada no relógio, percebi que ainda faltava um pouco para o período noturno terminar. Levantei-me da cama (notando o quão trémulas estavam as minhas pernas por não ter comido praticamente nada no dia anterior) e fui tomar um banho. Aquilo ajudou a me relaxar, e pelo menos já não estava todo transpirado. Quando terminei, o anúncio do Monokuma de que o período matinal começara tocou pelo televisor do meu quarto. Me vesti e apressei-me a sair para a sala comum.
Eu não sabia se gritava ou se chorava. No meio do pânico, acabei por decidir fazer os dois, pelo que saiu apenas um som estranho e incompreensível.
– C-COMO É POSSÍVEL!? – Berrou Teemu, que parecia já estar na sala antes que eu. Ainda tínhamos sido os únicos a encontra-la. – CALMA, E-ELA P-PODE ESTAR VIV…
Como se fosse para troçar da cara dele, subitamente os televisores se ligaram e a voz de Monokuma fez-se ouvir.
– Pim pom pam poom! Um corpo foi encontrado! Após um breve período de investigação, será realizado um julgamento para descobrir o seu assassino!
O estrangeiro correu para a loira que estava caída no meio do chão. A sala comum estava uma confusão. Os cacos de vidro estavam espalhados por todo o chão, com a adição dos peixes já sem vida por estarem fora da água – que se espalhara por toda a sala, como se uma inundação tivesse acontecido ali. Um taco de baseball repousava ao lado do lugar onde antes estaria um aquário. Na entrada da sala comum, uma caixa de primeiros socorros encontrava-se caída no chão, uma parte do seu conteúdo tendo rolado para perto dos sofás. E, o mais importante: Natasha encontrava-se no seu centro (também ao lado do aquário), deitada de barriga para baixo e completamente molhada, o seu rosto pacífico como se dormisse. Só que não se ouvia respiração alguma, e ela estava pálida como o cal. Quando Teemu chegou perto dela, logo fez questão de medir a sua pulsação… E abanou a cabeça negativamente.
– I-Impossível… – Gemi, tremendo – Não passou… Nem um dia…
E como se alguém tivesse premido um botão para abrir as portas, quase metade dos alunos entrou na sala em uníssono.
– N-não pode ser…
– Ohh, alguém morreu? Alguém morreu? Takane quer ver, saiam da sua frente!
– Mas que porra é essa!?
– Ela está… M-morta?
– Pessoal, por favor, se acalmem! – Eu disse ao ver o monte de perguntas que estavam sendo disparadas ao mesmo tempo. O som de mais portas se abrindo e de mais gente entrando só aumentou a confusão ainda mais. Todos falavam ao mesmo tempo, uns chorando, uns curiosos, outros assustados.
– CALEM A BOCA. – A voz cortante e inesperada de Akatsuki fez maior parte das pessoas se sobressaltarem – Temos tempo p’ra choros e confusões mais tarde. Não ouviram o co urso falou?
– Exato, exato! – Disse Monokuma, que pulara vindo do nada para encarar os alunos que pareciam todos confusos com o que estava acontecendo – Três pessoas encontraram o corpo, o período de investigação começa! Vocês investigam, descobrem pistas, vão para o julgamento, descobrem o assassino e têm direito a viver por mais uns dias. Coisa mais fácil não há!
– V-Você… É o culpado disso, não é!? Você que a matou! – Acusou Koji, apontando o dedo para o urso. Uma veia parecia pulsar na sua testa, o ódio espelhado nos seus olhos intensamente. Parecia tão irritado que Satoru, que estava ao lado dele, teve de lhe dar a mão para tentar acalmá-lo. O loiro baixou o braço, mas não deixou de encarar Monokuma com raiva – CONFESSE!
– Não, não! Eu não mato pessoas. Eu deixo essa parte para vocês. Qual seria a graça se fosse eu a cometer um homicídio? Onde estaria o mistério? Pois é. Então, quem matou Natasha Hayashi foi UM DE VOCÊS!
