O Reflexo da Bruxa
2 Um Conto de Duas Irmãs
Notas iniciais
A mata era fechada e escura.
Liam estava tendo dificuldades em atravessar a mata para encontrar a mulher cujo nome era Gothel, e seu peito já palpitava com a preocupação de não achar o caminho de volta até os colegas de viagem, que haviam ficado para trás com a carruagem e os cavalos.
Uma neblina pesada se elevava do chão, tornando o caminho ainda mais difícil. Liam pisava em folhas e galhos secos e os ouvia estralar embaixo das botas de couro. Era o único som que conseguia ouvir, além de sua própria respiração.
De resto, a floresta parecia morta, não havia som de animais rastejantes, nem de pássaros empoleirados nos galhos, nem do vento farfalhando as folhas.
Era um lugar solitário, silencioso e sombrio, e Liam não conseguia entender como alguém poderia viver embrenhada um lugar como aquele.
Haviam se passado três dias desde que Tremaine dera a ordem para levar Gothel ao castelo, e assim que recrutou os guardas que o acompanhariam, partiram em silêncio como a própria rainha havia pedido.
Depois de muita dificuldade, o jovem Liam finalmente conseguiu encontrar uma cabana no meio da floresta, cercada por árvores e pequenos pinheiros.
A cabana de madeira era humilde, pequena e simples. Havia um machado enfiado em um tronco de madeira, e muita lenha cortada ao lado. Num varal improvisado haviam roupas que não pareciam limpas, mas ainda sim estavam estendidas.
Liam bateu a porta, pelo menos três vezes até escutar um barulho vindo de dentro da cabana. Eram sussurros, pequenos sons inteligíveis. O grito de um corvo empoleirado em cima da cabana fez com que Liam desse um pulo para o lado, o coração acelerado. A ave abriu as asas negras e levantou voo, desaparecendo entre as folhagens.
Voltando a atenção a porta, Liam levou outro susto.
A porta de madeira meia apodrecida estava parcialmente aberta e uma mulher de cabelos longos e lábios carnudos surgiu pela fresta.
Seu rosto estava sujo de terra e seus cabelos tinham nós por toda a extensão. O cheiro vindo de dentro da cabana era terrível, uma mistura de sangue, velas e mais algo que Liam não reconhecia.
— A senhora é Gothel? — perguntou o rapaz, recebendo apenas um aceno de cabeça como resposta — A rainha Tremaine do reino de Belfrey pede sua presença no castelo real. Estou aqui para escolta-la.
Não houve nenhuma reação vinda da mulher parada á porta, ela se limitou a encarar Liam com seus olhos verdes-mel.
Eles viajaram durante o dia e acamparam a noite, os guardas se revezavam para fazer a guarda e ficavam alerta a qualquer sinal de perigo.
Embora nenhum deles soubessem o que a jovem mulher era da rainha, eles não ousariam deixar que nada acontecesse a essa inusitada visitante. Durante suas horas de vigia, Liam observava a mulher que dormia profundamente. Era uma estranha figura, aquela Gothel. Tinha uma beleza exótica, e embora seus olhos parecessem inocentes, havia algo em torno dela que quebrava essa áurea rapidamente.
Os dias passaram rápido, graças aos céus! Os guardas já estavam desconfortáveis naquela mata fechada que ficava dentro do território inimigo. Se os capturassem dentro daquelas terras, eles não teriam defesas. Seriam mortos, se tivessem sorte, caso contrario sofreriam torturas inimagináveis.
Os guardas avistaram ao longe os portões que davam para dentro do pátio do castelo, a carruagem passou pela ponte levadiça com um estrondoso barulho, enquanto os cavalos relinchavam e os cavaleiros gritavam palavras de ordem aos animais. Liam soltou um suspiro de alívio, embora a viagem tenha sido muito tranquila, ele não conseguia se livrar da sensação ruim desde que apanhara a convidada da rainha em sua cabana no meio da mata.
Quando finalmente chegaram ao patio do castelo, a rainha havia mandado algumas servas recepcionarem a chegada da convidada.
Liam desmontou de seu cavalo e abriu a porta da carruagem, estendeu a mão para ajudar Gothel a descer, um arrepio passou pelo seu corpo quando a mulher o tocou, e por um instante ele acreditou que estava levando a desgraça e a ruína ao reino.
Ignorando seus próprios pensamentos, ele observou a jovem olhar tudo ao seu redor, fascinada, alguns segundos depois as servas estavam paradas ao lado deles.
— A rainha nos pediu para leva-la até ela imediatamente. — disse uma das servas — Por favor, me acompanhe!
Gothel seguiu as jovens servas para dentro do castelo. A exuberância do lugar era notável. Haviam castiçais que pendiam do teto, quadros valiosos nas paredes, cortinas do mais caro tecido, vidraças ornamentadas com ouro e tapeçarias com fios de seda.
