O Reformatório
12 Topo da colina
Notas iniciais
Coop continua a conversar com o Kurt que já está muito mais a vontade. Eu fico observando eles dois e acho que darão bons amigos. Coop é simpático, apesar de ser um pouco egoísta, e Kurt é a pessoa mais amável do mundo. Só sei que eles terão uma boa relação.
Pela primeira vez, saio do reformatório. As flores, as árvores e até o ar parecem diferentes desde que cheguei aqui.. Parece tudo mais feliz. Acho que pela primeira vez estou grato de estar aqui já que nunca tinha achado coisas simples tão lindas antes. Sem contar que se não fosse por ter sido mandado pra cá, eu nunca teria conhecido o Kurt. Só de estar com ele sei que, de uma maneira ou de outra, estou no lugar certo.
Quando reparo em mim mesmo, vejo que estou sorrindo feito um idiota..
–B, está tudo bem com você? Parece que está apaixonado!
Sério, todo mundo consegue ler mentes ou eu estou sendo muito mais óbvio que penso?
–Quê? Claro que não...
Coop gargalha enquanto põe os braços nos meus ombros enquanto eu olho com o canto do olho para o Kurt. Ele está todo vermelho mas ao mesmo tempo parece... Triste?
Quando chegamos ao carro do Coop, ele está tão feliz que me sinto obrigado a tentar descobrir onde é que vamos.
–Coop, já pode me dizer aonde vamos, né?
–Nem pensar, B! Surpresa é surpresa.
Sento no banco do passageiro, já que Kurt fez questão de sentar no banco de trás, e Coop dá a partida.
Depois que passa dez minutos já estou impaciente.
–Coop, está demorando muito! Você sabe que temos que voltar ainda hoje, né?
–Não necessariamente.
Coop responde com tanta rapidez que eu olho para ele para ter certeza que ele disse isso mesmo.
–O quê?
–Bom, eles não vou poder te expulsar porque eu te peguei emprestado por uma noite.
–Desculpe, Sr.Anderson, mas essa sua idéia não é muito boa. Tanto Blaine quanto eu poderemos ficar encrencados!
–Por favor, Kurt... Me chame de Coop! E depois, é só uma noite! Amanhã eu falo com o Heinald e fica tudo tranquilo!
Kurt abre a boca para usar mais um de seus argumentos mas antes que ele possa falar alguma coisa, Coop acrescenta.
–Confie em mim, Kurt.
Kurt suspira e logo Coop comemora sua vitória.
–Você não vai se arrepender, Kurt!
Depois de uma hora de estrada Coop anuncia que chegamos. Quando reparo aonde estamos reconheço o lugar.
–É o topo da colina! É onde vínhamos acampar quando crianças!
–Isso mesmo, B. Nada melhor que relembrar bons momentos!
Sorrio porque não estava esperando isso.. As memória mais felizes que tenho da minha infância são daqui.
Acampar com meu irmão era a melhor coisa que fazíamos. Nos afastávamos e podíamos conversar sobre tudo. Foi aqui que eu falei pela primeira vez que eu era gay para ele. Lembro como se fosse ontem...
"Eu tinha 13 anos e era uma sexta feira depois da escola. Eu tinha dado meu primeiro beijo em um garoto e estava 100% certo da minha sexualidade. Estávamos prontos para dormir quando eu finalmente criei coragem para contar a verdade para o meu irmão que também era eu melhor amigo.
–Coop?
–Fala, B.
–Posso te contar uma coisa?
Ele se virou para mim com os olhos brilhantes e um sorriso no rosto.
–Claro, Blaine! Você sabe que pode me contar tudo.
Eu me sentei e comecei a olhar para as minhas mãos com uma esperança boba de que assim tornaria qualquer coisa que eu falasse, uma coisa casual e normal.
–Eu... Eu acho que sou diferente. Às vezes, eu olho para os garotos do jeito que eu deveria olhar para garotas e.. eu beijei um menino da minha escola hoje. Na verdade ele me beijou mas eu não fiz nada para impedir e, na verdade, eu gostei. Eu juro que tentei mudar e me tornar normal de novo mas eu não consegui. Isso me torna uma má pessoa?
Ele se aproximou de mim e me abraçou. Mesmo não querendo, eu comecei a chorar.
–Claro que não, Blaine! Você não é uma má pessoa. É quem você é e você deve se orgulhar disso.. Você não é anormal ou diferente. Você é o Blaine, meu irmãozinho preferido. Não se esqueça que eu te amo e que pode contar comigo para tudo, tá?
–Tá.
Depois disso ficamos abraçados por mais um tempo até que ambos caíram no sono."
Parece que Coop também estava relembrando esse dia porque ele me abraçou como naquele dia e falou:
–Blaine, meu irmãozinho preferido.
Olhei para ele e sorri mesmo tendo lágrimas nos olhos. Coop se vira para o Kurt, que ainda está apreciando a vista e fala:
–Nós vínhamos muito aqui, Kurt. É o nosso lugar seguro e agora que você sabe nosso esconderijo, você tem permissão para quando se sentir triste ou pressionado vir aqui.
Ele sorri e acena com a cabeça. Depois disso, montamos nossa barraca e ficamos conversando enquanto olhávamos para a paisagem. Quando nos demos conta eram seis da tarde e não tínhamos comido nada.
–Droga! Esqueci a comida!-Gritou Coop enquanto mexia na mochila dele.
–E o que vamos fazer agora Coop? Não podemos ficar sem comer!
–Relaxa, ok? Você e Kurt ficam aqui acendendo a fogueira enquanto eu vou comprar uns petiscos e marshmallows.
Concordamos porque nem eu nem Kurt estávamos dispostos a passar a noite com fome. Depois que o Coop foi embora, reparo que o Kurt disse pouquíssimas palavras hoje.
–Aconteceu alguma coisa, Kurt? Você está muito quieto.
–Não, eu estou bem.
Continuo a olhar para ele com os olhos cerrados até que ele vê que não acreditei no que ele falou e resolve contar a verdade.
–Eu só estou um pouco triste... Quero dizer, o que temos não é uma coisa que podemos contar para todos. Mesmo que seja verdadeiro e bonito.
Ele baixa os olhos e fica observando os gravetos que estão na sua frente.
–Kurt, se foi por falar que não estava apaixonado por ninguém isso foi só para que ele não desconfiasse. Eu não quero e nem posso correr o risco de perder o que tenho com você.
Como ele ainda está olhando para baixo, dou a volta na nossa fogueira e sento ao seu lado, colocando o braço sobre seus ombros.
–Eu te amo, Blaine.
–Eu te amo também, Kurt.
Ele olha para mim e posso ver que ele está com os olhos cheios d'agua.
–Me desculpe por estar me comportando como uma criança mas você se tornou muito especial para mim, Blaine... Como ninguém nunca foi antes.
Meu coração praticamente pula do meu peito e sinto que meus olhos também enchem d'agua. Se eu tivesse alguma dúvida de que ele me amava, agora ela já foi embora. Me aproximo dele e o dou um beijo em sua boca. Depois encosto minha cabeça na dele enquanto ele segura minha mão que estava apoiada sobre sua perna e ficamos assim porque nenhum dos dois tem coragem de sair dali. Ficamos observando a paisagem sem pensar ou falar nada até nós nos assustamos ao escutar a voz do Coop.
–Posso saber o que significa isso?
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