O Rebelde
26 Pandemônio
Notas iniciais
Um pandemônio se espalhava pelo castelo, em todas as alas, todos os cantos. Gritos, tiros, tudo preenchia a minha audição, enquanto eu e Danny seguíamos, ele atirando e me guiando pelos corredores depois de ´seguros`.
Pouco antes, eu havia arrancado o véu, a coroa, os saltos e também havia cortado toda a saia do vestido, para que melhor pudesse me mover.
Enquanto seguíamos em passos ocos pelos corredores, apenas ouvíamos os sons horrendos dos arredores. Então, quando Danny ia virar à esquerda, já com a arma a postos, eu o virei pelo braço em um movimento brusco.
—Danny...-sussurrei, e seus olhos azuis encontraram os meus.
—Eu estou... Estou com muito medo, apavorada...- terminei, fitando o chão. Então ele virou meu rosto para si.
—Você pode se arrepender agora de ter vindo atrás dele... Mas, imagine o quanto vai se arrepender se descobrir que desistiu dele? Conseguiria viver com isso?
E com os olhos cheios de convicção, ele respondeu por mim:
—Creio que não- e sorriu, voltando-se para o vão e atirando.
—Vamos- ele me chamou, e eu segui. Passando por um dos três mortos, paramos ao lado do quarto, que ainda respirava com dificuldade, e Danny ergueu. Ele era magro e baixo, tinha sido apenas baleado no ombro.
—O que está havendo aqui?- perguntou Danny, com a voz grave e séria.
—Um ataque sulista... Sulista, por favor, não me mate!...- implorou ele, e Danny o soltou.
—Seu rebelde era um sulista?!- Danny se virou para mim, pasmo e espantado.
—Não!- respondi, e foi então que um grito ecoou. Era agudo e cortante. Era Lily.
Danny e eu corremos em disparada pelos corredores, e eu me detive ao vê-la sendo arrastado por um homem pelos cabelos. Danny correu e deu-lhe um soco, e ele caiu duro no chão ao mesmo tempo que Danny se ajoelhava e abraçava Lily, enquanto ela chorava e soluçava. Cambaleei alguns passos para trás, tonta em pensar no que teria acontecido se não fosse Danny, e foi quando uma mão grande e pesada cobriu minha boca enquanto outra me puxava por trás pela cintura, de maneira violenta, e eu fiquei sem ar quando meus pés foram arrancados do chão enquanto o sequestrador dizia:
—Sabia que nos veríamos de novo, Majestade...
E logo fui jogada em um armazém, caindo de maneira dolorosa. A porta foi fechada com um estalo surdo em meio ao som de balas e gritos.
—Você estava morto!- arregalei os olhos e falei em um timbre quase inaudível.
—Nunca estive morto...- David começou a me rodear como um predador rodeia sua presa. Eu estava apoiada em meus cotovelos, havia torcido dolorosamente um pé e cortado o antebraço.
—Não se aproxime de mim- cuspi nele, mas David apenas riu.
—Como senti falta desse seu autoritarismo inútil e arrogante...- e foi então que, meio cambaleante e sentindo uma dor na coluna quase insuportável, fiquei de pé.
E então ele veio para cima de mim. Dei-lhe um gancho quase inútil, e ele me empurrou contra a parede, tentando prender meus braços, mas eu estava determinada e me debatia loucamente, e quando arranhei seu rosto, ele me soltou e se afastou um pouco. Foi então que escorreguei pelas paredes, tentando ir até a porta, mas David se abaixou e puxou meus tornozelos.
Eu caí de barriga no chão, quando estava a poucos metros da grande e pesada porta. Ele então me puxou para si, e enquanto eu gritava, ele cochichou:
—Ninguém poderá me impedir de nada agora, princesinha... – e foi quando comecei a arranhar seu rosto e tentar afastá-lo de mim, empurrando-o para longe e tentando virar seu pescoço, e então ele paralisou; seus olhos se arregalaram e a boca se abriu, ele se levantou de maneira lenta, cambaleando e tropeçando em seus próprios pés. Foi quando ele se virou, e vi uma sombra atrás dele, alta e forte...