Fez-se silêncio enquanto todos olhavam uns para os outros numa expressão confusa e assustada. Nem todos os alunos estavam ali. Kayo e Ai ainda não tinham chegado. Será que uma delas era a assassina?
Não, eu não podia pensar assim. Eu não devia de desconfiar de alguém assim tão facilmente… Mas, se foi realmente alguém que não o Monokuma o assassino, então não era eu obrigado a desconfiar de um dos meus colegas? Pessoas que poderiam ter sido perfeitamente minhas amigas?
Após um certo tempo, Tsubomi finalmente falou alguma coisa.
– …Não temos muita escolha. Vamos investigar isso e… Acabar logo com essa desgraça.
– Cala a boca, sua vadia! – Xingou Chiyeko imediatamente – Saiba que você é a minha principal suspeita! Não confio em você, DE TODO!
– Eu não esperaria outra coisa de um acéfalo como você, Chiyeko-chan. – A empresária sorriu de uma forma carinhosa para a justiceira, que virou a cara e bufou alto. Eu até sentiria vontade de rir se não fosse pela situação em que estávamos.
O urso agitou a mão no ar, como se fosse uma criança querendo chamar a atenção. Quando a obteve, ele corou, abanando-se de um jeito estranho.
– Céus, não me encarem desse jeito, sou um ursinho tímido! Eu só queria dizer que no vosso ID de estudante podem encontrar um ficheiro com algumas informações sobre o assassinato. Tenham atenção ao lê-lo! Boa investigação!
E, dito isto, ele sumiu. Logo todos estavam pegando no seu ID de estudante e verificando o novo ficheiro que aparecera lá.
MONOKUMA FILE 1
Nome da vítima: Natasha Hayashi.
Super High School Level Astrophysicist
Causa da Morte: Afogamento
Não foram encontrados quaisquer sinais de luta à parte de algumas pancadas na nuca. O seu corpo foi encontrado molhado e sem quaisquer hemorragias, internas ou externas.
– Isso é bastante detalhado. – Comentei para mim mesmo. Não estava à espera que Kurama, que estava ao meu lado, me escutasse.
– Sim. Parece que, por uma vez na vida, Monokuma está realmente nos ajudando. – Afirmou. – Me pergunto que outras trapaças ele está planeando depois dessa.
[[ Prova 1 – Monokuma File 1 ]]
– Hey, antes de vocês todos se afastem, tem uma coisa que eu queria falar. Me oiçam, agora. – Começou Akatsuki, no seu tom habitualmente rude. Nem quando alguém havia morrido ela era capaz de ser um pouco mais delicada. – Será mesmo sensato deixar a cena do crime desse jeito? Quero dizer, provavelmente o assassino vai tentar destruir as provas… Melhor deixar alguém vigiando isso, não?
– Não gosto de falar isso, mas ela tem razão. – Concordou Reiko – Querem que eu fique com esse…
– Não é suficiente! De todo! – Cortou Chiyeko rispidamente – E se for ELE o assassino? Essa ideia de vigiar a cena do crime fica toda em vão!
– Então porque é que você não fica ajudando o Reiko? – Perguntei. A morena bateu com o pé no chão, irritada.
– E a minha investigação!?
– Tem muita gente para investigar o caso. Você pode calmamente ficar quietinha aqui e vigiar a cena do crime. É um trabalho de uma justiceira, não é? Verificar se a justiça é cumprida. – Um dos sorrisos cínicos de Tsubomi foi lançado mais uma vez para Chiyeko, que se retraiu enquanto rosnava alguma coisa incompreensível. – Certo, agora que já temos isso acordado, comecemos.
Todos dispersaram para um canto da sala. Eu decidi que talvez fosse melhor começar com o corpo de Natasha. Não era uma tarefa agradável, mas era conveniente se eu o fizesse o mais cedo possível. Junto dela, Satoru e Koji também pareciam ter tido a mesma ideia que eu.
