Lucy Shidou. Uma típica japonesa, talvez um pouco mais extrovertida que a maioria mas, mesmo assim uma garota comum.

Assim pensava Naota Kamizawa naquela manhã, quando ele via-a exibir seu sorriso, para todos os alunos do dojo de seu pai, ao entrar para a aula do dia. Ela era uma sensei na arte da espada e como tal treinava ele e os outros ali presentes nesta mesma arte.

Deve-se dizer que o jovem Naota só tinha começado a frequentar a academia por imposição do pai, que achava ser bom para o garoto conseguir diciplina. No primeiro dia o rapaz caminhou na direção da academia dos Shido como se fosse para a forca, ele não curtia aquele negócio de tradições, mas, quando foi apresentado a sua mestra qualquer sentimento de pesar desapareceu. Era sempre um dos primeiros a chegar.

"Bom dia!", ela se posicionou a frente de todos, "Então? Vamos começar a aula de hoje?".

Naota observava seus movimentos atentamente. Ele disse que ela era uma garota comum? Mas onde ele estava com a cabeça quando disse tal coisa? A sensei era a moça mais bonita que ele vira em seu curta existencia. Ganhava de qualquer atriz de cinema.

Seus cabelos vermelhos, sempre presos numa trança, balançavam enquanto ela executava os movimentos que eram acompanhados por todos. O jovem não se preocupava se ele estava fazendo certo aqueles mesmos movimentos porque tudo o que realmente importava era poder ve-la; apreciar cada movimento seu.

Mas, ele estremeceu, porque sua professora parou com aquela dança que hipnotizava-o.

"Perdoem-me", Lucy se desculpou e caminhou na direção da porta, sendo acompanhada neste trajeto pelos olhos ávidos de Naota. Uma garota de cabelos azuis e outra de cabelos castanhos a esperavam.

Os minutos se sucederam e Naota começou a ficar impaciente. Uma impaciencia que acabou quando ouviu a porta deslizar. Olhou perplexo, por algum motivo quem entrava não era Lucy mas Satoru-sensei.

"Lucy sensei teve que dar uma saida. Então continuarei esta aula", explicou sorrindo.

O garoto não tinha nada contra o irmão mais velho de sua mestra mas ele preferia que Lucy voltasse e continuasse com sua dança com a shinai. Aquele evento tirou toda sua vontade de continuar a treinar e só permaneceu ali por que tinha esperanças de voltar a reve-la.

Infelizmente tudo não passou de uma esperança vã. O fim da aula chegou e apesar de permanecer um pouco na academia não conseguiu vislumbrar qualquer presença de sua sensei.

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Naota ia a academia pela manhã e a tarde freqüentava o ginasio. Mas, naquele dia não aproveitara muito as aulas pois seus pensamentos sempre voltavam para o dojo e o rosto de sua doce sensei.

Claro que ela se ausentar algumas vezes, isso não era novidade, e todas as vezes ele se sentira solitário. Só que agora era diferente; algo o incomodava principalmente quando lhe vinha a lembrança daquelas meninas.

"Konichiwa, Naota-kun!!", quem lhe chamava era uma menina que lhe acenava sorrindo.

"Konichiwa Manami-chan", ele devolveu o cumprimento, suspirando quando viu que ela se aproximava; não estava como vontade de conversar com ninguém.

Os dois se conheciam desde o jardim de infancia. Sempre estiveram juntos e isto encluia as aulas de kendo, sendo que a unica diferença era que ela frequentava as aulas a tarde enquanto que Naota ia pela manhã. Esta proximidade entre os dois fazia com que Manami percebesse o que se passava com seu amigo.

"Alguma coisa errada, Naota?", foi logo perguntando.

"Não é nada", Naota resmungou.

"Você não me engana garoto", ela sorriu por uns segundos, "Deve estar pensando na sensei Lucy".

Naota estacou. Ela sabia! Manami sabia o que se passava entre ele e sua mestra de kendo. Não que ele tivesse lhe contado alguma vez mas, mesmo assim ela sabia, desde aquele dia que o vira, encabulado, andando ao lado de Lucy-sensei no caminho para a academia.

"Você já deve saber, né?", Manami estava séria agora.

"Saber o quê?".

"Ora! Que Lucy-sensei vai embora de Tóquio. Ela se despediu de nós hoje...", Manami suspirou, "Então você não sabia?".

Claro que ele não sabia! E não acreditava em nenhuma daquelas palavras. Como sua sensei podia ir embora, abandonando a classe, no meio da aprendizagem? Aquilo só podia ser mentira? É isto mesmo. Manami sempre teve inveja de Lucy-sensei e agora vinha com estas mentiras para ele.

"Mentira! Você inventou tudo", ele estava furioso.

"Ah Não!? Pois amanhã você saberá".

Naota não disse mais nada apenas se precipitou pela rua, deixando a menina sozinha.

Manami balançou a cabeça. Estava aborrecida consigo mesma por ter contado aquilo para ele. Entendia o que a moça ruiva representava para Naota e lamentou o fato de ter sido ela quem dera tal noticia.

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"Mina-san, Ohaio!", Lucy cumprimentou a todos assim que entrou.

"Ohaio, Lucy-sensei!", foi a resposta de seus alunos.

Menos Naota.

Ao contrário do que fazia freqüentemente ele evitou ficar na frente, preferindo o anonimato entre os colegas. Sua professora notou o ocorrido e procurou-o com os olhos, sorrindo-lhe, ao encontra-lo. Ele retribuiu o sorriso, com outro amarelo.

Tudo o que Naota queria naquele dia era descobrir que as palavras de Manami fossem apenas mentiras então, quando a aula começou, ele iniciou sua espera.

