O Que Eles Veem Em Você? 2
40 Rumores das eleições
Notas iniciais
A bela casa no sudeste de Durham parecia um funeral.
A casa que um dia foi tão barulhenta, animada e interessante agora era cada vez mais macabra e inabitada, nem mesmo o belo dia a fazia parecer menos fantasmagórica. Ou pelo menos poderia ser a impressão de Annabeth sobre o mundo inteiro naquele momento.
Não poderia ter feito aquilo, se arrependia profundamente de todos os seus últimos atos com Perseu, era sempre assim, sempre assim, não conseguia se controlar, e quando ficava perto dele sempre fazia ou falava alguma merda.
–Annabeth, Deus, você está pálida – Thalia comentou ao chegar a casa com apenas um habitante meio-vivo. A porta foi fechada e a punk jogou suas chaves na mesinha, a bolsa no sofá e se sentou ao lado de Annabeth no balcão da cozinha – Cadê a Megan?
Annabeth deu de ombros, realmente não havia se lembrado da existência de Megan até então, estava muito ocupada remoendo sua culpa pelo que havia feito horas atrás. De fato, poderia até haver alguma chance de Megan estar em casa naquele exato momento.
Thalia estava com os cabelos desarrumados e um ar hiperativo, como se tivesse feito muitas coisas e ainda muitas coisas a se fazer. Animada demais em comparação do que havia acontecido no mesmo dia.
–Aconteceu alguma coisa? Você parece meio pensativa... – ela se levantou em um pulo, indo até a geladeira e pegando um copo de suco. Annabeth abriu levemente a boca.
–Eu te pergunto a mesma coisa, aconteceu alguma coisa? Você estava no mesmo lugar que eu no dia de hoje?
Thalia piscou algumas vezes em resposta, pensando. Depois deixou seu copo recentemente cheio de suco de uva e apoiou-se no balcão, ao lado contrário de Annabeth.
–Sim, estava. E eu não posso fazer nada se não me desmoronei com uma babaquice daquelas.
Annabeth arqueou as sobrancelhas, olhando diretamente nos olhos gélidos e elétricos da punk.
–Você sabe que não precisa ser assim comigo, não precisa ficar dando uma de...
–Eu não estou dando uma de nada! Eles são uns traficantes miseráveis e ficam desfilando pela universidade como se fossem superiores a gente por terem uma ficha criminal, sinceramente eu não ligo se eles querem aparecer ou qualquer coisa que o valha, eles não estão me afetando. Luke não está me afetando. Acabou. Entende isso?
Annabeth recuou um pouco, se incomodou profundamente com alguma coisa na fala de Thalia, mas não sabia exatamente o quê. Ia abrir a boca para talvez mudar de assunto quando a porta aberta interrompeu a conversa.
Megan tirou a jaqueta e foi na direção delas, sua expressão era terrível: tinha certeza absoluta que iria perder.
–Impossível! Ninguém vai votar em mim, tá todo mundo com medo de perder seu convitezinho na festa deles. Nem quiseram ouvir minhas propostas em lugar nenhum. Eu os odeio.
–Nós duas vamos votar em você, Meg. Você já tem três votos! – disse Thalia rindo, Annabeth deu uma risada também e por fim até mesmo Megan acabou rindo.
–É simplesmente uma desgraça, eu já desisti da campanha – ela passou parte dos seus cabelos médios e recentemente pintados em algumas camadas loiras para trás, a sensação funerária da casa havia sido abolida junto com os pensamentos de Annabeth em Percy Jackson.
As três decidiram então fazer uma noite das garotas, estouraram pipoca, compraram refrigerantes e chocolate e dormiram praticamente ao amanhecer.
[...]
O colchão nunca lhe pareceu tão confortável, o sol nunca tão reconfortante, o som suave da brisa nunca lhe pareceu tanto quanto música aos seus ouvidos, uma leve baba escorria do seu queixo diretamente para o travesseiro diante de tanto cansaço.
Um grito agudo cortou o ar e todo o clima e fizeram Thalia e Annabeth quase baterem as cabeças de tanto susto.
–AH MEU DEUS! – gritou Megan, tão alto que lhe parecia uma morte terrível acabava de ser noticiada. Annabeth levantou-se num pulo assim como Thalia, e as duas estavam prontas para subir as escadas quando viram uma Megan furiosa passar correndo por elas e depois para a cozinha.
As duas a seguiram ainda sonolentas e a observaram tentar por leite numa tigela e fazer torradas tudo ao mesmo tempo.
