O Que Eles Veem Em Você? 2
54 Whatever Part.2
Notas iniciais
Thalia e Megan olhavam bravas para Luke e Nico, que estavam ocupados tentando segurar Annabeth de um possível desmaio.
–Nós não temos nada a ver com isso – disse Nico – Estamos tão surpresos quanto vocês, juro, não tem nenhum plano dessa vez.
Annabeth tinha o olhar vago, a luz alaranjada e até pouco luminosa de alguns segundos atrás agora estava lhe incomodando. O salão abrangente e espaçoso parecia pequeno demais, ao mesmo tempo em que ela se sentia pequena demais.
Não de novo.
–Porque ele é assim? – Annabeth perguntou um pouco alto demais para Luke e Nico – Porque ele não pode ser normal, e fácil de lidar.
–O Percy... Eu não sei. Ele nunca lidou muito bem com rejeições – comentou Luke. Annabeth passou sua bolsa para Thalia, que pegou ainda receosa do que ela poderia ser capaz de fazer.
Em passos pesados, ela foi até eles.
Enquanto isso Percy e Rachel davam sorrisos felizes enquanto extremamente todas as pessoas vinham cumprimentar o casal. Era impressionante às vezes como tudo poderia correr exatamente do jeito que as pessoas planejam.
Percy se perguntou se era assim a sensação de ser Annabeth Chase (era viciante), e logo depois se martirizou por pensar nela numa situação daquelas.
Mal teve tempo de parar de pensar na loira de olhos cinza, porque em sua direção vinha ela. E ele pensava se existia alguma forma de se comunicar por telepatia para tentar explicar tudo que estava havendo. Entretanto Annabeth tinha um grande sorriso no rosto, que Percy desconfiava ser irônico, e não tinha uma expressão nada brava como ele imaginava que poderia acontecer.
Atrás dela como uma comitiva vinham Thalia, Megan, Luke e Nico. E os quatro não pareciam tão sorridentes quanto à amiga. Principalmente Luke e Nico. Annabeth parou exatamente na frente deles, ficando alguns segundos num silêncio fúnebre.
–Parabéns por finalmente se revelarem ao... – Annabeth deu um olhar teatral envolta – Ao mundo!
–Muito obrigada, Annie — respondeu Rachel falsamente, os olhos de Percy se fecharam em cansaço. Aquilo era exatamente o que ele sabia que iria dar errado.
–Sabe de uma coisa? Parabéns de verdade- Annabeth sussurrou – Vocês se merecem.
Seu olhar foi diretamente para Percy, e ele percebeu que não era só ciúmes que lá estava, também tinha um quê de decepção. E ele quis desistir de tudo, foi o único momento em que percebeu que não queria mais fazer aquilo, e não queria fazer por ela.
Annabeth tinha lágrimas nos olhos, não entendia porque aquilo acontecia justamente com ela. Não entendia porque se esforçava tanto sempre para pessoas que não mereciam e não se esforçavam tanto com ela.
Encostada na parede Clarisse La Rue olhava toda aquela cena divertidamente, e Annabeth ficou corada quando se encostou à parede para conversar com Clarisse. Era exatamente o que ela tinha falado “E o Percy? Tem certeza que ele não vai tentar nada? Ainda mais com a Rachel?” – foi o que Clarisse havia perguntado dois dias antes da festa. Annabeth tinha achado realmente que ela não tinha superado ainda aquela história de ser traída por Rachel e Percy, mas era muito mais que isso, agora ela percebia. Eles eram vinculados.
–Deixa tudo que a gente combinou pra trás, mudei de ideia – sussurrou Annabeth, olhando para frente e bebericando sua taça de champanhe em seguida. Clarisse deu uma risada, seu vestido amarronzado balançando harmoniosamente em seus pés.
–Desculpa, eu não vim aqui à toa e não vou deixar de fazer o que tenho que fazer porque Percy decidiu que não quer ser seu namoradinho. É muito maior que isso.
Annabeth bufou, desencostando da parede e ficando de frente para Clarisse.
–Eu não te liguei da Duke porque queria seu prestigio jornalístico, queria que você me ajudasse. E você disse que ajudaria, agora eu não preciso mais. Se você fizer alguma coisa, eu juro...
Clarisse ficou algum tempo em silêncio, parecia questionar sua força naquela discussão. Depois levantou os braços, um sorriso irônico surgindo em seu rosto.
–Tudo bem, não vou fazer nada além de aproveitar o champanhe e camarão. Eu te entendo, Annabeth. De verdade. Mas eu quero te falar uma coisinha antes de você ir pra casa chorar por Percy... – Clarisse suspirou – Você tem quase 20 anos, e não é mais criança. Nós, eu e você, ficamos a adolescência inteira sofrendo por Percy, acho que já está mais do que na hora de superar algumas coisas.
Clarisse ajeitou seu crachá, nele estava escrito em letras grafais “JORNALISTA – DAILY JOURNAL” , e com uma caneta em mãos ela deu meia volta e saiu de perto de Annabeth, que ainda estava impressionada com a cara de pau de seu namorado.
