Fazia um frio de gelar o sangue, o vento fazia esvoaçar as roupas enquanto os pés abriam caminho na neve grossa e quebradiça que cobria a pedra, reta e inclinada como uma rampa.



Das últimas mudanças que a atualização trouxera, a da fortaleza em El Nath parecia ser a mais pronunciada. Era dia, mas caía uma neve tão forte que parecia uma noite chuvosa. Os ventos açoitavam-lhes a pele, e eram frios, cortantes como gelo. E sussurravam – uma voz tênue, como o mais suave e rouco dos murmúrios, misturava-se ao vento, e as palavras ininteligíveis eram cheias de mau agouro. Avisavam, desencorajavam, faziam de tudo para tentar afastá-los.



Julia seguia a passos lentos e firmes, as mãos erguidas em uma bolha de calor que protegia seus quatro companheiros. Dave, é claro, não se deixava intimidar, mas mesmo sob a proteção era possível sentir o frio gélido lá fora. Demoraram a achar os grandes portões cinzentos, e só os viram quando estes surgiram bem na sua frente, depois de uma névoa de frio e neve. A rampa já parara de subir, o chão agora era tão reto que sentiam-se caminhando em piso.



—Deixem-nos entrar — Davien gritou. Sua voz saiu quase cômica em meio ao rugido do vento — Guardas, eu os desafio a sair. Enfrentem-nos, se forem capazes.



—Havia uma aldraba da última vez que viemos. Talvez dê certo bater nela — Gui lembrou-lhe depois de dez minutos de infrutíferos gritos.



—Há alguém vindo — Julia avisou. Os cinco viraram-se, mas não podiam ver um metro além da bolha de proteção. A menina recuou um passo — Dave, ele está chegando perto. O que eu faço?



—Deixe entrar.



Ninguém tentou fazê-lo, nem se aproximou o bastante da bolha para que pudessem ver, e por fim ele pediu que ela desfizesse o feitiço. O frio envolveu a todos eles no mesmo instante – Julia abraçou-se em seus trajes vermelhos e colocou o capuz. Bruken foi na frente, tremendo apenas um pouco menos que os outros. Viram a pessoa de quem Julia falava deitada na neve, de bruços, apoiada sobre os cotovelos enquanto armava uma besta. Bruken resfolegou para chamar a atenção.



—Quem?



—Vander, recentemente formado Atirador. Death Star, não é? — ele usava óculos largos e escuros, como os que protegiam o rosto de um aviador e falava em voz grave — Os guardas da fortaleza estão muito lá dentro, precisam estar mais perto da entrada para serem chamados. Posso trazê-los aqui para vocês.



—Por que faria isso? — Dave perguntou acima dele.



—Como eu poderia não ajudar os mocinhos? Peço apenas que se afastem — relutantes, eles obedeceram, e Vander encaixou um dardo na besta. Nem um só músculo do seu rosto pareceu se mover enquanto ele se concentrava. O disparo saiu tão repentino quanto silencioso.



Metodicamente, puxou o carregador da arma, encaixou um dardo e atirou. Ao disparar o quarto dado, resmungos irritados se fizeram ouvir lá no portão. Dave e os seus aproximaram-se depressa. Os homens-crocodilo de antes vieram recebê-los: criaturas altas de pele verde escamosa, olhos amarelos e bocas longas de crocodilo cheias de dentes afiados. Os braços longos e delgados tinham garras sujas que seguravam pesadas espadas brancas como cutelos encurvados.



Davien segurou as grades frias com ambas as mãos.



—Abram a droga desse portão e nos deixem entrar. Queremos falar com o Rei — dentre as poucas coisas que sabia sobre a fortaleza, uma delas era que era governada por um Rei, chamado de "O Leão".



—Como quiser — magulhou o crocodilo, e afastou-se para girar uma pesada manivela.



Davien não esperava aquilo; o portão levadiço rangeu e subiu, desaparecendo na névoa acima deles. Vander aproximou-se.



—Os guardas ficam no pátio, não irão incomodar se não mexerem com eles. Terão de matá-los se quiserem ir mais adiante, porém. Há Quests que exigem itens dropados por eles.



—Então vamos matá-los — Dave declarou — Obrigado pela ajuda. Você será recompensado quando terminarmos.



Quando o atirador assentiu, Gui se adiantou para perto dele.



—E por que não aumentar ainda mais a recompensa? — declarou — Você podia vir conosco, já que sabe tanto. Vamos precisar de um guia.



—Eu e o Dave atacamos de perto — Bruken falou — O Gui e a Julia são magos, frágeis demais e sem alcance para ficar à distância. Nunca tivemos alguém que atirasse flechas de uma posição segura.



Dave assentiu, pensativo. Faltava alguém que atacasse de longe, era verdade.



—É verdade. O que acha, Vander?



—Faz tempo que quero ir até o fim desta fortaleza. Aceito entrar no seu grupo — disse.



Entraram pelo portão, e o resto de sua história ele foi contando enquanto exploravam. Ele tinha entrado sozinho na fortaleza, ainda que não tivesse nível para que os crocodilos abrissem os portões. Passou por eles às escondidas, mas a entrada principal da fortaleza encontrava-se fechada. Teve que dar uma grande volta enquanto explorava as muralhas interiores e os caminhos de pedra, mas acabou cercado por guardas ainda piores que os crocodilos. Quando escapou...



—É aqui a entrada — interrompeu-se para indicar uma mancha marrom na pedra, uma grande porta de madeira — É uma passagem lateral. Entrei por aqui, mas existe uma principal na mesma reta do portão.



—Mostre-nos ela — Gui pediu, e não entraram.



O pátio era quadrado, tão castigado pela neve quanto o lado de fora. Grandes silhuetas escuras e risonhas marcavam os guardas-crocodilo, que às vezes lançavam-lhes olhares divertidos, como se soubessem de algo que eles desconheciam e zombassem deles.



