O Quarto do Bebê
1 Único
O Quarto do Bebê.
Capítulo Único.
A primeira coisa que Kushina decidiu sobre o quarto do bebê foi simples:
Nada de bege.
A segunda foi ainda mais simples. Minato não teria direito a voto sobre isso.
— Bege não é cor de criança.
Minato ergueu os olhos do manual que segurava. Estava sentado no chão, cercado por pedaços de madeira, parafusos e duas ferramentas que Kushina tinha certeza de que ele não precisava.
— É uma cor.
— É falta de coragem.
— Falta de coragem? — Ele piscou.
— Exatamente.
Kushina apontou para a pequena lata de tinta clara perto da porta.
— Isso aí é a cor que alguém escolhe quando não quer escolher cor nenhuma.
Minato olhou para a lata. Depois para ela. Voltou a olhar para a lata.
— Eu achei que era creme.
— Isso consegue ser pior.
O canto da boca dele subiu. Kushina estreitou os olhos.
— Não ri.
— Eu não estou rindo.
— Minato.
Ele perdeu a batalha. A risada escapou baixa, quase cuidadosa. Kushina tentou continuar brava por mais dois segundos. Também perdeu.
A barriga já estava grande o suficiente para tornar difícil cruzar os braços com a mesma imponência de antes, mas isso não impedia Kushina de tentar. Muito menos de acreditar que ainda conseguia intimidar qualquer pessoa da vila. Bom quase qualquer pessoa. Minato Namikaze tinha convivido com ela tempo demais. Já havia criado certa resistência.
— Eu só pensei que uma cor clara deixaria o quarto mais calmo — explicou ele.
— Nosso filho não precisa de um quarto calmo.
— Ele é um bebê.
— Ainda nem nasceu e já mora comigo há meses. Você realmente acha que ele vai ser calmo?
Minato abriu a boca. Fechou. Era difícil discutir contra aquilo.
Kushina sorriu, satisfeita com a vitória.
— Vermelho.
— Não.
— Você nem viu.
— Você acabou de dizer vermelho.
— Uma parede vermelha.
— Continua sendo vermelho.
— E laranja.
Minato baixou o manual devagar.
— Kushina.
— Vai ficar bonito.
— Vai parecer que houve uma explosão.
— Você está exagerando.
— Você quer misturar vermelho e laranja num quarto pequeno.
— Cores quentes.
— Muito quentes.
Ela se abaixou com cuidado e pegou uma segunda lata.
— Olha isso.
Minato olhou.
— Laranja.
— Eu sei.
— Então por que pediu para eu olhar?
— Porque é bonito.
Ele respirou fundo pelo nariz. Kushina conhecia aquela respiração. Era a mesma que ele usava em reuniões quando alguém dizia alguma coisa muito idiota e, por ser Hokage, ele precisava fingir que estava pensando seriamente sobre aquilo.
— Você está fazendo a respiração.
— Que respiração?
— A respiração de Hokage.
— Eu não tenho uma respiração de Hokage.
— Tem sim.
— Kushina...
— Essa aí.
Ele voltou a sorrir. Ela apontou a lata para ele.
— Não provoca uma mulher grávida segurando uma lata.
— Isso foi uma ameaça?
— Um conselho de sobrevivência.
Minato levantou as duas mãos.
— Entendido.
Kushina sorriu, muito melhor.
Ela olhou ao redor. O cômodo ainda parecia uma bagunça. Havia pedaços do berço espalhados pelo chão. Uma cômoda encostada na parede. Duas caixas de roupas que ainda precisavam ser guardadas. Um tapete enrolado. Algumas mantas. Um pequeno brinquedo em forma de raposa que Minato comprara dias antes e fingira que tinha sido uma escolha racional.
Não tinha sido. Kushina viu o jeito como ele segurou o brinquedo na loja. Foi ridiculamente fácil entender. Aquele quarto tinha sido vazio por meses.
Só mais um cômodo da casa. Depois ela engravidou. E ele deixou de ser vazio. Mesmo antes de qualquer móvel entrar ali. Mesmo antes de terem comprado o berço. Mesmo antes de Minato aparecer com uma pilha de listas e uma expressão séria demais para alguém pesquisando fraldas. O quarto já tinha alguma coisa.
Expectativa.
Kushina passou a mão pela barriga. Naruto se mexeu. Ela sorriu automaticamente.
— Ele concorda comigo.
Minato levantou a cabeça.
— Com o quê?
— Vermelho.
— Ele chutou.
— Exatamente.
— Isso não é uma opinião.
— Claro que é.
— Kushina.
— Você só está chateado porque ele ficou do meu lado — dizia vitoriosa.