Ou ex, no caso.
Alguns minutos depois o propósito de toda aquela festa de gala começava finalmente. Era a festa do ano da Olympus, a empresa que se fundiu a partir da junção de outras duas empresas, centenas de jornalistas estavam presentes na festa para tão esperada coletiva de imprensa, seria a hora dos donos, acionistas, e CEO da empresa comentar sobre o futuro e objetivos, por isso o lugar estava enfestado de acionistas e investidores. Era o momento de decidir aonde injetar dinheiro.
E de fato assim começou a coletiva, falando sobre dinheiro. Até que uma jornalista distinta subiu um dos braços com certa relutância, e ao microfone o mediador disse: ‘Daily Journal’, o que fez todos os convidados se virarem de uma só vez. Incluindo o casal do ano: Rachel Elizabeth Dare e Perseu Jackson.
O Daily Journal era conhecido por suas matérias investigativas, muitas das vezes desmascarando políticos corruptos e golpes de todos os tipos. A adrenalina de trabalhar num jornal daqueles era ótima, e por isso Clarisse La Rue era a estagiária perfeita. Ela era tentada pelo perigo.
Annabeth percebeu que seu coração estava batendo muito rápido, e que Clarisse havia blefado. Ela não iria deixar de fazer o que elas tinham combinado. Até porque antes de tudo era uma jornalista, e os verdadeiros desta profissão sempre tinham como objetivo revelar a verdade.
–Boa noite. Sou Clarisse La Rue, repórter investigativa da Daily Mail e queria que Poseidon Jackson respondesse algumas perguntas a partir de alguns fatos – Annabeth sussurrou exatamente a mesma coisa que Clarisse havia acabado de falar. As duas treinaram juntas tudo aquilo.
Poseidon pegou o microfone que estava com Zeus, e todos da festa estavam tensos já que poderia significar muita coisa.
Nico e Luke olhavam perdidos para tudo aquilo. Será que Clarisse tinha conseguido achar aquela parte inconveniente dos “herdeiros” da Olympus com fichas criminais sujas? Aquilo seria uma cena e tanto.
Percy estava hiperventilado num canto da festa, assim como todos os donos da Olympus: Zeus, Poseidon, Atena... Todos aqueles que sairiam prejudicados se de repente seus filhos fossem acusados de infratores, criminosos. Porque os investidores não pensariam o mesmo dos pais?
Thalia colocou a mão no ombro de Luke, que apertou sua mão com força. A única calma era Annabeth Chase que olhava para todas aquelas pessoas com os olhos cheios d’água. Nada daquilo valia mais a pena, porque Percy não estava do seu lado, estava com Rachel.
Poseidon pigarreou antes de falar.
–Estamos abertos para discutir tudo que julgar relevante – respondeu ele, ajeitando o nó da gravata. Clarisse deu um sorriso de lado num claro “não, vocês não estão”, mas Annabeth acreditava que só ela tinha percebido aquilo.
–O Daily Journal se empenhou em achar alguns mafiosos refugiados nos Estados Unidos diretamente de Cancun, no site do jornal vocês poderão ler uma matéria escrita por mim e postada cerca de vinte minutos atrás sobre o envolvimento de acionistas desta empresa com tráfico de drogas e tráfico humano num trajeto México/EUA.
Todas as vozes da festa ovacionaram, assustados. Muitas pessoas pegaram seus telefones atrás da matéria. Poseidon estava pingando de suor.
–Não temos nenhum...
–A minha pergunta é! – interrompeu Clarisse La Rue – O que vocês, majoritários da empresa Olympus, farão com os pais de Chris Rodriguez e Charles Beckendorf, que são acionistas diretos da empresa e seus filhos estão ligados, como foi revelado em primeira mão na minha matéria investigativa, há mais de cinco anos no tráfico internacional e são os verdadeiros responsáveis pela destruição do clube La Tortura, em Cancun.
Poseidon estava atônito. Atrás dele, Zeus estava muito, muito mais atônito. Luke e Nico se entreolharam, exasperados e felizes. Toda a verdade, demonstrada e comprovada. Tudo que eles falaram repetidas vezes provado numa matéria, num jornal.
Depois de vários segundos atônito e gerando murmurinhos de todos os convidados na festa, Poseidon ajeitou mais uma vez sua gravata:
–Todos aqueles envolvidos com qualquer tipo de atividade ilegal serão removidos da empresa – foi exatamente o que ele tinha dito ao seu filho, Percy Jackson, alguns meses atrás.
Clarisse sorriu e se sentou, era exatamente aquilo que ela queria saber. Depois da pergunta da mais nova estagiária do Daily Journal a coletiva foi fechada, e a festa havia virado um alvoroço de fofocas. Acionistas ligados ao tráfico? Aquilo era material suficiente para todos os jornalistas ali presentes.
Percy se separou de Rachel, que estava exasperada, não estava em seus planos que todos descobrissem a verdade. Na realidade, aquilo destruía todos os planos de Rachel.
