Notas iniciais
Feliz Natal, a todos! Que sejam iluminados e que a luz brote no coração de cada um de vocês! Que tenham sempre paz e alegria, e que o amor seja companheiro de vocês para sempre! Obrigada pelos comentários Eleanor Liesel Grey, Gabi Jackson, Snow Quen e Ana Clarke Montini, que também favoritou! Obrigada flores e obrigada a todos que usam um pedacinho de seus dias para lerem a Fic! Espero que gostem e comentem o que estão achando!

Flashes rápidos se passavam pela minha mente – cenas imaginárias, fictícias, reais... Que misturavam todos os tempos, confundindo meu passado com o futuro e, principalmente meu presente. Eu via luzes direcionadas à mim, sentia agulhas sendo espetadas em meus braços e depois uma dormência quase nostálgica. Via minha mãe, meu pai... O pequeno Oliver, e, principalmente, meu amado Conor.

Ouvia vozes indistintas, conhecidas e completamente novas a meus ouvidos. Pareciam milhares de anos, pois no lugar que minha mente vagava – dentro de mim – o tempo não era o mesmo de quando estamos acordados. Assim como nos sonhos, as coisas mais reais e doloridas se misturavam com as coisas mais surreais, e, principalmente, pareciam não acabar nem seguir lei alguma. Porém, diferente dos sonhos, eu não podiam acordar.

–Eu somente quero acordar – sussurrei dentro de mim mesma, e a voz que não parecia em nada com a minha – mas que saía de meus lábios – ecoou, reverberou e vibrou dentro de mim, enquanto aquele corpo imaginário caía no chão e chorava, e ao mesmo tempo que me via caindo, me via de cima, como o Criador deve nos ver.

–Só quero acordar... O ir embora de uma vez – murmurei aos prantos, e foi quando uma luz branca surgiu no fim do quarto escuro e comprido.

–Katherine...- ouvi a voz doce de minha mãe, e agora sabia que iria me encontrar com ela. Como eu sonhei com isso... Foi então que ela tomou minha mão, e corremos juntas até essa luz.

_-_-_-_-_-_-_-_-_-_

Respirei fundo e com muita força como se estivesse debaixo da água por todo esse tempo. Ouvia o som sistemático do equipamento que marcava meus batimentos, e quando ergui meu tronco, senti três pares de mão me empurrando para baixo, para meu acalmar.

–Querida, ah, querida...- ouvi minha mãe falando ao meu lado, e tomando minha mão esquerda nas suas. Virei o rosto para ela.

–Mamãe...- e senti lágrimas brotando nos nossos olhos enquanto nos abraçávamos. Senti suas mãos acariciando meus cabelos, e logo um cansaço extremo me tomou conta, e a Rainha me deitou com cuidado na cama.

–Podem parar de administrar a anestesia nela, meninas – disse ela docemente, olhando para as enfermeiras.

Sem jeito por confrontar a Rainha, uma delas se aproximou e de olhos baixos, disse timidamente;

–Desculpe Senhora, temos ordens do Rei de não deixar de fazê-lo até amanhã.

–Mas ela acordou, está bem!

–E onde está papai?- comecei a respirar com dificuldade e minhas pálpebras foram ficando pesadas enquanto eu me sentava na beirada da cama, me debatendo quando alguém que não fosse mamãe me tocava.

–Está cuidando de... Assuntos, Majestade.

E então meu coração acelerou, e foi como se tudo fizesse sentido.

–Conor...-murmurei, me soltando de tudo o que me prendesse, tanto agulhas quanto equipamentos. Ao meu redor, as três enfermeiras começaram a me deter, até que viram que não conseguiriam, e uma delas saiu do quarto, enquanto as outras duas tentavam me segurar.

–Fique calma, querida- pediu mamãe, ficando preocupada.

–ELES VÃO MATÁ-LO MÃE!- berrei, e foi nesse segundo que a terceira enfermeira entrou no quarto, erguendo uma seringa cheia de um líquido amarelado, e foi quando as outras duas me fizeram curvar sobre um criado mudo, erguendo a manga do roupão de hospital enquanto eu me debatia.

Enquanto uma delas limpava o lugar com algodão, a outra disse:

–Desculpe, Alteza...

Vi então uma bandeja grande de prata que continha vários remédios. O que eu fiz não foi premeditado, mas deu certo.

–Não, eu que peço.

