O Que Eles Veem Em Você? 2
43 Complicados melhores amigos.
Notas iniciais
Annabeth
Eu não estava bem. Nada bem. Sentia de longe a pior ressaca da minha vida e não fazia ideia de como tinha chegado à minha cama.
Levantei-me um pouco, tirando os cabelos emaranhados da minha testa e odiando a luz solar que parecia bater na minha cara como algum tipo de retaliação contra a minha pessoa. Assim que me sentei na cama me senti tão enjoada que virei-me rapidamente para vomitar.
Melhor sensação para uma bela manhã como aquela.
Uma vontade súbita de vomitar me ocorreu novamente, abri a porta do quarto correndo e cheguei ao banheiro no meio do corredor, vomitando o que parecia ser os litros de vodca ingeridos no dia anterior.
Sentei-me um pouco no chão frio do banheiro, respirando fundo e passando meus cabelos mais que bagunçados para trás, fui até a pia e lavei o meu rosto. Quando me olhei no espelho, confirmei a hipótese de eu estar na pior ressaca da minha vida. Parecia um zumbi.
E ainda tinha uma grande interrogação na minha mente do que poderia ter acontecido na noite anterior, eu sei que estava dançando com alguém, mas logo após a isso tudo era um grande branco.
Estava de blusa e calcinha, o que significa que seja lá quem me tenha trazido em casa teve o cuidado de me pôr uma blusa confortável. Passei novamente a mão na testa, que parecia explodir de tanta dor de cabeça.
Sentei na beirada da minha cama, olhando lerdamente para a parede e tentando me lembrar de alguma coisa. Olhei na escrivaninha e tinha um bilhete. Ao lado dele um copo de água e um comprimido.
Peguei rapidamente o bilhete, talvez me ajudasse a lembrar de quem era. Porém, estava somente escrito:
“Uma aspirina para a previsão certa de que você acordará com bastante ressaca.
P.S: Você é sensacional bêbada.”
Respirei fundo, aquilo só poderia ser algum tipo de brincadeira de mau gosto. Eu transei com alguém e nem sequer me lembrava, tinha chegado inevitavelmente no fundo do poço. Depois de alguns minutos lendo e relendo aquele misterioso bilhete decidi sair do meu estado vegetativo e encontrar Megan, a causadora de toda essa confusão.
Ao descer as escadas da casa finalmente a encontrei, sentada no sofá e bebendo um copo de café. Aparentemente muito saudável. Ao contrário de mim.
–Obrigada pela maravilhosa ideia! – comentei ao acabar de descer as escadas — “Ah, vamos à festa, vamos fazer o imprevisível”. Que discurso lindo, porém falso. Eu não me lembro de nada que fiz naquele maldito lugar e...
–Eu fiquei com o Luke – ela sussurrou, seus olhos parados e focados. Parei meu discurso engajado e dei um passo para trás, não conseguia acreditar no que ouvia, e achei que tinha até mesmo ouvido errado.
–Oi? – perguntei, olhando agora em sua direção. Ela tinha os cabelos presos num coque e uma expressão péssima. Supus que aquilo não era uma brincadeira.
–Eu não pensei em nada, só como eu odiava o Nico e ele parecia tão injustiçado pela Thalia justamente da mesma forma que aquele... Idiota fez comigo. Simplesmente rolou. Sei que isso não é desculpa, mas eu estava bêbada.
Respirei fundo porque percebi que estava segurando a respiração a todo esse tempo que ela estava falando. Na minha cabeça se passaram trilhões de coisas, todos nós sabíamos em algum lugar da nossa mente que Megan e Luke eram simplesmente iguais, um era a versão do outro, porém em sexo opostos. Os dois tinham a família perfeita, os pais que sempre os apoiaram para tudo, eram doces e educados e os melhores amigos que todo mundo poderia pedir. Além disso, sempre eram considerados os “mimados” da turma. A verdade é que eles só eram atenciosos demais com tudo.
Os dois juntos, para todos nós assim que nos conhecemos parecia o mais certo a ser feito. Porém Luke teve uma atração inegável por Thalia, e Megan uma vontade súbita de ser rebelde com Nico. O assunto foi esquecido.
