O Que Não Veem Os Olhos

1 0. Prólogo - De olhos fechados


Notas iniciais
Este prólogo pode soar estranho a princípio, uma vez que apresenta fatos que já se encontram avançados no enredo desta ficção. Entretanto, as explicações virão com o tempo.
Espero que curtam e se divirtam.

0.

Não gostava nem um pouco daquele lugar, de cheiro desconfortável e sons de agonia e máquinas. Caminhava, a passos lentos e cautelosos, pelo corredor sempre escuro, guiado pela mão que o conduzia pelo ombro e por mais alguém que seguia na frente. O choro de um bebê chamou sua atenção, e mais a tosse rouca de alguém que ele identificou como sendo um velho. Alguém resmungara algo de um lado, um bip irritante e persistente soava do outro, e os sons se distanciavam e davam lugar a outros à medida que avançava pelo corredor. Estava em agonia, ante a cacofonia do lugar, e tentou concentrar-se apenas no som dos seus próprios passos.

O Hospital Regional localizava-se num bairro afastado do centro da cidade. Um prédio de aparência gasta e descuidada, que vez ou outra aparecia nos jornais como notícias de descaso do governo. Não era nada animador saber que alguém que lhe era importante estaria internado num lugar como aquele, mas era a melhor opção num raio de quilômetros, e o único lugar com suporte para manter vivo alguém em coma. O menino desejou nunca precisar estar ali novamente.

Aos 15 anos, era a primeira vez que visitara o lugar, e se arrependeria, não fosse a situação em que estava. Eram muitas sensações diferentes e novas, e nenhuma lhe pareceu agradável a princípio; e talvez nunca parecessem. “Lugares assim deveriam ser proibidos para pessoas cegas”.

De fato, ele não enxergava, mas conseguia imaginar muito bem a aparência do local. Os sons e cheiros que sentia já lhe diziam tudo o que precisava saber.

Mais alguns passos, até que uma mão o apertou de leve no ombro — um sinal para que parassem.

— É aqui — soou a voz feminina de quem o acompanhava. Um longo suspiro, e ela abaixou-se até ficar na altura dos olhos do garoto. — Quer mesmo entrar?

“Não”.

— Quero — respondeu.

A mulher teria acenado com a cabeça para o outro acompanhante, a pessoa à frente, que então abriu a porta que os separavam do interior do quarto de número 302, UTI. Sentiu-se estranho assim que entrou, inebriado pelo forte cheiro de éter, que tornava o lugar asséptico. A sala parecia tranqüila, não fosse o persistente som que o monitor do ECG¹ fazia, além do som de algo mais, que parecia manter constante a respiração do jovem na cama. Era um privilégio dado a poucos, a visitação em dupla de um paciente comatoso. Na UTI, geralmente se entra um visitante por vez, mas o Enzo precisava de acompanhamento, pelo menos naquela primeira vez.

Lavaram as mãos com um líquido de cheiro forte e coloração estranha (embora, logicamente, Enzo não soubesse desse fato), um anti-séptico a base de Iodo, à ordem do médico.

Se o garoto pudesse ver o amigo, deitado na cama, certamente levaria um tempo para reconhecê-lo. Os cabelos estavam raspados, e a cabeça coberta, enrolada em ataduras. Um ou outro sinal de suturas pela pele do rosto, cobertos por alguns curativos. Um tubo lhe foi enfiado na traquéia, uma vez que o paciente estava em dificuldades de manter a respiração constante, e uma sonda atravessada no nariz o alimentava com nutrientes básicos e essenciais para sua recuperação. No pescoço, um cateter ligado à artéria o medicava constantemente com soro, e este fato o deixava ligeiramente inchado. Estaria diferente em aparência, para Helena, mas para Enzo ainda havia o sutil cheiro de sua pele, mesmo que disfarçado pelo éter e anti-sépticos dos curativos.

Nada, nem mesmo a falta que Luccas fazia, se comparava à culpa que Enzo sentia pelo estado do rapaz. A cena se repetia várias e várias vezes em sua mente, um redemoinho de sons e sensações que apenas quem as sentira poderia explicar. Apertou o tecido da calça larga que usava.

— Qual o estado, Doutor? — perguntou a mãe. Algo em sua voz mudara ao ver o filho naquele estado, o que preocupou ao garoto cego. Estaria assim tão ruim, ao ponto de entristecer alguém apenas pelo olhar?

Levou-se algum tempo, pouco, mas que pareceu uma eternidade, até o médico pronunciar-se.

— Estável, apesar de grave. O estamos mantendo em coma induzido, para a melhor recuperação do edema causado pelo trauma, é possível que o estado comatoso persista após a recuperação do edema. Na verdade, diria que as chances de isso acontecer são de 90%.