—CONOR!- gritei, e ele deu um soco tão forte, mas tão forte em David que ouvi o som de algo se partindo, e ele foi jogado de lado, caindo no chão a metros de mim. Seu corpo então entrou em convulções leves, e sons de gemidos e choros roucos saiam dele.
Conor se abaixou a minha frente e segurou meu rosto com as duas mãos, muito próximo de mim.
—Katherine... Você está bem? Ele lhe feriu?...
Lágrimas brotavam em meus olhos, e eu sorri.
—Não poderia estar melhor- e em meio daquela escuridão e ruídos tensos, ele puxou meu rosto para perto, e nos beijamos de maneira lenta. Senti gosto de sangue na minha boca, mas não sabia se era meu ou dele... E realmente não me importava. O puxei para mais perto pelo pescoço, e quando nossos lábios se separaram, Conor, ainda muito próximo, vasculhou meu rosto com seus olhos dourados, e depois de alguns segundos, tocou o canto de meus lábios. Seu olhar se fechou.
—Foi ele quem fez isso?
Eu nem precisei responder. Ele apenas beijou meu rosto e se levantou, suspirou com pesar e disse:
—Eu sei que não é de seu agrado...- e Conor andou em direção à David, o ergueu pela gola de sua camisa e o jogou contra a parede. Foi então que vi que havia um longo punhal incrustrado em suas costas. Quando a faca entrou mais em sua carne, ele gemeu de dor e começou a cuspir palavras furiosas e confusas contra Conor.
—Você teve sua chance... E eu gostaria de dizer que sinto muito pelo que vou fazer... Mas não gosto de mentiras.
E foi então que ele arrancou o punhal das costas de David e cravou em seu peito, um grito rouco e baixo ecoou, e sua voz foi se esvaindo e se esvaindo... Até que seu rosto perdeu as emoções e endureceu, e Conor o ficou observando por alguns curtos segundos antes de vir até mim.
—Precisamos ir embora daqui, não é seguro- disse ele, ajudando-me a levantar.
—Estamos em meio a um ataque sulista dos mais radicais, sabiam que todos os diplomatas relacionados à Iléia estariam aqui hoje.
Ele apoiou meu braço em seus ombros, e quando me senti melhor, soltei-me dele e saímos juntos, deixando lá o corpo de David apodrecendo por fora como já havia feito por dentro.
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O lado de fora estava angustiantemente silencioso. O som de meus pés descalços faziam sons baixos. Conor, assim como Danny o fizera, ia na frente, verificando o caminho e eu o seguia depois. Ele não soltou minha mão em momento algum, e eu me sentia tão segura, confortada... Foi então que percebi que ele me guiava para o pátio de pouso.
—Para onde estamos indo?- perguntei, e soltei nossas mãos. Ele se virou para mim.
—Estar comigo é um perigo para você... Veja tudo o que aconteceu!
Deixei escapar o ar em um sorriso irônico e lágrimas brotaram nos meus olhos.
—Pense no que aconteceria se eu não estivesse com você! Eu teria sido... Sido- nem consegui terminar, e ele veio até mim rapidamente e levantou meu rosto, beijando o canto de minha boca. Comecei a chorar.
—Conor, não faça isso comigo, não me deixe, não me abandone! Eu morri todos os dias esperando por você, não era nada! – e eu solucei enquanto ele me abraçava e acariciava minhas costas com suas mãos grandes. Eu fungava e chorava, e ele estava lá... Foi então que ele pegou minhas mãos e as levou para a altura do seu peito largo.
—Venha comigo, vamos agora- Conor pediu docemente, tocando meu rosto. Eu sorri e ele me retribuiu com um sorriso caloroso.
