O líder da Softower sondou a grande cidade com olhar crítico. Atrás de muros baixos e da traseira de casas, Edelstein se abria em vielas e ruas menores, pois não havia um portão principal. Em vez disso, entrava-se pelas ruas, ou por um dos muitos caminhos abertos por toda parte. Poderia entrar na cidade por qualquer lugar, pensou, os muros não eram altos o bastante nem para impedir que pulassem.



—Vamos entrar — Hendrik sugeriu. Tinha o machado pronto e o escudo no braço esquerdo. Seu líder sacudiu a cabeça sem olhar para ele.



—Seria óbvio demais, entrar e tomar a cidade. Não há sentinelas, nem portões, nem mesmo cercas de madeira improvisada. Ayra— virou-se para uma pequena menina montada num jaguar — Você disse que faz os avanços de classe aqui, e se me lembro bem, sabe encontrar armadilhas. Pode dar a volta na cidade e ver se encontra um caminho seguro pra gente?



A menina assentiu, contente por poder ser útil. Sem fazer qualquer movimento, como se tivesse pensado a ordem, seu jaguar girou rapidamente e correu, quase sem fazer barulho, dando a volta na cidade e desaparecendo de vista. Um rapaz de espada resfolegou.



—Se ganharmos, vou perguntar pra ela como faço pra ter um desses.



—Acho que precisa ser arqueiro — respondeu um de seus dezoito companheiros de clã — Seja como for, não deve ser tão legal quanto parece. Eu mal consigo usar esses malditos arcos, imagina atirar de cima de um animal desses.



—Você não conseguia levantar a lança quando chegou, e olha só hoje — brincou outro.



—Atirar de cima de uma pantera é a parte fácil — entoou seu líder — Difícil é ganhar esta guerra. Não ganhamos ainda, não se esqueçam disso.



De costas para Edelstein, esperaram quando o primeiro clã chegou perto. Os outros estavam bem mais atrás, ainda lutando entre si ou fazendo qualquer coisa, mas aquele clã conseguira se adiantar, e os alcançara.



—Parar, Guardaforte — o que vinha mais à frente parou, erguendo a mão, dando a impressão de que gostava de dar ordens. Devia ser o líder, um arqueiro vestido de couro e capuz vermelho de Bruxo. Seu pessoal, pouco menos de quinze pessoas, hesitou e parou, de armas na mão. Estavam em menor número, mas não pareciam preocupados com isso.



—Estão no nosso caminho — disse um mago que tentava soar solene e ameaçador, mas a voz nasalada e traqueada não ajudava. A Softower encurtou, só um pouquinho, a distância entre ambos os clãs. Seu líder foi quem se aproximou mais, e se dirigiu ao outro.



—Todos nós queremos ganhar esta cidade, mas acontece que ela está cheia de armadilhas. Nenhum de nós sabe onde elas estão, e se entrarmos agora, corremos o risco de só desativá-las e facilitar o trabalho dos outros clãs.



—Heh, mas também não vou ficar aqui esperando elas se revelarem por mágica — zombou o líder de Guardaforte — O que você pretende fazer? Não precisamos esperar, sabemos como evitar serem pegos.



—Também sabemos como abrir caminho, então dá licença — emendou uma garota.



—Mandamos uma de nós na frente pra investigar — o líder de Softower os ignorou. Era um rapaz parrudo, baixo e musculoso, quase sem pescoço e de nariz largo — Ela tem habilidades de detectar armadilhas e coisas do tipo. Se quiserem ir na frente, podem ir, não vamos tentar impedir. Ou então vocês podem esperar por ela e defendemos a cidade junta enquanto isso. Quando ela chegar, vai dizer as informações bem alto no meio de todos nós, e todos poderemos ouvir.



O líder de Guardaforte resmungou.



—É, mas... hum... não, sim, é uma boa idéia. Tudo bem. Vamos defender juntos e ninguém aqui se ataca — quando se decidiu, ergueu o queixo — Aliança até entrarmos na cidade, então?



Os dois chegaram nesse acordo, e garantiram que os demais membros cumpririam com ele. Deram todos as costas à cidade, e esperaram o próximo clã chegar. Eles vinham em grande número, mas deviam ser dois clãs juntos, pois eles começaram a desacelerar e a lutar entre si. Um guerreiro de lança soltou um riso seco. À frente tudo o que viam era uma confusão de pessoas brigando entre si enquanto esperavam pacientemente... ou nem tanto assim.



—Ela já devia ter voltado — sussurrou uma menina da Softower ao seu líder — Não devíamos ir buscá-la?



—Ayra conhece Edelstein melhor do que qualquer um de nós. Não seremos mais capazes do que ela.



—Devemos ir atrás dela — insistiu, ansiosa. O líder olhou de soslaio para a cidade.



—Thobard, Rufus, Milken. Vejam se conseguem ver pra onde a Ayra foi, e cuidado com as armadilhas.



Três rapazes destacaram-se e se puseram a caminho. Thobar e Milken seguiram na direção que Arya tinha ido, enquanto Rufus deu a volta pelo outro lado. Cerca de cinco minutos se passaram e Rufus voltou, sozinho.



—Nem sinal dela — relatou. Thobar e Milken vieram logo depois, também sem notícias. O líder virou-se para olhar a cidade.



—Ela ainda está viva — Thobar, que acabara de olhar o menu, falou-lhe — Mas não há sinal dela. E se ela foi capturada?



