Em um momento, Aphanyus golpeava um dragão na floresta — no outro, sua espada atravessava Rockfield no centro de uma cidade.



—Apha — disse o homem de preto — Quem diria, hein? Parece que aumentar Sorte aqui realmente dá Sorte.



Aphanyus guardou a espada. Tinha sido teletransportado para uma imensa praça ladrilhada, cercada por edifícios brancos arredondados. Outras pessoas apareciam o tempo todo, e logo as centenas se transformaram em milhares. Ele olhou em volta, mas além de Rockfield, não conseguiu encontrar mais ninguém conhecido.



—Olha! Olha lá! Ali! — as pessoas gritavam e apontavam.



Numa extremidade da praça, pairava um gigantesco casaco vermelho debruado de amarelo, cheio de enfeites dourados. Flutuava e ondulava, como um fantasma, exceto pelas mãos magras que saíam das mangas compridas. O capuz não cobria cabeça, apenas negro.



—Saudações, jogadores. Muitos de vocês devem ter percebido que já temos pessoas acima do nível 120, e que já completaram o quarto e último avanço de classe — sua voz soou barítona, profunda e grave — Agora que já passou a guerra de clãs, MapleStory Online estará passando por sua primeira atualização.



As pessoas boquiabriram-se, alguns ainda reagindo à noticia de terem sido teleportadas. Mas ninguém falou. Já tinham experiência em serem chamadas daquela maneira, embora a última vez tivesse sido há tanto tempo que a maioria havia se esquecido.



—Todos os pontos de Atributos e Habilidades serão zerados, assim como suas classes. Vocês poderão trocar de classe ou somente redistribuir os pontos, sem afetar aquelas de Buscas Únicas. Será implantado um sistema de correio e mensagens, e todas as localizações, cidades e paisagens foram aprimoradas. As propriedades que vocês tinham, exceto as cidades conquistadas na guerra de clãs, foram retiradas e podem ser compradas novamente, e os antigos donos serão compensados em breve com alguma quantia em mesos. Foram adicionados cerca de 10.000 itens, alguns foram removidos e outros alterados.



—Desde que não mexam na minha espada — Aphanyus disse sério.



—Será adicionado um novo sistema de Habilidades que envolverá a cidade de Ereve. Ela está disponível no mapa e vocês já poderão encontrá-la, se conseguirem. Os dez primeiros a chegar receberão um bônus especial. Haverá também um torneio onde os competidores serão divididos de acordo com as classes. O campeão de cada classe ganhará um conjunto raro de equipamentos e Habilidades especiais. Para se inscrever, deverão falar com o mestre dos clãs, Heracle, aqui mesmo nesta cidade. Esta aqui é Orbis, a primeira cidade a ser atualizada. Os itens agora não mais estarão presos aos jogadores e poderão ser transferidos de mão em mão, sem necessidade do sistema de trocas. Os clãs também foram incrementados. Dependendo das missões que tiverem feito, e da glória obtida por cada um de seus membros, o clã conferirá fama e status pelo mundo. Poderão também unir vários clãs em uma aliança, com um clã central e os demais sendo seus vassalos.



Uma flecha passou voando pelo manto vermelho, sem que nada mais acontecesse. As pessoas começaram a falar e a murmurar entre si, e em algum ponto da multidão houve um pequeno tumulto. Cessou tão depressa quanto começou, e deixou um rapaz reclamando que tinham lhe roubado um capacete. Ninguém prestou muita atenção nele.



—O requerimento para sair continua o mesmo. Ao chegar ao nível 200, o jogador poderá sair do jogo, e seu personagem continuará aqui como ídolo não-jogável, para entregar Buscas e desafios a outros jogadores, e também para ser desafiado. Qualquer jogador que derrote um ídolo receberá seus equipamentos e também todos os seus Atributos, estes, temporariamente. Quanto ao ganhador, a pessoa que chegar ao nível 200 não somente poderá sair, mas também receberá cem mil em dinheiro real.



Alguns jogadores exclamaram, outros prenderam a respiração — todos tinham sido pegos de surpresa. Era claro que os [i]hackers[/i] queriam resgate para libertar os jogadores, então como estavam oferecendo dinheiro? Mesmo com todos os problemas, a novidade atraiu a atenção de um número grande de pessoas.



