O Que A Chuva Nos Deixou

2 A Mulher Que Pintava O Silêncio



Acordei com o som da chuva batendo firme no telhado de zinco, como dedos impacientes à porta de um passado que eu me recuso a abrir. Ainda era cedo, e a casa parecia suspensa no tempo — como se não tivesse sido habitada desde a última vez em que estive aqui. Os móveis carregam poeira nas frestas, e a madeira exala aquele cheiro adormecido de um lugar que não sabe mais o que é ser lar.


Preparei um café fraco, como sempre faço nos primeiros dias. É quase um ritual: nada de sabor forte, nada que desperte demais. Coloquei a xícara sobre o cavalete que improviso como mesa, empurrei a cortina da janela para o lado e olhei o mundo lá fora: o lago envolto por névoa, os arbustos curvados sob o peso da água, e uma solidão que parecia pintar o cenário com a mesma paleta que uso em minhas telas.


Monto meu ateliê no alpendre, do mesmo jeito que fazia com Leon.


Ele sempre ria do meu perfeccionismo com os pincéis, dizia que a bagunça fazia parte da criação.


Mas eu não consigo pintar em meio ao caos.


Estendo os panos manchados, separo os pincéis por tamanho, e deixo as tintas em linha reta, como soldados prontos para uma guerra silenciosa. Mas é uma batalha previsível: sempre pinto as mesmas paisagens — o lago, a chuva, a silhueta que desaparece no meio da névoa. Às vezes acho que estou tentando capturar o instante exato em que ele partiu. E falho. Sempre falho.


Não experimento cores novas. Me recuso. Os tons vibrantes me ofendem. O azul, o cinza, o ocre — essas são as minhas companhias. O resto me parece uma mentira.


Hoje, tentei pintar o retrato de Leon mais uma vez. Aquele em que ele está virado de costas, olhando o lago, as mãos nos bolsos do casaco surrado que ele tanto amava. Mas a tinta escorreu diferente. Seus ombros pareceram mais estreitos do que lembro. Seu cabelo mais curto. A cada repetição, ele se afasta mais de mim, como se a lembrança estivesse se dissolvendo junto com a tinta sobre a tela.


Talvez seja isso que mais me assusta: a possibilidade de esquecer. A ideia de acordar um dia e não lembrar da curva exata do sorriso dele, ou do som que fazia ao bater a colher contra a borda da xícara. Eu me agarro à memória como quem segura uma corda no meio da correnteza. É tudo o que me resta.


No fim da tarde, o barulho de um carro ao longe me despertou do torpor. Não espiei pela janela. Deixei que o som se diluísse na chuva. Quem quer que fosse, não era para mim. Ninguém mais vem aqui.


Voltei para a tela. Acrescentei sombras onde deveria haver luz. O quadro ficou mais escuro do que o anterior, e talvez, por isso mesmo, mais verdadeiro.


Sou a mulher que pinta o silêncio — e hoje, ele gritou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.