Seguindo a reta do portão havia a primeira parede do que parecia uma fortaleza com teto. A porta de madeira era robusta e áspera, grossa como uma parede, ainda assim mais fina que as largas muralhas de pedra. Havia também uma aldraba de prata, a cabeça de um leão mordendo uma argola. Dave bateu-a contra a madeira, duas vezes.



A porta deslizou para dentro. O interior era só menos frio do que o exterior, mas pelo menos não nevava e era iluminado. Tratava-se de um pequeno salão de entrada de teto alto, com tapeçarias e mesas enfeitadas e poucas decorações. Armas enfeitavam as paredes; lâminas e estátuas de leão eram os únicos ornamentos. Um par de portas duplas estava na parede à frente. Em ambos os lados havia corredores, seguindo o interior da parede pela qual tinham entrado.



Vander guiou-os pelo corredor da esquerda; não tinha ido por ali da outra vez que viera, mas tentou se orientar o melhor que podia. Fizeram uma curva por um corredor e seguiram por ele. A fortaleza era maior do que parecia, de teto alto e surpreendentemente limpa, até aconchegante, para um lugar que parecia abandonado. Não encontraram ninguém, nem mesmo NPCs; fora isso a estrutura poderia perfeitamente ser habitada pelo mais nobre dos reis. Passaram por dúzias de quartos trancados, salões de armas e entradas de porões firmemente fechados por correntes com cadeados. A luz vinha de archotes nas paredes e brilhava de maneira tão uniforme quanto lâmpadas, mas tremeluziam um pouco. Passaram por um corredor largo, com uma das paredes cortada por um buraco em forma de faixa horizontal, como o visor de um elmo, que permitia ver o interior de um aposento quadrado do outro lado. O chão eram grades de metal a poucos metros acima de uma piscina de lava borbulhante. Cabeças de leão esculpidas decoravam os quatro cantos do interior. Embora tivesse lava, a sala era de certa forma mais escura, e podiam sentir o calor vindo da parede. Depois de passarem por ela foi que encontraram o primeiro fantasma.



Era uma mulher, azul-pálida, quase transparente. Tinha cabelos longos e lisos, volumosos na cabeça, e uma voz que era pouco mais que um murmúrio:



—Invasores... Devem morrer — a expressão era indiferente de cheia de uma profunda tristeza — Vocês não sabem o que ele faz com invasores. Eu tentei falar com ele, mas ele não me pode ver. O caminho que escolheu é negro demais, fundo demais para que ele possa voltar.



—De quem está falando? — Dave quis saber.



—No passado, o Rei Leão era um grande rei — a mulher continuou a dizer— Sempre foi rígido, mas não era como hoje. Hoje, é consumido pelo desejo, pelo ódio e pela vingança, e vocês... Se forem bons guerreiros, poderão impedí-lo. Nada disso me diz respeito — suspirou — Nada do mundo dos vivos pode me fazer mal agora. Mas, se suas vidas importam a vocês, ouçam-me. Este castelo deveria estar escondido, pois o Black Mage, seu mestre, já não tem mais forças. Enquanto o Black Mage estivesse derrotado e selado, todo este teritório estaria oculto e invisível em névoa. Uma vez que o Black Mage estivesse prestes a voltar, Rei Leão retornaria com seu castelo e seu poder, para lutar por seu mestre e conquistar o mundo para ele.



Ninguém conhecia nenhum Black Mage, mas não deixaram a informação de lado. Uma vez, um profeta em Henesys dissera que tinha visto nas estrelas que os cogumelos iriam se erguer cheios de veneno, e na semana seguinte a vila foi tomada por cogumelos gigantes, coloridos e cheios de espinhos. Cobriram Henesys inteira com uma névoa venenosa, que só terminou quando a Death Star encontrou e derrotou os cinco Cogupais espalhados pela vila. Tinha sido apenas em Henesys; agora, o que aquela mulher falava dizia respeito ao mundo inteiro. E a fortaleza realmente não estava ali antes.



Como era de praxe, a fantasma acreditava que o mundo estava correndo um grande perigo, mas eles(os nobres e corajosos guerreiros) poderiam salvá-lo se lhe trouxessem duzentos pedaços de escama derrubados pelos Crocky, os guardas-crocodilo. Antes de voltarem ao pátio para caçá-los, porém, Vander insistiu que fossem mais para dentro da fortaleza, até encontrarem uma saída em um pátio lateral onde havia outro tipo de monstros. Ursos, enormes, sentados em lobos que eram três vezes menores que eles e duas vezes maiores que homens.



Ali, num nicho formado por um canto de duas paredes, sentava-se um vulto de roupas escuras, tais como as de Vander. Meia dúzia de monstros vagavam no meio do caminho. Karlin criou uma torre de metal, disparando um cometa reluzente que foi chocar-se no chão a uma boa distância. Os monstros foram todos para lá, e Vander aproximou-se do vulto, sentando-se como se estivesse entrando nele. Então só havia uma pessoa ali, e ela se levantou e se aproximou.



—Agora sim — ele permitiu-se um sorriso — Desculpem-me, foi assim que escapei. Atiradores podem criar uma projeção astral de si mesmos para pedir ajuda ou avisar quando a situação fica feia, mas o corpo permanece no lugar.



Os guardas-crocodilo estavam à espera no pátio, observando com seus olhos amarelos e sem amizade. Dave os enfrentou com a foice, penetrando escamas duras como telha e rasgando sob a lâmina curva. Os punhos de Bruken faziam pouco efeito, mas se ele alvejasse os pontos onde Vander disparava dardos, causava mais dano.



Julia criava pulsos de calor ao redor de si, para neutralizar a neve e permitir que Gui causasse maior dano com gelo. Notaram que os Crockys eram excepcionalmente resistentes e duravam bem mais que monstros comuns – de fato, Davien precisava esquivar-se o tempo todo das pesadas espadas. Um a um, os Crocky caíram, e suas escamas e totens foram parar no inventário do líder. Karlin só precisou curar uma vez, quando Bruken foi atingido por duas espadas simultâneas, perdendo quase metade da vida de uma vez só. Depois disso ele rodopiou numa espiral elétrica e neutralizou o Crocky mais perto, ao passo que o segundo pereceu sob lanças de raio.



