O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
9 O Silêncio da Flor de Ferro
O corredor escuro havia sido o palco da verdade, mas a luz do dia seguinte trouxe o peso das consequências. Para Rebekah, o beijo não foi apenas uma vitória estratégica; foi o despertar de algo que ela não sabia como controlar. A "fera" da fazenda, que sempre tinha uma resposta pronta, agora parecia ter perdido a voz.
Os dias que se seguiram foram marcados por um jogo de sombras. Rebekah evitava os estábulos, não ia mais ao pomar nos horários em que Maurício costumava cavalgar e, nas refeições, mantinha os olhos fixos no prato, respondendo apenas o estritamente necessário.
O Jantar do Silêncio
Na mesa, o clima era tenso. Heitor e Jasmine trocavam olhares preocupados, percebendo que a alegria ruidosa da irmã mais nova havia sumido.
— Rebekah, você mal tocou na torta de maçã — observou Açucena, encostando a mão na testa da filha. — Está com febre? Está tão pálida.
— Estou bem, mamãe. Só... sem fome — Rebekah respondeu, a voz baixa, sem levantar o olhar.
Maurício, sentado à sua frente, não desviava o olhar dela. Ele via o tremor leve nas mãos de Rebekah e o modo como ela evitava até mesmo a direção de sua cadeira. O triunfo que ele sentira ao descobrir a verdade fora substituído por uma culpa amarga. Ele percebeu, tarde demais, que embora ela o provocasse como uma mulher, ela ainda tinha o coração vulnerável de uma jovem que nunca havia lidado com a intensidade de um homem como ele.
— Talvez seja o ar da fazenda — Maurício disse, a voz deliberadamente calma. — Às vezes, as coisas crescem rápido demais por aqui e a gente não sabe como lidar com a colheita.
Rebekah apertou o garfo com força. Ela sabia que ele estava falando dela.
— Eu vou para o meu quarto — ela disse brusca, levantando-se antes mesmo de terminarem. — Com licença.
O Confronto na Varanda
Mais tarde, Rebekah estava na varanda, abraçando os próprios ombros enquanto olhava para a escuridão dos campos. O som de passos firmes na madeira a fez querer correr, mas suas pernas não obedeceram.
— Você não pode se esconder para sempre, Rebekah — a voz de Maurício surgiu atrás dela, não mais desafiadora, mas carregada de uma suavidade que a assustava ainda mais.
— Eu não estou me escondendo — ela mentiu, sem se virar.
— Está sim. Você não olha para mim. Não briga comigo. Onde está aquela garota que dizia que eu era uma peça de museu? — Ele se aproximou, parando ao lado dela. — O beijo... ele te assustou tanto assim?
Rebekah finalmente olhou para ele, e Maurício viu lágrimas brilhando nos olhos dela. O escudo de deboche havia caído completamente.
— Você é um Martinez, Maurício — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu vi o que o amor fez com o Heitor. Eu vi o que o segredo fez com a Katherine. Eu pensei que era um jogo, que eu era esperta o suficiente para brincar com você e sair ilesa... mas agora, quando eu fecho os olhos, eu sinto o seu toque e eu... eu não sei quem eu sou mais.
— Você ainda é a Rebekah — ele disse, estendendo a mão, mas hesitando antes de tocar o rosto dela. — Só que agora eu também sei quem você é.
— Eu sou uma menina, Maurício! — ela disparou, um soluço escapando. — E você é um homem que já viveu tudo. Eu tive medo de que, se você descobrisse que era eu no jardim, você iria rir de mim... ou pior, que você iria me olhar como olha para aquelas mulheres da capital. Como uma conquista.
Maurício sentiu o impacto das palavras dela no peito. Ele deu um passo à frente, segurando o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a ver a sinceridade em seus olhos.
— Escute bem — ele disse, com uma intensidade que a fez parar de tremer. — Eu nunca ri de você. E eu nunca, em toda a minha vida, olhei para uma mulher como olho para você. O que aconteceu no corredor... o que aconteceu no jardim... não foi uma conquista. Foi a minha ruína. Eu estou nas suas mãos, Rebekah. Se alguém aqui deve ter medo, sou eu.
Rebekah o olhou, confusa. — Por quê?
— Porque eu passei trinta e quatro anos construindo muros em volta do meu coração para não acabar como o meu irmão — ele confessou, roçando o polegar na bacia dos olhos dela para secar uma lágrima. — E você, com um vestido prata e um jeito atrevido, derrubou tudo em uma única noite. Eu não quero uma "menina" para brincar, Rebekah. Eu quero a mulher que você está se tornando. Mas eu vou esperar.
Ele depositou um beijo casto e demorado na testa dela, um gesto de respeito que valia mais do que mil confissões.
— Não precisa se esconder de mim. Eu não vou te forçar a nada que você não esteja pronta para viver. Podemos voltar a ser o "museu" e a "fera", se isso te fizer sentir segura. Mas saiba que, debaixo desse céu, não existe outro lugar onde eu queira estar a não ser onde você estiver.
Rebekah respirou fundo, sentindo o peso do pânico diminuir. Ela ainda tinha medo, mas agora, era um medo que vinha acompanhado de uma esperança doce.
— Eu ainda acho que você ronca — ela murmurou, com um traço minúsculo do antigo sorriso voltando aos lábios.
Maurício soltou uma risada de alívio, encostando a testa na dela.
— E eu ainda acho que você cheira a maçã verde. Mas, por enquanto, isso é mais do que suficiente para mim.
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