E depois de três anos, três anos de namoros com os melhores amigos. Simplesmente aconteceu novamente. Uma ideia não só muito menos interessante, como também proibida.
–Como assim? Porque você fez isso? É a Thalia, lembra? Ele é o único cara que ela...
–Eu já sei o que você vai dizer e eu já estou me sentindo péssima por isso, mas eu não pensei em machuca-la em nenhum segundo, a triste verdade é que eu não pensei na Thalia em momento algum.
Megan tinha os olhos marejados, e lágrimas começaram a escorrer do seu rosto, sua voz começou a ficar fanha e eu percebi que estava fazendo a abordagem errada. Porém a minha dor de cabeça não me deixava processar direito quase nada.
Sentei do seu lado, suspirei.
–Você vai contar para ela? – perguntei quase que instantaneamente. Ela me olhou assustada, e depois passou a mão pelo rosto claramente confusa. Negou com a cabeça.
–Não. Eu não posso fazer isso, quer dizer... Não significou nada e contar para ela só vai servir para deixa-la triste. E-eu... Quer dizer, Annabeth. É o Luke? Eu e ele...
–Já tiveram algo, querida – passei a mão pelos cabelos, mais um problema como uma bomba relógio no meu colo – Agora não tem como negar mais.
Levantei e peguei um copo de café na cozinha, minha ressaca tomando conta de todo o meu ser. Enjoada, com dor de cabeça, morta e cansada percebi que tinha um problema muito maior a caminho quando vi Thalia descendo as escadas, a maquiagem pesada totalmente borrada e a expressão nada melhor que a de todas nós.
–Bom dia – ela sussurrou, Megan se virou num pulo, assustada. Thalia coçou os cabelos, dando um sorriso torto – Oi.
E saiu quase que correndo da sala, vindo até a cozinha. Eu, que bebericava meu café e tentava me lembrar com quem eu havia dançado naquela noite, fui drasticamente puxada do meu centro gravitacional por uma Thalia muito mais forte que eu imaginava, ela abriu a porta da lavanderia e a fechou em seguida.
–Olha aqui, eu estou com uma puta ressaca e não posso ser puxada dessa maneira, entendeu? – respirei fundo, querendo quebrar as costelas daquela punk.
–Eu e o Nico tivemos um clima ontem à noite – sussurrou ela, mais que pra si mesmo do que pra mim. Coloquei minha caneca de café encima da máquina de lavar, eu não conseguia acreditar. Aquilo só poderia ser algum tipo de brincadeira de mau gosto, onde estavam as câmeras? Eu queria saber quem era o responsável por aquela brincadeira idiota.
Sem paciência, perguntei:
–Sério?
Sua expressão tão culpada me fez realmente acreditar que não era uma brincadeira, isso só... Ah, era muita confusão para uma pessoa só. No caso eu.
–Não aconteceu nada, foi só tipo rolou um clima, a gente não se beijou nem nada. Mas se eu não tivesse saído de lá provavelmente aconteceria.
–Saído de onde? – ela parecia ainda mais culpada, coçando os cabelos e os bagunçando propositalmente.
–Do quarto, dele.
Foi a minha vez de passar a mão pela testa, tentando entender porque não podíamos ser amigas normais que quando veem o carinha da melhor amiga simplesmente dá meia volta e vai embora.
Porque tudo tinha que ser complicado com a gente? A vida era complicada ou a gente que complicava ela? Como eu resolveria esse assunto sem as duas partes ficarem magoadas? Com quem eu tinha transado? Eram perguntas claramente sucintas que rodeavam minha cabeça por agora.
–Você deveria falar com ela – falei seca. Thalia me olhou como se eu fosse louca.
–O que? Não. Eu só... Quer dizer, não aconteceu nada. Não foi uma traição, entende?
–Se não tivesse acontecido nada você não estava aqui me falando, e não estava se sentindo culpada – mordi o lábio inferior, pensando rapidamente numa estratégia para resolver isso – Eu não vou falar nada, fica tranquila. Mas eu acho que você deveria se resolver com ela, pode se surpreender com a resposta.