—É menos uma pessoa pra nos atrapalhar na luta, então — cuspiu um forte garoto de Guardaforte. Companheiros dele riram, e o líder de Softower respirou profundamente, encarando-o com olhos frios.



—A trégua acabou — disse bruscamente, e mandou que seu clã avançasse.



Lá longe, ainda a alguns quilômetros, jogadores observavam o movimento, notando que já havia gente entrando na cidade. Sempre que alguém corria, porém, era impedida por outro, que era posto em combate com dois, e assim por diante. Ninguém conseguia chegar mais perto da cidade.



A Solaris tinha tentado não se envolver na luta, mas de alguma forma estava bem no meio dela. Os clãs estavam todos espalhados numa área muito grande, dois deles, por alguma razão, enfrentando a Solaris. Gatts, no centro, fazia girar sua pesada lâmina e conseguia afastar o máximo que podia. Tinha colocado seu capacete, uma cabeça de animal a rugir, com uma centena de dentes pontiagudos em cada arcada. Gatts olhava de dentro da garganta do capacete, mas não era possível ver seus olhos, apenas os do elmo, vermelhos e longos como lascas de pedra, cintilantes na luz do dia que terminava.



South, Zeru e Donnie lutavam atrás dele. Zeru era cauteloso e bloqueava os golpes com seu escudo, antes de encontrar uma brecha para atacar, enquanto South era mais feroz e menos prudente. Como Donnie, ele cortava o que via pela frente, esquivava-se com relativa facilidade, pois não usava armadura. Os inimigos sempre procuravam atingí-lo primeiro, mas Kiara frustrava as chances de derrotá-lo.



Kash, Noctolia, Nick e Tabs estavam aglomerados num círculo lutando como podiam, lançando flechas, lascas de gelo, ventos gelados, pedaços de terra, raios que estouravam e faziam estalar os ouvidos. As flechas estavam cheias de armadilhas e ferroavam onde atingiam, projetadas para perfurar certos tipos de armadura, e passando através de túnicas como se elas não existissem. E Giu orbitava ao redor do grupo. Sua adaga voou ao encontro de uma axila direita, ela agachou-se, evitando um contragolpe, e cravou a lâmina num inimigo à esquerda. Viu uma maça à sua frente e iniciou um Ataque Selvagem — o primeiro golpe desviou a arma para um lado, os outros cinco o atingiram em cheio, depois ela girou e lhe perfurou a barriga com tanta força que fez o rapaz gritar. Antes que ele terminasse de cair, subiu em cima dele e pulou, descendo a adaga entre o pescoço e o ombro de um Bruxo lento demais para teletransportar.



Um rapaz, de um clã desconhecido, estava com seu bônus de defesa ativado, mas seu inimigo continuava a golpeá-lo enquanto ele gritava, caído ao chão, implorando misericórdia. O espadachim nem parecia ouví-lo, mergulhado em fúria. Tabs fez um pilar de terra abaixo dele subir e o jogar para cima. Ainda estava no ar, o rapaz foi atingido por uma cajadada de Donnie. Seu oponente já havia há muito se levantado, e corria avidamente em direção à base.



—Onde está o Italo? — Donnie gritou, os dentes à mostra — Ryo! Se você o vir, mostre para nós!



Como a Sunrise of Astoria acreditava que havia um Nightingale na Solaris, Ryo era o nome que usaria para Rockfield, quando se referissem a ele. Donnie não tinha como saber se ele tinha ouvido, pôde apenas esperar que sim.



—Já chega disso — Gatts gritou após puxar a espada de um derrotado — Solaris, vamos correr. Para Edelstein, agora!



Levaram alguns segundos, mas organizaram-se numa formação com Thugles e Kiara no meio, junto com os outros magos, flanqueados pelos guerreiros enquanto corriam. Gatts encabeçava a coluna. Tinha pelo menos cinquenta pessoas no caminho e muitas delas se viraram para impedí-los, ao vê-los. Gatts não deu ordem para seu clã parar. Segurava a espada apontada para trás enquanto corria. De repente ele atacou o ar, num arco horizontal, e o que se espalhou dela foram chamas. Chamas vermelhas, que cobriram a lâmina de uma extremidade à outra, que pegava no chão e continuava queimando. Ele golpeou de um lado para outro, como quem corta grama com uma foice, e os jogadores abriram caminho, gritando de surpresa. Onde o foco tocava em alguns, queimava e precisavam de alguns segundos para correr. A Solaris correu atrás do seu líder e foi atingida em cheio pelas chamas, que não os machucavam. Nick riu e fez gestos obscenos enquanto abriam caminho entre os poucos que ficavam, encurtando cada vez mais a distância até Edelstein.



Atrás deles, os outros clãs continuavam a lutar. Nove deles, vestidos de túnicas vermelhas, observaram silenciosamente e puseram-se a caminho. Um jogador vestido de armadura azul fez menção de seguí-los, mas um outro guerreiro o segurou pelo ombro.



—Pare, deixe eles. Deixe que desativem as armadilhas para nós.



—Como sabe disso? E se eles conseguirem entrar? — questionou.



—Um amigo meu participou da guerra de clãs em Henesys. Eles vão conseguir entrar, mas não vão conseguir chegar na prefeitura. Se em Henesys, a cidade dos cogumelos, foi assim com o primeiro clã que conseguiu chegar, vai ser ainda pior aqui em Edelstein.



O outro rapaz franziu a testa, mais relaxado. Seu companheiro tirou a mão do ombro. O outro assentiu, tornando a puxar a espada, e voltar-se para os que lutavam contra os seus.