–O que você está fazendo? – perguntou uma Thalia sussurrante e incrédula. Megan abriu a boca para falar, mas estava cheia de cereal seco então ela bebeu o leite e engoliu tudo de uma só vez.
–Hoje é a eleição! – ela quase gritou, de boca cheia – Eu estou quarenta minutos atrasada para a aula, vão achar que eu desisti!
Annabeth olhou para o lado de Thalia e depois para ela de novo, sem entender.
–E você não tinha desistido?
Megan arregalou os olhos.
–Claro que eles não vão saber disto, obviamente que eu não vou parecer que desisti para os meus eleitores e a minha chapa. Isso seria bastante injusto.
Annabeth arqueou as sobrancelhas e ia perguntar “que eleitores?”, mas decidiu logo em seguida não acabar com a moral da amiga. Concordou com a cabeça e também tomou seu café, mas ela e Thalia, ao contrário de Megan, não chegaram com uma hora de atraso na universidade, e sim três.
Ao entrar no banco de carona do cadillac preto de Thalia no lugar em que normalmente estudava, percebeu que havia algo bastante estranho. Não tinha pessoas. Simplesmente deserto. Não havia ninguém do lado de fora.
Nunca havia ninguém em algum lugar na Duke. O lugar parecia constantemente cheio.
As duas se entreolharam, e saíram rapidamente direto para o auditório. Ao chegarem lá, viram onde a massa de estudantes poderia estar. Os corredores daquele prédio estavam lotados, inclusive nos últimos andares em que se via o palco e Nico encima dele quase como um ponto. Provavelmente usavam binóculos ou qualquer coisa assim.
Com muita dificuldade, chegaram até Megan, que estava um pouco afastada com Zac. Talvez a única pessoa que queria parecer estar do lado dela na universidade naquele momento. Thalia e Annabeth encontraram ao lado dela o espaço que tanto precisavam enquanto andavam pelo prédio.
–Uma entrevista ridícula, aliás. Não estão perguntando nada pra ele sobre os programas de intercâmbio, os problemas da universidade ou as propostas futuras dele. Simplesmente ridículo.
–Você já foi entrevistada?
–Sim, umas três perguntas estilo “olá, como está?” e depois vaza daqui quero entrevistar o Nicoooo – Megan fez uma imitação da voz da entrevistadora, que tinha os olhos brilhantes para o garoto a sua frente.
Annabeth achava realmente impressionante como calouros poderiam ter feito aquilo tão rápido na universidade, este tipo de fama levava-se no mínimo um ano para ser feita, se isto acontecesse. Mas eles estavam sendo simplesmente venerados.
–Então Nico, acho que vale a pena para os nossos espectadores saberem um pouco da vida pessoal do candidato... – ela deu uma leve risada, Megan balançou a cabeça e revirou os olhos – Então, qual o seu tipo de garota?
–O que? – perguntou Thalia, abrindo os braços num óbvio “que porra é essa?”. Megan parecia bastante confusa e indignada ao mesmo tempo para falar alguma coisa, apenas balbuciava.
Nico riu, parecia bastante à vontade sentado ao lado da entrevistadora, usava uma calça jeans lavada e uma simples blusa de botões preta, ao contrário do dia anterior parecia pelo menos socialmente vestido. Seu cabelo, porém, não parecia ter dado o trabalho de pentear, estava para o lado, mas um pouco revoltado, como se ele apenas tivesse passado os dedos. O corte repicado também não ajudava.
–Olha, eu acho todo o tipo de garota bastante bonito – algumas riram, Megan parecia ainda bastante confusa e Annabeth não conseguiu segurar também um pouco da risada, aquilo era patético – Mas o meu tipo favorito são as morenas.
Seu olhar foi para o lado, e encontrou-se com o de Megan, ela rapidamente desviou sua atenção do palco para outro lugar. Nico fez uma careta com a boca, claramente com raiva de alguma coisa.
–É impressionante, eu costumo gostar de garotas irritantes, petulantes e metidas. E morenas que decidem fazer mexas loiras e ficam igualmente maravilhosas, e que se vestem tão bem que poderiam estar numa página da Vogue...
Nico ainda olhava para Megan, e algumas pessoas agora também olhavam para ela. As bochechas dela estavam vermelhíssimas e seu olhar corria da multidão para Nico. Thalia segurou seu braço.
–Não saia, senão terão certeza que ele está falando de você.
Rapidamente Nico desviou o olhar, sua expressão séria e misteriosa deu lugar aquela sorridente que tinha com a entrevistadora.
–É, acho que esse tipo é o meu favorito – a entrevistadora parecia confusa, ainda alternando o olhar entre ele e Megan.