E como podia. Peguei minha caneca de café, respirando fundo. Era muita loucura para antes do meio dia. E eu tinha coisas a resolver naquele sábado estressante e não podia ficar em casa vegetando, como eu tanto queria.
Depois de duas horas tomando um banho refrescante e resolvendo a situação nada legal do meu cabelo decidi deixar a casa com as duas traidoras para se resolverem. Peguei um ray-ban escuro como uma boa garota em ressaca e desci as escadas de casa.
Thalia estava fazendo alguma coisa na cozinha e Megan continuava sentada no sofá, balancei a cabeça em negação saindo de casa antes que a situação simplesmente explodisse.
Eu e Zac fomos juntos à universidade mais que vazia pegar alguns materiais para a aula de projeto arquitetônico. Enquanto passava pelos corredores ao seu lado ouvia o doce e belo sermão responsável.
–Simplesmente sozinha, bêbada a perder de vista. Você enlouqueceu, só pode. Sabia que você pode ter sido estuprada?
Ri um pouco, mas só um pouco mesmo porque o gesto fez minha cabeça doer.
–Acho que um estuprador não teria a boa vontade de me pôr na cama e deixar um comprimido de aspirina no criado mudo.
Zac balançou a cabeça negativamente.
–Tá, pode não ter sido um estuprador. Mas você ainda foi bastante irresponsável.
–Eu vou almoçar por aqui mesmo, você vem? — ele negou com a cabeça.
–Eu já combinei de almoçar com a Claire no centro, desculpa – dei um sorrisinho malicioso, ajeitando os óculos ray-ban no rosto.
–Hum, então você e ela...?
–Ainda não, Chase. Fica na sua – ele riu, depois deu um beijo na minha bochecha de despedida e foi embora. Segui meu caminho até a praça de alimentação no último andar, o lugar estava cheio demais para um sábado à tarde e percebi que os universitários gostavam de verdade do lugar.
Fui à subway, que era o lugar mais vazio da praça (estudantes não gostavam muito de ser saudáveis) e sentei-me sozinha numa mesa no canto, perto da parede. Como a praça era algo aberto, não tirei meus óculos escuros que me preveniam da dor infernal que o sol me trazia.
Enquanto dava uma olhada nos grupos silenciados do whatsapp senti que alguém olhava em minha direção. Olhei para trás, mas não vi ninguém particularmente interessado em mim. Quando olhei para frente meu coração deu um pulo, a poucos metros da minha frente estava Perseu.
Sozinho.
Assim que ele percebeu que eu percebi que ele me olhava deu um de seus sorrisos maliciosos molha-calcinha, e eu fingi que de repente meu sanduíche estava bastante interessante.
Ele se levantou da sua mesa e veio até a minha direção, era muita petulância ele se sentar na mesma mesa que eu. E foi exatamente o que ele fez, sorrindo genuinamente lá estava Perseu Jackson à minha frente.
Não tinha sinais de ressaca nem de cansaço, por mais que óculos aviadores tampassem parte de seu rosto. Usava um boné virado para trás e as duas coisas juntas o deixava incrivelmente sexy.
–Bom dia, Annie – ele estava ali para me irritar, e me chamar de Annie ainda por cima? Era muita presunção.
–Ainda não entendi porque você está agindo como se sua presença fosse bem vinda – minha mente não estava funcionando muito bem há algum tempo, eu não sabia com quem tinha transado e minhas melhores amigas estavam prestes a desencadear a terceira guerra mundial. Não, eu não estava com paciência para entrar no joguinho dele.
Ele comia o que parecia ser (às duas da tarde) o seu café da manhã. Tinha um copo de Starbucks encima da minha mesa e donuts encima de um papel da dunkin’ donuts. Ele parecia muito feliz com a minha resposta mal educada, deu uma mordida num daqueles donuts recheados de chocolate e só então me respondeu:
–Você está mal humorada, e de... Ressaca? Isso não combina com a Annabeth universitária rata de biblioteca – não prestei muita atenção no que ele disse, seus lábios estavam cheios de açúcar e ele fez o favor de lambê-los muito lentamente. Limpou as mãos uma na outra retirando o excesso de açúcar.
Ele havia me insultado anteriormente? Eu não consegui realmente captar.
