Notas iniciais
Este é escrito pela minha amiga, aqui no Nyah! como Rita, Daughter of Poseidon.

Moro em Nova Iorque há... bem... mesmo muito tempo!

Sei de cor cada rua, estrada, loja... onde anteriormente se caminhava por cima da natureza verde e selvagem, onde se encontrava a vida animal e onde se encontrava amor e felicidade por toda a parte.

De alguma maneira considero-me uma protetora dos tempos antigos, das grandes civilizações, da natureza viva, dos corações palpitantes dos animais... isso tudo me fazia falta e fazia-me viver em eterna tristeza pois eu passara por aquilo tudo e não aproveitara.

Fui para Times Square e sentei-me num banco a observar a multidão que percorria apressadamente aquele lugar que era um pesadelo tecnológico.

Subitamente um sentimento abalou o meu espírito, a nostalgia. Estava exatamente no mesmo lugar em que descobrira o meu verdadeiro ser, um dos meus piores pesadelos: um centauro!

Quem estiver a ler isto das duas uma: ou está a rir a bandeiras despregadas ou está bastante confuso e a achar-me uma maluca lunática! Vamos recomeçar...

O meu nome é Katarina e, aparentemente, sou um ser da mitologia grega, uma espécie de monstro se assim preferirem. O meu querido pai é um titã que um rapaz de dezasseis anos derrotou, Crono; e a minha maravilhosa mãe é a titã mais querida que algumas pessoas incrivelmente... idiotas... confundem com uma espécie de Branca de Neve (como é que isso é possível?), Gaia.

Até aos quinze anos era uma rapariga normal mas, a partir daí, mudanças peculiares tomaram lugar no meu corpo. Alguns dizem que é impossível um centauro nascer humano e depois, com a idade, começar a transformar-se em metade cavalo. Bem, eu sou a prova irrefutável A de que estão errados.

Eu era uma rapariga muito alta (sempre fui), com cabelo negro como a noite e olhos safira muito profundos. Sorriso normal e sardas pintadas ao longo da cara. Mas isso foi há séculos, na Era dos Titãs.

O meu pai governava em conjunto com a minha mãe e tinham sempre a casa cheia de filhos. Eu era das mais novas e a mais exigente. Tinha a força da Natureza comigo, como a minha mãe e, se os empregados não me satisfazem-se, usava os meus poderes e fazia com que enlouquecem, acabando muitas vezes na sua morte.

Era mimada e arranjava sempre problemas com toda a gente, especialmente com os meus irmãos. Se era problemática? Sim, acho que se pode dizer isso!

Uma vez rebentei com um dos quartos do castelo em que morávamos, todo de mármore preto e outros materiais negros, e mais de quinhentos dos meus irmãos morreram! Foi hilariante ver tudo a ir literalmente pelos ares mas, quem não achou muita piada foram os meus pais. Rapidamente despejaram-me num quarto de dez outras criaturas (e eu que sempre tive o meu quarto!) e puseram-me ao cuidado de um dos seus filhos favoritos: um centauro chamado Quíron.

Este Quíron nunca se portava mal mas, ao contrário do resto dos nossos irmãos, nunca queria lutar (apesar de ser fantástico no tiro ao alvo), sendo um dos grandes orgulhos da minha mãe e uma pequena desilusão para o meu pai.

Devia ter uns quinze anos quando comecei as mudanças e lembro-me de ter sido das coisas mais difíceis pelas quais passei.

Como eu e o Quíron éramos amigos desde os meus... ora mil e quinhentos, três mil... desde os meus dez anos, ele ensinou-me muita coisa: o tiro ao alvo (o qual me tornei tão boa como ele), comportamento perante os pais (que me fez voltar ao meu quarto privado em menos de um ano), a língua oficial da época (que recordo com muitas saudades)... ele ensinou-me a ser boa pessoa, o que me facilitou quando as transformações começaram.

Eu tinha quinze anos quando comecei a ter mais vontade de andar a cavalo (coisa que o meu irmão me ajudou, apesar de ele ser um centauro formado desde pequenino), desejar tornar-me vegetariana e quando os meus pés começaram a ficar mais escuros, ficar com umas pernas muito mais entroncadas (eu era bem magrinha!), os pêlos das pernas ficarem castanhos arruivados...