E com um súbito de energia, peguei a bandeja com uma das mãos e me virei com força, derrubando todos os remédios pelo quarto e a batendo bem no rosto da enfermeira da direita, que caiu por cima da outra, a prendendo, já que era bem maior. A da seringa, por sua vez, tentou se aproximar, mas eu usei a bandeja de maneira que ela caísse, como uma rasteira. Minha mãe apenas gritava e choramingava, pedindo que eu me acalmasse... Nesse segundo percebi que ela usava uma cadeira de rodas.

–Sinto muito por isso mãe- disse a ela enquanto fechava o roupão e saía correndo do quarto, com a bandeja a postos.

Achei estranho não encontrar nenhum guarda, mas isso era bom... Ou não. Poderiam todos estar na execução. Passando por um dos corredores, encontrei armaduras de cavaleiros enfileirados, como sempre houve ali. Lembro-me de brincar por esses corredores, e peguei uma das espadas que um deles segurava. A armadura gemeu e desmoronou, fazendo um estrondo horroroso enquanto eu continuava correndo. As únicas pessoas que encontrei foram criadas, e o choque de me ver correndo com uma espada era tão grande que elas ficavam sem reação, deixando cair cestos de roupas ou deixando de tirar o pó. Algumas conseguiam me chamar, mas eu simplesmente as ignorava. Desci as escadas correndo, e então cheguei ao escritório de papai. Tinha uma vista exata para o pátio de execuções, disso eu sabia.

´´-O que eu mais queria era mudar isso- disse ele, em um dia ensolarado. Eu devia ter nove ou dez anos, e estava sentada em seu colo, olhando o lindo pátio. Nunca havia visto uma execução, afinal, papai nunca havia sentenciado alguém à morte.

–Mas ninguém mais é sentenciado aí, foi o que a mamãe disse- eu tentei animá-lo.

–Eu sei, minha querida... Mas as lembranças corroem o coração de qualquer um – ele suspirou e beijou minha cabeça, e continuamos olhando o pátio por um longo período.``

Abri a porta com força, e ela bateu com um forte som nas paredes. Corri até a janela.

O pátio estava lotado. Bancos como os de arquibancadas foram colocados formando um quadrado, mas sem a quarta parte, onde um mais alto e coberto foi colocado. Ele tinha uma cadeira mais alta e soberana, de onde o Rei assistiria ao show de torturas que estava para começar. Nos bancos, jornalistas e todos o tipo de pessoa disparavam flashes de câmeras, microfones e luzes. Repórteres faziam suas manchetes como tubarões que seguem o rastro deixado pela promessa do cheiro de sangue.

Meu coração ficou apertado quando entrou no meio daquela jaula um homem, de roupas esfarrapadas e com pés e mãos algemados e sendo levado por três guardas. Sua pele era morena e os cabelos pretos estavam cobrindo seus olhos dourados.

–CONOR!- gritei e bati o punho na janela, inutilmente, é claro. Como poderia ele me ouvir do terceiro andar, com todo o barulho que se manifestava lá embaixo?

Comecei a correr para fora do escritório e desci os três andares como um raio. Foi na entrada principal que avistei dois guardas fazendo ronda, e me escondi atrás de uma pilastra. Contra enfermeiras eu poderia lutar, mas com eles... Corri até a cozinha e passei quase despercebida, indo direto para o depósito e logo depois correndo para a saída. Estava do outro lado do palácio, mas iria chegar ao pátio em que estava Conor.

Eu corria sem olhar para trás com a espada de quase quinze quilos pensando e me atrasando. Soltei-a então e corri ainda mais, e foi quando avistei uma das entradas para o pátio.

Sentia a areia, a grama e algumas vezes o cascalho sob meus pés nus. Sentia eles sendo cortados e machucados, mas meu coração batia mais alto e me dava forças para fazer o que estava por vir.

Eu passava pelo meio dos jardins para cortar caminho e sentia as roseiras e outras flores tentando me prender, como que por vingança por eu as pisotear. Mas eu não ligava.

Foi então que comecei a ouvir gritos distantes. Eram agoniantes, dolorosos, profundos... Soube naquele segundo que eram de Conor, e que iam me acompanhar pelo resto de minha vida se eu não conseguisse impedir a sua morte.

Ao me aproximar mais, pude começar a ouvir o som do chicote, que corta, arde, faz arfar e arfa junto.

Foi então que senti uma mão em meu braço, e como em um movimento de dança, me fez girar em meu próprio eixo até estar a sua frente.

–Katie, o que faz aqui?- era Danny.

–Danny, saia da minha frente e me largue- sibilei, tentando soltar sua mão de meu braço. Ele apenas segurou com mais força e chegou mais perto.

–Preciso te levar de volta para o castelo, para a enfermaria.