Depois dos Crockys, a mulher-fantasma queria que enfrentassem dragões de chão: gárgulas de pedra de pele roxa e rija, e os monstros que tinham cercado Vander. Eram lobos achatados e de pele azul-desbotada, com ursos brancos como a neve armados com porretes. Sentavam-se virados para a traseira, mas apesar disso e do peso dos ursos, os lobos eram rápidos, e as maças dos ursos eram tão pesadas e precisas que Dave foi atingido na cara uma vez. Ficou caído por um tempo e teria sido escorraçado por cinco monstros se Gui não estivesse ali para ajudar.



—Este não é um mapa feito pra se vir sozinho — Dave decidiu. Ele precisava de vários golpes para derrotar cada urso e lobo, e isso ajudado pelos raios de Gui e com Karlin a assegurar a cura.



Nunca tinham enfrentado monstros mais resistentes, fortes ou ferozes, e até alguns chefões de repente não pareciam tão difíceis. Decidiram descansar após entregar os itens; pele de lobo e dentes de urso, e também seus capacetes. O castelo era quase tão frio quanto o lado de fora, mas dormiram sob uma torre aquecedora de Karlin. Vander ficou com o turno mais longo de vigia, embora Davien jamais o deixasse acordado sozinho.



—O que tem no final do castelo? — perguntou num dos momentos em que Vander parecia se recusar a dormir.



—Ainda não sei. Nunca cheguei tão longe depois dos ursos montados. Se o que aquela mulher diz for verdade...



—A Death Star luta pelo jogo. Se for verdade, vamos derrotar o Rei Leão e fazer um bem a todo mundo.



—Isso parece ser coisa séria — preveniu-o Vander — Esse castelo só apareceu aqui há pouco tempo, e certamente não foi por acaso. Tem alguma trama importante nisso tudo.



—Está com medo? — Davien notou o tom de voz dele. Vander deu de ombros.



—Eu estaria confiante se essas tramas fossem controladas pelos administradores do jogo. Nunca devemos nos esquecer de que são invasores no comando... E quem sabe o que pode nos acontecer se encontrarmos coisas impactantes pelo jogo.



Quando o atirador dormiu, Davien acordou Bruken para rendê-lo na vigia. Continuaram pela manhã, passando por golens de pedra com braços longos e grossos, recheados de magma e vidro derretido. O líder viu-se analisando o estilo de luta do novo aliado, pensativo enquanto observava. Vander atirava e carregava um segundo dardo bem mais rápido do que numa balestra real, mas bem mais lento do que Sheddeer, por exemplo. Os dardos iam com muita força, ao ponto de fazer tremer os pesados golens, e penetravam fundo, tirando muito mais HP do que uma flecha de arqueiro.



Dentro das muralhas exteriores da fortaleza havia mais espaço vazio do que paredes e teto, e neve o tempo todo. Os monstros iam de golens a gárgulas e dragões roxos, e quanto mais longe iam na fortaleza, mais fortes iam ficando. Levaram cinco dias ao todo, e nesse tempo Julia ficou prestes a alcançar o centésimo décimo nível, Vander upou nada menos que doze vezes, Karlin quase a mesma coisa e Davien aumentou um nível. A Experiência ganha em Quests também ajudava, mas sempre que enfrentavam um tipo de monstro, matavam até que o mais fraco parasse de ganhar muita EXP. Dessa forma upavam o máximo que podiam antes de se arriscar no monstro seguinte. A mulher fantasma aparecia para eles ora numa ameia, num canto de parede ou num quarto escuro do lado de dentro, e tinham que procurá-la para receber mais Quests. No quinto dia, entregaram à fantasma mil asas de dragão roxo, e ela disse:



—Ah... A força está de fato com vocês. Boa sorte — elevou-se no ar alguns centímetros, desaparecendo até sumir.



—Finalmente acabou? — Bruken soltou um suspiro de satisfação — Foram ótimas lutas. Acho que agora o MapleStory está começando de verdade.



—Calma aí — Gui se adiantou — Então é só isso? Terminamos tudo?



—Tem que haver mais. Não pode ser só isso — Julia disse.



Vander não respondia. Por baixo dos óculos, sua expressão era sombria e pensativa ao mesmo tempo. Davien estreitou o olhar até o atirador sentí-lo e olhar para ele.



—O que há no final da fortaleza? — Davien perguntou.



Desta vez, Vander não hesitou antes de responder. Encarou-o e disse:



—O antigo rei de El Nath, o Rei Leão. Ele vendeu a própria alma ao Black Mage, e seus servos morreram ao se rebelar. Foram transformados em monstros e fantasmas, e passaram a guardar o castelo.



—E como você sabia disso? — Davien lhe perguntou.



—Eu não sabia que sabia. Quando virei Atirador, recebi o livro do explorador Halbert, um dos aprendizes de Athena, e posso acessar os conhecimentos que ele reuniu enquanto viajava. Havia informações sobre um homem chamado Von Leon, que era rei em El Nath e traiu seu povo, mas não tinha percebido que era o Rei Leão. Agora parece muito óbvio.



—Tenho um dispositivo parecido — Giu respondeu — O que você sabe sobre ele?



Os outros inadvertiramente convergiram para mais perto, querendo ouvir a história. Vander falou:



—Von Leon fica na Torre do Rei, disponível para luta depois de completar todas as Quests para se chegar até ele. É um excelente lutador — exibiu-lhes a página do livro. Havia o desenho de um homem austero, de expressão fria e solene, apoiado indolentemente numa grande espada de duas mãos — Em sua forma humana, não é diferente de outras pessoas, mas também pode assumir a forma de animal, muito maior, mais forte e feroz. E também possui algum tipo de magia negra, que não tinha antes de se unir ao Black Mage. Uma vez que Von Leon é derrotado, ele se transforma em seu lado mais temível e perigoso.



