O Quarto Impossivel

1 Capítulo 1 - O Corpo


Se me perguntarem o que estou fazendo em um quarto com um cadáver esticado em cima da cama ao meu lado, eu não poderia dar uma resposta objetiva pra isso, afinal, ao abrir meus olhos eu mal tive tempo de ter uma reação inesperada, fui presenciado com aquela mulher de cabelos negros longos pálida e estática como se fosse minha companheira. Até onde eu me lembro, não tenho um relacionamento sério a mais de três anos e já faz mais ou menos um ano ou mais que também não durmo com ninguém, então a possibilidade disto estar acontecendo na realidade era quase nula, um sonho era a explicação mais sensata, mas de fato eu sabia distinguir quando estava dormindo de quando estava acordado. Não iria fazer a cena clichê em que eu fecharia meus olhos tentando acordar, aliás, isso de alguma forma funcionaria? Por algum tipo de impulso, toquei sua pele branca, eu não podia ouvi-la respirando, pensei comigo mesmo: Que tipo de reação é essa de alguém que acabou de acordar no quarto de um hotel fazenda com uma mulher supostamente morta ao seu lado? Claro que eu não sabia dizer se ela estava mesmo morta, ao olhá-la pela primeira vez meu coração acelerou e senti minhas pernas ficarem moles, talvez fosse medo de aquilo ser alguma entidade, mas logo que percebi que se tratava de um ser humano, consegui manter a calma, e mesmo assim, não pude ter uma reação mais humana, talvez eu tivesse ficado acostumado com aquela mulher do meu lado, mas ao verificar que sua pele estava fria como gelo, percebi que as chances dela estarem mortas eram maiores. O que um cadáver fazia na cama onde eu dormia? Antes de pensar em inclinar meu corpo e sair dali, olhei para a porta. A chave estava na fechadura do lado de dentro, forcei minha mente para me lembrar o que eu havia feito ao de me deitar, mas antes, uma olhada breve no relógio do celular me fez perceber que não havia se passado nem uma hora desde que eu havia repousado. Devo ter dormido imediatamente.

Eram 24:03 da noite de quarta-feira em Serra Negra, São Paulo. A luz ofuscada do lado da cama era a única coisa que me fazia enxergar a mulher, comecei a questionar minha sanidade, não pelo fato de estar enxergando algo que não seria possível, mas por não sair correndo ao ver uma pessoa deitada ao meu lado em meio a penumbra do quarto. Qualquer pessoa teria caído da cama aos berros e arrebentado a porta para sair. De fato eu não fiz isso porque estava com medo demais para se quer conseguir levantar, eu sabia que não era um sonho, mas ao perceber a pessoa supostamente morta, também não senti que aquilo me causaria perigo, foi só então que abri completamente meus olhos, minha cabeça começou a clarear do estado de transe em que estava. Ok, vamos rever tudo com calma. Há uma mulher de aproximadamente quarenta anos do meu lado, vestindo apenas uma camisola, ela tinha cabelos negros aparentemente pintados, sua pele parecia sedosa e conservada, seu corpo magro mostrava que não era consequência de uma fraca dieta, mas sim de sua genética, ela não devia ter nem um e sessenta de altura, se não fosse por sua face, lhe daria uns vinte e cinco anos no máximo, tudo bem que ela poderia ter isso e eu estar julgando de maneira precipitada. Eu finalmente havia conseguido me levantar, mas não sabia o que fazer. Olhei para a janela, depois de muito tempo sem reação, ela estava fechada, trancada com os trincos do lado de dentro. Minhas pernas tremiam mas eu conseguia me manter em pé, acendi a luz principal do quarto, pude perceber mais claramente como aquela mulher era, parecia ser muito bonita em vida, e esse em vida, conscientemente, já me fez pensar que eu sabia que aquilo era de fato, um cadáver. Eu pensei em pegar o telefone e chamar a recepção, mas ao tocar no gancho, comecei a pensar o que eles iriam supor ao ver tal cena. Uma mulher morta na cama de um rapaz de 30 anos. Eu estava em um hotel fazenda, no dia anterior, depois de uma breve andada pelos arredores, percebi que haviam pelo menos 12 hospedes naquele hotel, tirando os funcionários. Eu não havia visto essa mulher entre eles, nem entre os funcionários, no caso, ela tinha que estar hospedada no hotel para estar aqui, morta em meu quarto. Primeiro que não seria possível ela ter entrado sem pagar, segundo que ela entrou em meu quarto, mas como? A portava estava trancada, eu comecei a temer uma crise séria de dupla personalidade ou amnésia, mas sabia que não era isso, seria esquizofrenia? Eu podia finalmente, estar louco? Não, se esse fosse o caso, eu não estaria pensando nessas possibilidades, estaria? De toda forma, ao ver tal cena, a polícia iria me mandar direto pra trás das grades, não haveria advogado para me ajudar em um crime onde não parece haver dúvidas do culpado. Ela estava em meu quarto esticada na cama, provavelmente minhas digitais já estavam nela, não havia como mudar essa situação. Se eu fosse um investigador de polícia, por mais novato que seja, iria claramente bater o martelo me colocando como culpado, e havia outra hipótese? Claro que poderia haver outros caminhos, como ela ter entrado em meu quarto depois de tomar veneno e se deitado do meu lado, ou então alguém tê-la trazido pra cá já morta, mas quão possível era isso? Primeiro que eu havia trancado a porta do quarto, se eu falasse isso, seria minha sentença final, mas na realidade, foi o que aconteceu. Juro que havia trancado a porta, e as únicas pessoas que devem ter outra chave são os funcionários (?) Então ela podia fazer parte do quadro de funcionários, alguém do turno da noite. Sim, só podia ser isso. Ela tomou algum tipo de veneno e entrou em meu quarto, talvez quisesse morrer ao lado de outra pessoa, isso seria conveniente demais. Comecei a sentir um frio descomunal na espinha, estava quase chorando, sendo totalmente racional, as chances dessas possibilidades para me safar eram remotas, mas eles não tinham provas contra mim, tinham? O fato dela estar morta em minha cama não prova nada, e deve haver câmeras no corredor! Eu não podia esperar mais para verificar, abri a porta rapidamente e olhei para os dois lados do corredor, havia uma câmera no final do corredor que dava para a recepção. Então eu estava salvo? As câmeras poderiam ter filmado, mas o fato de que ela entrou viva em meu quarto já era outra coisa. Se ela entrou viva, as chances de eu tê-la matado aumentavam gradativamente. Um crime passional, era o que diriam. Não havia chances de não ser incriminado