O Quíron disse que nunca antes testemunhara algo assim (e ele tem quase mais quinhentos anos que eu) e disse que era melhor eu consultar a minha mãe e alguns monstros mais experientes.

Fui falar primeiro com um monstro bastante conhecido, mas que morreu na guerra dos Titãs contra os deuses, que me disse que era algo completamente novo e que não haviam registos de algo assim. Ele era um monstro com cerca de cem braços, muito alto (mais alto do que o palácio dos meus pais) e o seu aspecto mudava constantemente.

Infelizmente, não me adiantou muito, então tive que falar com a minha mãe.

A minha mãe era uma mulher muito bonita mas, acho que ser por tão poderosa, era demasiado imponente, assustando qualquer um na sua presença. Os seus olhos dourados, como os de todos os titãs, eram ameaçadores e nunca ligavam muito bem com o resto do corpo: alta, magra, cabelo escuro, amorenada e com feições muito bonitas

A sua voz surgiu no silêncio ensurdecedor da sala e permaneceu, imponente, a ecoar nela.

– Filha! Porque estais aqui?- perguntou-me ela. A voz parecia ser trazida pela mais leve das brisas primaveris e era tão forte como o sol que queimava as plantas que tentavam crescer no deserto.

– Hum... minha mãe... eu... eu gostava de saber o que se passa comigo! Sabeis porque estou a sofrer tantas transformações? — era incrivelmente mau falar com ela. A cada palavra que dizias sentias-te a perder a força, menos confiante; os olhos derretiam o teu interior e a voz aparentava sugar a tua alma aos poucos.

– Descrevei o que se tem passado consigo, minha filha!

E assim comecei a dizer-lhe tudo o que me tinha sucedido nos últimos tempos.

Ela permaneceu em completo silêncio enquanto eu falava, o que não sabia bem se era bom ou mau. Quando terminei ela sorriu-me angelicalmente, como se eu fosse a criatura mais bela que ela alguma vez vira.

– Minha filha! Eu já sei o que se passa consigo. As suas mudanças, novos hábitos, novo comportamento... o Quíron não vos tinha contado que o mesmo sucedera com ele? Ele é um centauro formado, desde pequenino. Vós sois uma rapariga em vias de se transformar num!

Fiquei a olhar, em choque, para a minha querida mãe. Ela estava-me a dizer que, inevitavelmente, eu me iria transformar num centauro completo? Eu nunca ouvira falar num caso assim!

– Mas... o monstro... os centauros... eu?- gaguejei atónita.

– Minha filha, vós nunca haveis ouvido falar disto (tal como o monstro que visitastes) porque é algo novo que a Natureza lhe reservou!

Agradeci à minha mãe a conversa e, depois de sair da sala dos tronos (onde falara com ela), desatei a correr para o meu quarto, a começar a chorar.

Quando abri a porta deparei-me com Quíron que, ao ver as minhas lágrimas, tirou o seu sorriso e modificou a sua postura como a de um irmão mais velho que consola a maninha que perdeu um dos seus brinquedos.

Limpou-me as lágrimas e sorriu-me. Voltei a olhar para mim: as pernas entroncadas começavam a transformar-se em pernas de um lindo cavalo lusitano castanho arruivado, o meu rabo aumentava, quase até meio do que seria o corpo de um cavalo normal, estava com vontade de beber água e comer uma maçã e uma cenoura e queria correr de um lado para o outro, como se estivesse a galopar

Subitamente, nas ruas de Nova Iorque de hoje em dia, senti alguém a vir contra mim. Era um casal que devia rondar os seus dezasseis anos. A rapariga era alta, atlética, loira de pele um pouco amorenada, olhos cinzentos curiosos, um nariz pequenino e uma boca bonita. Usava uma t-shirt laranja a dizer “Colónia de Mestiços”, uns calções de ganga curtos, uns all-star laranjas, um colar com umas contas e um anel no meio delas e uns brincos que eram corujas de prata.

O rapaz tinha olhos verde água, era mais alto que a rapariga, moreno de cabelo preto, com umas feições muito bonitas. Exibia uma t-shirt azul, uns calções de banho azuis e verdes, uns chinelos azuis-escuros e, à semelhança da namorada, um colar de contas.

Ela olhava para mim genuinamente fascinada e sorria-me com os grandes olhos cinzentos que pareciam transformar-se nas cores do arco-íris.