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Enquanto Edelstein estava a caminho do crepúsculo, em Kerning ainda era a madrugada antes do amanhecer desse mesmo dia. A costa leste de Victoria já era banhada pelo sol, contudo dizia-se que Kerning gostava do escuro. Era o último lugar a ser tocado pelo sol, a cidade conhecida mais a oeste do mundo. As noites eram mais longas que os dias, estes tão curtos que pareciam se passar num sonho. A maior parte do tempo a cidade estava mergulhada na escuridão.



E na escuridão, Kerning ganhava vida. Dois garotos esperavam numa praça deserta, muito novos, não mais do que crianças. Vestiam preto, luvas e capuz, embora um usasse manoplas pesadas de metal, porém de um verde tão escuro que era negro naquela escuridão.



—Quem é aí? — perguntou o outro garoto, puxando uma shuriken com a garra. Ambos estavam parados e não se via ninguém além deles, porém, tinham detectado que alguém os vinha seguido havia vários minutos. Não houve resposta. O garoto repetiu a pergunta, e desta vez um vulto saiu detrás de uma casa.



—Sou o mistério na escuridão, a máscara que oculta os grandes segredos — disse numa voz grave, ao aproximar-se. Estava coberto dos pés à cabeça por uma capa e caminhava como um fantasma. Usava uma máscara de prata que encaixava no rosto, como aquelas de teatro, o contorno do buraco dos olhos era de ouro. Atrávés deles só se via negro, e não havia buraco para a boca. Não havia diamente de Honra, e os rapazes relaxaram.



—É você o nosso contato? — perguntou o mais velho, que usava manoplas. O outro guardou a shuriken.



—São vocês os assassinos das Línguas da Escuridão? Ou são vocês aqueles que descobriram Victoria? Nada posso dizer sobre contatos, garotos, se antes não souber com quem estou falando. Por que estariam esperando alguém?



O mais novo, que tinha sacado a shuriken, fez uma careta.



—Estamos fazendo a Quest "Um Salteador Enganado", e já roubamos as três casas. Estamos aqui e só falta esperar por alguém que ia nos levar ao último local do roubo.



—Então eu sou quem vocês procuram— o homem de máscara repetiu lentamente — Então eu sou quem vocês procuram. Sabem me seguir? — e sem esperar resposta, fugiu na noite.



Os dois foram atrás dele quando entrou numa rua, e ao verem um borrão no telhado, subiram lá na mesma hora. Depois o viram correndo pelas vigas nas paredes das casas. O homem corria rápido, mas os garotos já haviam trabalhado com NPCs Gatunos antes, e sabiam o que esperar. Seguiram-no por ruas, vielas, pelo topo de casas e no quintal da frente de um prédio, subiram e desceram varandas e dobravam esquinas. Quase nunca havia postes de luz, e não perdiam as costas negras da capa do homem de vista. Finalmente, quando estavam num telhado, ele puxou ao chão e parou de frente para um bar no meio de duas grandes lojas, com letreiro desbotado e duas portas duplas de madeira, fechadas.



—Lá dentro, subindo as escadas à direita, encontrarão uma porta vermelha. É lá que está os dois milhões de mesos do último roubo dos Capuzes Presos, condensados na forma de um saco de pedras preciosas. Estão dentro de um criado-mudo, protegidos por uma combinação de cofre. Depois de entrar no quarto, vou cuidar para que tenham três minutos antes de o alarme soar.



—E depois disso? — quis saber o da garra.



—Depois vocês sairão por essa mesma porta, perderão-se nas sombras e nunca serão encontrados. É por isso que vão ter que me pagar todo o dinheiro que tiraram das três casas antes que eu deixe vocês entrarem — ele estendeu a mão e o mais velho abriu o menu, transferindo quatrocentas mil moedas de meso. O homem fechou a mão como se tivesse recebido algo e acrescentou: — Haverá guardas na entrada. Vocês não podem passar por eles sem serem vistos, mas se conseguirem rendê-los sem usar nenhum golpe, receberão um bônus.



Com essas palavras, deixou-os. O mais novo olhou o companheiro, uma nesga de sorriso em seus lábios. O outro respondeu com a mesma expressão.



—Render sem usar nenhum golpe. Pensa o mesmo que eu? — o mais novo pegou a shuriken novamente, de aço metálico. O mais velho alargou o sorriso, também usava uma garra, mas a shuriken que pegou era negra e com ferrões entre as pontas de estrela, uma Tobi. Com um assentimento discreto de cabeça, ambos abriram as portas com os ombros.



Já tinham praticado muito aquela posição: abriam a porta com força, flexionavam os joelhos e colocavam o braço da garra atrás do outro ombro, como que prestes a lançar a shuriken, o que era uma surpresa nada agradável para quem estivesse dentro. Não foi diferente dessa vez, só que ao abrir a porta, eles gritaram:



—Parados! Isso é um assalto!



Tinham entrado numa taberna com o bar na parede do fundo. O balcão em forma de lua crescente estava rodeado de cadeiras, quase todas elas ocupadas, por pessoas com diamantes brilhando acima da cabeça e lançando olhares irritados e mal-humorados.



