O Que Eles Veem Em Você? 2
44 Narcisistas drogados
Notas iniciais
Haviam se passado três dias desde que Percy e Annabeth conversaram da última vez, era estranho pensar em Perseu só como um amigo. Mas foi ela própria que deu a ideia e não tinha o mínimo de sentido ela decidir quebrar o acordo.
Apenas com sorrisos e cumprimentos, nada mais que isso, grandes amigos – pensava Annabeth. Agora que os garotos tinham voltado, parecia que a casa tenebrosa e fantasmagórica tinha virado um pequeno apartamento, saía gente de todos os lugares e não se podia ter privacidade senão no seu próprio quarto.
Era estressante. E Annabeth não sabia se era pelo fato de que dos seis, quatro deles tentavam se evitar ao máximo, ou simplesmente porque mesmo a casa estando tão cheia de pessoas, estava num silêncio fúnebre.
Um dia, numa terça feira atarefada, Annabeth trombou com Percy enquanto descia as escadas. Ele estava bastante bonito naquele dia, usava uma blusa branca com o logo da banda The Who e uma calça lavada com rasgos nos joelhos. Parecia o tipo de garoto que se via num desses blogs ou num outdoor.
–Cuidado, cega – ele deu um grande sorriso, e Annabeth quase tremeu por dentro. E depois disso, teve que se lembrar “amigos não sentem coisas estranhas quando se encontram”, além disso, ele tocou nos seus óculos recém-colocados para leitura, e Annabeth não pode deixar de se lembrar do seu último comentário sobre eles “Já consigo imaginar você na minha cama com esses óculos e o antigo uniforme do colégio”.
Sem querer se arrepiou.
–E-eu só estou ahn... Muito cheia de coisa pra fazer, é o dia em que eu tenho mais horário. E você? — ele continuava com aquele sorriso enorme. Era um sorriso digno de observação crítica, tinha essas covinhas nas bochechas e estes dentes perfeitamente alinhados. Era fofo e sexy ao mesmo tempo (Annabeth não sabia como ele conseguia fazer essa conciliação) e naquelas roupas e com a barba totalmente feita ele parecia um garoto, um garoto-homem. Era difícil não se sentir atraída.
Ele se sentou num dos degraus, como se fosse algum tipo de sofá. Annabeth juntou as sobrancelhas, e ele apontou para o espaço ao lado dele.
–Relaxa aí, Chase – ele deu um sorriso em sua direção, ela por fim suspirou e se sentou também – Sabe, eu fico olhando você correndo de um lado para o outro e pra quê isso? É o primeiro ano ainda.
–Quase segundo. Estamos entrando no último bimestre se não está lembrado.
–Ok... Quase segundo – ele arqueou uma sobrancelha em sua direção – Mas você parece tão focada, o que está querendo fazer?
–Quero que as minhas notas sejam as melhores. Eu ainda pretendo trabalhar na faculdade, algum tipo de estágio. Não quero minha mãe me sustentando à vida inteira, eu te disse isso no primeiro dia que nos vimos. Lembra? – ele fez que sim com a cabeça – E se eu for a melhor da turma posso escolher o lugar em que viver. Estava querendo voltar para o Oeste. Eu gosto de lá.
–Uma cidade com praia combina bastante com você- comentou Percy. Abriu um sorriso ligeiramente- Eu já consigo ver você surfando nos fins de semana.
Annabeth sorriu, olhando para baixo.
–E você? Além de festas, o que anda planejando? – Percy riu, bagunçando os cabelos enquanto olhava para um ponto da casa que Annabeth não identificou.
–Não faço ideia, só sei que quero formar. Isso se meu pai decidir continuar pagando minha faculdade, e depois quero fazer algo bom, entende? Algo que ajude algo ou alguém. Não quero ficar sentado numa cadeira o resto da minha vida sabendo que o único objetivo do meu trabalho é dar dinheiro para um chefe.
Annabeth olhou na direção dele.
–É um ótimo proposito, Percy. Eu sei que você é uma pessoa boa – afirmou ela enquanto olhava em seus olhos. Perseu amava aquilo, amava o quão sincera ela era, o quão doce e delicada ela podia ser quando queria. E gostava muito de pessoas que conseguiam olhar nos seus olhos.
Depois do que poderiam ser horas observando aqueles olhos tempestuosos e cinzentos finalmente os dois pararam de se entreolhar com um barulho embaixo da escada. Annabeth se levantou, juntando as sobrancelhas e olhando na direção do barulho.
A porta que dava para a lavanderia tinha sido aberta, e se ela não estava enganada quem entrou por ela foi Luke e Megan. Annabeth arregalou os olhos, pondo suas coisas no degrau e saindo em disparada pelo andar de baixo.