Luke e Nico estavam se abraçando com força, felizes porque todos tinha descoberto a verdade, quando Percy veio em suas direções.
–Como ela descobriu tudo?- perguntou Percy, absurdamente surpreso – Como... Eu não entendo.
Thalia, que antes sorria feliz ao lado de Luke, olhava assustadoramente para Percy, um olhar de julgamento mais profundo. Megan tinha os braços cruzados e não estava nada feliz com Percy também.
–Eu vi Annabeth conversando com Clarisse alguns minutos atrás – disse Megan – E... Eu acho que as duas andavam se falando. A Annabeth já estava desconfiada que tudo era mentira há muito tempo, vocês sabem... Ela é super boa com planos.
Percy deu um passo para trás. Annabeth? Annabeth havia feito tudo aquilo? Seu coração agora parecia pesado como uma rocha, sentia que tinha feito tudo errado. Estragado tudo de vez. Não tinha volta para o que tinha feito.
Thalia chegou perto de Percy, que agora estava entre Luke e Nico.
–Você achava mesmo que este era um bom plano? Fingir que era namorado de Rachel para conseguir as ações de volta? Você, melhor que ninguém, sabe que a pior coisa do mundo é conseguir as coisas por chantagem. Assim que você terminasse com Rachel e todo mundo se esquecesse tudo acabaria, seu poder, a chantagem, a fama... Você não percebeu que ela fez isso de proposito? Nunca, nunca mais você se livraria da Rachel. Pra ser um herdeiro da Olympus você acabaria num altar com ela. Num altar!
Percy não piscava. E tudo que estava num bom humor tinha caído em temperaturas gélidas, ele não tinha, de fato, pensado nisso. Só havia pensado que seria uma boa ideia serem um casal na mídia, de forma que seu pai não poderia negar a herança do seu filho. Era o plano perfeito... O casal perfeito e a imagem perfeita. Ele não pensou que acabaria pra sempre com Rachel, não pensou em ser pra sempre o herdeiro da Olympus. Só queria que seu pai finalmente o aceitasse.
Tudo seria perfeito se ele tivesse pensado melhor em Annabeth. Que saía do banheiro feminino com os olhos inchados e vermelhos, o que fez o coração de Percy ficar ainda mais apertado.
Thalia foi até ela quase correndo, sendo seguida por seus amigos. Luke e Nico. Percy não teve a coragem de encara-la depois de tudo aquilo, depois de toda aquela noite pavorosa.
A alguns metros Annabeth falava com seus amigos, e Percy sentiu uma mão pesada em seu ombro. Era Poseidon.
–Te devo desculpas- disse seu pai – Você é o meu herdeiro, sempre foi. Duvidar disto foi um grande erro.
Mas Percy não prestava atenção nas palavras que queria ouvir a meses. Só conseguia pensar em Annabeth conversando com seus amigos, e como ela parecia arrasada. Finalmente, depois de meses, Percy teve uma visão clara e cristalina. Nova York, Olympus... Ele não queria nada daquilo.
Olhou para seu pai, e vagamente disse:
–Tanto faz.
Depois olhou de novo na direção de Annabeth, que ia andando rápido até a saída. Percy foi andando até seus amigos, tentando entender o que estava acontecendo. Seus sentidos estavam começando a falhar, todas as outras vozes não faziam sentido, ele só conseguia olhar para Annabeth indo embora.
Nico pegou em um de seus ombros, e Luke no outro.
–Ela está indo embora! – exclamou Luke – Ela está indo embora de novo! Você não pode deixar isto acontecer, Percy. Agora é pra valer.
Percy olhou para Thalia, que assentiu com a cabeça. E nada mais fez sentido além daquilo, além daquela ideia: Ele não deixaria Annabeth ir embora.
Saiu correndo pelo salão, e todos aqueles acionistas e pessoas da elite nova-iorquina olhavam exasperados para o que estava acontecendo. A noite estava agitada demais para os padrões de vida daquelas pessoas. Percy desceu as escadarias do salão, e viu um táxi acelerando.
Seu coração afundou, ela tinha ido embora. Não era possível, ele não conseguia acreditar naquilo.
–Ela saiu correndo– disse uma voz alguns degraus atrás, e ele percebeu quem era: seu pesadelo ruivo- Virou à esquerda.
Percy assentiu, saindo correndo o resto dos degraus.
–Percy! – gritou Rachel, e ele se virou rapidamente – Desculpa por ter usado aquilo contra você... Por tudo. E pede desculpas a Annabeth por mim.
Percy refletiu rapidamente sobre aquelas palavras, e acabou sorrindo.
–Tanto faz.
Saiu correndo pelas ruas de Nova York, os táxis acelerando e as luzes piscando freneticamente. Virou a esquina, e vários metros a frente encontrou uma cabeleira loira andando rápido, com saltos na mão.
Sorriu, lá estava ela.
E ela era tudo que importava. O resto não fazia mais sentido. Pela primeira vez na vida Percy percebeu o que Annabeth Chase significava para ele, e não a deixaria ir embora. Nunca mais.
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