—Que palhaçada é essa? — um homem puxou um cajado que parecia de ferro, tão duro quanto seu olhar. Outros tinham expressões ainda mais hostis. Quando as espadas, facas e machadinhas foram sacadas, os dois meninos boquiabertos se viravam e correram o máximo que podiam. Os gritos de perseguidores zangados só demorou um segundo para seguí-los. Por alguns instantes, o barulho perturbou a paz de Kerning; à medida que foram se afastando, os sons foram morrendo e o lado de fora do bar ficou silencioso novamente.



Do topo desse mesmo bar, uma figura silenciosa os observava correndo, e enquanto eles corriam, ele ria, quase sem aguentar se segurar de tanto que as mãos tremiam.



—Eu adoro fazer isso! — ele disse para ninguém em especial, e ao tirar a máscara, seu diamante de Honra apareceu verde, um pouco amarelado, mas ainda verde. Guardou a máscara no inventário, recuperando-se do acesso de risadas, mas a cara que fizeram os dois garotos não lhe saía da cabeça. Riu bastante, depois um leve sorriso que beirava a crueldade lhe tocou os lábios, saboreando o ato de enganar.



Adorava aquela máscara desde o dia que a conseguira. Honra era um concenito interessante em MapleStory Online: Honra verde era a melhor, e quanto piores as ações, mais ela clareava e ficava amarela, depois ia pra laranja e por fim, vermelho. A Honra amarela era a dos ladrões furtivos, a laranja era de jogadores mais perigosos e a vermelha representava o pior dos piores, que ou tinham matado muitos jogadores ou tinham feito Quests extremamente desonradas. Dizia-se que jogadores de Honra vermelha tinham acesso a NPCs e Quests especiais, e havia até equipamentos que só podiam ser utilizados com Honra vermelha. NPCs não possuíam nível de Honra.



Sentado, Vampiritico riu enquanto ouvia os últimos ruídos da perseguição que já se perdia na noite. Tinha recebido quatrocentos mil mesos, o que era uma ótima quantia para um trabalho tão fácil.



—Bom... Uma ótima sacada, como sempre.



Em níveis anteriores, Vampiritico teria se sobressaltado e provavelmente escorregado do telhado ao ouvir a voz, mas agora aquela fala musical e deliberada ela conhecida para ele. Só o que fazia era alargar seu sorriso. Não precisava virar-se para olhar quem estava ali, mas o fez mesmo assim — a líder da Mist Brotherbind era uma mulher bonita, e ele a via com menos frequência do que gostaria.



—Você ainda consegue me encontrar, mesmo quando uso minha máscara.



—Quem me obedeceria se eu não soubesse onde estão meus recrutas? Ah, não — respondeu ela, quase numa risada seca. Era uma mulher baixa e encorpada, já na meia idade e sua roupa era colada ao corpo, marrom-escuro cheio de relevos ornamentados. A boca estava coberta, mas os astutos olhos viam e eram vistos, convidativos como um fruto proibido — Pode usar os disfarces que quiser... Pensava em se esconder em mim?



—Não disse que pensava.



—É uma pena, pois se conseguisse se esconder de mim, não haveria dúvidas de que completaria facilmente uma tarefa de importância — ela tinha o costume de inclinar a cabeça enquanto falava, sentada em uma perna dobrada enquanto a outra balançava no ar, meio flexionada, lentamente como um pêndulo.



Vampiritico sorriu.



—E que tarefa seria essa?



—Alguém, que se acha um líder melhor do que eu, criou uma organização que se considera... melhor, do que a nossa. Não seria ruim se alguém fosse até lá e ajudasse aqueles pobres iludidos a verem a verdade. Talvez colocar um pouco de juízo naquelas cabeças... Ou me trazer as cabeças, se elas se mostrarem duras demais, pra decidirmos o que então fazer com eles. Você me entende?



—E onde seria isso? — Vampiritico estava animado, mas permaneceu sentado, calmo, contemplando a líder em primeiro plano com a noite escura — Quem é o líder? Essa organização tem um nome?



Ela inclinou mais a cabeça. Acima da máscara, os olhos brilharam de divertimento.



—Ah, mas se meus aliados não conseguem encontrá-lo, então ele não está errado em considerar-se melhor — o pano que cobria a boca nada revelava, mas ele quase era capaz de imaginar o sorriso que se formava nela — Afinal, pra quê contar e tirar toda a graça?



—Foi só um teste — Vampiritico sorriu travessamente. Mesmo depois de a mulher ter ido embora, ele ficou no telhado, pensando. Não tinha nada, nem uma informação — sabia que havia um grupo que precisava caçar, mas nada sabia sobre eles. Não fazia idéia de quem era, de quantos eram, nem de onde poderiam estar. Sorriu para si mesmo. Finalmente, um desafio à altura.



Abaixo, no chão, foi encontrar JM, o homem que vagava pelas ruas e oferecia informações a quem soubesse procurar. Estava sentado num muro baixo que começava numa parede mais alta, o capuz posto sobre a cabeça e o casaco azul desabotoado. A cabeça girou despreocupadamente quando Vampiritico se aproximou.



—Ei, JM — chamou, jogando-lhe muma moeda. A mão de JM moveu-se rapidamente e capturou a moeda, como um sapo captura uma mosca — Estou precisando de um serviço, um bem grande.



—Tão grande que não é capaz de realizar por conta própria? — respondeu JM das ruas.



—Tão grande... Que preciso de todo mundo, até de babacas como você — ele disse rindo. JM deu uma fungada, e não se importou — Quero saber quem é a melhor equipe do mundo pra me realizar um trabalho. Não me interessa preço, lugar, reputação, só quero os melhores. Quem eu deveria contatar, se eu quisesse uma organização de profissionais dispostos a fazer qualquer missão e que sejam silenciosos, discretos, rápidos...?