–Annabeth – chamou Percy, ele já sabia o que ela iria fazer e sabia também que não era nada certo. Ela abriu a porta da lavanderia de uma vez só.
–O que vocês pensam que estão fazen... — ao contrário do que ela imaginava Luke e Megan não estavam se agarrando ou coisa assim. Conversavam normalmente e até um pouco afastados.
Percy suspirou, vendo que Thalia e Nico vieram também na direção da lavanderia. Pronto, o barraco estava armado.
–O que está acontecendo? – perguntou Nico dando um sorriso de quem não entendia nada. Annabeth arregalou os olhos em sua direção, depois voltou a olhar para Luke e Megan. Sua expressão saiu do atônito para o amedrontado. Ela achou que, talvez, só talvez, tinha feito uma merda muito grande.
Luke e Megan se entreolharam rapidamente, e de repente a cena ficou silenciosa demais, todos olhavam na direção deles esperando uma resposta e os dois ficaram calados. Por fim, Luke suspirou.
–Eu e Megan ficamos na festa – falou ele de uma vez só, como se arrancasse band-aid – Estávamos bastante bêbados e acabou rolando.
Nico deu um passo para trás, sua expressão estava daquele jeito amedrontador que Percy sabia que ele estava prestes a explodir. Ele olhou para baixo, enraivecido. E Thalia olhava alternadamente para Megan e Luke, tentando processar aquela ideia.
–Vocês transaram? – a voz de Nico estava baixa, quase rouca. Annabeth arregalou os olhos na direção de Percy, nunca tinha visto Nico daquele jeito e pensou sinceramente que ele poderia atacar Luke ou coisa assim.
–Não – respondeu Megan – Foi só uns beijos, não foi nada demais. Eu nem lembro direito de nada, só...
–Cala a boca – respondeu Thalia – Cala a boca agora. Ele é o meu ex-namorado e você é a minha melhor amiga como que vocês podem ter feito uma coisa dessas? Vocês simplesmente se esqueceram da minha existência?
Annabeth comia as unhas, Megan estava com os olhos cheios d’água e Nico continuava olhando para o chão, sério e calado.
–Ah Thalia, faça-me o favor – Percy cruzou os braços – Já que a merda já foi feita aproveita a oportunidade e fala também o que aconteceu entre você e o Nico. Não fiquem dando uma de santinhos!
–Percy! – gritou Annabeth
–O que aconteceu entre você e o Nico? – falou Luke, cruzando os braços. Nico finalmente levantou a cabeça, seus olhos estavam negros e impassíveis, seu rosto não esboçava nenhuma expressão. Annabeth estava realmente com medo agora e não queria estar no lugar de Luke e Megan naquele momento.
–Só rolou um clima – falou Nico, olhando para Luke como se ele fosse algum tipo de inseto – Eu não beijei ela, eu não fiquei agarrando ela. Eu não te traí tecnicamente dizendo. Nem devia estar te contando isso, o que é um clima comparado a beijos? Beijos reais?
–A premissa é a mesma – respondeu Megan com a voz ainda embargada, seus olhos porém não estavam mais cheios d’água – O que aconteceu? Vocês usaram cocaína juntos e decidiram fazer promessas de amor? Eu não sei. Talvez eu não estivesse tão errada assim naquela festa, vocês dois são parecidos em muita coisa, mas a coisa em que são exatamente iguais é essa personalidade egocêntrica, vocês só pensam em si mesmos. E agora, mesmo depois de falarem que aconteceu alguma coisa entre vocês tem a cara de pau de apontar o dedo em nossa direção e nos julgar! Vocês foram bem piores!
–Todo mundo foi bem pior! – Thalia gritou – Você não me vem com esse seu discurso que a inocente e doce porque não tem direito nenhum de falar qualquer coisa também! Você e o Luke? Sério MESMO? VOCÊ PODERIA TER FICADO COM QUALQUER OUTRO GAROTO PRA SE VINGAR DO NICO! QUALQUER OUTRO! – Annabeth ficou na frente de Megan, já que Thalia estava avançando em sua direção. Megan respondeu em gritos, e de repente as duas estavam brigando verbalmente de uma forma bem feia.
–Vocês todos são uns idiotas! – gritou Percy, sobressaindo-se – Que merda de traição vocês estão falando? Vocês tem todo o direito de ficar com raiva uma da outra, mas Nico e Luke não são mais seus namorados! Não faz sentido vocês ficarem putas com nada disso! A não ser que isso seja só uma prova que ainda gostam um do outro. Porque se não gostassem não estavam ligando, então que tal pararem de brigar e se resolverem de uma vez seus bostas filhos da puta?! E da próxima vez que essa merda acontecer, pelo amor de Deus não falem para mim e a Annabeth e se resolvam sozinhos igual gente grande! E por último, vão se foder!