Minato observou a barriga dela. Por um instante, esqueceu o berço. Esqueceu as tintas. Esqueceu até o manual. Aquela expressão sempre aparecia. Kushina já tinha visto muitas vezes. Minato podia estar no meio de uma conversa, lendo documentos, amarrando as sandálias ou discutindo sobre alguma missão. Bastava Naruto se mexer.
Pronto.
O Quarto Hokage desaparecia. O Relâmpago Amarelo desaparecia.
Ficava só Minato.
O homem que ainda parecia surpreso com a ideia de que havia um filho crescendo ali.
— Quer sentir?
Ele já estava se levantando.
— Nem respondeu. — Kushina riu.
— Eu ia responder.
— Claro.
Minato se aproximou e colocou a mão sobre a barriga.
Esperou.
Nada.
Mais alguns segundos.
Nada.
— Acho que ele mudou de ideia sobre você. — Kushina mordeu o lábio para não rir.
— Naruto. — chamou na tentativa de obter uma resposta.
— Não adianta fazer voz séria.
— Naruto vamos lá dá uma moral pro papai aqui. — Argumentava com uma expressão claramente derrotada.
— Ele não nasceu.
— Eu sei.
— E já está te ignorando. — ria entre a palavras.
Minato olhou para ela.
— Isso é sua influência.
— Minha?
— Com certeza.
Naruto chutou. E Minato pareceu congelar no mesmo instante, Kushina pode ver o sorriso surgindo devagar, bonito quase bobo.
— Sentiu?
— Sim.
— Forte, né?
Ele não tirou a mão.
— Muito.
Kushina observou o rosto dele. O bebê chutou outra vez.
Minato riu.
Baixo.
Como se aquilo fosse um segredo entre os dois. Kushina conhecia aquele homem desde que era jovem. Conhecia o garoto estranho que havia encontrado seu cabelo vermelho no meio da noite. Conhecia o shinobi que pensava antes de falar. Conhecia o homem que sorria quando estava nervoso e ficava ainda mais calmo quando estava assustado.
Mas aquilo era novo.
Pai.
Minato ainda estava aprendendo a ser um.
Ela também.
A diferença era que Kushina aprendia reclamando. Minato aprendia fazendo listas.
— Agora termina o berço — disse ela.
Ele continuou com a mão na barriga.
— Mais um minuto.
— Você está enrolando.
— Nosso filho está se comunicando comigo.
— Nosso filho chutou sua mão.
— Comunicação.
— Minato.
— Certo — suspirou ele.
Voltou para o chão. Kushina sentou-se na pequena cadeira que tinham colocado num canto. Ou tentou.
Parou no meio do movimento. Fez uma careta. Mudou o ângulo. Tentou de novo.
Minato já estava olhando.
— Não fala nada.
— Eu não falei.
— Mas pensou.
— Também não.
— Mentiroso.
— Quer ajuda?
— Não. — Ela sentou, com dificuldade. Depois levantou o queixo, vitoriosa. — Viu?
— Vi.
— Fácil, fácil.
— Claro. — brincou ele.
— Para de concordar desse jeito.
— Que jeito?
— Irritante.
Minato riu de novo. Então voltou ao manual. Cinco minutos depois, Kushina percebeu que ele ainda estava na mesma página. Dez minutos depois, ele continuava.
Ela esperou mais um pouco.
Quinze.
— Você está perdendo para um berço. — constatou.
— Não estou.
— Está sim.
— Estou verificando as instruções.
— Faz quinze minutos.
— Prefiro fazer certo.
— São quatro tábuas.
— São mais de quatro.
— E parafusos.
— Doze.
Kushina sorriu.
— Decorou.
— Eu contei.
— Está vendo? Já está chegando a algum lugar.
Minato fechou os olhos por um instante.
— Você poderia ajudar.
— Estou ajudando.
— Está sentada.
— Supervisionando.
— Você mudou a cômoda de lugar três vezes.
— Porque você colocou no lugar errado três vezes.
— Eu coloquei exatamente onde você pediu.
— E depois percebi que estava errado.
Minato virou o rosto devagar. Kushina sustentou a expressão.
Séria.
Muito séria.
Até não conseguir mais.
— Faz parte.
Ele balançou a cabeça.
— É.
Do lado de fora, Konoha seguia barulhenta. Gente passando pelas ruas. Crianças correndo. Passos sobre os telhados. Um vendedor anunciando alguma coisa que Kushina não conseguiu entender.
Vida.
A vila sempre tinha som. Naquele quarto, porém, tudo parecia menor.
Mais próximo.
A casa.
O berço.
A barriga.
Os dois.
E alguém que ainda não tinha chegado, mas já ocupava espaço demais na vida deles. Minato encaixou uma das laterais do berço.
Kushina observou.
— Está torto.
Ele parou.
— Não está.
— Está.
— Kushina...
— Eu estou olhando daqui.