–Então parece que depois de todos esses anos você ainda não me conhece, todo mundo sabe que eu sou fã de uma boa festa – sorri, pegando um cookie e sentindo as gotas de chocolate derreterem na minha boca.
Ele parecia bastante descontraído e nem um pouco incomodado com o fato que eu claramente não queria sua presença por ali. Parecia que todo mundo olhava em nossa direção, me incomodava demais o fato de eu saber que os cochichos eram sobre mim.
–As pessoas mudam – constatou ele, mordiscando aquele donuts que eu queria no meu ínfimo que fosse eu e lambendo o açúcar dos dedos mais devagar que o normal, ou talvez minha mente processava todos os seus movimentos em câmera lenta – Por exemplo, dois anos atrás você não se incomodaria de todos estarem olhando na nossa direção, mas agora está até envergonhada.
Dei um sorriso de escarnio, os óculos caindo levemente dos meus olhos.
–Às vezes as pessoas evoluem, Percy. E você pode ter certeza que eu sou bem melhor que a Annabeth de dois anos atrás – meu sorriso escárnio revelou as segundas intenções no meu tom de voz, e eu tinha entrado novamente no jogo. Era impossível não entrar.
Ele deu sua última mordida no donuts, seu sorriso de lado era como um sinal “tarefa cumprida”, o idiota conseguiu me pôr no seu joguinho. Ele estalou a boca, apreciando o açúcar do donuts.
–Você pode ter uma surpresa hoje, Annie. Se prepare – ele se levantou, ainda com seu copo do Starbucks na mão – Aliás, eu tenho realmente a certeza que você é bem melhor que a Annabeth de dois anos atrás– ele parou por um segundo, seu sorriso agora crescendo num genuíno sorriso a lá Perseu.
Minha boca abriu-se num O enquanto eu via Percy se afastar distraidamente pelas pessoas. Às vezes ele era tão irritantemente estúpido que me deixava simplesmente sem fala. Maldito, maldito seja Perseu Jackson.
–Porra – sussurrei, a mão no queixo enquanto sentia todos os meus músculos finalmente relaxarem depois de alguns minutos contraídos pela presença de Perseu.
Abri espaço distraidamente entre as pessoas, minha mente ainda nebulosa diante tanta informação e agora uma “surpresa” enviada diretamente por Percy. E ainda por cima tinha transado com uma pessoa que eu nem sabia quem era. Estava arrependida, com ressaca, vontade de morrer ou matar alguém.
Fui até a biblioteca municipal, tentando distrair minha mente lendo alguma coisa interessante. Saí dali horas depois, surpreendendo-me com o fato de que já estava anoitecendo.
Dirigi distraidamente até em casa, depois de ter lido dois livros minha mente tinha voltado ao assunto Perseu Jackson, mas rapidamente saiu quando eu estacionei o carro na casa. Abri a porta e não entendi o que estava acontecendo.
A porta da casa estava aberta, e tinha algo muito estranho acontecendo porque eu conseguia ouvir gritos de Megan dentro da casa. Caramba, tava rolando. Elas iam se matar.
Saí correndo até a frente da porta. E a cena que eu ouvi foi ainda mais louca e surpreendente.
Megan estava gritando, sim. Mas não com Thalia. Estava gritando com Percy.
–Quem disse que vocês tem esse direito? Hein? MALDITOS, MALDITOS SEJAM! – ela estava com os olhos marejados, olhou na minha direção – O que eles estão fazendo aqui?
Rapidamente entendi a situação toda. Nico e Luke desceram seguidos de uma Thalia enraivecida e confusa. Respirei fundo, que hora sensacional para eles reivindicarem seus direitos.
–Acho que eles somente estão na casa deles, Meg.
–Obrigada! – exclamou Percy, revoltado com Megan, mas eu via nos seus olhos o quanto estava se divertindo com o desespero dela.
Luke e Nico se trombaram sem querer, começando a se desculparem como dois idiotas. Percy revirou os olhos, e eu pensei se poderia estar acontecendo com eles...
–Tá, porque vocês voltaram? – perguntei, tirando pensamentos que não deveriam me interessar da minha mente. Percy sentou-se no sofá, sentindo-se literalmente em casa.
