O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
3 A Tempestade Antes da Chuva
O sol estava começando a se esconder atrás das colinas, tingindo o capim alto de um dourado profundo. Rebekah caminhava descalça, sentindo a terra ainda quente sob os pés, em um daqueles raros momentos de solidão que tanto prezava. O silêncio, no entanto, foi quebrado pelo ritmo compassado de cascos batendo contra o solo.
Ela não precisou se virar para saber quem era. O galope firme e a presença pesada eram inconfundíveis.
Maurício puxou as rédeas, fazendo o cavalo parar a poucos metros dela. Ele desmontou com a agilidade de quem passara a vida sobre a sela e caminhou em sua direção, retirando o chapéu.
— Fugindo da louça de Açucena de novo, Rebekah? — ele perguntou, o tom de deboche de sempre escondendo o quanto ele a admirava sob aquela luz de fim de tarde.
Rebekah parou e cruzou os braços, o queixo erguido.
— Eu não fujo de nada, Martinez. Só estava apreciando a vista antes que ela mude. Soube que você anda visitando a vila com mais frequência. Imagino que esteja escolhendo o tecido para o seu terno de noivo.
Maurício parou, a expressão subitamente séria.
— Heitor falou demais na mesa ontem. Aquelas propostas são apenas papéis.
— Mas você deveria aceitar uma — ela disparou, a voz carregada de uma irritação que ela não conseguia esconder. — Afinal, você não está ficando mais novo. E eu realmente ficaria triste, sabe? Seria difícil encontrar outro empregado tão fiel para carregar minhas cestas e ouvir minhas reclamações.
Maurício sentiu o sangue ferver. Ele deu dois passos rápidos, diminuindo a distância entre eles de forma agressiva.
— Empregado? É isso que eu sou para você, Rebekah? Um criado de luxo que diverte a princesinha da fazenda?
— E o que mais seria? — ela desafiou, embora seu coração estivesse batendo tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir. — Você vive sob a sombra do meu cunhado e gasta seu tempo me seguindo pelos campos. Casar com a filha do ferreiro seria, no mínimo, útil para você.
Antes que ela pudesse terminar a frase, Maurício largou as rédeas e a agarrou pelos punhos. O movimento foi brusco, mas firme, prendendo-a diante dele. Os olhos azuis dele, geralmente tão frios e calculistas, agora queimavam com uma chama de ressentimento e algo muito mais perigoso.
— Você não sabe do que está falando — ele rosnou, aproximando o rosto do dela. — Você brinca com o fogo porque sabe que eu nunca deixei a chama te queimar. Mas me chamar de empregado... depois de tudo o que eu sou para você...
— Você não é nada meu, Maurício! — ela gritou, tentando soltar os pulsos, mas ele a segurou com mais força, puxando-a para junto de seu corpo.
— Mentira — ele sussurrou, a respiração quente batendo no rosto dela. — Se eu fosse apenas um empregado, você não estaria com esse olhar de pânico toda vez que alguém menciona meu casamento. Você está com medo, Rebekah. Medo de que eu pare de olhar para você.
O desafio nos olhos dela vacilou. Eles estavam tão próximos que o ar parecia ter acabado. Rebekah sentiu a força das mãos dele em seus pulsos e a intensidade do olhar que a despia de todas as suas defesas. Por um segundo, o mundo em volta desapareceu. O ódio se transformou em uma tensão magnética que os puxava um para o outro.
Maurício olhou para os lábios dela, e Rebekah sentiu os seus próprios se entreabrirem. Ele começou a inclinar o rosto, e ela, involuntariamente, fechou os olhos, esperando o impacto de algo que vinha sendo cultivado em silêncio por anos.
CLACK!
Um estrondo de trovão sacudiu o chão sob seus pés, seguido imediatamente por um clarão que iluminou o campo. O vento soprou forte, e a primeira gota de chuva atingiu o rosto de Rebekah como um despertar gelado.
Em questão de segundos, o céu desabou.
Eles se separaram bruscamente, a eletricidade entre eles sendo lavada pela água fria que caía em torrentes. Maurício soltou os pulsos dela, parecendo tão chocado quanto ela com o que quase acontecera.
— A tempestade... — ele disse, a voz rouca, tentando recuperar a compostura. — Temos que voltar. Agora!
— Eu sei o caminho! — Rebekah gritou por cima do som da chuva, já começando a correr em direção à silhueta da fazenda, com as roupas grudando ao corpo e o coração ainda em chamas, apesar do frio da água.
Maurício montou rapidamente e a seguiu, protegendo-a com a sombra de seu cavalo enquanto corriam contra o vento. A chuva havia interrompido o beijo, mas não conseguira apagar a descoberta: o jogo de insultos havia acabado, e o que restava entre eles era uma verdade perigosa que nenhum dos dois sabia como carregar.
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