—Acha que nós damos conta? — Bruken olhava para o líder.



Davien não tinha tanta certeza. Mas respondeu de imediato:



—Os guardas da fortaleza não foram páreo para nós. Mesmo que seja uma luta difícil, não será impossível. O que você acha, Gui?



—O monstro mais alto da fortaleza está no nível 134. Von Leon provavelmente é 140, mas vamos supor que seja 150. Ele está mais de cinquenta níveis acima da Julia, então ela precisaria ficar na retaguarda com o Karlin. Se ele não invocar monstros, posso proteger você ao máximo e ajudar a distraí-lo. Senão, as flechas do Vander podem mantê-los afastados enquanto você e Bruken o enfrentam diretamente. Eu arriscaria a luta.



—Eu também — Bruken exibiu seu sorriso engordurado.



Procuraram, então, a Torre do Rei. De volta a céu aberto, viam somente a muralha à esquerda; a outra estava do outro lado de uma intensa nevasca. Um vulto escuro surgiu da escuridão e a torre apareceu diante deles. Alta e imponente, circular com ponta espetada como uma lança, tão larga quanto uma casa grande. As portas de ferro estavam trancadas com correntes, mas da parte de trás da torre saía o começo de muralha. Precisaram entrar dentro dos muros. Lá dentro, Uma escada em espiral contornava a torre cheia de quartos e ricos aposentos, todos eles desertos, limpos e abandonados.



Lá em cima, as portas duplas de madeira iam do chão ao teto. Uma cabeça de leão feita de prata enfeitava o centro. O grupo parou de frente, preparando suas habilidades; o sarcófago de Davien que aumentava o HP e o MP máximo de todos, a Meditação de Gui que aumentava a magia, o esfregar de punhos de Bruken que criava eletricidade estática para um golpe. Karlin abençoou um por um, melhorando um pouco de todos os atributos incluindo magia e ataque. Vander respirou fundo e acima de sua cabeça surgiu um elaborado olho verde, comprido e brilhante. Karlin, tão garoto, era a imagem da calma.



Davien abriu a porta.



Era um portal, e ao invés de abrir teletransportou-os para o outro lado. O salão, maior do que todos os outros, estava vazio. O chão era coberto de um suntuoso tapete vermelho, as paredes, de pedras grandes e retangulares. O teto era em arco, iluminado por uma centena de lustres. Tapeçarias com gravuras de leões, guerreiros e a paisagem gelada de El Nath eram exibidos nas paredes. Não havia qualquer tipo de mobília e, fora as decorações das paredes, estava tão vazio quanto uma casa em mudança. Uma enorme lareira arruinada dominava a parede oposta da sala, com o console rachado e pedras caídas da chaminé no lugar de lenha.



—Não baixem a guarda — Davien avisou — Vamos avançar.



Ele e Bruken foram lado a lado, com Julia, Gui e Karlin atrás e Vander na retaguarda, uma flecha pronta na besta. O rico forro do chão abafava os passos. Não havia sinal de Von Leon; só o que tinha eram as portas de madeira e a lareira. Avançaram para Julia conjeturou acendê-la com uma chama, mas havia pedras demais.



Um rugido de estourar os ouvidos quebrou o silêncio; todos, à exceção de Vander e Karlin, sobressaltaram-se com um pulo. E o chão realmente tremeu quando uma coisa imensa caiu do alto, imensa, com braços e pernas. Davien mal teve tempo de erguer a foice quando um braço grosso como uma árvore o jogou com força. Karlin e Julia também foram atingidos, e levantaram-se ao mesmo tempo que ele.



—Só depois de derrotado, é? — Bruken cuspiu em zombaria, de pé e com os punhos preparados.



A criatura que só podia ser o Von Leon era três vezes mais alta que eles. As pernas, o tronco e os braços eram de um homem muito musculoso, com pêlo por baixo da regata e do bracelete de ferro no braço esquerdo, mas a cabeça era a de um leão, e tinha quase o tamanho do corpo. Talvez fosse devido à juba, um matagal vermelho ao redor dos olhos furiosos, do focinho e da boca infestada de dentes. Ele rugiu seu desafio e avançou para Gui.



O rapaz corria com um relâmpago prateado crescendo na mão. Von Leon puxou o braço para trás e atacou. O rapaz sumiu e apareceu do outro lado, jogando a lança nele. O primeiro dardo de Vander o acertou no pescoço, pequeno como um palito. Davien chegou com um corte de sua foice, abrindo-lhe o peito largo e saltando para o lado para escapar de um chute. Foi atingido em cheio pelo punho descente de Von Leon, e cambaleou para recuar enquanto Bruken socava as pernas.



Vander atirou quatro tiros elétricos que, ao se cravarem no peito, ligaram-se por um campo de eletricidade que explodiu e causou dano. Davien, de volta, deu um corte com a foice. Von Leon deu dois passos pesados para trás e baixou-se para morder com velocidade surpreendente. A lâmina de Dave subiu bem no momento certo e rasgou-lhe a cara. A barra de HP mostrava cerca de 90% agora.



A essa altura, Karlin tinha construído duas torres protetoras e trabalhava na terceira, enquanto Julia usava seu fogo o máximo que se atrevia. Sempre que ficava perto demais, teleportava para longe.



As lanças de Gui explodiam no corpo, nos braços e nas pernas como trovões. Dardos de gelo espetavam o monstro a todo momento enquanto Davien se mantinha a uma distância mais segura e cautelosa. Tinha alto HP sendo da classe dos Lanceiros, mas sua armadura era de aço leve, que favorecia os movimentos. Não resistiria a muitos golpes, e Von Leon parecia pressentir a fraqueza. Seus socos eram horizontais, às vezes vinham como tapas, e às vezes ele chutava ou batia o punho no chão com toda a força, num instante se recuperando para um outro ataque. Era grande, duro e forte como um gorila, e rápido como um leão.