– Certo… O Monokuma File diz que ela tem pancadas na nuca… Realmente, dá para sentir aqui um volume que deve ter vindo disso. – Murmurava Koji para o amigo – O que você acha, Kyo… KYOISHI!
Satoru estava mais interessado em analisar um peixe que jazia sem vida ao lado do pé de Natasha, não parecendo estar muito interessado na dita cuja.
– Eles se afogam quando estão fora de água. – Comentou – Fascinante.
– Ele… Está bem? – Perguntei, um tanto preocupado com o comportamento do mágico. O outro suspirou.
– Ele está, sim. Provavelmente. Sei lá. – A sua incerteza parecia deixá-lo ainda mais irritado – Eu aposto que ele está nos ouvindo, contudo. Só que não vale muito a pena conversar com ele…
– Hey, Kimoto. Escolha uma carta. – Disse esticando-me um leque de cartas, todas elas de copas. Contudo, eu não estava muito afim de fazer aquilo naquele momento.
– Hmm… Agora não, Satoru. Depois, sim? – Respondi. Ele acenou afirmativamente, parecendo um tanto desiludido, e voltou a encarar o peixe com atenção. Virei-me para Koji, que já estava completamente imerso no estudo do cadáver. Parecia um detetive, um traço um tanto impressionante no sempre impaciente loiro.
– Voltando para as pancadas na cabeça dela… Eu estou certo que elas seriam fortes o suficiente para deixá-la inconsciente. Mas não para matá-la, isso é óbvio, porque a causa da morte dela foi por afogamento.
– Então acho que dá para dizer que ela foi desacordada antes de ser levada para o aquário?
– Tire as suas conclusões sozinho e não me interrompa, Kimoto. – A voz de Koji soou um pouco mais ríspida que o normal, mas não o censurei. A situação estava deixando todos nervosos. – De qualquer forma, existem cacos de vidro de baixo do corpo dela. Isso pode confirmar que ela veio do aquário… Oh? Tem algo no bolso dela.
Me inclinei para ver melhor o que era enquanto Koji puxava uma rede avermelhada do bolso da saia de Natasha. Era grande, fina e comprida, fazendo uma espécie de saco – do tipo que é utilizada para transportar fruta ou vegetais.
– O que seria isso? – Perguntei, semicerrando os olhos como se isso me ajudasse a ver melhor. Apercebi-me que Satoru deu uma olhada por cima do ombro para a rede antes de voltar para os seus desvaneios sem sentido.
– Não sei, mas pelo formato… Hmm… É, deve ser isso. – Murmurou Koji para ele mesmo, sem me dar nenhuma resposta coerente.
[[ Prova 2 – Rede no Bolso da Vítima ]]
Após ficar mais um tempo analisando coisas um tanto inúteis como o batom que a astrofísica tinha guardado no outro bolso ou a cor dos olhos dela, decidi deixar aquele lugar para analisar o resto da sala. Teemu encarava o taco de baseball com um certo interesse, por isso fui ter com ele – afinal, também eu estava curioso quanto a esse pormenor.
– Eu acho, só acho – Começou o estrangeiro ao ver-me aproximar – Que isso foi usado para quebrar o aquário.
– Natasha também tinha algumas pancadas na cabeça, que segundo o Koji provavelmente eram capazes de deixá-la inconsciente. Será que foram feitas com isso, também?
– É bem provável. Não vejo muitas outras coisas que possam ter sido usadas para esse efeito, mas…
As orbes azuladas do aventureiro deslizaram do taco para o aquário em movimentos repetitivos.
– …digamos que Natasha foi jogada dentro do aquário e se afogou, e foi assim que mataram ela. Porque é que o assassino iria se dar ao trabalho de quebrar o aquário mais tarde? E mais importante ainda… Porque é que ninguém acordou com o barulho?
– Talvez os quartos sejam insonorizados? – Sugeri. Teemu acenou afirmativamente.