Percy puxou o ar, olhando na direção de Nico e Luke.
–Eu não vou fazer vocês dois voltarem a serem amigos de novo – continuou ele, apontando na direção dos dois – Vocês já têm vinte anos, se decidam.
Percy pegou Annabeth pelo pulso, puxando-a dali até as escadas. De repente a conversa interessante e calma que estavam tendo sobre seus futuros parecia algo muito distante da realidade. Ela pegou suas coisas vendo Percy subir as escadas, e depois na direção da lavanderia em que Luke falava alguma coisa com bastante intensidade com Thalia. Ela não queria e nem pretendia ouvir, saiu correndo em direção ao seu carro.
Thalia decidiu revidar os comentários ácidos de Luke, ignorando o fato que ele talvez tivesse razão em chama-los de “narcisistas drogados”. Ela não o deixaria falar atrocidades, mesmo sendo verdade.
–Vocês dois se acham tão bons, tão maravilhosos e na verdade são os amigos mais fura-olho que já existiu! – gritou Thalia, Megan se sobressaiu, indo para frente de Luke.
–Não somos não! Existe uma grande diferença entre cometer um erro enquanto está bêbado e trair o amigo descaradamente e sã, que foi o que você fez.
–Eu não estava sã!
–Claro que estava! – rebateu Megan.
Nico olhou para as duas e suspirou, não havia falado nada desde a gritaria de Percy. Ele deu meia volta e foi embora, andando lentamente até a escada no andar de cima. Isso fez com que a briga parasse, e todos prestassem atenção no que ele fazia. Luke deu um olhar indignado tanto para Megan quanto para Thalia, e saiu correndo em direção a Nico.
A porta do seu quarto estava fechada e trancada, e Luke suspirou batendo fraco a testa na porta. Olhava para a tinta branca e se sentia mal como nunca. Pensava porque Nico estava tão calado, era melhor que tivesse dando uma porrada nele, brigasse, gritasse. Aquilo só o fazia se sentir ainda pior. Bateu na porta com força.
–Me deixa entrar, sou eu cara – falou Luke bastante devagar, parou de ouvir a gritaria no andar de baixo e teve a impressão que Megan e Thalia também provavelmente pararam de brigar.
Nico abriu a porta, fazendo Luke quase cair sobre ele. A expressão não era das melhores, o moreno olhava na sua direção num óbvio “o que você quer?”. E depois de um tempo se encarando ele deu meia volta, indo em direção à janela do seu quarto, olhando para a rua.
–Eu a beijei, sei que isto é bem pior do que “rolar um clima” que sempre rolou entre você e Thalia...
–Nunca rolou clima nenhum – respondeu Nico, descascando a tinta branca da janela – Nunca. Eu sempre pensei nela como sua garota, sempre. Nunca passou na minha cabeça ter qualquer coisa com a Thalia. Pra mim ela é tipo uma... – ele suspirou – Um amigo que eu posso conversar sobre coisas que não posso com você e Percy. Coisas que vocês não sabem como é, tipo ter um pai distante e uma família de merda. Tipo se sentir sem figura nenhuma paternal ou de amor e por isso ser bastante “narcisista drogado”, como você diz.
–Eu não acho isso de você – respondeu Luke, revirando os olhos – Você sabe que foi só...
–Talvez eu seja – respondeu Nico – Talvez eu seja um merda de um narcisista desajustado. E você com a sua família perfeita, o mocinho da história, o amigo protetor e fiel, o terror das mães atrás do cara perfeito para suas filhas. Bem, talvez você devesse ficar com a mocinha.
Nico olhou na direção do loiro. E finalmente Luke entendeu o que estava acontecendo. Era por isso que ele estava tão calado, ele realmente acreditava que Megan e Luke fossem um bom casal. O casal ideal. Ele se sentia excluído e provavelmente traído, mas não por Luke, talvez por si mesmo. Por ser não tão ideal para Megan.
Luke olhou para baixo. E não pode começar a rir, rir como se fosse uma criança com um brinquedo muito divertido. Agora Nico parecia realmente com raiva, do tipo que iria lhe dar um soco a qualquer momento.
–Nico, não mesmo – Luke parou de rir, olhando na direção do amigo. Fechou a porta do quarto para se certificar de que as garotas não ouviriam aquilo – Eu? Eu sou louco pela Thalia. Sempre fui, nunca deixei de ser. Eu amo a Meg, mas ela não me desafia em nada.