Davien mantinha-se recuado, tentando colocar a foice entre os dois. Von Leon, apesar de grande e da aparência, não era selvagem. Havia astúcia em seus ataques, e havia aprendido que Davien era quem carregava a maior ameaça. Mantinha-se em movimento para ficar mais fora do alcance de Bruken, e erguia um braço para interceptar uma lança de raio de Gui.



Então Von Leon ergueu as mãos. Elas cobriram-se de uma geléia negra, que espalhou-se pela palma e cobriu os dedos. Davien, Gui e Bruken foram para o mais longe possível, mas Gui não escapou do salto do leão. A fera deu um impulso rápido com as pernas, e num segundo assomava sobre o mago, a boca aberta cheia de dentes num rugido e os olhos penetrantes brilhando. Fechou-o em ambas as mãos com um sonoro barulho. Von Leon deu um passo para o lado e atacou Bruken.



Gui tinha Proteção Arcana, portanto perdeu mais MP do que HP. Davien andou para trás. Von Leon foi atrás dele, cobrindo a distância com passos pesados. Um raio de gelo acertou-o na cara e Davien, sem aviso, avançou para a frente. Cravou a foice numa perna e puxou-a para rasgar. O chute de resposta veio quase instantâneo e Bruken entrou na frente dele, agarrando a perna com ambas as mãos.



Ele era baixinho, e ainda mais comparado a Von Leon, mas o leão tropeçou quando a perna parou. Furioso, ele baixou um maciço soco contra o rapaz menor, que levantou os braços para agarrá-lo. Forçou a mão de Von Leon para cima, mas ao invés de tentar esmagá-lo, Von Leon o agarrou com a outra mão, dando um apertão e empurrando Bruken longe. 40% de seu HP se perderam quando ele rolou pelo chão, levantou e investiu rapidamente, mostrando os dentes. Von Leon chutou outra vez, e Bruken volrou a agarrar-lhe a perna.



Quando Von Leon tentou puxá-la, Bruken segurou-a com os braços e o leão sentiu resistência. Os braços do rapaz começaram a brilhar e seu corpo foi tomado por energia esvoaçante, como vento ao redor de uma pedra. Então seu corpo explodiu.



No lugar dele, surgiu um homem puramente feito de eletricidade, amarela e faiscante, com uma cabeça grande com cabelos de serra. Flexionou as pernas, impulsionou e saltou contra a barriga exposta do inimigo.



Nem mesmo os raios mais poderosos de Gui faziam frente ao estrondo de Bruken lançando-se contra a pele dura. Von Leon resistiu; Bruken caiu, passou por baixo das pernas e atacou pelas costas. Von Leon virou o corpo num soco cego que Bruken escapou saltando, pisando no braço ainda em movimento e lançando-se outra vez contra o peito largo. Caiu no chão, pulou novamente no leão, voltou a socá-lo nas pernas e Davien atacou com a foice.



Von Leon deu um pulo. Caiu no chão com os joelhos dobrados, sua juba escureceu e a luz no salão diminuiu rapidamente até quase apagar. Seus olhos vermelhos brilharam, e o rugido mais alto de todos ecoou pelo salão, uma força invisível que deixou Bruken tonto e destruiu as torres de Karlin. Sua Proteção Arcana consumiu todo o MP de uma vez e mais da metade do HP, e Julia quase perdeu todo o MP.



Um obelisco de gelo tinha aparecido no salão; explodiu, revelando Gui, intacto, que correu e saltou, teletransportando-se para cima. Ficou lá no ar, uma mão erguida para baixo, condensando ar por sobre o braço esticado. Faíscas brilharam e relâmpagos estouraram. De sua mão, saiu um jorro de luz brilhante e distorcido, mil raios juntos em um só.



Von Leon rolou para um lado, ágil como um felino. Saltou sobre o homem vendado. Gui tentou pôr os pés nele para teleportar, mas foi lento demais e a criatura o jogou com força no chão. Pisaria em cima dele, mas Bruken arremessou-se contra o tornozelo no momento em que ele levantou a perna. Julia atirou uma pedra flamejante e Davien urrou ao pular com a foice erguida. Von Leon equilibrou-se com uma mão e deu uma rasteira com o corpo.



Aquilo era como um muro vindo em cima deles, impossível de ser desviado. Só Bruken foi capaz de escalá-lo com dois saltos rápidos. Pulou bem alto quando chegou no topo. Von Leon se pôs em pé e um punho subiu como um foguete para agredí-lo no ar. A foice de Davien foi bloqueada com uma canelada e o raio de Gui explodiu na juba ao lado da cabeça.



Von Leon colocou-se em posição e escureceu o aposento outra vez. Gui confinou-se numa pedra de gelo e Julia gritou por socorro. Bruken não pensou; jogou-se contra ela e Karlin, abraçando-os bem a tempo, recebendo a maior parte do golpe quando a sala ficou escura.



Tornou a se acender. Quando acabou, ela estava sem MP, a poção que esperava beber caindo de sua mão e despedaçando-se. Não tinha se recuperado completamente do golpe anterior, e Karlin, tampouco. Os olhos brilhantes do rapaz ficaram confusos e ele levou as mãos à barriga, caindo de joelhos no veludo vermelho. Seu corpo brilhou por um segundo e explodiu em fagulhas coloridas.



Bruken não tinha boca naquela forma, apenas um par de olhos brancos e zangados. Julia fechou um punho. Lá perto do Von Leon, Gui fazia cair uma geada. Davien mantinha-se na frente, os pés movendo-se numa dança cuidadosa enquanto evitava os socos e chutes de Von Leon. Por vezes um dardo de Vander vinha e confundia o leão por um instante, o que ás vezes abria uma brecha e permitia uma entrada de Davien. Ele não parecia ter notado o que aconteceria a Karlin, mas seu HP estava quase pela metade. O de Gui, quase completo, embora suas magias não parecessem fazer muito efeito. Von Leon tinha sido o rei de El Nath, e deveria ter bastante resistência ao gelo.