— E eu medi.
— Meus olhos são melhores que sua régua.
Minato olhou para a peça. Depois pegou a régua.
Mediu.
Kushina esperou.
Ele ficou em silêncio.
— E então?
— Dois milímetros.
Kushina abriu um sorriso enorme.
— Torto.
— Dois milímetros.
— Continua torto.
— Ninguém vai perceber.
— Eu percebi.
Minato encarou a madeira. Era uma questão de princípio agora. Kushina viu quando ele soltou o parafuso.
— Você vai refazer?
— Não posso deixar torto.
Ela começou a rir.
— Você é impossível.
— Você percebeu.
— Porque estava torto!
— Dois milímetros.
Ele olhou para ela.
Kushina sorriu.
Minato voltou ao trabalho. Dessa vez, levou menos de cinco minutos.
— Melhor? — perguntou.
Ela inclinou a cabeça. Fez questão de demorar.
Minato percebeu.
— Kushina.
— Estou analisando.
— Você está se vingando.
— Não sei do que está falando.
Ela se levantou. Foi até o berço. Passou a mão na lateral.
— Agora está bom.
— Obrigado. — Minato segurou a outra peça.
— Onde você quer colocar?
Kushina apontou para perto da janela.
— Ali.
— Não. — A resposta veio rápida demais.
Ela virou.
— Como assim, não?
— Perto da janela, não.
— Por quê?
— Frio, corrente de ar e o sol passa direto por ela de manhã. — usava seus argumentos muito bem, se do outro lado não fosse Kushina claro.
— A janela fecha e o sol pode ser bom, vitamina D.
— Dependendo da estação, não.
Kushina colocou as mãos na cintura. Ou onde a cintura costumava estar.
— Minato.
— O quê?
— É um berço.
— Eu sei. Estou sendo cuidadoso.
— Você mediu a distância da janela?
Silêncio.
Kushina estreitou os olhos.
— Você mediu.
— Só por garantia.
— Quantas vezes?
— Uma.
Ela continuou olhando.
— Duas.
Kushina respirou fundo.
— Minato.
— Três.
Ela soltou uma risada incrédula.
— Você mediu três vezes a distância de uma janela até um berço que nem estava montado?
— Segurança.
— Paranoia.
— Planejamento. — Minato segurou o manual com um pouco mais de força.
Kushina percebeu.
A piada morreu um pouco.
Não toda.
Só o suficiente. Ela o conhecia. Sabia quando ele estava apenas sendo organizado. E sabia quando estava tentando controlar alguma coisa porque não conseguia controlar o resto.
Kushina se aproximou.
— Ei.
Minato ergueu os olhos.
— Não vai acontecer nada porque o berço ficou perto da janela.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Ele demorou.
Só um pouco.
Mas demorou.
— Eu só quero fazer direito.
A voz saiu baixa. Kushina ficou quieta.
Ali estava.
Não era sobre a janela. Nunca tinha sido. Minato olhou para o berço incompleto.
— É estranho.
— O quê? — questionou ela.
— Todo mundo acha que eu sei o que estou fazendo.
Kushina soltou um som pelo nariz.
— Eu não acho.
Ele olhou para ela.
— Obrigado.
— Disponha.
Ela tocou o braço dele.
— Continua.
Minato respirou fundo.
— Na vila. Nas missões. No gabinete. Sempre tem alguém esperando que eu saiba o que fazer.
— Você costuma saber.
— Costumo ter informações e são situações que recebeu treinamento.
— Não é a mesma coisa?
— Não. — Ele olhou para a barriga dela.
— Com isso não tem relatório. Não tem estratégia. Não tem uma técnica que resolva.
Kushina deixou a mão dele entre as suas.
— Ainda bem.
Minato arqueou uma sobrancelha.
— Ainda bem?
— Imagina você criando nosso filho com um relatório.
— Eu não faria isso.
— Naruto, hoje você chorou sete vezes. Duas acima da média.
— Isso seria útil. — ele sorriu.
— Minato — esbravejou ela.
— Brincadeira.
— Não pareceu.
— Talvez uma tabela simples.
Kushina bateu no braço dele.
— Ai.
— Mereceu.
O sorriso dele ficou. Mas a preocupação também. Kushina a viu. Então segurou o rosto dele com as duas mãos.
— Escuta.
Minato ficou quieto.
— Você não precisa fazer tudo certo.
— Eu sei.
— Não. Você sabe aqui.
Ela tocou a testa dele. Depois colocou a mão no peito.
— Mas não sabe aqui.
Minato olhou para ela.
Kushina continuou.
— Nosso filho não precisa do Quarto Hokage perfeito.
— Eu não sou perfeito.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
— Kushina.
Ela sorriu.
— Ele precisa de você.
Minato não respondeu.