Pensei em olhar para a luz, ou para qualquer outro lugar menos em sua direção.
Luke e Nico se afastaram. Cada um ficando de um lado diferente do sofá. Megan sentou-se ao lado de Percy no sofá e distante o suficiente dos outros dois garotos. E Thalia ficou andando de um lado para o outro e acabou se sentando no primeiro degrau da escada, longe o suficiente de todo mundo.
Era a pior situação que eu já havia me encontrado tipo, em toda a minha vida, era claro e óbvio que algo estava incomodado todos eles que eram idiotas ou medrosos demais para começar a falar.
Eu tive que pegar todo o meu espírito de liderança para ignorar o fato de estar extremamente incomodada com Perseu de volta a minha casa e ser racional.
–Estamos aqui por cortesia dos nossos queridos pais. Não sei se você sabe, mas eles meio que obrigam a gente a ficar na mesma casa que as suas, então quando eles souberam que não estávamos exatamente seguindo suas ordens, a coisa meio que ficou preta – respondeu finalmente Percy, o de longe mais descontraído e relaxado – Eu não sei se vocês se lembram, mas nós chegamos aqui antes.
Olhei no rosto de cada um dos meus amigos, nenhum deles parecia contente ou satisfeito com o fato de terem que voltar a serem colegas de casa. Cruzei os braços, suspirando enfim.
–Que seja, o quarto de vocês está do mesmo jeito que vocês deixaram – Megan abriu os braços, revoltada. E Thalia olhou para mim com tanto ódio que parecia que eu ia ser eletrificada por seus olhos azuis faiscantes.
Todos começaram a falar muito alto e eu comecei a ficar realmente estressada, por isso deixei todos por lá e subi as escadas até o meu quarto, abrindo a varanda que dava para a vista do vizinho.
Peguei um cigarro que há muito tempo eu não fumava, inalando a doce e viciante nicotina, soltando a fumaça e relaxando todos os meus músculos. Ouvi a porta ser fechada atrás de mim e dei um sorriso inebriante, a última pessoa que eu queria ver no momento era ele.
–O que a gente vai fazer? – ele perguntou, e eu gelei diante da pergunta. Quer dizer, achei que continuaríamos nessa bagunça por algum tempo. Virei-me, os olhos arregalados como se não tivesse resposta – Quer dizer, o Nico e o Luke ficam se trombando igual dois babacas e a Thalia parecia uma trouxa atrás de um lugar pra sentar.
Expirei a fumaça, meus músculos endurecidos relaxando. Não era sobre nós que ele estava falando. Limpei a garganta, abaixando o cigarro em seguida.
–Acho que nada. Eles vão ter que se resolverem sozinhos – ele olhou em minha direção, agora sem os óculos e sem o boné, muito menos descontraído. Cruzou os braços e passou a mão pelo cabelo. Parecia nervoso – O Luke e a Megan, quer dizer...
–Eles são iguais – continuei para ele.
Virei para poder ver a lua cheia, que parecia exatamente do mesmo jeito do dia em que estávamos no luau, e eu e ele vimos juntos a lua. Era como se ela estivesse ali, nos observando, tentando entender qual seria o próximo capítulo. Eu também queria saber qual.
Ele apoiou-se do meu lado na varanda, roubando o cigarro e o fumando lentamente. Olhei para o seu rosto, a mandíbula contraindo-se com o cigarro, a barba mal feita contrastando com os cabelos desgrenhados. Os olhos tão verdes e brilhantes que poderiam ser como duas esmeraldas muito bem polidas.
Eu era apaixonada por aquele garoto há três anos, três anos que eu não conseguia pensar em mais ninguém senão a ele, claro que algum vai e vem, mas eu sempre voltava nele. Sempre foi ele. Agora não estávamos mais no ensino médio, não estávamos eu e ele contra nossos pais, ou contra fofocas da escola, éramos eu e ele contra eu e ele. O segundo ano da faculdade estava quase ali, e o máximo que eu vivi com Percy naquele ano foram alguns momentos avulsamente colocados ao longo do ano.