—Talvez alguns de vocês tenham se perguntado o motivo de tudo isso — a voz recomeçou subitamente — A resposta está em vocês mesmos. Por que se arriscam com os monstros daqui, se há risco de morrerem? Porque sabem que os monstros darão algo do seu interesse. Não é diferente conosco. Por todo o mundo, MapleStory Online é só o que aparece nas notícias, nos telejornais, entre os comentários das crianças... Mesmo hoje, 214 dias depois. Quase todos os países estão se mobilizando contra nós e há inúmeros protestos, cidades estão paradas e os índices de desenvolvimento são perturbados em todo o mundo, exatamente como planejamos. Tudo está acontecendo de acordo com nossos planos, não se iludam quando outras pessoas disserem o contrário. MapleStory Online marca uma nova era para nós... Assim como a atualizações para vocês hoje.



Sua voz ecoou por um longo minuto antes de morrer, mas a imagem do manto flutuante ainda estava ali, indiferente e intocável, para lembrar a todos. Aphanyus o olhava com o rosto duro como pedra. Outros baixavam a cabeça. Alguns atiravam magia, shurikens ou flechas no ser voador, e o efeito teria sido o mesmo se ele fosse um holograma.



O capuz inclinou-se, como se o rosto invisível estivesse olhando para baixo. Ele virou a frente para baixo e deitou-se, abaixando até ficar bem sobre a cabeça dos jogadores. Planou sobre eles, puxando vento e fazendo tudo ficar escuro, trazendo gritos assustados consigo. Pessoas cobriram a cabeça com os braços ou ergueram escudos. Quando o manto vermelho passou por eles, desapareceu e os deixou ali, recuperando-se, olhando-se sem saber bem o que dizer ou fazer.



—Não ajam assim — disse uma voz na multidão — Olhem para mim!



Era impossível para a maioria, com tanta gente ali, mas então um outro manto subiu alguns metros acima de todos. Esse era muito menor e trazia dentro de si um jogador de Honra amarela, vestido de couro macio negro com fivelas e cintos. O rosto debaixo do capuz era branco e límpido, o rosto de um rapaz. Havia nele bondade e determinação, e sua voz tinha um eco natural quando falava:



—Isso ainda não acabou, só começou, como ele disse. Vocês vão deixar uma atualização deixar vocês assim? Ele nos prometeu uma recompensa, ao primeiro que sair e aos outros que falarem com seu ídolo. Adicionou novos itens e melhorou as cidades, isso não é bom pra gente? — ele girava sem sair do lugar enquanto falava, ora falando para um lado da multidão, ora para outro — Estamos com novas oportunidades agora. Ficou ainda mais fácil jogar! Há muitos no nível 120, vocês não ouviram? Isso é mais da metade do caminho. Vocês chegaram até esse ponto, por que vão desistir agora?



Ele deixou a frase no ar e ninguém respondeu, mas Aphanyus sentiu-se encorajado. O menino era mais novo do que ele, mas isso só reforçava suas palavras — se até ele não estava desanimado, por que haveria Aphanyus de estar? Por alguma razão, as palavras daquele manto vermelho tinham reanunciado o poder que os [i]hackers[/i] tinham sobre eles, e isso havia afetado o moral de muitos. Mas parecia que aquele rapaz estava ali para não deixá-los desanimar.



—Ele está certo — houve uma elevação em algum ponto, como uma ferida brotando da pele, e um rapaz de túnica verde elevou-se acima dos outros montado num Yeti, um grande e branco monstro peludo do gelo. Não estava nem perto de aparecer tanto quanto o que flutuava, mas ainda assim estava à vista de todos — Caras desanimadas vão nos levar aonde? A lugar nenhum. Nós entramos no MapleStory Online, e agora vamos sair dele.



—Todos ficamos extasiados quando conseguimos o convite pra jogar, então vamos mostrar do que somos capazes e bater esse jogo — o primeiro rapaz continuou. Alguém bateu palmas, o que atraiu mais alguns outros poucos a fazê-lo — Ouçam, tem agora um sistema de mensagens, não é? Meu nome é Dalmazo. Podem não acreditar em mim, mas ainda estou sem clã no nível 86. Mas eu quero um clã forte, um clã que não mostrou essas caras cansadas que eu vi antes de começar a flutuar em cima de vocês. Sabem o que eu vou fazer? Vou esquecer de todos que eu vi — ele tampou os olhos com um braço — Quando eu voltar a olhar, todo mundo que tiver de cara cansada é alguém que não mereceu ter entrado, alguém que devia ter ficado lá fora, longe do caminho dos fortes. Vou perguntar de novo... Nós vamos desistir agora?