— Do homem que esquece de comer quando trabalha demais.
— Você também esquece.
— Estamos falando de você.
— Tá.
— Do homem que deixa livro alinhado por tamanho.
— Facilita encontrar.
— Do homem que revisa a mesma coisa três vezes.
— Evita erros.
— Do homem que mediu uma janela três vezes.
— Você prometeu esquecer isso.
— Eu nunca prometi.
Ele tentou argumentar. Kushina ergueu um dedo. Minato fechou a boca.
— Ele precisa do pai dele. Só isso.
Por alguns segundos, o quarto ficou quieto. Naruto se mexeu.
Kushina sentiu.
Minato também.
A mão dele ainda estava perto da barriga. Ele abaixou o olhar.
— Ele chutou.
— Acho que concordou comigo.
— Conveniente.
— Instinto materno.
— Claro.
Kushina sorriu.
Minato levou a mão à barriga outra vez.
— Sua mãe está usando você para ganhar discussões.
— Não coloca nosso filho no meio disso.
— Você acabou de fazer exatamente isso.
— Eu posso. Sou a mãe.
— Esse argumento vai durar até quando?
— Pelo resto da sua vida.
Minato riu.
A discussão sobre o berço terminou vinte minutos depois. Ele não ficou perto da janela. Também não ficou no lugar que Minato tinha escolhido. Foi parar numa terceira parede que nenhum dos dois tinha considerado no começo.
Kushina disse que tinha sido ideia dela. Minato não discutiu. Ele tinha interesse em continuar vivo. Depois vieram as tintas. Kushina venceu a faixa vermelha. Minato conseguiu impedir que a parede inteira fosse vermelha. Os dois consideraram aquilo um acordo justo. O laranja apareceu em detalhes menores. Uma almofada. Uma manta. Pequenas formas perto da estante. Minato escolheu as cortinas. Kushina chamou aquilo de prêmio de consolação.
Ele aceitou.
— Para a direita.
— Já está na direita.
— Mais.
— Kushina.
— Mais um pouco.
Minato moveu a pequena prateleira.
— Agora?
Ela inclinou a cabeça.
— Volta.
Ele fechou os olhos.
— Para onde estava?
— Sim.
— Eu odeio decoração.
— Você ama.
— Não.
— Está há cinco minutos ajustando uma prateleira dois centímetros por vez.
— Porque você manda.
— E você obedece.
— Esse casamento tem problemas.
— Muitos.
Ela sorriu.
Minato sorriu também. Kushina pegou o rolo de tinta.
— Agora sai.
— Por quê?
— Minha vez.
— Você não vai subir na cadeira.
— Eu não disse que ia.
— Pensou.
— Para de fazer isso.
— O quê?
— Me conhecer.
Minato riu.
— Complicado.
Ela começou a pintar a faixa vermelha. Devagar, concentrada a língua quase apareceu no canto da boca.
Minato percebeu. Não comentou, não queria a irritar. Depois de alguns minutos, Kushina afastou o rolo.
— Ficou bom.
Minato analisou.
— Ficou.
Ela olhou para ele.
— Só isso?
— O que você quer que eu diga?
— Que eu estava certa.
— Sobre a faixa?
— Sobre o vermelho.
— A faixa ficou boa.
— Minato.
— Muito boa.
— Ainda não é o que eu perguntei. — a expressão começou a ficar seria.
— Você estava certa. — Ele chegou mais perto.
Kushina abriu um sorriso vitorioso.
— Sabia.
— Sobre a faixa.
O sorriso morreu. Minato recuou a tempo de escapar do rolo.
— Covarde!
— Você está com tinta!
— Volta aqui!
— Eu não. — ria das expressões de raiva que a ruiva fazia.
— Minato!
Ele desviou outra vez. Kushina tentou alcançá-lo.
Não conseguiu. A barriga atrapalhava. Aquilo só piorou a ofensa.
— Para de usar Hiraishin dentro de casa!
— Eu nem usei.
Ela avançou de novo, ele recuou novamente, vendo-a parar e colocar uma mão na lombar fazendo uma careta.
— Ai! — reclamou.
Minato apareceu ao lado dela no mesmo instante.
— O que foi?
O que foi um erro, grave erro da parte dele. Kushina passou dois dedos vermelhos pelo nariz dele. Minato ficou imóvel e ela começou a rir feito criança e logo estava gargalhando alto, precisando segurar a barriga.
— Você caiu! — dizia entre as gargalhadas.
Minato tocou o próprio nariz. Olhou a tinta no dedo.
— Isso foi baixo.
— Funcionou.
— Eu achei que você estava com dor.
— Técnica Uzumaki.
— Você abusou da minha preocupação.
— Um shinobi usa as armas que tem.
— Contra o marido?
— Principalmente contra ele.