Os criados corriam de um lado para o outro em seus afazeres e mal notavam a presença de Gothel. Depois de passar por diversos corredores, finalmente as criadas abriram uma porta de madeira branca com maçanetas de prata para Gothel.
Espiando para dentro do aposento, Gothel pode ver uma jovem e bonita mulher parada na janela. Sem esperar mais ela entrou no quarto e ouviu a porta ser fechada atrás num baque.
— Tremaine? — sussurrou a mulher e sua voz saiu fraca e rouca. Tremaine se virou para Gothel e abriu um largo sorriso, ambas correram uma para a outra e se abraçaram.
Passaram vários minutos até que as mulheres se soltaram do abraço e se encararam, os olhos cheios de lagrimas, o rosto coberto de diferentes emoções.
— Olhe para você! Está tão magra! Pensei que uma rainha comesse melhor! — repreendeu Gothel, observando a rainha de cima a baixo.
— Tenho tido alguns problemas. — respondeu Tremaine.
Gothel parou de examinar a mulher, a felicidade de alguns segundos antes se transformando em confusão e então indignação.
— Foi por isso que me chamou aqui? — questionou Gothel, soltando um suspiro de pura incredulidade. — Eu não acredito que depois de um ano você só me chamou por estar com problemas!
— Eu te pedi… Eu te implorei para vir comigo, Gothel não se faça de vítima! — respondeu a rainha, a voz um pouco alterada.
— Seu marido mata pessoas como eu e você ainda queria que eu vivesse ao lado dele, debaixo do teto dele? — riu Gothel, não acreditando em toda a bizarrice daquela situação.
— Eu teria protegido você! — berrou Tremaine, o rosto vermelho.
Um dos guardas abriu a porta que dava ao quarto da rainha num rompante, armas em punho. Tremaine respirou profundamente, e com o seu melhor sorriso dispensou o guarda, dizendo que estava tudo bem.
Gothel observou a situação pelo canto dos olhos, o guarda a encarou por alguns segundos, desconfiado até finalmente desaparecer porta á fora, virando-se ela encarou Tremaine com um sorriso cínico no rosto.
— Aparentemente, não pode proteger nem a si mesma. — rebateu Gothel, dando uma olhada de cima a baixo para Tremaine, que parecia estar definhando.
Tremaine soltou uma gargalhada baixa, respirou fundo diversas vezes e pedia mentalmente para manter a calma. Nada estava saindo como ela tinha planejado. Ela estava ansiosa por aquele encontro, mas de alguma forma perdera o controle das rédeas. As coisas estavam indo de mal a pior, e ela não tinha noção do que fazer, qual passo dar. Ela precisava de ajuda, mas já não tinha certeza se a mulher parada á sua frente estaria disposta a cooperar.
— Então, porque veio? — questionou, encarando Gothel.
— Porque eu senti sua falta! Eu senti falta… Da minha irmanzinha! — respondeu Gothel.
Tremaine se calou e ficou olhando para a irmã parada bem na sua frente, uma olhando nos olhos da outra, enquanto diversos sentimentos, sentimentos confusos passavam por suas cabeças e corações.
Vestida da maneira que estava, com os cabelos tão bagunçados ninguém diria que eram irmãs. Mas a semelhança estava ali, escondida, na cor dos olhos e nos lábios carnudos.
Heranças de sua mãe.
Tremaine respirou fundo, tentou manter a calma, como uma rainha deveria fazer, mas não conseguiu e num rompante inesperado desatou a chorar.
A lembrança de sua mãe e da vida simples que viveram durante todos aqueles anos anteriores pesaram em seu peito. Estava cansada do castelo, de sua sogra, da pressão para ter um filho, dos vestidos apertados. Tudo ali a incomodava.
Gothel correu e segurou a irmã nos braços enquanto Tremaine soluçava em um colo que sabia poder confiar.
— Estou cansada, Gothel. Estou exausta! — sussurrava — Eu não aguento mais isso!
— Quem a feriu? Seu marido? — perguntou Gothel, preocupada. — Vou mata-lo com minhas próprias mãos! — disse, já se levantando e indo em direção a porta.
— Não, não! Uther jamais me machucaria. — respondeu Tremaine, fazendo a irmã parar no meio do caminho. — Eu só estou exausta! Eu preciso de ajuda Gothel.
— Porque ficar aqui e definhar assim? Vamos embora! Irmã. Vamos voltar para casa! — pediu a loura, voltando a abraçar Tremaine.
— Não posso. Eu não posso desistir assim. Eu… — Tremaine ficou em silêncio por alguns segundos, acalmando a respiração tão acelerada — Não posso renunciar a tudo. Eu amo meu marido, eu não quero perde-lo!
— O que está dizendo? — Gothel segurou a mão tremula da irmã e procurou seus olhos, ainda cheios de lagrimas. — O que está me pedindo, Tremaine?
— Preciso que use sua magia em mim. — falou a rainha — Preciso que use sua magia para me dar um herdeiro.
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