Bruken voltou à luta, golpeando as pernas, pulando no peito. Von Leon enegreceu as mãos e deu um salto, mas do chão saiu uma enorme corrente, presa a algo que parecia mais um arpão gigante do que um dardo de besta. Atravessou o peito do leão e o puxou com força, pregando-o no tapete. Davien subiu em cima dele, ceifando as costas em rajadas rápidas e curvas. Bruken, com um sorriso feroz, pôs-se a socar a cara.



O HP de Von Leon estava na metade. Pôs as mãos no chão e lutou para se levantar, dando impulso uma vez, mas o arpão resistiu. Na segunda, arrebentou as correntes e se ergueu, mas Davien já tinha saído de cima dele. Julia explodiu uma flecha venenosa no rosto dele, mas Von Leon concentrou toda a sua fúria no lanceiro. Quando Davien foi atingido uma segunda vez, por um soco, andou até ficar bem recuado, esperando a cura. Mas seu HP não aumentou.



—Karlin, cura — chamou, com o HP nos 40%, mas não houve resposta — Karlin, anda! — e quando se virou para procurá-lo, não o viu, exceto uma torre alta e quadrada que ninguém tinha visto.



O vidro verde que er ao topo da torre brilhou e lançou um feixe curto no tapete abaixo dela. Começou a tomar forma, crescendo e ficando mais claro até Karlin estar ali, pequeno em suas vestes brancas e douradas, segurando um cajado metálico. Ele não pareceu ouvir a ordem de Davien, mas viu-lhe a barra de vida e apressou-se para curar.



—Desculpe! Eu caí.



—Você... Não demore tanto de novo — Davien respondeu, rápido. Esqueceu-o logo depois ao voltar para lutar contra o Von Leon, mesmo que o HP ainda estivesse subindo.



Bruken voltara à forma normal, mas nem por isso menos feroz. Davien percebeu que ele não estava usando habilidades e usava somente os socos, às vezes imbuídos de eletricidade. Sabia que isso se devia ao pavio curto do rapaz e gritou um aviso, mas não teve certeza se o rapa zo ouviu. Quando o braço de Von Leon veio, Davien esquivou-se e a lâmina da foice entrou imediatamente no braço peludo e grosso.



A essa altura, Julia já estava cheia de poções de MP e não conseguiria beber nenhuma; foi forçada a ficar na parte mais longe do salão junto a três torres de Karlin, afastando-se sempre que a luta se aproximava. Von Leon usou seu ataque de escurecer mais duas vezes, e em todas elas Karlin conseguiu se proteger a tempo com suas torres, embora o golpe as destruísse. Bruken usava MP para a eletricidade nos punhos e já tinha bebido quatro poções. Davien, duas. Deu ordens para serem mais cuidadosos; do jeito que estavam, eram atingidos algumas vezes, e sempre conseguiam se recuperar a tempo de receber a cura e esperar os segundos necessários para o HP encher de novo. Mas Karlin em breve poderia ficar saturado de beber MP; quando isso acontecesse, seria uma tragédia para todos, pois precisavam muito Cura e da Bênção.



Davien usou novamente seu sarcófago. Gui tinha bebido uma única poção até agora, ainda que fosse mago. Cuidadoso, evitava os golpes e só atacava quando tinha uma chance, com preparação e cuidados num nível oposto ao de Bruken. Von Leon virou-se para Davien, mas desta vez o rapaz conjurou uma parece de aço entre ambos. O soco fez a parede estremecer e sumir, mas notou que a mão do leão havia sentido o golpe. Depois disso Davien passou a usar a técnica o tempo todo, embora com isso tivesse que gastar mais MP. E Gui resolveu arriscar e usar uma de suas habilidades mais poderosas, uma que consumia MP para gelar o ambiente e fazer aparecerem portais por toda parte. Cada portal era uma lança de gelo que disparava contra Von Leon, inflingindo mais dano quanto mais MP era gasto. Gui usou tudo, confiando que Karlin o curaria e protegeria rápido o bastante. Sem MP, sua Proteção Arcana não funcionava e ele estaria vulnerável. Gui bebeu uma poção e se afastou, enquanto Davien saía de uma sucessão de cinco golpes seguidos com a rápida foice.



Von Leon ficou com 20% de HP, e não mostrava sinais de estar cansado. Baixaram-no para 5%, e Julia aproximou-se corajosamente. Concentrou-se e canalizou uma névoa de veneno no Von Leon. Karlin começou a disparar Flechas Divinas, enquanto Davien e Bruken simplesmente atacavam o quanto podiam.



Von Leon nunca teve uma oportunidade melhor de revidar. Mas tantos golpes de uma só vez reduziram o pouco de HP que lhe restava antes que tivesse tempo de atacar. Seu último rugido foi um grito de dor e fúria, e o leão caiu de lado enquanto desaparecia. Bruken ergueu um punho e gritou também, comemorando e xingando. Vander aproximou-se, um sorriso satisfeito nos lábios. Karlin curou a todos, e Davien assentiu com satisfação.



O corpo de Von Leon era grande, e dissolvia-se em pó marrom começando pela cabeça. Rapidamente, a cabeça e a orgulhosa juba haviam sumido. Karlin, Davien e Vander ganharam todos um nível, mais Experiência do que conseguiriam em uma semana inteira de trabalho.



—Excelente trabalho, Death Star. Vander — voltou-se para o atirador — Vi o HP que aqueles seus dardos tiraram dele, e aquela corrente foi uma ajuda excelente. Se conseguirmos algum item que seja especialmente útil para você, pode...



