O Reflexo da Morte
1 O Reflexo da Morte
Notas iniciais
Esta aqui é uma one que, originalmente, era um conto que eu fiz pra escola, mas eu mexi muito nela e aumentei também, espero que gostem!
Não chega a ser terror, ok? Mas também não é "levinha".
De novo, a fic foi betada pela Beth Hathaway, vou deixar aqui meu "obrigada" pra ela mais uma vez!!!
Espero que gostem e não hesitem em apontar o que vocês não gostaram (e o que gostaram também!) nos comentários!
Boa Leitura!
Gostaria de ouvir uma história? Creio que está aqui por isso, caro leitor. Tenho uma infinidade delas no acervo de minha mente idosa, porém hoje, separei uma em especial. Creio que irás gostar. Tudo começa anos depois de um espelho, com uma lareira simples a arder...
O fogo ardente chamuscava em labaredas azul-celeste, elas dançavam em meio as chamas cor de laranja, irradiando todo o calor que provinha da pequena lareira no canto da sala de estar. Naquela velha cabana mal construída morava Mirabelle, uma jovem esbelta com cabelos compridos e encaracolados na cor do caramelo queimado. Seus olhos frios e penetrantes eram tão verdes a ponto de parecerem duas esmeraldas brilhantes.
Ela jazia encolhida junto ao fogo como que em uma tentativa falha de se esquentar, bordando com as suas mãos trêmulas. O vento zunia em seus ouvidos, adentrando por entre as tábuas soltas e velhas da cabana. Uma chuva torrencial desaguava do lado de fora enquanto Mirabelle se refugiava na sala, a parte mais nova da casa.
Enquanto a tempestade ameaçava destelhar o casebre, tudo que a garota se via capaz de fazer era rezar. Orar mentalmente pela sua segurança, mesmo que não soubesse nenhuma oração. E bordar, com as mãos desgovernadas e a linha tingida de vermelho por causa do sangue fluindo de seus dedos quando se espetava com a agulha afiada.
Suspirando, a menina que não passava de seus dezesseis anos, trincou os dentes. Seu vestido não era muito quente, tingido com um rosa clarinho que disfarçava a sujeira da peça. Sem nenhum detalhe ou prega, o vestido parecia mais uma camisola comprida, totalmente sem graça e que chegava aos tornozelos da garota.
Mirabelle espetou-se mais uma vez, gemeu baixinho enquanto observava o fluido vermelho correr pelo seu indicador. Sentiu os cabelos molhados grudarem nas costas e um calafrio percorreu a sua espinha.
No instante seguinte aquela sensação horrível, a qual já era sua velha e inóspita conhecida, a dominou. Começou com uma pontinha no fundo do estômago, que foi facilmente confundida com fome. Depois foi se expandindo gradativamente e, a juntar-se aos calafrios que sentia, tornou-se uma dor latejante.
Quando Mirabelle já estava a ter uma crise de tosse a sensação foi chagando a sua mente, pegando atalho pela nuca e contaminando o seu cérebro. Deixando um rastro de horror por onde passava. Assim que tocou seus pensamentos ela instalou uma ideia na mente da menina, como já tinha feito tantas outras vezes.
“Alguém está para morrer”, pensou amedrontada e tranquila ao mesmo tempo.
Levantando-se devagar a jovem precisou apoiar-se nas paredes para que suas pernas trêmulas a obedecessem. Deixou o bordado de lado, e foi cambaleando até o quarto, buscando o dever macabro que a esperava.
Assim que chegou ao ambiente mal iluminado e acendeu uma vela após várias tentativas falhas. As mãos habilidosas de Mirabelle tiraram delicadamente o velho espelho de madeira envolvido em trapos sujos de baixo do colchão de palha.
Há vários anos, recordou. Para ser mais exata, quando sua mãe ainda era uma menina, rondava por toda a cidade uma lenda, que, como eu já disse, era fato.
Em 1671, na capital da França, todos diziam, havia um cozinheiro muito famoso e respeitado. Chamava-se Fritz Carl, o inventor do chantilly. O homem era conhecido pela fartura dos banquetes que por ele eram oferecidos e pela comida maravilhosa da qual todos falavam.
Um belo dia, todos os nobres franceses foram convidados para um banquete especial no palácio, que ficou a cargo do cozinheiro. Fritz preparou sua comida espetacular como sempre fazia, porém, logo antes da refeição, ele percebeu que o que tinha cozinhado não seria o suficiente para tantos convidados.
Em uma crise, ele tirou a própria vida com uma faca afiada de cozinha. E, além de desperdiçar o seu dom fazendo isso, o fez em frente a um espelho de mão.