Minato olhou para a lata. Kushina parou de rir.
— Não.
Ele molhou um dedo na tinta.
— Minato.
— O quê?
— Nem pense.
Ele sorriu.
Kushina deu um passo para trás.
— Minato.
Dez segundos depois, havia uma marca vermelha na testa dela. A guerra começou.
Durou pouco.
O suficiente para sujar uma parte do chão. O suficiente para Minato ficar com laranja no pescoço. O suficiente para Kushina ter uma mecha vermelha ainda mais vermelha que o normal.
Quando acabou, os dois estavam sentados no chão.
Rindo.
Cansados.
Ridículos.
Felizes.
Kushina encostou a cabeça no ombro dele.
— Somos adultos responsáveis.
— Muito. — buscava o folego.
— Você é Hokage.
— Infelizmente.
— E eu vou ser mãe.
— Isso é um pouco assustador.
Ela levantou a cabeça.
— O quê?
— Você com autoridade sobre uma criança.
Kushina bateu nele.
Minato riu.
— Estou brincando.
— Melhor.
Ela voltou a apoiar a cabeça. Por um tempo, nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles nunca tinha sido ruim. Quando eram mais jovens, Kushina odiava silêncio. Silêncio parecia distância. Parecia gente indo embora. Com Minato, não. Com ele, silêncio podia ser só descanso. Podia ser conforto. Kushina olhou para o quarto. O berço estava finalmente inteiro. A cômoda tinha ficado no quarto lugar escolhido.
A prateleira continuava onde tinha começado. As cortinas de Minato combinavam com a faixa vermelha de Kushina, o que ela jamais admitiria em voz alta. A pequena raposa de pano estava no alto. As roupas esperavam dentro das caixas. Ainda faltava arrumar muita coisa. Mas já parecia um quarto. O quarto dele.
Naruto.
Só pensar no nome ainda fazia alguma coisa apertar dentro dela. Não de medo.
Não apenas.
Era grande demais. Kushina sempre sentira tudo de maneira grande.
Raiva.
Alegria.
Saudade.
Amor.
Talvez por isso a ideia de ser mãe assustasse tanto.
— Minato?
— Hm?
— Você acha que a gente vai dar conta?
Ele virou o rosto. Kushina continuou olhando para frente e pousou uma mão sobre a barriga. Minato ficou em silêncio parecia considerar tudo que podia.
— Você demorou demais. — disse ela voltando o olhar para ele.
— Estou pensando.
— Isso nunca ajuda quando eu faço uma pergunta dessas.
— Quer que eu minta?
— Depende da mentira.
— Então não.
Ela bufou.
Minato pegou a mão dela. Entrelaçou os dedos.
— Eu não sei.
Kushina virou o rosto.
— Péssima resposta.
— Mas é a verdade.
Ela quis reclamar.
Não conseguiu.
Era Minato.
Ele sempre fazia aquilo. Dizia coisas simples. Às vezes irritantes. Quase sempre honestas.
— Eu também não sei — admitiu.
A frase saiu menor do que ela queria.
Minato esperou.
Kushina respirou fundo.
— Todo mundo fala como se a mãe soubesse.
— Soubesse o quê?
— Tudo.
Ela fez um gesto vago com a mão livre.
— Segurar. Dar banho. Fazer dormir. Entender por que está chorando. Essas coisas.
— Podemos aprender.
— E se eu não aprender?
— Você vai.
— Como sabe?
Minato olhou para ela.
— Porque você não desiste.
Kushina ficou quieta.
— Isso foi bonito.
— Foi?
— Um pouco.
— Posso tentar piorar.
Ela riu.
— Idiota.
O sorriso dele ficou suave.
— Eu também estou com medo.
Kushina olhou de novo.
— Você?
— Sim.
— Não parece.
— Eu pratico.
Ela soltou uma risada curta.
— Claro que pratica.
— Faz parte do trabalho.
— Não faz parte do casamento.
— Estou descobrindo isso.
Kushina apertou a mão dele.
— Com medo de quê?
Minato olhou para o berço. Demorou mais dessa vez.
— De não estar aqui.
Ela parou.
A frase caiu no meio do quarto.
Pesada.
Minato percebeu imediatamente.
— Não quis dizer...
— Eu sei o que quis dizer.
Eles eram shinobi. Não precisavam fingir que não eram. Kushina carregava a Kyuubi. Minato era Hokage. Os dois conheciam risco. Conheciam funerais. Conheciam nomes gravados em pedra. Mas saber não tornava fácil falar sobre aquilo. Kushina segurou a mão dele com mais força.
— Então fica.
Minato olhou para ela.
— Pretendo.
— Não. Eu estou mandando.
— Ah.
— Fica.
O sorriso dele voltou.
— Sim, senhora.