Ele tinha vinte anos, e eu quase vinte anos. Nós não éramos mais crianças, estávamos ficando não velhos mais amadurecendo de um jeito que aquela relação que tínhamos antes nunca mais voltaria. Nunca mais seriamos os idiotas inocentes encima de um prédio, nunca mais ficaríamos fugindo dos nossos pais morando um do lado do outro, beijando-se soturnamente pelos corredores da escola. Aquela fase tinha terminado, mas não começamos exatamente outra.
Nossa nova fase tinha drogas, embriaguez, polícia, bagunça. Não tinha muito amor, muito mais saudade. E Percy, eu não o via dar uma gargalhada há mais de um ano. Ele não era mais o meu bobo lerdo, e eu sentia que talvez eu não fosse mais a Annabeth inconsequente que ele gostava.
Estava pensando em tudo isso quando senti sua mão tocar na minha, apertando-a contra seus dedos longos. Abaixei a cabeça, as drogas das lágrimas descendo como uma enxurrada. Ele jogou o cigarro no chão e me abraçou, tão forte que parecia querer quebrar minhas costelas.
–Me desculpa – o ouvi sussurrar no meu ouvido – Desculpa por quebrar o encanto.
Chorei ainda mais no seu ombro, ele não era mais o meu príncipe da adolescência, e sim um homem normal que fazia um tanto de erros idiotas e quebrava meu coração como se quebrasse uma jarra de vidro.
A pior coisa que senti quando ouvi as palavras de Rachel tinham sido exatamente aquilo, havia acabado a inocência, o encanto, o antigo tinha que ser deixado finalmente para trás, e aquela minha visão boba e extremante inocente da Annabeth de dezesseis anos que Percy Jackson era o meu príncipe encantado... Não existem príncipes encantados.
Afastei dele, vendo que tinha deixado seu ombro encharcado e enxuguei as lágrimas no meu rosto.
–Eu sou uma idiota – minha voz estava fanha e embriagada, me odiava por aquilo – Simplesmente deixo você me afetar do jeito que você bem quer, deixo você me beijar, deixo tudo. Eu deveria parar de deixar.
–E eu deveria parar de querer? – ele arqueou as sobrancelhas, seus olhos verdes me fitavam com tanta intensidade, era difícil desviar o olhar – A diferença entre nós e todos os outros é que a gente não consegue. A gente não consegue deixar de ficar perto um do outro, não conseguimos parar.
Eu não podia ceder, não daquela vez. Tínhamos que tentar uma coisa diferente senão eu sairia não só machucada mais estraçalhada daquela “relação”. Estranhamente, quando eu olhava para Percy parecia que ele sabia o que eu iria dizer em seguida, abri a boca para falar, mas não consegui de primeira. Ele me fitou, arqueando uma sobrancelha. E eu o fitei, por algum motivo pela primeira vez parecia que ele sabia de alguma coisa que eu não sabia.
–Nós temos que ser só amigos – falei, por mais que aquilo soasse amargo demais na minha boca. Ele estava confuso demais, e me deixava confusa demais. Era o mais racional a se fazer – É o jeito de nós não ficarmos longe um do outro.
Ele parou por um segundo, pegou outro cigarro na caixinha e o acendeu, fumando-o lentamente enquanto olhava para frente. A merda é que ele dificultava tudo sendo sexy pra caralho. Dei um pequeno sorriso, olhando para baixo.
–Amigos? – ele perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto olhava na minha direção – É o mínimo já que vamos conviver embaixo do mesmo teto.
Ele voltou a fumar, olhando para frente e parecendo muito confortável naquele silêncio sepulcral. Passou uma das mãos pela barba levemente aparada, olhando na minha direção e sorrindo.
–Você sempre encara as pessoas quando elas fumam? – ele perguntou. Olhei também para frente, as estrelas agora como milhões de pontinhos no céu escurecido – Amigos... Você cresceu mesmo, Annabeth– ele bateu a caixinha de cigarro no corrimão da varanda, dando um sorriso torto – Não custa nada tentar.
Ele deu sua última tragada e foi embora, tão feliz e descontraído que eu não sabia se o significado de “amigos” fosse para ele o mesmo do que para mim.
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