–Oi? – perguntou Nico. Parecia bastante confuso.
–Ela é uma boneca perfeita, uma garota doce, linda, educadíssima. Ela é igual a minha mãe –ele fez uma careta de nojo – Nunca me interessei por garotas assim e você sabe disso, eu infelizmente fico totalmente maluco com aquela punk desajustada e doida. A gente só vai parar de brigar sobre isso se você entender de uma vez por todas que eu gosto só da Thalia e de mais ninguém.
Luke riu olhando na direção de Nico. Que parecia realmente confuso.
–Então você e Megan não estão... ?
–Ficando? Não. Claro que não. Ela mal consegue olhar na minha cara e eu nem lembro se ela beija bem também – ele recebeu um soco no braço em resposta que realmente doeu, mas ele decidiu não reclamar. Merecia aquele soco de certa forma.
Luke se sentou no chão, ao lado de Nico. Este que mexia nos cabelos como sempre que parecia preocupado ou pensativo.
–Megan parece que não vai me “perdoar” pelas coisas do México, entende? – ele pigarreou. Depois olhou para baixo. Era como se tivesse em algum tipo de prova de fogo e não soubesse o que fazer – Eu sei que deveria falar com ela. Quer dizer, eu peguei a merda do cargo do grêmio e ela queria muito aquilo...
–E você foi um bastardo na festa- continuou Luke. Nico arqueou as duas sobrancelhas.
–Mesmo? Eu não me lembro – ele suspirou – E também tem essa coisa de eu não achar que ela tenha que me perdoar. A verdade é que eu sou...
–Teimoso – Luke sorriu – Ela gosta de você, mesmo depois de tudo isso. Ao contrário da Thalia, que foi pela festa, Megan foi por você. Ela queria te afetar e conseguiu. Então se você gosta dela ainda, faça alguma coisa a respeito.
Nico juntou as sobrancelhas, a expressão confusa.
–E o Percy e a Annabeth? – ele cruzou os braços – Os dois não se encontraram na festa?
Luke parou para pensar, e realmente aconteceu algo interessante.
–Eu não vi nenhum dos dois lá – respondeu Luke, e os dois se entreolharam desconfiados. Nem haviam parado para pensar que onde há fogo há fumaça, e onde há Annabeth há Percy, como cão e gato.
Percy encontrou com Annabeth na hora do almoço com seu amigo Zachary, por algum motivo ele conseguia associar os dois com Califórnia, sol e praia. Não se arriscou parar para conversar com Annabeth, Zachary o olhava como se tivesse algum tipo sério de doença contagiosa.
E ele realmente não queria ser amigo daquele cara. Percebeu que ele e Annabeth andavam juntos demais, muito mais do que Annabeth com Thalia e Megan. Agora que era mais visto na universidade, percebeu também que os dois tinham certa fama de casal. E ele não gostava dessa coisa de Annabeth já ser rotulada como “não pegável”, mas não pelo fato de ser a sua namorada (como normalmente acontecia), mas sim por causa do Zachary.
Percy estava com alguns amigos de festa, que pareciam muito felizes em não fazer nada além de acompanha-lo. Conversava sobre a última temporada do basquete e se sentiu bastante animado com o fato que Luke iria fazer parte do time junto com ele no próximo ano. Talvez fosse o que precisassem, pois tinha suas dúvidas se Poseidon continuaria a pagar sua faculdade, uma bolsa cairia muito bem.
Seu telefone tocou, fazendo-o parar de conversar e olhar desconfiado para o nome “Rachel” piscando na sua tela do celular. Saiu do grupo para poder atendê-la.
–Rachel?- perguntou Percy, suspirando – O que foi?
Ela riu do outro lado da linha, bastante bem humorada Perseu não pode deixar de notar.
–Você é tão educado. Nem um olá, bom dia – ela riu – Ei, tenho boas noticias. Existe uma coisa que se chama oportunidade perfeita de fazer o jogo virar. Exatamente o que precisávamos, só que ainda melhor porque eu não esperava por essa. Vamos mudar totalmente os nossos planos, dar um energético muito bom nele.
–Fala logo — Percy falou entredentes. Odiava quando Rachel fazia esse suspense todo.
–Duas coisas maravilhosas para você: Evento dos nossos queridos pais no fim do mês – Percy olhou para o chão, se fosse o evento que achava que era realmente seria uma ótima notícia. Ouviu a risada divertida de Rachel do outro lado da linha– E segunda coisa: The New Yorker contratou uma nova estagiária. Seu nome é Clarisse La Rue. Familiarizado?
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