A entrevistadora encerrou tudo logo em seguida, e Annabeth olhou para o lado em direção a Megan, mas a morena simplesmente havia sumido. Seu olhar foi para Thalia, e as duas se entreolharam e saíram rapidamente dali, à procura da amiga.
Megan saiu correndo da entrevista assim que as pessoas pararam de olhar em sua direção e voltaram a prestar atenção em Nico. Seu coração batia rápido de nervosismo e suas mãos tremiam.
Era como se fosse justamente a coisa mais estressante da sua vida, mas que ela mesma havia armado. Se não tivesse ligado tanto para essas malditas eleições antes, se tivesse procurado saber quem era os componentes da outra chapa. Mas simplesmente era o dia da eleição e estava num beco sem saída, Nico havia a confrontado publicamente e todos poderiam ver se tivessem um pouco mais de visão.
Mas ela não queria confronto, ela queria apenas que ele ficasse longe dela.
Foi numa das cantinas da escola e pegou uma lata de energético, sentia que ia cair de cansaço a qualquer momento entre os corredores, abriu e bebeu alguns goles de uma só vez, não ligou para alguns olhares curiosos e foi andando sem rumo pelos corredores afastados da universidade.
Percebeu que havia chegado numa ponte deformada da escola, algo que era realmente esquisito. Como chegaria ao anexo G? Felizmente havia tomado uma lata de energético e sua mente foi rapidamente numa conversa que teve no primeiro dia de aula com Leo Valdez: “entre o anexo F e G a ponte meio que é deformada, o que fez o campus ter que construir uma escada que leva a uma passagem por debaixo da ponte quebrada, o que dá um aspecto meio que subterrâneo ao lugar”.
Deu alguns passos para trás, achando enfim a escadinha subterrânea que Leo havia dito. Entrou ali sem pestanejar, e percebeu o quão frio era, e bem mais escuro que o campus acima. Desceu todos os degraus e chegou numas mesinhas de pedra e árvores de pequeno porte que deixavam o lugar aconchegante. Ao lado tinha uma pequena elevação de pedra, onde Megan supôs ser onde tinha a música ao vivo que Leo havia comentado. Porém, ao contrário da fama, o lugar estava vazio e não tinha música nenhuma, provavelmente por causa das eleições.
Megan se sentou à mesa mais afastada e escura, perto da parede, e por fim pôs as mãos nos cabelos, puxando-os com um pouco de força. Bebeu o resto do seu energético forçando seu cérebro a trabalhar mais rápido.
Ouviu o barulho de alguém descendo as escadas, mas não se importou o suficiente para virar a cabeça. Continuou olhando para seu energético pensando no que fazer... Era muito tarde para tentar renunciar a candidatura, as votações já tinham sido abertas.
–Megan – ela fechou os olhos, muito idiota. Frio e escuro... Era óbvio que ele iria para lá. Virou sua cabeça, encontrando realmente os olhos negros e a pele clara de Nico. Seu coração batia bem rápido no seu peito, mas ela não ligou para aquela pequena anomalia.
Pegou sua lata e levantou-se para ir embora, ia continuar andando pelos outros complexos. Nico pegou em seu ombro levemente, fazendo-a dar meia volta.
–Não precisa ir embora, eu vou – foi a primeira coisa que ouvia dele em mais de um mês – Só não aja como se eu tivesse algum tipo de doença.
–Sim, você tem. Algum tipo de doença mental que te faz virar ocasionalmente uma pedra de gelo – ela respirou fundo, ele estava realmente bonito naquele dia. Mas sua raiva por ele ter estragado totalmente sua eleição, logo depois de ter estragado tudo entre eles era bem maior do que sua atração física por ele.
–Pedra de gelo? –ele deu uma pequena risada sarcástica – “Uma festa no bairro do subúrbio talvez seja o mais ideal”, é isso que você tinha a dizer?
Megan estava com os dentes rangendo de ódio, ele estava tentando de alguma forma a fazer parecer a culpada por ali ou era só impressão mesmo?
–O que você queria que eu dissesse? Tudo bem você ter feito o que fez, mentido pra mim por meses eu estou okey com isso? Para agora, Nico. Eu não sou a culpada pelas suas idiotices, e outra coisa eu vou deixar bem claro que eu não estou arrependida de nada que fiz, inclusive da candidatura.
Ele sorriu de novo, agora sem sarcasmo. Parecia realmente que estava feliz.
–Então você está com raiva porque me candidatei? Pelo jeito você é meio que contra a democracia ou é só impressão minha? – Megan deu uma risada de escárnio, não estava acreditando no que ouvia.