O que eu faria então? Se chamasse os funcionários, seria incriminado. Se não dissesse nada, alguém acabaria descobrindo cedo ou tarde. Eu não tinha alternativas, minha vida devia estar acabada no momento em que pisei naquele hotel. O que pretendia tornar uma semana de descanso agradável, para a ruína da minha vida. Não, eu não fiz nada, não tem porque ter medo, a polícia tem como descobrir se fui eu que a matei ou não, aliás, analisando melhor o corpo, ela não ter marcas ou sinais de ter sido assassinada, então só posso supor que foi algum tipo de veneno que ocasionou sua morte, ou isso, ou alguma parada cardíaca, mas essa segunda opção seria uma brincadeira com minha pessoa. Eu saí no corredor pois não conseguia ter psicológico para me manter firme naquele quarto com uma pessoa morta, olhei novamente o final do corredor direito, a câmera estava apontada pras escadas, não tinha como verem em qual quarto ela entrou. Me afogando em falsas esperanças, dei alguns passos para frente, eu sabia que o quarto na frente do meu não haviam hóspedes, ao menos até o momento em que entrei em meu quarto nove da noite, seria improvável alguém ter entrado depois, e mesmo se tivesse alguém eu não me importaria, movi minha mão até a maçaneta para verificar se estava aberta. Pensei rapidamente na possibilidade remota daquele quarto estar aberto, e não tendo ninguém lá, isso poderia me salvar, se eu colocasse aquele corpo na cama e fechasse a porta, ninguém poderia saber que fui eu, exceto por ter minhas impressões digitais no corpo. Merda, o que diabos eu fiz? Um erro crucial, e isso me doeu mais ainda quando vi o improvável acontecendo. A porta se abriu. Era possível isso? Uma abertura para minha salvação, mas como eu faria no caso das impressões digitais? Meu alívio se tornou um desespero porque eu precisava fazer isso logo, mas ao analisarem o corpo dela, vão descobrir que eu o toquei, ao menos que, eu toque deliberadamente com todos me observando. Tinha que ser isso. Eu não podia mais perder tempo, suava frio e tinha medo que alguém pudesse aparecer, mas isso seria a segunda pegadinha do destino contra minha pessoa, se isso acontecesse, eu diria que pode ser algum tipo de brincadeira mesmo, se não de algum parente tentando me pregar uma peça com câmeras escondidas pelo local, então do próprio Deus.

Entrei em meu quarto e deixei a porta aberta, eu precisava fazer um movimento rápido, levar o corpo da minha cama para o quarto da frente em menos de trinta segundos e sem fazer barulho, eu mantive a porta do quarto 17 aberta, acendi a luz e me apressei, segurei a mulher sem tocar sua pele, queria evitar o maior número de contato possível, ela era leve como pluma, vendo mais de perto e com a luz toda a clareando, notei que era linda, mas por que ela foi decidir se matar justamente em minha cama? Eu não perdi tempo com pensamentos superficiais e a coloquei na cama no quarto da frente, tentei fazer tudo sem nem piscar, mas no momento em que ia saindo do quarto, meu coração saltou de minha boca ao ver uma mulher me olhando do quarto que ficara ao lado do meu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.