O Reflexo do Verão
19 O Vidro Quebrado
A distância, que antes parecia um obstáculo superável, começou a cobrar seu preço. Após seis meses, o brilho das telas de celular já não iluminava as noites de Sarah com a mesma frequência. As mensagens de bom dia tornaram-se escassas e as videochamadas, antes diárias, passaram a ser curtas e monossilábicas. Sarah sentia o frio da ausência aumentar, até que um telefonema de Ariel mudou tudo.
— Sarah, você e o Michael precisam conversar seriamente — a voz de Ariel estava trêmula do outro lado da linha. — O meu irmão... ele pisou na bola feio, Sarah. Eu não consigo mais esconder isso de você.
Sarah sentiu o chão sumir, mas não derramou uma lágrima por telefone. Em vez de ligar para Michael, ela agiu por impulso. Comprou uma passagem, arrumou uma mala pequena e embarcou em um avião rumo à cidade universitária, decidida a resolver aquela angústia pessoalmente no feriado.
O corredor do dormitório masculino tinha um cheiro de café barato e desinfetante. Sarah caminhava com o coração na garganta, segurando a alça da mochila com tanta força que os dedos estavam brancos. Ela parou diante da porta que Michael dividia com seu irmão, Conrad.
Ela respirou fundo e bateu. Três batidas secas.
A porta se abriu lentamente. Michael apareceu, vestindo apenas uma calça de moletom, o cabelo bagunçado e os olhos arregalados de choque ao vê-la ali, em sua frente.
— Sarah? O que... o que você está fazendo aqui? — Ele balbuciou, a voz rouca.
Sarah sorriu, um sorriso triste e esperançoso que durou apenas um segundo. Antes que ela pudesse dizer qualquer palavra carinhosa, uma voz feminina e doce veio do interior do quarto:
— Amor, volta logo para a cama... está frio.
O sorriso de Sarah desmoronou. O mundo pareceu entrar em câmera lenta enquanto ela via uma garota desconhecida, vestindo uma camiseta que ela reconheceu imediatamente — era a camiseta de Michael. O choque percorreu seu corpo como uma descarga elétrica.
Sem dizer uma palavra, Sarah deu as costas e saiu andando pelo corredor, os passos ecoando no silêncio mortal.
— Sarah! Espera! Sarah, não é o que você está pensando! — Michael gritou, correndo atrás dela pelo corredor, ignorando os olhares dos outros estudantes.
Ele a alcançou perto da saída do prédio, segurando-a pelo braço. Sarah se soltou com uma fúria que ele nunca tinha visto.
— Não encosta em mim, Michael Styles! — Ela gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — "Não é o que eu estou pensando"? Ela te chamou de amor! Ela está na sua cama usando a sua roupa! Foi por isso que as chamadas diminuíram? Porque você estava ocupado demais com a sua "aula extra de biologia"?
— Sarah, me escuta... as coisas ficaram difíceis, a solidão... eu me senti sozinho e... — Michael tentou se aproximar, o rosto contorcido em culpa.
— Sozinho? — Sarah riu, uma risada amarga e dolorida. — Eu estava na nossa casa, dormindo com a sua blusa todos os dias, contando os segundos para esse feriado! Eu me dediquei a você, Michael. Eu enfrentei meu pai, meu irmão, o mundo inteiro por nós! E você me trocou pela primeira facilidade que apareceu no campus?
— Eu cometi um erro, eu sei! Por favor, a gente pode conversar? — Michael implorou, os olhos suplicantes.
Sarah limpou o rosto com as costas da mão, recuperando uma postura de dignidade que parecia inabalável, apesar da dor.
— Não tem mais conversa, Michael. Você não pisou na bola, você destruiu tudo o que a gente construiu naquele verão. Aquela barraca, as promessas no aeroporto... tudo virou lixo agora.
— Sarah, por favor...
— Acabou, Michael. — Ela disse, a voz agora fria e definitiva. — Não me liga, não me procura. Volta para a sua cama, volta para ela. Você não é mais o homem que eu amei. Você é só mais um cara comum que não soube honrar o que tinha.
Ela virou as costas e saiu para o frio da manhã, deixando Michael parado no meio da calçada, vendo a única pessoa que realmente o conhecia desaparecer de sua vida, levando consigo o último vestígio daquele verão inesquecível.
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