A força do golpe o derrubou, o lado de sua cabeça bateu com força no chão vermelho. Bruken ao ser atingido também e Davien viu o teleporte de Gui, aparecendo ao lado dele, mas no mesmo segundo o homem estava na frente dele. Davien o reconheceu do desenho; forte, vestido todo de negro do casaco às calças e botas, uma capa de pele forrada de cinza caindo-lhe nas costas. Os cabelos ruivos caíam até abaixo dos ombros, e seu rosto frio como pedra exibia pouca expressão enquanto a espada atravessava o mago, um metro e meio de aço cinzento de dois gumes e cabo negro.



Von Leon encostou um pé calçado pela pesada bota na túnica e empurrou o corpo de Gui para fora. Levantou a arma num círculo para acertá-lo caído, mas Davien se colocou entre ambos, com a foice na frente. Von Leon mudou a direção do golpe e a espada atravessou Davien em diagonal, da cabeça aos ombros.



Virou-se de repente Bruken, que defendeu a espada com os punhos uma vez, mas o segundo golpe foi uma estocada de duas mãos que o pegou no peito. Ao puxá-la, lançou-a para trás num ataque cego que pegou Davien em cheio quando ele vinha para um ataque. Julia lhe lançou uma bolha envenenada; Von Leon sacudiu o rosto, grunhindo, fazendo esvoaçar os cabelos vermelhos.



Bruken berrou ao aproximar-se com toda a sua fúria. Von Leon agarrou Davien pelo braço e o jogou no chão, fincando a espada nele. Bruken pôs-se a socá-lo com raiva e punhos faiscantes de energia. Atingiu um soco no rosto, outros dois no peito. O próximo veio em cheio na mão aberta de Von Leon, que se fechou e a agarrou. A mão livre do pirata lançou-se sobre sua cabeça, mas o golpe morreu quando Von Leon desferiu seu próprio soco, um murro pesado pela luva e pelo cabo da espada que segurava.



Davien ainda estava caído, e não se levantou; Von Leon o puxou, empurrou e, quando o rapaz pegou a foice no chão, avançou com as duas mãos sobre a espada no ombro. A esquiva de Davien de pouco serviu, e a espada bateu com o gume em suas costelas. A barra de vida de Davien chegou criticamente aos 20% quando Von Leon fez um meio círculo com a espada, subindo e descendo em sua cabeça. Karlin o curou e depois fugiu, e Von Leon ignorou a chuva de fagulhas de gelo que caiu sobre ele.



Aquilo era insano; com um golpe a defesa de Davien desabava, e acabava levando mais três ataques vindos de cima, dos lados e pela frente. Cada vez que a espada entrava nele, mil pontos de sua barra de vida iam embora, mais ainda de Bruken. Duvidava que o pirata pudesse aguentar mais do que três ou quatro golpes de espada, e Gui tinha saído daquilo com uma fração assustadora de sua vida máxima. Davien viu um risco passar rente aos cabelos do homem, e foi então que notou que Vander não conseguira colocar nenhum dardo que fosse nele. Ele não conseguia escapar da imensa velocidade da espada, então deu um passo para mais perto, para levar um soco no queixo que o fez cair com força no chão. Bruken, fora de si de fúria, veio como um foguete e Von Leon o segurou pelo punho, interrompendo a corrida. Desferiu uma profunda joelhada com a perna coberta de couro e puxou o braço para jogá-lo atrás de si. Bruken cambaleou, tropeçou e estatelou-se no chão enquanto um relâmpago vinha do céu e atingia o homem.



Gui carregou mais energia para o cajado. Von Leon viu Karlin parado bem longe dele; correu, com a espada pronta, desviando-se quase sem olhar uma esfera gelada que apareceu no chão. Karlin estava atrás de uma torre, e quando o homem chegou, a torre disparou raios. Von Leon a destruiu com dois golpes de espada e empalou Karlin com o terceiro.



Fumaça verde explodiu sobre ambos e um fantasma de fogo abraçou o homem pelas costas. Ele se debateu, balançando a espada inutilmente, contorcendo-se enquanto a névoa o sufocava. Pulou para longe dela, mas o fogo continuava em suas roupas, o fantasma flamejante atrás de si apertando-o firmemente. Karlin tropeçou ao fugir. Gui, materializando-se na frente de Von Leon, fez surgir uma mulher de gelo que abriu os braços e espalhou um pulso de ar, neve e pedaços de gelo afiados como estacas. Alguns penetraram Von Leon. Gui ergueu os braços, tentando congelá-lo.



O gelo não apagava o fogo, mas ele começou a diminuir quando Julia teve que parar de concentrar suas forças no fantasma. As roupas de Von Leon eram à prova de fogo e ele chocou-se contra Gui, derrubando-o longe. Quando virou-se para Julia, a menina estourou numa série de explosões e não estava lá quando elas se dissiparam. Gui afastou-se o mais que podia, bateu a ponta do cajado no chão e começou a recitar.



Julia apareceu, jogou fogo e sumiu. A espada de Von Leon girou como se soubesse onde a menina apareceria e a atravessou com a espada, puxou-a, soltou, agarrou-a pelas pernas e a atirou longe. Virou-se para um lado, para onde Davien vinha correndo. Correu, mais rápido do que o guerreiro poderia julgar e saltou sobre ele. A foice não foi capaz de bloquear a força da espada e Von Leon lhe deu um chute quando ele caiu. Julia e Bruken tentavam aproximar-se de lados diferentes, mas a espada de Von Leon era prata escura viva. Seus golpes pesados quase mataram Bruken, e Gui precisou segurá-lo para longe da luta. Cada vez que Julia era atingida, a Proteção Arcana exigia quase metade do HP, e ela não pôde mais se arriscar. Já estava cheia de poções de MP.



Davien, ao contrário, estava aquecido pela luta anterior e sentia-se muito mais forte. Fingiu bobear e manteve Von Leon no lugar, mas ele parecia ter conservado a audição de leão. Os dardos de Vander sibilavam por ele sem acertar, Von Leon sempre desviava. Evitou também uma armadilha de urso, cinco redes, bombas e uma chuva de flechas que veio do céu. Simplesmente não valia a pena que Vander usasse qualquer uma de suas habilidades, Von Leon era rápido o bastante para desviar de tudo.