—Por uma moeda? — a voz de JM era um tom de mágoa fingida — Pô cara, vai ficar difícil... Um incentivo melhor podia ajudar, não acha não?



Os dois "incentivos" mais utilizados em Kerning eram o ouro, que soltava as línguas e amansava os perigos; ou a lâmina, mais direta e traiçoeira. Vampiritico escolheu o ouro; tinha muito, de qualquer maneira. JM das ruas estava razoavelmente mais rico quando respondeu:



—Não sei te dizer o melhor, cara, mas o mais perto daqui são os Corvos de Bronze em Perion. Os Highstalkers de Magatia também são uma ótima escolha, tem que ter cautela antes de lidar com eles, e também uma boa adaga à mão. Eles podem largar seu corpo onde nunca mais será achado, é só o que sei deles... Podem ser o que você procura. Hum, deixa eu ver... E tem a Banda Roica em Mu Lung, ou pelo menos foi o último lugar que eu soube deles. Ouvi dizer que cobram caro por um serviço que é realmente à altura do preço. Por último... a Garra de Prata, esse atua perto de Henesys, ou Nautilus, eu não sei ao certo. Faz um tempo que ouvi sobre eles, mas me lembro das palavras. "O melhor grupo de assassinos, treinados, capacitados, indetectáveis". Pense em falar com eles também.



—Vou pensar — Vampiritico sorriu para ele — Valeu cara.



Sozinho caminhando por Kerning, decidiu tomar a direção de um grande armazém. A Mist Brotherbind tinha um portal ali, que poderia levá-lo facilmente até Mu Lung. Quando virou uma esquina, viu um grupo de jogadores conversando em voz baixa, que silenciaram rapidamente quando o viram. Estavam longe para poderem ver a Honra. Discretamente, Vampiritico vestiu sua máscara e andou lentamente até eles.



—Ei, rapazes. Sozinhos por Kerning, numa noite silenciosa como essa? Parece até que não sabem dos perigos que rondam aqui. Se estiverem de bobeira, e interessados em ganhar algum dinheiro, eu sei de um lugar que está me implorando pra ser assaltado...



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Dois clãs já estavam dentro de Edelstein, exceto por eles, a cidade parecia deserta. Ayra, a menina com o jaguar, não estava em lugar nenhum. A Softower andava devagar ao mesmo tempo em que procurava por ela. O líder da Guardaforte não era tão paciente, mas obrigou-se a andar com cuidado. Pisou numa corda em um de seus passos lentos e cuidadosos, mas não o bastante, e a corda enrolou-se em seu pé e o levantou vários metros no chão. A corda estava amarrada numa vara horizontal que se projetava do topo de um prédio e ele balançou, aos gritos enquanto perdia HP. Seu bônus de defsa foi ativado antes que batesse no prédio. Quando isso aconteceu, houve uma explosão de fagulhas e a corda ficou vazia.



Enquanto outros Arqueiros eram ainda mais cuidadosos e o avanço quase não prosseguia, do lado de fora da cidade alguns clãs ainda lutavam. Um já havia sido aniquilado, com os dois membros que ainda tinham seus bônus de defesa desistido da luta e voltado para a segurança de suas bases. Outro continha cinco, quatro Guerreiros e um Pirata de pistola, que permanecia bravamente em campo. De todos esses, o clã mais próximo da cidade agora era a Solaris, ainda a mais de um quilômetro de distância.



Outros três clãs lutavam ainda mais longe. Ainda se enfrentavam, espalhados, quando um grito irrompeu da floresta e um bando inteiro saiu dela, berrando, correndo, e um galopando em um cavalo negro, de rosto branco e olhos vermelhos. Ele acertou a nuca de uma menina com uma pistola e cravou de balas a armadura de um Guerreiro, com a outra. Um grupo de Gatunos vestidos de negro, vermelho e púrpura saíram da floresta e desapareceram na escuridão que se aproximava. O sol já não era visível, tudo o que restava era parte do seu brilho que ainda impedia a noite de chegar, tornando o céu alaranjado e rosa em Edelstein, a cidade mais a oeste, o último lugar a anoitecer.



A Sunrise of Astoria, o clã com nome do amanhecer, que naquele dia chegou quando o sol se pôs.



—Gente, são eles — foi Thugles quem chamou, e Gattsb voltou-se para olhar. A espada já havia se apagado, como o dia se apagava. Viram o pessoal que saía das árvores como formigas correndo para as migalhas. Seu capacete em forma de boca rugindo fez seu grunhido parecer um rosnado de animal.



—Já estamos quase chegando, se chegarmos em Edelstein primeiro...



—...vamos desativar a maioria das emboscadas, eles matarão todos os outros e depois virão atrás de nós — Donnie completou — Precisamos voltar lá e lutar.



—Estamos quase chegando — Gatts insistiu.



—[i]Eles[/i] chegaram — Donnie ergueu uma sobrancelha — Não foi pra isso que você criou o clã? "Não é uma missão de glória ou morte, o principal objetivo é impedir o Italo de conseguir a cidade".



—Estaremos impedindo que tomem Edelstein, se a tomarmos primeiro.



—Enquanto vocês discutem, eles parecem estar ganhando — Tabs pôs a mão acima dos olhos, estreitando-os, tentando enxergar naquela distância — Você é o líder, cara. Decide logo, vamos ou não vamos?