– Sim. Mas nunca vi Monokuma afirmando isso. Como que o assassino ia saber disso?
– …Talvez o Monokuma tenha lhe contado?
– Sim… É possível. – Teemu suspirou um pouco, torcendo o nariz numa expressão um tanto descontente. Não parecia confortável com aquela explicação, mas de qualquer forma, havia trazido uns pontos fulcrais para a minha busca por pistas.
[[ Prova 3 – Taco de Baseball ]]
[[ Prova 4 – Quartos Insonorizados ]]
[[ Prova 5 – Aquário Quebrado ]]
Continuando a dar a minha volta, acabei por ouvir um grito feminino. Quando olhei, Kobayashi apontava desesperadamente para uma das portas, aparentemente aterrorizada.
– Sangue, sangue! O assassino é ele! O assassino é ele! Takane descobriu!
– E-Eu não sou assassino nenhum!
– Sangue! Saaanguuueee! – A loira repetia aquilo vezes sem conta, agitando o dedo fino na frente do nariz de Reiko, que tremia nervosamente. Quando fui olhar, ela realmente tinha razão. Era pouco, mas havia sangue na maçaneta da porta dele.
– Isso é uma prova DETERMINANTE! – Rugiu Chiyeko que chegara assim que ouvira a fashion designer gritar – VOCÊ É O ASSASSINO, ATSURO REIKO!
– C-Calma! Eu não matei ninguém, juro! Isso não é o que parece…!
– Nossa, nossa. E eu pensando que esse pescadorzeco era demasiado imbecil para matar alguém – Suzuki sorriu de uma forma trocista. Só me tinha apercebido que ele estava ali depois de o ouvir falar, apesar dele ser absurdamente grande – Mas afinal…
– M-MAS…!
– Bom, não vale a pena a gente ficar apontando o dedo. – Comentou Akatsuki, que apareceu vinda do nada para acalmar a situação – Discutimos isso no Julgamento.
E dito isso, tão depressa quanto eles se aproximaram, eles se afastaram, deixando-me sozinho com o choroso Reiko.
– Kimotoooo! Acredite, eu não matei ninguém! Aquilo foi de ontem, que eu me magoei enquanto limpava o aquário e feri a cabeça… O Connor viu! Por favor, me ajude! – Ele se agarrou à minha camisa, soluçando compulsivamente. Afastei-o num gesto instintivo.
– Calma, Reiko. Se você não é o assassino, vamos descobrir durante o Julgamento. Não tem nada a temer. – Disse, tentando acalmá-lo. Bom, ao menos já sabia o que tinha de fazer a seguir: conversar com Connor.
[[ Prova 6 – Sangue na Porta de Reiko ]]
Não foi difícil de encontrá-lo. O casaco do pikachu era chamativo o suficiente para que qualquer um conseguisse ver o cosplayer a quilómetros de distância. Quando cheguei a perto dele, logo ele se virou para mim e começou a puxar assunto.
– Kimoto! Você já está pronto para fazer o cosplay de Shaoran? Eu tenho as ideias para tecidos ideais!
– Er… Não. Alguém morreu, Connor.
O garoto de rosto infantil baixou a cabeça, aparentando um pouco tristonho.
– D-Desculpe… Eu só queria divertir as coisas… Está todo o mundo tão nervoso que eu… Fiquei preocupado. Pensei que talvez se eu te distraísse um pouco… Desculpe.
A forma tão inocente com que ele dissera aquilo me deixou um pouco sem graça. Acabei por forçar um sorriso no rosto para alegrá-lo um pouco.
– Não tem problema! Mas eu precisava de falar sobre uma coisa com você. – Expliquei. Logo Connor estava de cabeça erguida e pronto para o que viesse – Você esteve com Reiko ontem? Você sabe como que ele acabou com sangue na sua porta?
