O Reflexo do Verão
4 O Caminho Pelas Sombras
O trajeto até o Vale das Sombras foi feito no SUV de Conrad. O clima era uma mistura de euforia juvenil e uma tensão que apenas duas pessoas no carro conseguiam sentir. Conrad dirigia, com Ariel no banco do passageiro escolhendo a trilha sonora, enquanto Michael e Sarah dividiam o banco de trás, cercados por mochilas e sacos de dormir.
A estrada de asfalto logo deu lugar a uma trilha de terra batida, fazendo o carro balançar. A cada solavanco, o ombro de Michael encostava no de Sarah, enviando uma descarga elétrica pelo corpo do rapaz que ele tentava disfarçar olhando fixamente pela janela.
— Dá para acreditar que daqui a um mês estaremos em dormitórios de faculdade e não nessa lata de sardinha? — Conrad comentou, animado, olhando pelo retrovisor. — Mike, você já separou a sua jaqueta do time? As calouras vão cair matando.
Michael forçou um sorriso, sentindo o olhar de Sarah queimar em seu perfil.
— Vou focar nos treinos primeiro, Con. A faculdade não vai ser só festa.
— Ah, para de ser certinho! — Ariel riu, virando-se para trás. — Até a Sarah sabe que você vai ser o rei do campus. Não é, Sarah?
Sarah ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, sem tirar os olhos de Michael.
— Acho que o Michael está mais preocupado em "fugir" do que em ser rei de qualquer coisa.
Michael virou o rosto lentamente para ela.
— Fugir de quê, exatamente?
— De tudo o que é novo — ela respondeu baixinho, apenas para ele ouvir, enquanto Conrad aumentava o volume do rádio. — Você gosta de ter o controle, mas o verão está acabando, Mike. O controle também.
Para cortar a tensão, Michael mudou de assunto, elevando o tom de voz:
— E você, Sarah? Vai dar conta de carregar essa mochila morro acima ou vai pedir para o seu irmão te levar no colo como quando tinha dez anos?
— Eu mudei muito desde os dez anos, Michael — ela rebateu com um sorriso de canto. — Mas se você estiver tão preocupado com a minha fragilidade, pode carregar minha lanterna. Eu pretendo explorar o lugar à noite.
— Nada de exploração noturna sozinhos! — Conrad interveio, num raro momento de autoridade de irmão mais velho. — O lugar é isolado. A gente monta o acampamento, faz a fogueira e fica junto.
— É, "junto" — Ariel brincou, piscando para o namorado. — Mas cada casal no seu canto, certo? Michael, espero que você seja um bom cavalheiro e não reclame se a Sarah ocupar muito espaço na barraca. Ela se mexe muito dormindo.
Michael sentiu a garganta secar.
— Eu sobrevivo. É só uma noite.
— Uma noite pode mudar muita coisa — Sarah murmurou, voltando a encostar a cabeça no banco e fechando os olhos, deixando Michael a sós com seus pensamentos e o som da estrada.
Ele olhou para as mãos dela descansando sobre os joelhos e depois para a estrada sinuosa à frente. Michael sabia que, ao chegarem naquele vale, não haveria mais para onde correr.
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