Ele afastou o braço do rosto, e dessa vez houve vivas, embora a maior parte da multidão apenas observasse, os que não gritavam pareciam cheios de uma nova esperança no olhar. Os que eram acanhados demais fecharam os punhos, outros apenas assentiram cheios de coragem, e uma minoria fez barulho e gritou, assoviou e xingou, um sentimento que contagiou também os que não estavam gritando. Dalmazo abriu os braços e sorriu, e deixou-se cair de volta nas mãos dos jogadores. Eles o cumprimentaram, bateram nele e lhe deram tapas nas costas. O menino do Yeti foi menos ovacionado, mas os que estavam mais próximos dele se aproximaram mais, e a primeira aliança de clãs surgiu por ali.



—Sabe Rock, esse Dalmazo podia ser um bom substituto no clã.



—Eu sou Ryo, Rock é o Nightingale da Sunrise of Astoria. Substituto por quê? — a voz de Rockfield distorcia-se por causa da máscara, ficando irreconhecível — Conhece alguém que pretende sair?



—Eu pretendo... A Solaris nunca foi o meu lugar, só entrei pra ajudar na guerra. Quero andar por aí, talvez arranjar algo com a Green Tag Audiosurf... Mas sei lá, nunca fui bom com despedidas. Acho que o moral do clã ia cair se vissem eu sair, acontece em toda guilda... Quando o primeiro deixa a formação, é uma questão de tempo até que um segundo faça o mesmo.



—Se esse primeiro sair por honra, dependendo do motivo, ele será considerado um herói e vai aumentar o moral ao invés de abaixar — Rockfield disse. Seu tom distorcido era sempre neutro — Se acha que precisa sair, vá em frente, eu resolvo com eles.



Aphanyus assentiu, mas hesitou muito antes de se decidir. As pessoas já deixavam o lugar e a praça ia ficando mais espaçosa. A alguns metros de onde estava, ele viu Gatts conversando com o pessoal da Solaris, o que o fez resmungar e virar a cabeça. Abriu o menu, digitou um comando rápido e virou-se para ir embora.



—Me chame, se algum dia precisarem de mim de novo.



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Nos dias que se seguiram, todos descobriram as novas mudanças, e maravilharam-se com o mundo novo que tinham agora diante de si. Quando chegaram em MapleStory Online ele parecia uma realidade animada, mas agora parecia que o mundo antes da atualização tinha saído de um desenho animado.



Zeru queria ir para Victoria, e South foi com ele. O navio era imenso, com velas ainda maiores que o casco e uma cabine escura onde podiam ficar. Sobrevoaram o mar azul, tão real que parecia mesmo o oceano, e quando começaram a descer viram a costa da terra avolumando-se à distância, e as árvores de Ellinia estendendo-se a centenas de metros para recebê-los no porto. A floresta inteira parecia maior, mais viva e de um verde profundo e escuro.



Donnie e Anna foram para Mu Lung, o lugar logo ao sul das geleiras de El Nath. Tratava-se de um arquipélago cheio de pequenas ilhas que ficavam muitos juntas na costa do mar, cada uma delas mais linda e exuberante do que a anterior. A grama de Mu Lung era a mais macia, as árvores tinham folhas verdes, vermelhas e em tons suaves de rosa, e as flores explodiam em muitas cores. Mu Lung propriamente dita era um amplo gramado com poucas árvores, para que se pudesse ver sempre o céu por onde quer que se olhasse. As casas eram todas de madeira fina e armações de bambu, sem concreto ou tijolos, para combinar com a suavidade de tudo.



Gatts e Kiara voltaram para Aquarium, pois queriam ver se as novidades também tinham atingido o fundo do mar — e ver se elas significavam monstros fortes para ganhar níveis. A outra metade inteira do clã Solaris decidiu ficar junta, já que se encontravam mais distantes que os demais em níveis.



Eles ficaram na própria Orbis, onde foram explorar os parques que cercavam a cidade. Orbis flutuava, mas tudo ao redor dela tinha chão de nuvens. Chegaram em locais distantes onde havia criaturas similares a leões, porém quase do tamanho de elefantes, de pêlos brancos e quatro patas feitas de nuvem que não eram ligadas ao corpo. O nível desses monstros ultrapassava muito o deles.