Fez-se silêncio. Apenas o ruído das máquinas que mantinham a vida de Luccas era audível.

— E quando ele acorda? — Fora Enzo quem quebrara o silêncio, dessa vez. A atenção completamente voltada para o monitor cardíaco fazia parecer com que não estivesse prestando atenção.

Fez-se silêncio novamente.

— É impossível precisar. Sendo otimistas... talvez ele acorde — nada mais, apenas dissera isso. “Sendo otimistas” e “talvez”, numa mesma frase, não soou muito bem para o garoto. Não queria nem sequer saber como seria ser pessimista, embora a própria frase já lhe parecesse pessimista o bastante.

Nada mais disseram. O Bip do monitor parecia cada vez mais alto.

— Bom — e fora o médico, desta vez — vou deixá-los a sós. Queria apenas dizer que as visitas são de extrema importância para a recuperação do paciente... Podem pegar não mão dele, se assim desejarem, e procurem dizer palavras confortáveis. É possível que ele as compreenda. O horário termina em 15 minutos.

E, dito isto, saiu do leito, deixando-os a sós.

Lorenzo jamais se esqueceria da sensação que teve ao tocá-lo naquela tarde. A mão fria, flácida, tão estranha e sem vida, sem reações. Ele a segurou com todo o cuidado, como se estivesse em posse da mais valiosa e frágil jóia. Disseram-lhe algumas palavras de conforto, de força, mas Enzo duvidava que ele as tivesse escutando, embora desejasse que estivesse. Ao final, tocou-lhe a mão com os lábios, se despedindo do amigo. “Prometo que volto novamente, assim que possível”. Ele queria chorar, mas não na frente do Luccas.

Helena imitou o gesto, antes de abraçar o garoto. Beijou-lhe no topo da cabeça.

— Tenhamos fé, Enzo. Ele vai sair dessa.

Ele não queria ter de voltar, não suportava o fato de seu único e melhor amigo estar beirando a eterna inconsciência por algo que ele provocara, ou que imaginara ter provocado. No entanto, sentia-se na obrigação de fazê-lo. A promessa de nunca se abandonarem se repetia em sua cabeça, e ainda valia, mesmo que o outro não tomasse consciência disto.

“Espero que sim”.

— Sim, tia... ele vai.

O silêncio durou pouco, até o chegar de uma enfermeira anunciando o fim da visita. Saíram dali mais apáticos que quando entraram. Uma parte dos dois ficou ali, presa naquele quarto de hospital, mantida viva apenas por auxílio de aparelhos. Agora, longe dos olhos apagados do amigo, ele não conseguiu mais se conter. Abraçando fortemente a mãe do Luccas, deixou-se cair em lágrimas. O rosto enterrado na altura do abdome.

— Calma, meu anjo — e o garoto se sentia tão bem quando ela lhe chamava assim. — Ele vai ficar bem, vai ver só. O médico disse que há esperança, então tudo o que podemos fazer é esperar.

Ele não disse nada, e também não conseguiria.

— Você não precisa voltar ao orfanato hoje. Pode dormir lá em casa se quiser — ela disse, segurando seu rosto para que a encarasse. Secou-lhe as lágrimas, e afastou os cabelos molhados de suor de sua testa e deu ali um beijo.

Ele não tinha certeza se aceitaria. Tudo na casa do Luccas faria com que Enzo se lembrasse dele; o cheiro forte do seu perfume, as tardes em que liam histórias, as experiências que os olhos de Luccas narravam para o menino. Ele não queria lembrar, mas não queria que as lembranças se perdessem. Ele não queria perdê-lo.

Pouco a pouco, as palavras saltavam de sua garganta, entrecortadas pelo soluço constante.

— Eu... eu não quero... que ele morra, tia... eu não quero...

Era impossível não se comover com as palavras do garoto. Para ele, Luccas era quase que como um irmão ou ainda mais, e ela já o via também como um filho. O abraçou, o aconchegando novamente em seu peito. Ela agora também chorava.

— Ele não vai, meu anjo. Ele não vai.

Ela queria, de coração, poder afirmar aquilo com alguma certeza.

Notas finais
1 - EGC: Eletrocardiograma.
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Eu mesmo escrevo e reviso meus textos, e procuro ser meticuloso em minha análise gramatical e afins. No entanto, sempre tem algo que escapa, e peço humildemente que me apontem quaisquer erros encontrados.
No mais, sejam elogios ou críticas, reviews são alimento para a criatividade e auto-estima do autor. Não deixem de mandá-los. o/
Bgs do tio Siegh.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.