Conseguiu, por fim, colocar uma seta no braço de Von Leon enquanto este começava um golpe contra Davien. As roupas de couro bloquearam a maior parte do dardo, mas a ponta penetrou fundo. A espada falhou, e a foice penetrou no ombro do homem e rasgou o peito. O outro braço subiu e agarrou o pescoço de Davien. Von Leon se ergueu, e as mãos do guerreiro foram automaticamente para o pescoço. Soltou a foice. Os golpes de Von Leon não podiam ser tão fortes quanto os punhos do leão, mas a mão dele parecia de aço, esganando e espremendo a vida de Davien. De alguma maneira, o líder da Death Star se viu entre Von Leon e seus companheiros, como um escudo para os disparos de Vander. Sem soltá-lo, Von Leon passou a espada deslizando por uma soqueira quando Bruken veio, interrompendo o soco e enfiando a lâmina no peito do rapaz.



Davien sentia sua vida se esvaindo, pontos pretos começaram a dançar diante de seus olhos. Não via Bruken, mas ouvira seu gemido. Von Leon o soltou; uma pequena torre erguia-se entre ambos, pondo-se a disparar contra o atacante. Ele rolou antes mesmo de o primeiro disparo atingí-lo, sacou a espada e destruiu a torre.



O estouro veio lá de trás, quando Gui liberou sua magia e os raios atingiram o homem ruivo em cheio pelo flanco. Bruken ainda se levantava do chão, com HP baixo. Karlin o abençoou e Davien acertou Von Leon repetidas vezes com o gume curvo de sua foice. Os raios que mantinham o inimigo paralisado dissiparam-se de repente, e no mesmo instante a espada subiu para bloquear a foice, descendo para acertar Davien em cheio.



O guerreiro deu um giro e cortou com a foice. Bruken pulou nas suas costas e desatou a dar cabeçadas, mas era como bater a cabeça contra uma rocha. Von Leon virou a nuca para trás de súbito e Bruken escorregou de cima dele, tonto. Gui apareceu bem na frente. Explodiu em gelo, depois espalmou uma mão coberta de raios em seu peito e teletransportou-se para cima quando Von Leon tentou revidar.



Gui estava no ar; então ambos se teleportaram e trocaram de posição. Gui deitou-se de costas, ergueu os braços e uma saraivada de raios manteve o homem lá em cima. Um dardo de besta grande como um obelisco cravou-se nele, e quando Gui terminou a magia, rolou para fora do caminho e Von Leon começou a cair em direção ao chão.



E quando isso aconteceu, Davien estava debaixo dele, a foice preparada. Von Leon caiu em cima da lâmina enquanto o guerreiro apoiou o cabo num joelho e girou como força, como numa alavanca, arremessando longe o rei. Bruken correu precisamente para onde ele iria cair e seu punho triplicou de tamanho, brilhante e faiscante, para socá-lo de volta para o ar. E, exatamente da maneira que tinham ensaiado tantas vezes antes, Julia fez uma pedra de fogo aparecer em cima dele no momento em que começava a cair, baixou os braços e a pedra desabou sobre o chão, levando Von Leon consigo.



A pedra não o esmagou contra o chão, mas sim contra a lateral do gume de Davien quando ele se aproximou veloz como uma serpente. Davien girou a foice por trás do corpo, trocando de mão e voltando a pegá-la com a outra, e o gume fintou certeiramente para o pescoço de Von Leon. Quando ele caiu no chão, Davien o virou com um pé e o plantou em cima do peito forte e coberto de negro.



Von Leon tinha escapado daquilo ainda com o HP amarelo, mas alguns golpes resolveram o problema. Finalmente, o homem parecia esgotado, com sangue escorrendo da boca. Davien não o matou, porém. Empurrou a espada com o pé, esperou que os outros se reunissem, olhou para ele e perguntou:



—O que me oferece em troca de sua vida?



Von Leon não respondeu. Os profundos olhos frios do homem o encaravam sem hesitar, como os olhos de um predador, mas tinham a expressão de um predador ferido e a meio passo da morte. Davien tinha a parte de fora da foice encostada no pescoço dele, a parte sem gume, mas bastaria um simples movimento para cravar a ponta na pele. Perguntou mais uma vez, o coração reverberando com a vitória, ansioso com as recompensas que poderia obter se Von Leon falasse. Tornou a perguntar, mas o homem não respondeu.



—Minha vida é o que ofereço — ele falou quando Davien repetiu a pergunta pela segunda vez — Não me verá suplicar. Não tenho nada a lhe dizer.



Davien ainda perguntou mais uma vez, não querendo deixar escapar nada que pudesse ganhar. Talvez pudesse ganhar aquela espada, por exemplo, ou as roupas que Von Leon usava. Eram ricas e conferiam um excelente visual que ele não relutaria em possuir. Von Leon não disse mais nada depois daquilo, limitando-se a encarar Davien, que voltou a tentar negociar mais uma vez. E, vendo que não conseguiria nada, matou-o.



O salão se apagou, tornando a se acender. Von Leon sumira, e no lugar dele vieram uma centena de fantasmas, todos pálidos e azuis da mesma cor, aparecendo das paredes e atravessando as portas de madeira. Os vivos viraram-se de súbito quando a lareira fe zum barulho, inteira e sem rachaduras, e nela brilhava um fogo vivo, vermelho e laranja. Na parede acima do fogo, surgiu uma grande bandeira branca, com o desenho de uma estrela cujas cinco pontas saíam de uma esfera dourada no centro. Por toda parte, os fantasmas vinham em centenas, agora mil deles, e todos eles louvavam, erguiam os braços e saudavam:



—O rei! O rei! Salvei Davien, o Rei! Davien! DAVIEN! DAVIEN!