—Vamos — Gatts falou sério, mas conduziu-os de volta pelo caminho que tinham percorrido, dando as costas a Edelstein.



Não estavam longe o bastante para não ouvir o barulho dos tiros, o resfolegar do cavalo de Dark Corpse e seu riso enquanto fazia o que melhor sabia fazer, os gritos assustados dos jogadores feridos e o bater das armas umas nas outras. Os inimigos entavam em número muito menor, mas os três clãs que lutavam contra eles não estavam juntos e cada clã só parecia lutar ao lado de si próprio.



Os mais barulhentos eram cinco Guerreiros vestidos de armadura, carregando uma lança, algumas espadas longas e um machado. Eram liderados por um rapaz menor do que eles, de roupa, não armadura, preto com vermelho e amarelo nos cadarços que fechavam seu colete. Tinha uma atadura num dos olhos e uma adaga dupla, com o cabo no meio de duas grandes lâminas curvas como barbatanas de tubarão, somando o tamanho de uma espada. Ele fechava as brechas em sua linha de guerreiros e conferia-lhes Agilidade.



Os magos eram liderados por Vile Slayer, em sua máscara de cavalo, rindo e disparando flechas por todo lado. Algumas acertavam pescoços em cheio, mas a maioria era lançada para o céu, onde se dividiam em cinco e mergulhavam para baixo, explodindo onde tocavam. Às vezes, atirava flechas explosivas. Outro Rastreador ao lado dele fazia o mesmo, e os magos ficavam logo na frente, protegendo-os com suas magias.



Todos esse grupos tinham seis membros, mas o grupo que causava mais estragos era o menor, com quatro. Enfrentava a maior parte dos adversários, quase um clã inteiro, mas eram estes que pareciam estar com problemas. Italo acabava a golpes rápidos, estocava rapidamente e voltava, e atacava de novo, e quando o contragolpe estava a caminho, saltava para trás e o golpe cortava o ar. O adversário ficava com a guarda aberta por meros segundos, o bastante para que ele o golpeasse duas, três vezes no peito e terminasse com a luta.



Ele raramente usava algum de suas habilidades. Leslie protegia seu flanco direito, impedindo que qualquer um atacasse por ali. Sua armadura era notoriamente pesada, prateada, cobrindo os ombros, os pés, as pernas, todo o corpo até a cabeça, num capacete com protetor de boca e nariz. Seu escudo quase tocava o chão de tão grande, e todas as armas tocavam seu escudo. Batiam nele com força, jogavam habilidades nele, mas Leslie era uma torre de força. Quando o inimigo vacilava, a mão direita que segurava a maça descia e o esmagava. Um só golpe era o bastante para fazer um adversário estremecer, e quando ele se recuperava, o escudo ficava novamente do caminho. Junto a ela estava um Templário, magro com pele escura, de nome Gorlos, com uma espada de duas mãos e mais agressivo.



Ambos protegiam o Italo, mas não era ele quem causava mais terror naqueles que enfrentava. Esse crédito ia para o rapaz atarracado de vestido branco que lembrava um sino e pele quase tão pálida quanto a roupa. Era chamado de Mago Elétrico, mas não usava varinha ou cajado. A magia de Zeon era canalizada pelas próprias mãos... e também pelo rosto, de certa forma. Seus olhos eram grandes e de cor roxa muito clara, quase rosa, e pareciam feitos de vidro. Quando sorria, parecia que metade inteira de seu rosto era formada pela boca curvada, os dentes brilhantes à mostra numa careta cruel, que chegava a assustar.



Ele teletransportava-se de um ponto a outro com mais rapidez do que um jogador mago. Quando reaparecia, o chão ficava marcado, e formava triângulos que se ligavam com raios, criando um campo que eletrocutava. Às vezes aparecia em cima de um jogador e punha as mãos em seus ombros, com mãos brancas faiscantes de energia; outras, dava uma cabeçada que fazia um "BUM" ao acertar um peito e empurrava o jogador longe. Ninguém conseguia acertá-lo, e ele fazia a toda equipe inimiga faiscar como se estivesse no meio de uma tempestade.



—Zakeruga — Italo dizia baixo vez ou outra, e Zeon jogava uma descarga elétrica de um azul tão brilhante que por um segundo chegava a iluminar o crepúsculo, mais escuro a cada segundo em que o dia se transformava em noite — Zakeruga.



—Ganreizu Zakeru — Italo disse baixinho. Zeon apareceu atrás dele e abriu os braços. Raios saíram de seu corpo, dando forma a uma estrutura à sua frente, que crescia alimentada pela eletricidade. Formou o que parecia ser uma jaula de relâmpagos, que pôs-se a disparar pequenos raios na direção dos inimigos — Zakeruga —, e Zeon tornou a disparar um poderoso raio da palma de sua mão.



Pelo menos dez das pessoas que lutavam contra eles fugiu correndo com seus bônus de defesa. Restavam menos de vinte agora. Gorlos e Leslie estavam praticamente ilesos, e Italo sofrera alguns ataques mágicos, mas Zeon não recebera um golpe sequer. Ele não parecia ter fraquezas, porém Italo conhecia-a bem. Até agora, estava conseguindo evitar que se ela fosse a desgraça do Mago Elétrico, bem demais, até.



—Olha aquela cara — Leslie disse ao lado dele — Será que se eu for educada ele me fala onde conseguiu aquela armadura? É tão legal, olha! Ele é grande assim ou é o efeito da armadura?