– Sangue na porta…? Ah, deve ter sido quando… Bom, sim. Ele estava limpando o aquário e, quando saiu por aquela porta sinistra, acabou batendo com a cabeça e fez um corte nela. Ele ficou meio zonzo, por isso ajudei-o a ir para o quarto… Deve ter sido aí que manchámos a porta. Depois eu fui pegar uns curativos à enfermaria para tratá-lo. – Ele estava sendo anormalmente prestativo. Talvez também estivesse preocupado com o facto de Reiko poder ser dado como o assassino injustamente – Acho que ele estava um pouco ausente por causa daquele… Motivo que o monokuma nos deu, por isso se distraiu. Eu também estava, tanto que acabei quebrando a fechadura do armário com kits de primeiros socorros sem querer. Aquilo ficou meio preso e não abria direito.
[[ Prova 7 – Testemunho de Connor ]]
– Certo, Connor. Isso ajudou imenso. – Sorri amigavelmente, e o garoto pareceu ter ficado orgulhoso com o seu feito. Despedi-me dele e voltei para pesquisar mais sobre o assassinato. Com certeza haveriam mais pistas.
Notei que Evan estava tentando bater à porta do quarto de Ai. Pela sua expressão, parecia um tanto preocupado, por isso fui até ele.
– Evan? O que é que se passa?
– Eu… Eu estou um tanto confuso. O que são essas coisas na frente da porta dela? – Ele abraçou-se com força à bíblia que segurava antes de apontar para o chão. Um conjunto de presentes pequenos, quinze deles, estava caído no chão, amontoados na frente da porta. O papel de presente era vermelho, mas tinham todos fitas de cores diferentes. – Quero dizer, é ÓBVIO que são presentes, mas… O que significam? Têm alguma relevância para o caso? Além disso, a Ai ainda não saiu do seu quarto…
[[ Prova 8 – Presentes na Porta de Ai ]]
– Não sei o que isso pode significar, mas com certeza é importante. E com certeza que a Ai tem uma explicação plausível para isso. A não ser que…
– Isao! “Na confiança é que reside a vossa força”. Por favor, não vamos desconfiar dela sem provas concretas. – Evan pareceu irritado por me ver hesitando. Sendo uma pessoa de fé, com certeza que isso seria normal. Mas eu não podia deixar de pensar que tinha algo de muito suspeito ali. Evan ficou de insistir mais um pouco para ver se conseguia conversar com a ativista, e eu decidi que estava na hora de sair da sala comum. Quando o fiz, contudo, acabei tropeçando no kit de primeiros socorros que tinha sido deixado no chão. Tinha esquecido daquele pormenor.
[[ Prova 9 – Kit de Primeiros Socorros ]]
Tinha sido deixado no chão de uma forma um tanto descuidada, como se alguém simplesmente a tivesse deixado cair e corrido para longe. Me perguntei o que aquilo fazia ali. Não havia muito mais naquele objeto, por isso acabei saindo de qualquer forma.
O lugar que eu queria visitar já tinha gente. Na entrada para a arrecadação estava Tsubomi, que encarava o painel de uma forma pensativa. Provavelmente nem estava olhando para o painel, mas sim para o vazio.
– Tsubomi? – Perguntei, tocando-lhe no ombro. Ela deu um salto e se virou para mim com a mão no coração.
– Kimoto! Você me assustou. – Disse ela, suspirando – O que faz por aqui?
– Decidi dar uma olhada numa coisa na arrecadação… E você?
– Oh, vim fazer o mesmo. Vejo que tivemos a mesma ideia. Tem a ver com o taco de baseball, não é mesmo?
Parecia que ela lia mentes.
– Sim, é isso mesmo. Quis saber se aquele bastão veio daqui. O que me recorda, você deve ter a lista de pessoas que entraram aqui ontem, não é verdade?
– Oh, tenho sim. É uma lista bastante… Curta. Suponho que maior parte das pessoas tenha decidido ficar pelos seus quartos naquele dia, com pequenas exceções. – E, dito isto, ela esticou-me uma folha. Estava praticamente branca, exceto por um único nome no seu topo. “Natasha Hayashi”. O símbolo de Kibougamine estava desenhado no fundo da folha o que garantia a sua autenticidade.