Poucas pessoas sabem além do que você acabou de ouvir, na verdade, a maioria delas pensa que isso é um lenda. As únicas pessoas que conhecem o que realmente aconteceu naquela noite se resumem em três: eu, minha filha e minha neta.
Virei aprendiz de Fritz quando tinha menos do que quinze anos, e passei a morar no palácio. Ele disse-me que eu tinha um dom, que logo fui descobrir, não era culinário. O cozinheiro também o tinha e disse que iria me fazer entender o quão crucial ele era.
Eu nunca entendi, afinal Fritz era o único que dedicava-se inteiramente aquela arte. Por estes e outros motivos cortar os próprios pulsos foi a pior coisa que ele pode fazer, seu dom esvaiu-se e ficou a “mercê” do vento. Porém o velho Carl era sábio e fez com que seu dom não se perdesse completamente.
Espelhos sempre absorveram a alma das pessoas, e, como consequência, dons a “mercê” do vento. Sendo assim, quando cometeu o ato suicida, Fritz segurava um espelho de mão no pulso que havia cortado.
Eu fui a primeira a encontrar o corpo dele e, em estado de choque com lágrimas correndo pelo meu rosto, eu coloquei o espelho em cima da pia antes de chamar os outros. Assim que avaliei a situação, percebi o que Fritz havia feito e tomei o espelho para mim, eu, pelo menos, conhecia o dom e o faria cair em boas mãos.
Desde então, aquele dom ou maldição, chame do que preferir, vem me perseguindo a vida toda.
Nunca senti que Elaine, minha própria filha, o possuía também. O que foi um alívio e uma desgraça, afinal, o legado deveria ser repassado. Porém quando vi Mirabelle nos braços da mãe pela primeira vez eu soube que cabia a ela receber o espelho em suas mãos pequenas e frágeis.
Guardei-o enquanto pude, para ser mais específica, até o meu leito de morte. Quando a menina tinha cinco anos e eu estava adoentada, chamei-a e dei-lhe o espelho, para que ela o guardasse com zelo e esperasse o dom florescer no seu coração jovem.
“Você tem um dom criança” foi tudo o que eu disse, arrançando um olhar curioso da pequena Mirabelle. Ela demorou mais de cinco anos para dar veracidade as minhas palavras.
Observei as mãos experientes da moçoila a trabalharem automaticamente, desembrulhando o velho objeto que ainda lhe dava calafrios. Assim que o espelho já estava a sua frente, Mirabelle fechou os olhos e permitiu-se lembrar de todos os rostos que já havia previsto.
Todos aqueles homens, mulheres e crianças que tiveram, seus rostos estampados no espelho nos segundos que antecederam o seu encontro com a morte.
Suas pálpebras moveram-se de vagar assim que ela sentiu que estava pronta. Ao abrir os olhos, a garota curiosa, porém apreensiva, viu nada mais que o próprio reflexo, um pouco distorcido devido a superfície suja do espelho.
Mirabelle piscou novamente, confirmando a verdade aterrorizante. Ela entrou em pânico enquanto lágrimas frias escorriam de seus olhos gelados e sem esperança.
“Sim” pensou consigo mesma, “estou marcada para morrer”. Mirabelle contou até dez de vagar, depois mais dez e, no fim de mais dez segundos ela sentiu.
Uma facada pelas costas e estava tudo acabado. O assassino era perverso, encapuzado e calculista, um covarde. Assim que o objeto cortante foi retirado sangue vermelho vivo escorreu do local onde antes jazia o coração de minha neta.
Aquele covarde desprezível limpou a faca no próprio manto com um sorriso triunfante. Ele sabia quem ela era, eles tinham uma história. Ele havia tomado seu coração, primeiro simbolicamente e agora, literalmente.
Assim, abaixando-se ao lado do corpo sem vida, sussurrou no ouvido da moça: “Você sabia demais” O rapaz segurou gentilmente a sua nuca e tomou seus lábios rosados para si por vários instantes “Mirabell”, proferiu seu apelido “especial” com o qual já havia traído várias mulheres por todo o mundo.
Assim, minha neta veio até mim. Com um coração magoado, uma alma ferida. Deixando um espelho e um dom para trás.
Notas finais
Gostaram?
Não gostaram?
Se acharam algum erro de ortografia, sentido ou digitação, não hesitem em apontar!!!
Espero todos vocês nos comentários para me darem suas opiniões e críticas construtivas!!!
E, se você chegou até o fim, muito obrigada por ter lido!!!
Beijos e nos vemos nos comentários!!!!
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