Andamos em passos rápidos pelo palácio para chegar até a floresta, onde, segundo ele, usaríamos caminhos antigos e secretos, chegando ao mar, onde um barco pequeno nos esperava. Mas quando passamos pelo salão de jantar. Eu segui pela frente nesse ponto, e foi quando um chicote estalou no ar, e quando me virei, Conor estava curvado sobre si mesmo, e logo atrás, Lorde Leonard, com um chicote a postos exibia um olhar esnobe. A camiseta branca de Conor logo deu espaço a uma faixa vermelha de sangue.
—CONOR!- gritei, e ele se virou para mim. Mas logo que o fez, Leonard desembainhou sua espada e, não fosse por Conor usar seu antebraço como escudo, mais um rasco de sangue lhe cobriria o peito.
Corri para a mesa bagunçada e tirei de lá uma bandeja de prata. Leonard dispunha de duas espadas e um chicote de quase quatro metros, e Conor apenas de sua força.
—Seu rebelde nojento... – e foi quando me posicionei atrás dele e bati com força a bandeja na parte de trás de sua cabeça. Leonard se virou imediatamente com a espada erguida, e fez um corte horizontal que foi do meu ombro esquerdo até o direito, cortando entre o peito e o pescoço. Quando ia cair no chão, ele pegou meu pescoço com nojo em suas mãos e disse, bem perto de mim, mas alto o bastante para Conor ouvir.
—E pensar que quase me casei com você... Uma princesa imunda de um país ridículo, que abriu as pernas no meio do mato para a escória da sociedade.
Conor vinha com uma faca de carne erguida, e Leonard me soltou para evitar o golpe. A luta era injusta, as espadas de Leonard tinha quase o triplo do tamanho da única arma de Conor, e dessa maneira ele sofria mais cortes.
Meu peito sangrava e manchava de sangue todo corpete do vestido. Levei a mão ao corte, e mais e mais sangue escorria.
Uma mão pegou meu ombro.
—Katherine!- era Danny, e eu estava zonza demais para dizer alguma coisa... Apenas consegui murmurar e apontar debilmente para Conor, e ele me entendeu. Ainda ao meu lado, preparou a espada e se juntou a ele.
A visão ia perdendo o foco, e foi quando Lily chegou ao meu lado.
—Katie! Ah meu Deus, você, você!... – e ela se levantou e voltou rapidamente, com uma longa bandagem. Ali mesmo ela a enfaixou em meu peito rapidamente, impedindo que a hemorragia aumentasse.
Minha visão ganhou foco na parte em que preferia tê-la perdido. Leonard cravou a espada no peito de Danny.
—LEGER!- chorou Lily enquanto ele caia no chão. Conor e Leonard ainda lutavam, e foram se afastando pelo salão. Corremos até Danny.
—Danny... Danny! Danny, por favor!- chacoalhei seus ombros e o abracei. Chorava e gritava desesperadamente. Lily estava atrás de mim e chorava silenciosamente.
—Você disse que não me deixaria, Danny... Desculpe, ah, me desculpe!- solucei, e seu corpo estava tão frio e distante que tinha certeza de que ele não ouvira uma palavra sequer.
Então, o som de uma espada caindo no chão, e o baque de um corpo pesado quebrando a janela e alta do salão, indo para os jardins. Me virei, e percebi que Leonard pulava a janela, sendo que Conor fora quem caíra. Corri o mais rápido que pude até lá, subi nas costas do Lorde tentando o impedir, mas ele pegou meu braço e me jogou contra as roseiras magníficas e saudáveis que exalavam seu doce perfume, que se misturava hoje com cheiro de sangue e morte. Senti minha pele arder e cortar, mas quando vi a espada dele erguida na direção do peito de Conor, senti que não podia fazer mais nada.
Eu, pelo o menos, não podia.
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