– Então… A Natasha foi a única pessoa a entrar aqui ontem?
– E, segundo as horas, foi apenas algum tempo depois de recebermos aquele motivo do Monokuma, nem mais. Mas não posso dizer que ninguém entrou depois da meia-noite. Essa lista só é impressa essa noite à mesma hora.
[[ Prova 10 – Lista dos Visitantes da Arrecadação ]]
Era uma prova um tanto crucial. Entrámos na arrecadação e, como eu suspeitava, os taco de baseball tinha vindo dali. Estavam dentro de uma caixa, cada um deles envolto numa rede muito familiar.
– Acabou o tempo! – A voz de Monokuma fez-se ouvir através do televisor, dando-me arrepios na espinha – O período de investigação terminou e o Julgamento começará dentro de momentos. Por favor dirigam-se ao elevador no hall de entrada!
Após isso, desligou-se e deixou-nos no silêncio. O suspiro de Tsubomi fez-se ouvir.
– Bom, Kimoto, acho que é isso. Boa sorte para você. – Disse, num tom um tanto baixo e sem emoção – E para mim. Para todos nós, na verdade.
– Sim. – Concordei. Estava nervoso, uma sensação ligeira de sufocamento se prendendo na minha garganta. – Vamos.
Fui com Tsubomi até ao elevador. Já estavam todos ali quando chegámos, exceto uma pessoa.
– Onde está Kayo? – Perguntou a empresária.
– Ela… Bom, ela se sentiu MUITO mal. – Murmurou Evan, com preocupação – Quando ela entrou na sala comum e viu o corpo… Bem, ela quase desmaiou. Aparentemente ela tem problemas de coração e não se dá muito bem com nervosismo. Monokuma abriu uma exceção para ela dessa vez, porque ela não estava em condições de ir para o julgamento.
– Humpf. Deve ser tudo frescura. Eu até diria que ela era a assassina se não fosse pelo facto do assassino ser OBVIAMENTE o Reiko. – Comentou Chiyeko, de braços cruzados e de costas para todos os outros alunos.
Dessa vez, todos estavam demasiado absortos na porta do elevador para responder ou reclamar. Ao abrir-se, revelou um espaço escuro, a iluminação sendo proveniente de uma única lâmpada, grande o suficiente para todos os alunos caberem lá dentro.
– Hnng, temos m-mesmo de entrar ali? – Perguntou Teemu, roendo as unhas nervosamente.
– Você é… Claustrofóbico? – Perguntou Suzuki, observando o loiro com curiosidade. Eu esperava que ele fosse zoar dele quando o estrangeiro acenou afirmativamente, mas pelo contrário, deu umas tapinhas amigáveis no seu ombro. – Tenta, sei lá, fechar os olhos ou algo do tipo. E imaginar que está num enorme campo. Algo assim. Respira fundo, moleque.
E, ao lado de um estranhamente preocupado e prestativo Suzuki, Teemu entrou no elevador. Logo depois, um a um, todos foram entrando no elevador. As suas portas fecharam-se alguns segundos depois e este começou a descer.
Mesmo com todas as pistas que eu investiguei, o assassino não estava claro na minha mente. Algumas desconfianças surgiram. Mas nenhuma forte o suficiente para perdurar muito tempo. Além disso, eu nunca cheguei a ter tempo para fazer coisas como falar com a Ai ou verificar o quarto de Natasha. Apesar do primeiro poder ser feito durante o julgamento, eu tinha que confiar nos outros para caso alguma prova importante pudesse ser encontrada através do segundo.
O elevador não parava de descer, aumentando ainda mais o nosso nervosismo (além disso, a respiração cada vez mais descontrolada de Teemu não estava propriamente ajudando). Quando eu achava que já podíamos até ter entrado no centro da Terra, ele parou.
E as portas se abriram.
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