O RENASCER DA FLOR DE FERRO As Cinzas do Passado
1 A Cor das Maçãs de Outubro
O pomar da fazenda Nóbrega estava carregado. O cheiro doce das maçãs maduras misturava-se ao ar fresco da manhã. No topo de uma escada de madeira, Rebekah esticava-se para alcançar o fruto mais alto, o vestido de algodão simples preso nos galhos.
— Se você cair daí, Heitor vai usar minha pele para estofar as poltronas do escritório — uma voz arrastada e familiar ecoou lá de baixo.
Rebekah olhou para baixo e sorriu ao ver Maurício. Ele estava encostado no tronco de uma macieira, com um chapéu de palha cobrindo parte dos olhos, mas o sorriso de lado ainda era o mesmo. Só que agora, as linhas ao redor de seus olhos mostravam a maturidade, e a barba rala estava sempre bem aparada.
— Então é melhor você subir aqui e me segurar, tio Maurício — ela provocou, enfatizando o "tio" apenas para irritá-lo, como fazia desde os dez anos.
Maurício soltou um suspiro pesado, mas havia um brilho diferente em seu olhar enquanto observava a agilidade de Rebekah. Ela desceu da escada com um salto leve, parando a poucos centímetros dele, oferecendo-lhe a maçã mais vermelha que colhera.
— Eu não sou mais aquela criança que precisava que você limpasse o purê do rosto, sabia? — ela disse, sustentando o olhar dele.
Maurício pegou a maçã, mas seus dedos roçaram os dela por um segundo a mais do que o necessário. Ele sentiu um choque elétrico percorrer seu braço. Rebekah não desviou o olhar; pelo contrário, seus olhos castanhos brilharam com um desafio novo, algo que não era mais infantil.
— Eu percebi, Rebekah — ele respondeu, a voz subitamente mais baixa, perdendo o tom de brincadeira. — Você cresceu. E esse é exatamente o problema.
— Problema para quem? — ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. O sol batia em seu rosto, revelando as sardas que ela tanto odiava, mas que Maurício achava fascinantes.
Maurício pigarreou, afastando-se um passo e ajeitando o chapéu. A confiança que ele ostentava diante de qualquer nobre da capital parecia falhar diante daquela garota de dezessete anos.
— Para a minha sanidade — ele murmurou para si mesmo, antes de falar mais alto: — Heitor está nos esperando para discutir os novos limites da pastagem. Vamos, antes que ele mande o Átila vir nos buscar com aquele pônei barulhento.
Rebekah riu, uma risada rica e feminina que fez o estômago de Maurício dar voltas. Ela começou a caminhar em direção à casa grande, mas parou e olhou por cima do ombro.
— Você está fugindo, Maurício Martinez? Achei que os homens da sua família fossem mais corajosos.
Ele ficou parado no meio do pomar, observando-a se afastar com aquele andar decidido que lembrava tanto Jasmine, mas com uma leveza que era só dela. Ele deu uma mordida na maçã. Estava doce, quase proibida.
— Você não tem ideia do perigo que está correndo, pequena Nóbrega — ele sussurrou para o vento, sentindo que aquele outono seria o início de uma colheita que ele nunca planejou plantar.
Mais tarde naquele dia...
O sol já havia se posto, e o festival da colheita na vila estava em seu ápice. Rebekah estava deslumbrante em seu vestido carmesim, uma cor que Heitor inicialmente desaprovou por ser "chamativa demais", mas que Jasmine incentivou com um sorriso cúmplice. No pescoço, ela ostentava um laço de veludo com um rubi — um presente que Maurício trouxera de sua última viagem à capital, sob o pretexto de ser "apenas uma lembrança".
Maurício estava ao lado dela, sentindo o calor do corpo de Rebekah tão perto sob as luzes da festa. Ele tentava manter a postura de tutor, mas a forma como ela o olhava agora era um convite ao desastre.
— Você está sendo muito silencioso hoje, Maurício — Rebekah disse, inclinando a cabeça para encostá-la na dele, exatamente como na foto. — Onde está aquele homem que sempre tem uma resposta ácida na ponta da língua?
Maurício sentiu o perfume de baunilha e maçã que emanava dela. Ele fechou os olhos por um segundo, lutando contra o impulso de segurar a cintura dela com mais firmeza.
— Ele está tentando lembrar a si mesmo que ele tem o dobro da sua idade, Rebekah — ele murmurou, a voz vibrando contra a têmpora dela. — E que o seu pai me mataria se eu dissesse o que estou pensando agora.
Rebekah sorriu, uma expressão de pura sedução e inocência entrelaçadas.
— Papai está ocupado demais com as sementes novas. E Heitor confia em você de olhos fechados.
— Esse é o problema — Maurício suspirou, abrindo os olhos e encarando a profundeza dos dela. — Ele confia no homem que eu me tornei, não no homem que você me faz querer ser.
Rebekah deslizou a mão pelo casaco de Maurício, sentindo o tecido firme e o coração dele batendo acelerado por baixo da seda.
— Talvez o homem que eu faço você ser seja o único que realmente importa.
Antes que ele pudesse responder, a música da vila mudou para uma valsa lenta. O jogo de gato e rato no pomar havia terminado; ali, sob as luzes e o rubi que brilhava em seu pescoço, o destino dos Martinez estava prestes a se complicar de uma forma que nenhuma fogueira poderia apagar.
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