—Da... armadura? — Italo virou a cabeça em tempo de ver um gorila de bronze caindo no ar, num salto pesado com a espada negra levantada prestes a cair na sua direção. Ele pulou rapidamente para o lado, mas foi atingido em cheio pela espada. Sentiu uma mão pesada puxando-o quando caiu, era Leslie e o levava para a segurança.



Viu de relance um clã inteiro chegando logo depois dele, mas Gatts não queria esperar pelos outros e atacou, com uma sucessão de golpes que eram talvez lentos, mas muito fortes. Leslie sentia agora uma coisa que fazia frente ao seu escudo, e cada golpe era como se um aríete estivesse ribombando contra ela. Gorlos foi atingido assim que tentou atacá-lo pelo lado esquerdo, e ele precisou de três poções para recuperar o HP que perdera.



—Italo! Ele é muito forte! — Leslie gritou para ele. Gatts conseguiu pular para um lado e atacar o líder, cuja lança não foi o bastante para bloquear o pesado golpe. Leslie tentou acertá-lo com a maça imbuída em gelo — a espada veio e bateu nela, como a pá de um ventilador numa bola de papel, rápida, cortando vento e parecendo que lhe arrancaria o braço. Gatts a chutou e pulou por cima dela.



—Rashirudo — Italo disse, tinha a cabeça baixa e olhava para cima. Zeon apareceu diante dele e convocou dois pilares brancos. Uma parede de energia azul se formou entre eles. O golpe de Gatts acertou a parede, bem onde havia uma esfera no meio de um desenho de raio e voltou, como que lançado para trás. O guerreiro desconcertou-se por um instante. Um raio de fogo atingiu a parede, refletiu-se e voltou-se contra Anna. Gatts se recuperou, ergueu a espada, mas o escudo enfraqueceu e desapareceu antes que ele pudesse atacá-lo.



—Zakeruga — e Zeon disparou outro raio da palma das mãos. Gatts o interceptou com a espada e a carregou com sua própria eletricidade. Um som alto de gerador em funcionamento se fez ouvir e a espada inteira de Gatts passou de negra para azul, só por um instante, e ele a bateu no chão criando uma explosão branca de energia, que espalhou-se em esfera. Italo, Gorlos, membros de outros clãs e membros da Solaris foram atingidos, cegos e surdos por um momento, os ouvidos apitando.



Italo recuperou-se primeiro. Gatts avançou contra ele, mas sentiu algo pesado batendo-lhe nas costas. Foi jogado de cara no chão, ouvindo cascos de cavalo quando Bolkie passou por cima dele. Depois sentiu algo gelatinoso por trás da armadura nas costas. Ouviu barulho de tiros e de fogo, e então Gatts percebeu que Dark Corpse tinha invocado um polvo em cima dele.



Escapou do polvo ao se erguer em fúria, a espada agora carregada de chamas, naquele fogo amplo, que queimava tudo ao redor, e fazia sua espada ficar alguns centímetros mais comprida. Ele a sacudiu, de um lado para o outro, espalhando fogo e impedindo as pessoas de se aproximarem dele. Italo, entretanto, o fez.



Ele guardou a lança e espalmou as mãos na barriga de Gatts. Uma mancha negra surgiu a partir de onde as luvas de metal o tocavam e Gatts abriu a boca, em um grito sem som. Não conseguiu mover a espada antes que o negro cobrisse o peito de sua armadura e chegasse aos ombros. Largou a arma, que desapareceu e voltou ao seu inventário.



O Guerreiro da Alvorada perdia Vontade durante o crepúsculo,e Italo, que não sabia disso, conseguiu submeter seu poder ao dele. Fez a armadura de Gatts ficou negra e o fogo se extinguiu. Italo estava completamente vulnerável a um ataque às costas, mas ninguém o atacou. Quando o negro cobriu também o capacete, Italo pulou para trás, com as próprias manoplas também cobertas de preto.



Italo segurava a lança ao lado direito do corpo. Esticou as duas mãos e a ponta acertou o inimigo na barriga. Puxou o braço direito e fez a lança ir para o lado, como que abrindo um rasgo. Fez uma curva para cima com a ponta e a cravou no lado direito do peito dele, em diagonal, depois a puxou, girou o corpo enquanto a lança apontava para cima e bateu com o lado dela no peito.



Onde a lança tocava armadura corrompida, ela o ajudava e causava mais dano. E todo o corpo de Gatts estava coberto por ela. Gatts deu um pesado soco que passou rente à cabeça de Italo quando este se abaixou. Em seguida lá estava a lança cravando-se novamente em seu peito. Cada golpe doía e interrompia o movimento que Gatts estava fazendo, mas em um tempo tão perfeito que sempre que ele tentava escapar, a lança estava novamente dentro dele. Quando viu que a lança vinha outra vez, Gatts jogou o corpo para trás e a lança o atingiu com menos força. Virou-se de lado, ergueu a perna e bateu nas costas do rapaz com a pesada mão de metal. Italo tropeçou na perna estendida, largou a lança e rolou para evitar cair, levantando-se com facilidade.



Gatts teve tempo de sacar a espada, enquanto Italo pegava novamente a lança. Italo investiu outra vez. Gatts tentou estocá-lo em resposta; Italo mudou de direção e foi para esquerda, passando a lança para aquele lado do corpo. Atingiu Gatts de raspão na lateral. Não foi rápido o bastante para escapar da espada que voltava, e foi esmagado entre a espada e o peito do oponente.