Liderando o grupo, Giu era uma mancha negra no meio de todo aquele branco. Aparecia atrás de um leão e o cortava com a adaga e depois pulava, caindo em cima de outro. A arma, uma adaga Liu Bei de duas lâminas serrilhadas, ia quase até o peito se colocada de pé na frente dela, mais de um metro da ponta de uma lâmina à outra. Movia-se agilmente, saltando de um leão ao outro antes de ter terminado de matar o primeiro, deixando-os para que Tabs e Nick terminassem com eles.



Noctolia lhe dava cobertura com seu arco, disparando flechas sempre de uma distância segura. As flechas dela pinicavam e interrompiam os ataques dos monstros, mas ficava sempre à distância, o branco de suas roupas misturando-se às nuvens. Kash provava ser uma arqueira tão ágil quanto rápida — ao invés de escolher uma posição e atirar, ela corria no meio dos monstros, saltando de uma plataforma flutuante a uma nuvem, puxando a corda e soltando-a, verificando o resultado do tiro apenas com o canto do olho pois já tinha se virado para outro alvo. Era a mais baixa do grupo e o arco era proporcionalmente grande, em relação às armas dos outros. Movia-se em silêncio, de testa franzida e boca torcida enquanto se concentrava. Seu cabelo batia e se mexia livremente atrás do corpo.



Com o Símbolo Sagrado de Thugles, o grupo ganhava ainda mais Experiência. Em dois dias, Tabs alcançou o nível 90 logo à frente de Giu e Nick, no 88, Kash no 85 e Noctolia e Thugles no 84. A maga de terra ganhara uma nova Habilidade, Totem de Magma, que trazia pedras semiderretidas das profundezas do chão e as fazia eclodir, como uma miniatura de vulcão. Não podia, contudo, testá-la no parque flutuante de Orbis, e com isso surgiu-lhes a primeira pergunta sobre para onde mais poderiam ir.



—Podemos tentar a Mina dos Mortos. O Gatts foi lá antes do terceiro avanço e o lugar ficou muito mais forte, mas a gente também — Thugles sugeriu.



—Zumbis — Nick pronunciou lentamente — Tem zumbis lá. Pra mim está ótimo, os monstros daqui já estão fracos mesmo.



Giu não parecia concordar.



—Isso fica pra lá de El Nath, não é? Já tive minha cota de experiência com aquele lugar, obrigada. Da última vez que entrei, fiquei lá por séculos.



—Podemos ir pra Mu Lung, então — Nick sugeriu.



Decidir foi difícil, mas por fim acabaram escolhendo ir para Victoria. Era uma ilha pequena comparada ao continente de Ossyria e até mesmo a Orbis, mas tinha sido o primeiro lugar onde tinham ido depois da Ilha Maple, nos primeiros dias de jogo. Era também o mais diversificado: havia uma cidade, uma vila de cogumelos, um porto, um porto pirata, uma grande região de despenhadeiros áridos e penhascos e também uma imensa floresta habitada por fadas. Todos haviam feito seus primeiros avanços de classes numa das cidades de Victoria, e fora da boca do instrutor que aprenderam sobre as habilidades e peculiaridades de cada classe antes de escolhê-la. Se havia um lugar onde a maioria dos jogadores pudesse dizer que se tratava de um lar, era Victoria.



Mal entraram no porto de Orbis quando um vulto vestido de negro parou diante deles, usando uma máscara prateada de teatro.



—Vocês vão para Victoria, então fiquem na cabine. É só o que sei e só o que posso dizer. Se não ficarem, morrerão — e Vampiritico acenou e os deixou, sumindo outra vez em Orbis.



Thugles sacudiu a cabeça, sorrindo enquanto Nick observava o amigo desaparecer da vista. Compraram as passagens e, por sorte, o navio já estava lá quando chegaram. Não havia outros passageiros além dos seis. O navio saiu cinco minutos depois de entrarem, abrindo as finas asas e levando-os pelo céu.



