A partida de Rebekah deixou um rastro de poeira e um silêncio ensurdecedor na fazenda Nóbrega. Maurício estava parado no ponto mais alto das terras, o mesmo lugar onde a vira partir cinco anos atrás. Mas, desta vez, não havia a promessa de um retorno. O brilho do sol batia na carruagem que levava a nova Sra. Beaumont, e ele sentiu como se cada volta daquelas rodas estivesse esmagando o que restava de sua humanidade.

​Ele respirou fundo, o ar frio da manhã preenchendo seus pulmões. Naquele momento, ele vestiu a sua "couraça". Seus olhos, que haviam brilhado com vulnerabilidade no jardim, tornaram-se novamente duas pedras de gelo azul.


​As semanas passaram. Maurício não se isolou no castelo; ele fez o oposto. Ele voltou a trabalhar na fazenda com uma ferocidade assustadora. Ele era o primeiro a acordar e o último a deitar, tratando a terra como se pudesse arrancar dela a saudade que sentia.

​O Café da Manhã Silencioso

​Na mesa da fazenda, o lugar de Rebekah estava vazio, mas a presença dela era um fantasma que todos sentiam. Maurício comia em silêncio, os movimentos mecânicos.

​— Maurício, você não precisa se matar de trabalhar no pomar de maçãs — comentou José, observando as mãos calejadas do amigo. — Temos homens para isso agora.

​— Os homens não cuidam das raízes como eu, José — respondeu Maurício, a voz sem qualquer emoção. — Se deixarmos por conta deles, as árvores morrem. E eu não vou permitir que nada morra nesta fazenda. Não mais.

​Jasmine olhou para ele, o coração apertado. — Ela escreveu ontem. Chegaram bem à Capital. Thomas comprou uma casa perto do Jardim Botânico. Diz que ela está... ocupada.

​Maurício nem piscou. — Que bom para ela. Espero que a porcelana da casa nova seja de boa qualidade. Seria uma pena se quebrasse no primeiro inverno.

​— Você não precisa ser assim, Maurício — Heitor interveio, a voz firme. — Sabemos que dói.

​— Dói? — Maurício deu um sorriso de canto, gélido e desprovido de humor. — Você está enganado, irmão. Para doer, é preciso sentir algo. Eu só sinto o cheiro do adubo e o peso do trabalho. O resto... o resto foi embora naquela carruagem.

​A Saudade no Estábulo

​Mais tarde, Átila encontrou o tio no estábulo, limpando a sela que Rebekah costumava usar. O jovem de 16 anos via através da máscara do tio.

​— Ela deixou o cheiro dela aqui, não foi? — Átila perguntou baixinho. — Maçã verde e liberdade.

​Maurício parou o movimento por um segundo. Suas mãos tremeram quase imperceptivelmente.

— Ela deixou um vazio, Átila. O cheiro vai embora com o vento.

​— O senhor ainda olha para a estrada toda tarde, tio Mau-mau. Eu vi.

​Maurício guardou o pano e virou-se para o sobrinho, a couraça de frieza vacilando por um breve instante.

— Eu olho para a estrada para garantir que ninguém mais saia sem aviso, rapaz. A vida é um jogo de perdas. Eu só estou garantindo que já perdi tudo o que podia.

​— O senhor a ama tanto que dói até em mim — disse Átila, com a sinceridade de quem admira o tio.

​Maurício colocou a mão no ombro do sobrinho e apertou. — Nunca ame ninguém a esse ponto, Átila. O amor de um Martinez é uma maldição. Ele te dá asas para depois te jogar no abismo. Agora vá, ajude seu pai com as contas. Eu tenho cercas para consertar.

​A Solidão sob as Estrelas

​À noite, Maurício sentou-se no grande quintal, exatamente onde eles jantavam sob as estrelas. Ele acendeu um charuto e olhou para o céu. As estrelas estavam lindas, como naquela noite quente em que Rebekah o provocara sobre as pretendentes.

​Ele levou a mão ao bolso interno do casaco e sentiu o relevo do medalhão do anjo, que ele voltara a carregar consigo.

​— "Vai ficar tudo bem" — ele sussurrou para o escuro, repetindo as palavras que a menina Rebekah lhe dissera anos atrás. — Você mentiu, pequena fera. Nada está bem.

​Ele soltou a fumaça, a fumaça subindo e se perdendo no infinito, assim como a vida que ele sonhara ter ao lado da única mulher que teve coragem de desafiar o gelo de seu coração. Maurício Martinez estava de volta ao seu papel: o protetor silencioso de uma terra que guardava os segredos de um amor que o "sim" de um altar não conseguiu apagar.