Italo jogou a lança para cima. Agarrou Gatts e deslizou como uma aranha pelas suas costas, capturando a lança quando ela caiu. Sentiu frio antes que pudesse atacar e viu a espada de Gatts enquanto vinha por cima, para atingir as próprias costas. Italo o largou e saiu do alcance. Gatts imediatamente girou o corpo, a espada que estava atrás de si girou e num instante estava novamente à frente, e Italo quase foi atingido.



Mas o frio o atingiu. Sentiu o vento cortado pelo gume da espada, que veio gélido e frio, e notou que a espada estava congelada, com floquinhos que saíam dela como neve.



Gatts atacou outra vez, de cima para baixo. Italo foi para a esquerda, Gatts foi para o lado oposto. Então ele percebeu que a intenção não era acertá-lo; quando Gatts levantou a lâmina, veio consigo uma rajada de vento nevado, cheio de cristais brancos que cobriram Italo.



Ele levaria um tempo para se recuperar... Não antes que Gatts trocasse gelo por fogo, e o golpe seguinte o envolvesse em chamas. Italo soltou um resmungo e seu HP baixou mais do que nunca. Entre as chamas, via a espada que subia e descia cortando o ar com um som grave, e muitas vezes atingindo seu corpo. Não estava completamente imóvel, mas estava muito mais lento do que gostaria.



Italo bateu um palma na outra; seus pés brilharam em negro e ele deu dez passos para trás, rápidos como se estivesse correndo. O brilho se extingiu logo em seguida e a habilidade de corrida acabou. Abrira uma distância entre ele e Gatts, que não percebera imediatamente o que ele tinha feito. Italo correu para ele; Gatts o viu, sem apagar o fogo de sua espada. Era um jogo perigoso manter a arma em chamas, visto que não tinha tomado nenhuma poção de MP e a corrupção em sua armadura fazia todas as habilidades custarem mais.



Italo estava a poucos passos dele agora. Gatts deu um salto e Italo agachou-se, apontou a lança para cima... E desapareceu, como num [i]flash[/i], atravessando o corpo de Gatts e saindo por suas costas. Gatts caiu de barriga no chão, ainda segurando a espada e envolto pelas próprias chamas.



O fogo o envolvia e criava uma espécie de escudo quando caía, para protegê-lo, mas não sentiu nenhum ataque. Sentiu que a habilidade que corrompia sua armadura tinha ido embora, entretanto — Italo precisava removê-la ao aplicar aquele golpe. Quando se levantou, viu que o rapaz já corria junto com alguns dos seus e que o restante da Solaris ainda estava engajada em combate com os demais clãs. Mas ao ver as pessoas que avançavam para Edelstein, muitos resolveram parar de lutar e correr também.



—É o Italo — Tabs apontou quando o viu correndo — O Gatts está...?



—Vão pra cidade! — trovejou a voz dele, não exatamente perto dali — Corram atrás deles!



Mas era Dark Corpse quem corria atrás deles. De alguma forma, a Solaris tinha se separado, e Nick, Thugles e Tabs estavam sozinhos, isolados dos demais.



Os três corriam usando teleporte, mas logo ficariam sem MP e o pistoleiro seguia implacavelmente atrás deles. Dark Corpse tinha mudado muito desde o último encontro. Agora usava uma camisa branca e uma jaqueta de couro preta por cima, e calças de um preto meio desbotado. Não parecia um pirata esfarrapado, mas sim mais poderoso. Ele atirava neles enquanto corriam. Estavam muito à direita do caminho, quase perto da barreira e o restante do clã estava longe, mais perto de Edelstein e mais pro lado da floresta.



Tabs ofegava enquanto corria para gastar menos Teleporte. Nick o usava sem moderação e estava mais na frente. Thugles corria ao lado da menina, e quase caiu quando ela cambaleou, atingida por um disparo na perna. Thugles a segurou pelo braço e a puxou, obrigando-a a continuar a correr. Atrás deles, Dark Corpse cavalgava implacável, aproximando-se só um pouquinho mais a cada segundo.



—Parem agora, e não mato vocês! — ouviram o rapaz gritar — Prometo. Vão pras suas bases, desistam da luta! Se me fizerem perder mais do meu tempo...



—Corre, Thugles! — Tabs incentivou. O rapaz ofegava mais do que ela — nunca fora muito de correr. Então ele reduziu o passo, voltou-se para Dark Corpse e o olhou muito sério.



Levantou o cajado, cabo vermelho com asas finas de morcego, e o tocou no chão.



—Com o poder concedido a mim por Grendel, Guardião da Biblioteca e Chefe Mago de Victoria, eu, Thugles, Sacerdote de Ellinia, pregador da sabedoria, absolvo-o de seus pecados e o perdôo por suas faltas. Que os deuses sejam testemunhas — seu cajado brilhou e a luz foi dele até o nível de Honra de Dark Corpse.



O diamante, vermelho como sangue, clareou até atingir um tom escuro de amarelo. Bolkie empinou, agitando as patas dianteiras no ar. Sacudiu a crina, relinchando enfurecido eenquanto Dark Corpse tentava controlá-lo. O cavalo negro se sacudiu e debateu até Dark Corpse cair de costas, pôs as quatro patas no chão e galopou, atravessando a barreira e desaparecendo além dela.



Thugles e Tabs beberam MP e voltaram a correr para alcançar sues companheiros. Para o bem ou para o mal, tinham chegado em Edelstein.