— E nada de morrer heroicamente. — por um momento o tom pareceu mais sério do que deveria.
— Isso é bastante específico.
— Porque eu te conheço.
— Você acha que eu tenho tendência? — perguntou, fazia uma expressão de quem discorda profundamente.
— Minato, você se joga na frente de perigo como se estivesse indo comprar pão.
— Eu não faço isso.
Kushina apenas olhou.
Ele desistiu.
— Certo. Talvez um pouco.
— Nada de talvez.
Naruto se mexeu. Kushina colocou a outra mão sobre a barriga.
— Ouviu? Seu filho também está mandando.
Minato encostou a palma ao lado da dela.
— Ele parece autoritário.
— Puxou o pai.
— Isso definitivamente foi você.
— Negarei até o tumulo.
Ficaram ali mais um pouco.
Depois levantaram. Ainda havia roupa para guardar. Minato abriu uma caixa. Pegou uma peça minúscula.
Ficou olhando.
— O quê? — perguntou Kushina.
— Isso é pequeno.
— É de bebê.
— Eu sei.
— Você parece surpreso.
— Ele vai caber nisso?
Kushina começou a rir.
— Minato, você realmente acha que eu estou carregando uma criança de um metro?
— Não.
— Então?
— Parece pequeno.
Ela pegou a peça da mão dele.
— Você já viu um recém-nascido.
— Sim.
— E?
— Nunca foi o meu.
Kushina parou. Minato também percebeu o que tinha dito. O silêncio veio de novo. Dessa vez, quente. Kushina dobrou a roupinha.
Ou tentou.
Minato tirou da mão dela. Dobrou de novo e colocou na gaveta.
Kushina abriu outra, parou havia pequenas divisórias. Abriu a do lado e também tinha, só o que mais chamou sua atenção foram as etiquetas fraldas, roupas e mantas.
— Minato. — fechou os olhos por um instante.
— Sim?
— Você etiquetou as gavetas.
— Sim.
— Por quê?
— Acho que fica melhor pra deixar organizado. — respondeu como se fosse a coisa mais sensata a se ter feito.
Ela ficou olhando. Minato manteve a expressão séria.
— Você está orgulhoso disso.
— Um pouco.
Kushina balançou a cabeça.
— Nosso filho vai arrancar tudo.
— Colocamos de novo.
— Vai bagunçar as roupas.
— Arrumamos.
— Vai jogar brinquedo no chão.
— Guardamos.
— Vai desenhar na parede.
Minato olhou para a faixa recém-pintada.
— Isso podemos discutir.
Kushina riu.
— Não.
— Não?
— Se ele desenhar, fica.
— Kushina.
— É a parede dele.
— E a casa é nossa.
— Ditador.
— Eu sou só um pai, não ditador.
— Às vezes é parecido.
Minato sorriu.
Kushina fechou a gaveta. Olhou para a parede.
Vazia. Ela imaginou uma criança correndo pelo quarto. Pequenos pés. Cabelo loiro. Talvez vermelho. Ela tentou imaginar os olhos. Os dela? Os dele?
Talvez nenhum dos dois. Naruto poderia gostar de coisas que eles não entendiam. Poderia odiar vermelho. A ideia ofendeu Kushina.
— Ele vai gostar de vermelho.
Minato nem perguntou de onde aquilo tinha vindo.
— Claro.
— Não fala assim.
— Como?
— Como quem não acredita.
— Eu acredito.
— Mentiroso.
Ele riu.
Kushina passou os dedos pela parede.
— A gente podia marcar a altura dele aqui.
Minato olhou.
— Na parede?
— Sim.
— Acabamos de pintar.
Ela virou o rosto.
— Minato.
Ele pensou.
Dois segundos.
— Certo.
— Só isso?
— Estou escolhendo minhas batalhas.
— Inteligente.
Kushina levantou a mão.
— Aqui com um ano.
— Muito alto.
— Não é.
— Kushina, isso daria quase...
— Não começa com número.
— Mas...
— Não.
Ela subiu a mão.
— Aqui com três.
— Ele vai ser gigante?
— Uzumaki.
— Isso não é uma explicação.
— Para mim é.
Mais alto.
— Aqui quando entrar na Academia.
Minato ficou quieto. Kushina olhou de lado. Ele estava encarando a parede. Não a altura.
Alguma coisa além.
— Ei.
— Hm?
— Não faz a cara.
— Qual?
— A de Hokage.
Minato franziu a testa. Kushina tocou o peito dele.
— Não decide agora quem ele vai ser.
— Eu não estava decidindo.
— Estava pensando.
— Pensar não é decidir.
— Com você começa assim.
Ele sorriu.
Kushina continuou.
— Talvez ele nem queira ser shinobi.
— Tudo bem.
— Talvez queira vender ramen.