– Você é a rapariga-centauro da lenda, não é? Filha de dois Titãs, Crono e Gaia! Há uma lenda que fala de si Katarina!

Fiquei a olhar atónita para a rapariga. Como é que ela sabia quem eu era e quem era a minha família se tinha acabado de me ver pela primeira vez e eu nem lhe dirigira palavra? Uma súbita iluminação surgiu no meu cérebro e eu percebi uma coisa muito óbvia.

– Como sabeis tanto de mim? Sois com certeza uma filha de Atena, para saber tanta coisa incluindo uma das lendas mais complicadas e menos conhecidas de uma mulher-centauro!

– Sou, sim! O meu nome é Annabeth e este é o Percy — disse ela, apresentando-os — o meu namorado! Nós...

– Vós sois Percy? Percy Jackson? — perguntei ao rapaz.

– Hum... hum... sim!

– Como é que um rapaz como vós havei derrotado meu pai?

– Tivemos a ajuda da Colónia toda, dos deuses e de um grande director de atividades — respondeu-me a rapariga, prontamente.

– Por acaso o seu nome não será Quíron? — perguntei eu, um pouco esperançosa. Desde que houvera a Guerra dos Titãs que eu o procurava. Eu tinha a certeza que ele não estava morto, pois ele recusara-se a lutar e gostava muito dos seus irmãos, os deuses! Desde essa época que o procuro sem resultado algum, mas nunca pensei sequer em desistir!

– É sim! — disse o pequeno herói — Porquê?

Quíron estava vivo! Como é que este rapaz ainda não percebera que ele havia sido importante para mim? Sinceramente, o mundo de hoje... E como é que também conseguira derrotar a minha mãe?

– Podem-me levar até ele, por favor? Há muito tempo que o procuro sem qualquer resultado!

– Claro! — disse ela — Vou chamar um táxi para Long Island!

– Isso quer dizer que já não vamos nem à praia nem ao cinema, não é Annabeth?

– Isso quer dizer que vamos ajudar dois parentes a reencontrarem-se!

– Long Island, hã? Não é preciso um táxi — até porque não cabia num — Vá! Subam para o dorso e vão me dando as instruções!

E assim, enquanto eu galopava para Long Island, e Annabeth me dava as direções, vi os edifícios a transformarem-se em árvores, as pessoas em animais, os carros em arbustos... O meu irmão sabia muito bem o sítio que escolhera e fora bem mais inteligente que eu (que sempre ficara na cidade), mais uma vez!

Parámos em frente a um campo de morangos onde, mais ao fundo, se viam cabanas, um pouco de fumo e ouvia-se o doce barulho de uma seta a abandonar o arco e acertar perfeitamente no centro do alvo! Como eu sentira saudades daquilo!

A rapariga pediu-me para os levar até à Colina e que aí iriam entrar, avisar alguns colegas (mas não o Quíron porque a Annabeth pretendia fazer-lhe uma surpresa) e depois dar-me permissão para entrar dentro da Colónia.

Passado uns minutos, ouvi uns cascos a aproximarem-se da entrada e escondi-me atrás de uns arbustos, o mais longe possível do dragão assustador que guardava a árvore onde se encontrava o místico tosão de ouro. Apetecia-me ir buscar o tosão, ele enfeitiçava-me, mas sabia perfeitamente que um passo em falso e o dragão matar-me-ia logo ali.

Foi então que percebi que eram só dois cascos que eu ouvira. Saí do meu esconderijo improvisado e surpreendi o sátiro que estava a entrar na Colónia.

Ouvi Annabeth a aproximar-se. Ela correu até ao portão e abraçou o sátiro que, pelo que ela dizia, se chamava Grover Underwood.

Depois correu até ao portão e, murmurando o meu nome baixinho, deu-me permissão para entrar.

Sentia-se a força da fronteira mágica a subir assim que a passei e perguntei-me como é que eles conseguiam fazer aquilo. Annabeth veio ter comigo e disse-me para seguir em direção à casa grande, uma estrutura azul imponente onde encontraria Quíron. E acrescentou:

– Bem-vinda à Colónia de Mestiços!


Notas finais
Espero que tenham gostado.
Por favor comentem, mesmo que seja a dizer que odiaram
Tentarei postar amanhã ou depois de amanhã, mas posso sempre atrasar-me