As horas corriam e sua ansiedade aumentava. Será que o que Manami falara era verdade? Era tudo que tinha em mente. Seus olhos contavam os minutos, os segundos e quando apreceu-lhe que sua amiga lhe dissera não passava de uma brincadeira, de mal gosto, ele sentiu o ar gelar a sua volta.

Viu Lucy depor a shinai e se sentar sobre os calcanhares. Foi imitada por todos.

"Quero lhes dizer uma coisa", ela começou e Naota sentiu seu coração disparar, " Esta foi minha ultima aula com vocês".

Lucy interrompeu a frase enquanto o burburinho se espalhava entre os alunos. Continuou alguns segundos depois:

"Quero que me perdoem por não poder acompanha-los até suas graduações mas, infelizmente, tenho assuntos que não permitem que sejam adiados...".

Ela continuou falando mas Naota não a ouvia mais.

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De cima da ponte, seus olhos vagavam pelas margens do rio. Quantos dias faziam que sua sensei tinha se despedido? Dois? Três? Naota realmente não se importava.

Takero-sensei era um bom mestre mas desde aquele dia sua ida para a academia se tornara apenas uma obrigação. Uma obrigação que, as vezes, era menos torturante pelo fato de poder rever sua mestra andando pelos corredores da academia. Só isto, e apenas isto, conseguia fazer com que ele continuasse no caminho do kendo. Mas logo ela iria embora, para um pais estrangeiro e, então, acabaria o unico motivo que ele tinha para continuar treinando. Suspirou.

"Oi...!"

Naota voltou-se, incrédulo, na direção de onde vinha aquela voz. Podia parecer um sonho mas sua mestra, realmente, estava naquela ponte, sorrindo para ele.

"Sensei?!!", sobressaltou-se, "O que que a senhora faz aqui?".

"Ora!! Estou aqui porque Manami-chan me disse que o encontraria aqui...".

Lucy se aproximou, debruçando-se sobre o peitoril da ponte. Naota voltou, imediatamente, sua atenção para as águas. A proximidade com sua sensei deixava-o ansioso.

"Meu irmão me disse que seu desempenho nas aulas tem decaido. O que esta contecendo Naota-kun?".

E agora? Não podia contar que ela era a unica razão de ele estar indo naquela academia e que agora, com sua partida, nada mais lhe interessava.

"Gomensai!!", as palavras de Lucy surpreenderam-no, "Sinto que é por minha causa, por isso perdoe-me".

O que ela estava dizendo? Naota estremeceu. Será que ela sabia como ele se sentia?

"Desde o dia em que você chegou na academia percebi que era um garoto especial. Lembra-se de como você era desajeitado com uma shinai? De como tive que lhe ensinar o básico umas cinco vezes?"

Claro que ele se lembrava! Lembrava-se, principalmente, como ela abraçava-o, por tráz, envolvendo-o com seu corpo, enquanto suas mãos seguravam as dele para mostrar um movimento que ele errara pela décima vez.

"Também me lembro de como seus olhos brilhavam na minha presença", Naota sentiu um caláfrio percorrer-lhe a espinha, "Um brilho que aumentava a cada aula..."

Lucy abandonou a posição que mantinha até aquele momento e contemplou-o nos olhos. Naota sentiu-se invadido por aquele olhar que fazia seu coração acelerar descompassadamente.

"Acredite. Estou lisonjeada. Mas acho que voce está confundindo as coisas"

Naota quiz falar; dizer que ela estava errada, que ele não estava confundindo as coisas, mas não conseguia e, então, amaldiçoou sua pouca idade.

"Há muitos casos de alunos que se apaixonam por seus professores, ou pelo menos é isso que eles acham. Mas no fim o que realmente sentem é apenas uma admiração profunda por esta pessoa..."

Lucy abraçou-o e ele pode sentir o doce perfume que envolvia o corpo de sua mestra. Naota fazia um esforço tremendo para se controlar, para parecer homem.

"É esta admiração que eu aceito de você, Naota-kun! Arigato!".

Ele sentiu suas forças esvaindo-se e toda e qualquer resistencia caindo frente ao soluço que aflorou de sua garganta. Suas lágrimas derramaram-se violentamente sobre as vestes de Lucy.

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As folhas das cerejeiras caiam como uma chuva rosa, enchendo tudo com seu perfume. Naota pouca atenção prestava naquele cenario, pois corria na direção do Dojo Shidou, a espada batendo-lhe nas costas como que encentivando-o a correr mais rápido. Alcançou a academia em tempo recorde mas, mesmo assim atrasado.

"Droga!!", resmungou. Como ele poderia se tornar um espadachim se não conseguia nem chegar no horário para o treino. Naota lembrou-se daquele dia na ponte; de como ele chorou copiosamente. Ainda bem que ninguém ficou sabendo. De quando, ao enxugar os olhos, prometeu, a si mesmo e a sua professora, que se esforçaria para ser o melhor espadachim do Japão. Quando ela voltasse sentiria-se orgulhosa dele.

Haviam se passado dois anos desde que ela partira e desde então ele se esforçara para cumprir a promessa. O tempo passou e ele amadurecerá, percebendo que o que sentia por sua mestra era realmente admiração. O amor, ele encontrara nos braços de Manami.

Ao passar pelos portões do Dojo ele notou o veiculo negro estacionado embaixo das cerejeiras. Duas moças que ele já vira a algum tempo conversavam alegremente com Satoru-sensei. Desviando a atenção dos três viu um rapaz alto observando um grupo de alunos que pareciam cercar alguém. Deu mais alguns passos e parou. A roda de alunos abriu-se.

A mulher, de cabelos vermelhos, presos numa trança, levantou os olhos e sorriu para ele.

ENDE

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