Minato piscou.
— Ramen?
— Por quê não?
— Nenhum motivo.
— Talvez queira desenhar.
— Na parede?
— Principalmente na parede.
— Isso parece pessoal.
— Talvez queira viajar.
— Talvez.
— Talvez queira ficar aqui.
Minato olhou para ela.
— Talvez.
Kushina baixou a mão.
— Seja o que for...
Ela não terminou. Minato terminou por ela.
— A gente vai estar aqui.
Kushina sorriu.
— É.
A resposta pareceu suficiente. Naquele momento, era.
O sol começou a baixar. A luz atravessou a janela e deixou o quarto dourado. Algo que Kushina gostou.Não comentou que talvez Minato tivesse razão sobre a posição do berço. Algumas vitórias precisavam morrer em silêncio. Ela pegou a raposa de tecido da prateleira.
Deu dois passos para trás. Olhou. Mudou de lugar. Deu mais dois passos. Mudou de novo.
Minato observou.
Não disse nada.
Kushina percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você está julgando.
— Não estou fazendo nada, só esperando ela mudar mais umas seis vezes de lugar.
Kushina olhou para o brinquedo. Depois para ele.
— Quatro.
— Quer apostar?
— Não.
— Então seis.
Ela pegou a raposa. Mudou novamente.
Minato começou a rir.
— Cala a boca.
— Eu não falei nada.
— Está rindo igual um idiota.
Ele parou.
Kushina também.
Os dois se olharam.
A frase.
A mesma do começo da tarde. Kushina começou a rir primeiro.
Minato acompanhou.
Alguns minutos depois, ela se apoiou na cômoda.
Cansada.
Minato percebeu.
Claro que percebeu.
— Senta.
— Estou bem.
— Kushina.
— Não usa sua voz de Hokage comigo.
— Voz de marido.
— Ah, essa é ainda pior.
Mesmo assim, sentou. Minato trouxe água.
Ela bebeu.
Ele arrumou uma manta que não precisava ser arrumada. Kushina o observou.
— Você não para.
— Tem coisa para fazer.
— O quarto não vai fugir.
— Eu sei.
— Senta.
Minato obedeceu sentou-se no chão ao lado dela e apoiou a cabeça sobre as pernas dela.
O quarto estava quase pronto.
A pequena raposa. As cores que Kushina escolheu. A organização exagerada de Minato. Tudo ali tinha um pouco dos dois.
E, de algum jeito, já tinha Naruto também. Kushina olhou para o berço.
Vazio.
Aquilo incomodou.
Ela não sabia explicar por quê. Talvez porque todo o resto já estivesse ali.
Menos ele.
— Está faltando alguma coisa.
Minato olhou ao redor.
— O quê?
— Não sei.
Ele começou a contar.
— Berço.
— Sim.
— Cômoda.
— Sim.
— Roupas.
— Muitas.
— Fraldas.
— Mais ainda.
— Mantas.
— Sua lista está aparecendo de novo.
— Brinquedos.
— Estranhos.
— Você escolheu metade.
— Continuam estranhos.
Minato olhou para ela.
— Então o que falta?
Kushina pousou as duas mãos sobre a barriga. A resposta veio antes que pudesse pensar.
— Ele.
Minato ficou quieto.
Kushina também.
Era isso.
O quarto estava pronto para alguém que ainda não estava ali. De repente, tudo pareceu muito real.
Em pouco tempo Naruto estaria naquele berço. Chorando. Dormindo. Talvez não dormindo, se puxasse Kushina. Minato levantaria no meio da noite várias vezes. Ela também. Eles brigariam para decidir quem estava mais cansado. Provavelmente os dois perderiam.
Naruto cresceria. Arrancaria as etiquetas. Sujaria as paredes. Espalharia brinquedos.
Correria pelos corredores. Chamaria por eles.
“Mamãe!”
"Papai!”
Kushina sentiu o peito apertar. Minato se levantou. Ficou atrás dela. Passou os braços ao redor de sua cintura com cuidado.
A barriga já tornava o abraço diferente.
Não pior.
Só diferente.
Kushina encostou nele. Os dois olharam para o berço.
— Minato?
— Hm?
Ela demorou.
— Você acha que ele vai gostar?
— Do quarto?
— De tudo.
Minato ficou em silêncio. Kushina olhou para a faixa vermelha.
— Das cores.
— Vai.
— Você não sabe.
— Você quer que eu diga que não?
— Não.
— Então vai.
Ela cutucou o braço dele.
— Idiota.
— Você perguntou.
Kushina sorriu.
Mas não era aquilo.
Minato percebeu.
Ele sempre percebia.
— O que foi?
Ela passou a mão pela barriga. Naruto estava quieto agora.
— Você acha que ele vai saber?
— Saber o quê?