Quando a viagem começava, eles podiam entrar dentro da cabine no centro do convés. Todos seguiram à risca o conselho de Vampiritico, exceto Giu, que erguera as sobrancelhas e recusara-se a entrar. Ela ficou sozinha no mastro, vendo o céu azul e as nuvens que passavam rápidas por eles. Estava decidida que não havia perigo, mas depois de alguns minutos, enjoou de ficar ali. Desceu e entrou na cabine, onde Nick tinha armado uma bomba de gelo que explodiu assim que ela entrou, e fez todos os outros rirem.



Não havia mais ninguém do lado de fora. Assim, ninguém viu a distante ilha que flutuava no horizonte, muito ao longe, quase um pontinho no meio do céu. A visão durou apenas alguns segundos para o navio antes de uma nuvem encobri-lo e ela desaparecer novamente.



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O fim da tarde transformava o deserto árido e poeirento a leste de Edelstein num mar de terra brilhante, com os grãos de poeira parecendo cintilar na luz incerta. Quando se saía da cidade pela rua que levava àquela direção, o caminho se transformava numa trilha remotamente desenhada no chão, como se fosse pouco usada e estivesse ali apenas para lembrar-lhes o caminho. Não era necessário, porém. Seu destino, a Mina Verne, era claramente visível de qualquer lugar.



Quando saíram de Edelstein, encontraram monstros que iam de guaxinins carregadores de água a esquilos ágeis, mas uma vez que o chão de pedras se transformou no árido, foram mudando para coisas menos vivas. Robôs exploradores, e até placas de aviso com pernas e caras zangadas, e mais adiante, monstros feitos de rocha cinza com dentes de pedra azul, mastigadores, e outras coisas maiores. Italo lidava facilmente com eles e poderia ter ido sozinho, mas dessa vez não pretendia ficar nos monstros ao redor da Mina Verne. Sua intenção era explorar o interior da própria mina.





A expedição era composta por um grupo quase tão grande quanto aquele que lutara para conquistar a cidade na guerra. Quem estivesse na entrada da Mina Verne veria-os se aproximando ao longe, um pequeno exército que no meio de um grande [i]nada[/i], que ficava cada vez mais próximo.



Italo vinha à frente, com Leslie à sua esquerda. À direita vinha Dark Corpse, a pé, sério em uma jaqueta negra aberta, e uma camisa branca por baixo. Atrás deles vinham dois Arqueiros, sendo um deles Vile Slayer, outros cinco Guerreiros e um trio de Bruxos, cinco Gatunos, e cinco Piratas.



Mad Shadow aproximava-se no meio do grupo, e Zeon vinha logo perto de Italo. TInha um sorriso macabro no rosto, como que ansioso para entrar em ação.



A Mina Verne avolumava-se diante deles, engolindo-os com seu tamanho. Era um pico alto e pontudo, largo na base e afinando-se até o topo. A entrada principal era uma entrada de caverna, escura como breu. Não podiam ver nada lá dentro, estando do lado de fora.



Italo virou-se para os seus.



—Certo. Eu, Leslie, Zeon e Poke vamos entrar na frente e limpar o caminho. Pizza, não acho que você seria muito útil lá dentro se for um lugar apertado, então você e o Harley ficam aqui fora arqueirizando. Vocês, Nils, Chad, Golf, Swong, Gunther ficam na retaguarda, vamos deixar os magos, Gatunos e os Piratas entrarem primeiro, então vocês os cobrem atrás.



—Vamos ir até aonde? — Gunther perguntou, de espada da mão, já excitado.



—Vamos explorar o máximo que der. Provavelmente vamos ser os primeiros, então ninguém sabe ainda o que tem lá dentro. Se por acaso vier algum gigante querendo matar todo mundo, deixem comigo. Se parecer que eu não estou tirando nem 1% do HP dele, usem pergaminhos e voltem pra cidade.



Eles assentiram, e se puseram em formação – Italo foi à frente com seu grupo, Dark Corpse logo atrás de si para falar algo com os outros, e os cinco Guerreiros fechando a retaguarda atrás da maior parte do pessoal. Vile Slayer e o outro arqueiro encostaram as costas um de cada lado da entrada, para guardá-la. Leslie tinha de ir na frente, pois tinha maior proteção em sua armadura prateada e no escudo ornamentado. Italo seguiu logo depois, e avançaram.



—Voltem. Ninguém deve entrar.