–Você é ridículo, age como se eu estivesse errada sempre sendo que sabe o quão ridículo foi tudo o que fez nos últimos dias.
Nico tinha os olhos negros de tanta raiva, e sua expressão era aquela séria e mortífera que costumava assustar bastante as pessoas, mas Megan não estava assustada porque também tinha os olhos escuros de ódio.
–Você quer que eu ajoelhe e diga o quão estou arrependido? Não da candidatura, mas por não ter te contado as coisas? Eu achei que já era óbvio, você não me deu nenhuma chance de me explicar, agiu como se eu fosse um garoto que ficou por uns dois dias e viu ficando com outra, me descartou como se o que sentisse por mim fosse algo frívolo e sem importância. Eu não sou igual Percy e Luke, eu esperava que você tentasse me entender pelo que a gente já viveu, mas eu estava redondamente enganado.
Os olhos de Megan estavam cheios d’água, não queria acreditar no que ele dizia. Era a vilã da história e nem tinha percebido? Pois bem, que fosse a vilã. Chegou a centímetros de distância de Nico, e sem pestanejar olhou diretamente nos seus olhos, entredentes, falou:
–Pense o que quiser sobre mim, mas saiba que a partir do momento que decidiu ganhar as eleições, me perdeu pra sempre.
Nico arqueou uma sobrancelha, incrédulo. Megan deu meia volta enquanto respirava fundo, percebeu que tremia de nervosismo, mas estava feliz porque finalmente tinha falado o que queria. Saiu daquele lugar frio que agora lhe lembrava do homem que tanto parecia com o lugar.
Voltou andando para os anexos mais cheios de gente, jogou sua lata de energético fora e respirou fundo, as pessoas passavam para lá e para cá, mas Megan sentia sinceramente que fosse invisível.
–Meg! – gritou Annabeth, ao longe, parecia ofegante e tinha as bochechas vermelhas. Correu até ela e lhe abraçou com força, seguida por Thalia que parecia de longe menos aliviada por encontra-la – A gente te procurou em todos os lugares, você está bem? Quer dizer, caramba, o Nico foi bastante idiota lá encima.
–Ele faz constantes idiotices várias vezes seguidas – comentou Megan com uma voz vaga, o olhar distante. Thalia olhou para ela com a expressão desconfiada.
–O que aconteceu?
Megan olhou para o lado, ainda tinha algumas pessoas olhando em sua direção, desconfiadas.
–Vou sair daqui, eu... Eu não estou bem.
Thalia e Annabeth a seguiram para uma Starbucks a algumas quadras da universidade, sentaram-se num canto afastado e Annabeth tratou de pedir a bebida favorita de Megan. Depois de contar tudo que aconteceu e como procedeu diante de Nico, a morena finalmente se sentiu um pouco melhor.
Porém olhou para Thalia e Annabeth e elas não pareciam tão confiantes quanto ela.
–O que foi? Também acham que fiz errado? – perguntou Megan. Annabeth voltou seu olhar ao normal.
–Não, realmente, acho que você fez o que deveria ser feito e estou orgulhosa por você ter batido de frente com ele. Não é uma tarefa fác-
Annabeth parou sua fala ao meio porque escutou fogos de artificio, uma série deles. Thalia pegou rapidamente no telefone e olhou o horário.
–Saiu o resultado – falou ela, transferindo o relógio para as amigas. Realmente, era meio-dia e naquele momento Nico era o novo presidente do grêmio estudantil. Megan devolveu o celular de Thalia na mesma hora que ele bipou, assim como o de Annabeth e o de Megan.
As três se entreolharam e rapidamente pegaram no telefone, a mensagem vinha com os seguintes dizeres:
HOJE À NOITE FESTA DE COMEMORAÇÃO DA VITÓRIA DO PRESIDENTE DI’ÂNGELO 22HRS NO MESMO LUGAR DE SEMPRE.
–Que porra de lugar de sempre?- perguntou Annabeth, Thalia revirou os olhos de uma forma que parecia que eles iam sair do lugar.
–Eles são ridículos e agem de forma ridícula, até nisso eles são extremamente ridículos, e vou continuar repetindo a palavra ridícula quantas vezes eles precisarem! É besteira... E Meg, nós vamos nos divertir bastante hoje e esquecer estes meninos.
Megan ainda olhava para a mensagem, e depois que ouviu Thalia sorriu maliciosamente, sua expressão não era bondosa.
–Sim, nós vamos nos divertir muito garotas. Até porque temos uma festa bastante requerida para participarmos – ela abanou o telefone na mão. Thalia e Annabeth se entreolharam divertidas, mas tinham certeza que não era uma ideia tão boa assim.
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