Kushina engoliu em seco. A pergunta parecia boba.
Não era.
— Que a gente esperou por ele.
Minato apertou um pouco mais o abraço.
Ela continuou.
— Que esse quarto não apareceu pronto.
— Considerando o tempo que levei no berço, espero que ele saiba.
Kushina riu pelo nariz.
— Quatro horas.
— Duas.
— Quatro.
— Duas e meia.
— Você ficou quinze minutos olhando uma página.
— Eu estava estudando.
— Sei.
— Kushina.
Ela sorriu.
Depois o sorriso diminuiu.
— Quero que ele saiba.
Minato ficou sério outra vez. Kushina olhou para o quarto.
— Que a gente pensou nele antes de conhecer o rosto dele.
A voz saiu baixa.
— Que eu briguei por causa da cor.
— Isso ele vai descobrir rápido.
— Que você mediu aquela janela três vezes.
— Você prometeu esquecer.
— Continuo sem ter prometido.
Minato encostou o rosto no cabelo dela. Kushina respirou fundo.
— Que ele foi desejado.
Pronto.
Era isso.
A palavra ficou entre eles.
Desejado.
Naruto ainda não tinha visto o mundo. Ainda não tinha chorado. Ainda não tinha aberto os olhos. E já era amado de uma maneira que assustava. Kushina nunca soube amar pouco. Minato também não. Só escondia melhor. Ela virou o rosto o suficiente para vê-lo.
— Você acha que ele vai saber?
Minato olhou para ela. Depois para o berço. Depois para a barriga. A mão dele cobriu a dela.
Naruto se mexeu.
Uma vez.
Pequeno.
Presente.
Minato sorriu.
— Ele vai saber que é amado.
Kushina fechou os olhos. A frase entrou fundo. Mais fundo do que deveria. Talvez porque fosse simples.
Talvez porque Minato não dizia coisas assim sem acreditar. Talvez porque, por um instante, Kushina sentiu medo. Um medo sem nome.
Rápido.
Idiota.
Ela empurrou para longe.
— Promete?
Minato virou-a devagar para ele. Olhou nos olhos dela. Não como Hokage. Não como o homem que toda Konoha procurava quando alguma coisa dava errado. Só Minato. O garoto que um dia seguiu seus fios de cabelo vermelho. O homem que ainda fazia listas demais. O pai que tinha levado duas horas e meia para montar um berço.
— Prometo.
Kushina o abraçou.
Forte.
Minato riu baixo.
— Cuidado com a tinta.
— Cala a boca.
Ele a abraçou de volta. Ficaram assim por alguns segundos. Talvez minutos. Não importava.
O quarto estava quente pela luz do fim da tarde. A parede tinha vermelho. As cortinas eram claras. A cômoda tinha etiquetas que não sobreviveriam a uma criança.
A raposa de pano estava torta na prateleira. O berço estava no lugar que nenhum dos dois tinha escolhido no começo. Tudo parecia certo.
Imperfeito.
Mas certo.
Quando a noite chegou, Kushina voltou ao quarto antes de dormir. Só para olhar. Minato apareceu atrás dela.
— Você vai mudar a raposa de lugar de novo?
— Talvez.
— Eu sabia.
Ela bateu de leve no braço dele. Depois apoiou a mão no batente da porta. O quarto estava escuro, menos pela luz do corredor. O berço parecia ainda menor.
Kushina imaginou Naruto ali. Pela milésima vez naquele dia.
— Boa noite, Naruto.
Minato olhou para ela. Depois para o quarto.
— Boa noite.
Kushina sorriu.
Minato fechou a porta.
Devagar.
E o quarto ficou esperando. Esperando pelo menino para quem havia sido feito.
Esperando choro.
Passos.
Brinquedos no chão. Desenhos na parede.
Etiquetas arrancadas.
Noites em claro.
Aniversários.
Marcas de altura. Esperando uma vida inteira. Naruto nunca se lembraria daquela tarde. Nunca saberia que a mãe tinha ameaçado o pai com um rolo de tinta.
Nunca veria o vermelho no nariz de Minato. Nunca ouviria os dois discutindo por dois milímetros de madeira. Nunca saberia quantas vezes seu nome tinha sido dito naquela casa antes mesmo de nascer.
E aquele quarto jamais veria tudo o que Minato e Kushina imaginaram para ele. Não daquele jeito. Não com os três juntos. Mas isso ainda não existia para eles.
Naquela noite, o futuro não era uma tragédia. Era só futuro.
Um quarto.
Um berço.
Uma parede vermelha. Duas pessoas cansadas, felizes e com medo. E um menino que ainda não tinha chegado. Mas que já tinha casa.
Já tinha nome. Já tinha lugar. E, acima de tudo, já tinha amor.
Fim!
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