Eles recuaram um passo. Das sombras, o negro condensou-se e babujou um homem todo vestido de preto, coberto por uma capa de barras dentadas que envolvia seu corpo, e quando viam alguma parte de suas roupas, era tudo negro. Nenhuma parte do rosto era visível dentro do capuz, somente um par de listras inclinadas azuis, frias e brilhantes, que faziam com que o resto parecesse mais negro. Sua mão direita brilhava da mesma cor, como que feita de gelo, mas não era transparente. Era azul, azul brilhante, e uma névoa desprendia-se dela como fogo, lento e gelado.



—Queremos entrar — Italo anunciou sem expressão. Acima do homem pairava um nível de Honra verde bem claro, quase amarelo, como alguém honrado que tivesse feito algumas coisas nem tão honradas. O homem não respondeu. Encarou-o com aqueles olhos brilhantes e frios.



—Algum problema? — Dark Corpse aproximou-se, ficando ao lado do líder. Olhou a figura encapuzada com desprezo — Você não ouviu ele? Não temos o dia todo.



—Vocês não podem entrar. Virem-se e voltem — disse o homem, sem que nenhuma boca se movesse. Dark Corpse soltou uma gargalhada.



—Cuidado, Italo, ele deve ter um exército atrás dele, pra ser assim tão corajoso. Deve ter mais alguém escondido logo ali atrás.



—Nenhum hue inimigo detectado, senhor! — Vile Slayer bateu uma continência ao lado da entrada, e Italo ergueu uma sobrancelha.



—Olha cara, eu só quero entrar aí dentro e ver o que tem aí. Já que você já entrou, deve saber o que tem aí. Sou o chefe de Edelstein, nós temos a cidade, e bastante dinheiro, eh, somos bem fortes. Você pode entrar pro meu clã e exploramos a Mina juntos, não?



Ele não respondeu. Ficou parado, encarando-os. Dark Corpse deu um passo para entrar. O homem moveu-se só um pouquinho, como se tivesse intenção de pará-lo, e Dark Corpse fungou, mas olhou para seu líder para ver o que ele devia fazer.



—Vou avisar de novo — Italo disse com paciência — Dá licença, que eu quero entrar.



Novamente sem resposta, Italo mexeu o pé discretamente sem que o homem notasse, e seu clã, também discretamente, começou a preparar as armas. Italo avançou devagar, segurando a lança. O homem não tentou impedí-lo, nem sequer se moveu. Italo baixou a gabeça, fingiu guardar a lança e atacou.



Foi um golpe de rapidez suprema, o braço estendendo a lança de forma tão rápida que somente seus Gatunos mais afiados conseguiram perceber. A mão direita do homem subiu e agarrou Italo pelo pescoço, e o manto negro virou de lado para desviar da lança. O braço gelado ergueu-o e Italo soltou a arma, sentiu frio, à medida que seu HP descia.



Dark Corpse soltou uma exclamação e puxou as armas, imitado pela outra dúzia de companheiros que estavam com ele. Todos deram um passo para avançar ao mesmo tempo.



O homem ergueu a mão esquerda...



Esta era grossa e humana, cheia de anéis de pedras preciosas nos dedos bem abertos e em garra, como que tentando segurar algo. Levantou-a na direção da tropa de Italo, e seus passos hesitaram e pararam. Um Pirata foi o primeiro a cair, ajoelhando-se, e em seguida mas um, e cinco, todos de olhos bem fechados, de boca aberta ou trincando os dentes. Dark Corpse foi um dos últimos, mas a força era tão esmagadora que o fez cair de joelhos no chão, quase sem ar, apoiando-se nas mãos. Aqueles olhos azuis viraram-se então para Italo, que tinha o pescoço queimando de frio. Seu HP baixava. A habilidade que o encria de força quando seu HP ficava critico ativou-se e o cobriu com uma aura negra, que foi praticamente ignorada.



O homem o largou, empurrando-o longe. O HP de Italo tinha chegado exatamente em 4, e ele demorou a se levantar, agarrando a garganta e procurando uma poção com as mãos trêmulas. O homem baixara as mãos. Todo o resto da expedição levantou-se respirando fundo, levantando-se desajeitadamente e olhando ora Italo, ora a caverna negra. Italo precisou de um Elixir Energético e depois de todo o conteúdo negro de uma garrafa de vidro, para recuperar o que perdera.



Os olhos do homem eram duas luzes frias na escuridão da caverna, e só desapareceram quando Italo e sua tropa estavam bem longe a caminho de Edelstein.