Baixei os olhos, botando meu talento cênico na jogada. Enchi os olhos de lágrimas e o fitei.

–Tem razão, não sei o que eu estava...

–Tudo bem, vamos- e quando senti sua mão frouxando um pouco, arranquei sua espada da bainha e cortei seu rosto, sua bochecha. Ele me soltou e eu continuei correndo enquanto ele levava a mão enluvada ao rosto, deixando-a vermelha e encharcada.

Não conseguia sentir culpa, pena... Apenas sentia o dever de correr.

Continuei com a espada dele, que era mais leve e fácil de manusear. Quando cheguei a uma das entradas para o pátio, três guardas me cercaram.

–Alteza, não queremos machucá-la- ouvi um deles dizer mansamente, mas por trás de sua voz ouvia o som do chicote e podia sentir os feixes ardentes que ele abria em Conor em mim mesma a cada grito. Não eram de dor, mas de ódio. Pude sentir isso.

–Eu também não os quero ferir, mas o farei- e golpeei o que estava mais próximo bem em seu joelho, enquanto os outros dois tentavam me segurar, mas apenas foram peleados nos braços e no ombro. Eu não sabia o que estava fazendo, só sabia que estava funcionando.

Entrei correndo, manchada de sangue, com a espada erguida. De primeira, ninguém me notou – a não ser ele, que arregalou os olhos e me implorou que voltasse antes que mais alguém me visse – e o momento parecia passar em câmera lenta. Eu sentia o vento quente soprar lufadas em meus cabelos, e podia sentir a sombra que nuvens de chuva faziam sobre todo o lugar. Eram cinza, pesadas e prometiam uma tempestade.

Chegando perto dele, seu carrasco já havia me visto e parara de chibatá-lo, e eu desci a espada na corda que prendia suas mãos ao mesmo tempo em que eu me jogava ao seu lado, e o abraçava.

–Não devia ter feito isso...- ele murmurou debilmente, e sangue fluía de sua boca. Toquei seu rosto.

–O que está acontecendo aqui?!- berrou o Rei. A essas alturas todos já me haviam notado.

–NÃO PERMITIREI QUE O MATEM!- gritei de volta, o mais alto que pude, ficando de pé e me projetando da maneira mais altiva que pude.

–O que faz aí, criança insolente?!- perguntou o primeiro ministro, se erguendo.

–Você vai pagar por isso...- rosnei baixinho para mim mesma, fazendo a promessa de que o mataria eu mesma.

Foi então que três guardas me seguraram pelos ombros, me prendendo, mas tomando cuidado para não me machucar.

–NÃO TOQUEM EM MIM!- berrei, esperneando e chutando tudo o que alcançava. Foi quando um deles frouxou o braço, e eu corri para frente e para longe deles, pegando a adaga que havia escondido em um bolso do roupão.

–Se o matarem, eu vou junto!- berrei alto para todos ouvirem e coloquei a faca na garganta, arrancando de todos um suspiro de medo.

–Largue essa faca, filha. Não seja tola.

–Ela não faria isso, Majestade- murmurou alguém, e eu gritei:

–Se ele for sentenciado à morte, eu mesma me sentenciarei. Se não aqui, em qualquer outro lugar. Não pensem que não sou capaz.

Sentia a faca em minha garganta, e senti um filete de sangue escorrendo e manchando meu roupão ainda mais.

O rei se levantou e com olhar sagaz, deu dois passos à frente. Estava confuso e irado.

–Ele não será morto, então — ele sorriu com ódio, amargura, e não descolava os olhos de mim.

Foi quando frouxei a faca e mais guardas me seguraram, enquanto eu era rendida. Os olhos de Conor estavam fixos em mim, assim como o do resto da multidão e todas as câmeras.

–Mas suas chibatadas, serão agora trezentas e cinquenta.

–Não!- gritei, mas me seguraram enquanto o carrasco continuava a chibatá-lo.

–Começando do zero!- berrou um homem do ministério.

–CONOR!

E o rei chegou bem perto de mim enquanto reatavam Conor no pelourinho.

–Para o meu escritório, minha filha- sua voz era sombria e senti um medo real que jamais havia sentido, e jamais pensei que seria invocado pelo meu pai. O que ele faria, o que seria de mim... Sabia apenas que, apesar de não sentenciado à morte, depois de trezentas e cinquenta chibatadas sem cuidados, era o aconteceria.

Eu tinha de salvá-lo, mesmo que para isso eu tivesse de abrir mão de mim mesma. De minha liberdade, ou de meu amor por ele. Mas eu faria tudo.

O possível e o impossível para salvá-lo.