O Quarto
1 Único
Notas iniciais
Ú N I C O
Há muito tempo, pessoas contam coisas sobre uma tal casa, situada numa tal rua, onde morou um tal alguém de quem ninguém nunca soube muita coisa. As pessoas contam que lá nessa tal casa existe um tal diário, escrito pelo tal alguém de quem ninguém nunca soube muita coisa.
Boatos, fofoca, não importa realmente, mas o fato de a tal casa ficar numa daquelas cidadezinhas que você nem sabe onde fica – situada entre Lugar-Nenhum e Onde-Judas-Perdeu-As-Botas –, se é que fica mesmo em algum lugar, tenha ajudado a causar tanto tumulto.
Mas sejamos bem honestos, eu e você sabemos que tudo isso não passa de um monte de bobagens de cidadezinha do interior, mas houve um jovem uma vez que decidiu acreditar naquilo tudo, e resolveu desvendar o mistério do tal homem de quem ninguém nunca soube muita coisa.
É sobre esse jovem que vamos conversar.
Mas isso foi há muito, muito tempo...
Mas é claro que aquilo era intrigante – não poderia ser de outra forma –, o problema é que existem certas coisas que não devemos questionar. Exemplo: se alguém, do nada, decidisse entender por que o céu é azul e não amarelo, ou cor-de-rosa, com certeza acabaria enlouquecendo. Talvez você esteja começando a entender, mas não se esqueça de que as coisas nunca são o que parecem.
O jovem de que falei há pouco não teve dificuldade alguma para encontrar a tal casa, muito menos o diário do tal homem de quem ninguém nunca soube muita coisa; suas dificuldades se resumiram a: a) encontrar a cidadezinha e b) descobrir um jeito de sair dela.
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Você faz alguma idéia de onde é que está se metendo? Acredito que não. Por que penso assim? Ora, espere e verá. Só há uma coisa a dizer antes de prosseguir: você, ao fim da história, terá duas opções; me odiar por, ou me adorar, para o resto de sua vida infame.
Não é o primeiro cara a se interessar por minha história, esteja certo, e com certeza não será o último, contudo, cada pessoa tem seu jeito próprio de encarar e distorcer a realidade e é justamente isso que o torna único.
A essa altura você já deve estar todo borrado, não é mesmo? Que pena, pois nós nem começamos ainda, sabia? Aconselho a você que se limpe antes de continuarmos. Bem, você deve estar pensando em como é que eu faço isso; como sei que está com medo e tudo mais. Eu até poderia contar agora, mas para quê estragar a surpresa? Você está curioso demais para fechar o meu diário e com medo demais para ir embora, e eu, bem, eu não vou a lugar algum mesmo.
Espere e verá.
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Enquanto lia, o jovem pensou em uma porção de coisas; em como aquilo era possível, se aquilo era possível, se era só mais alguma brincadeira idiota, etc. Fosse o que – e como – fosse, ele não conseguia parar de ler, nem de pensar que o diário estivesse vivo ou coisa assim.
Ele era impetuoso, saíra de muito longe em busca de respostas e não sairia dali sem elas, custasse o que custasse.
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Ora, meu rapaz, não adianta procurar pelos cantos da casa, eu não pretendo aparecer assim tão depressa. Então é melhor parar de olhar as minhas coisas e começar a ler essa porcaria.
Você queria respostas, não queria? Não viajou quilômetros em busca de um joguinho novo e emocionante? Então é hora de começarmos a jogar. Ao contrário de mim, você não tem o dia todo.
Sabe, as pessoas daqui nunca foram com a minha cara, por isso nunca deixei que soubessem muita coisa sobre mim. Mas você, bem, você é diferente delas; bem parecido comigo, se é que quer saber. Ah, não precisa fazer essa cara de espanto e desprezo, não sou alguém ruim, só alguém especial.
Tudo começou quando eu tinha uns dezoito anos, mais ou menos – a sua idade hoje, a propósito –, quando comecei a perceber que não era – nem nunca tinha sido – como as pessoas daqui. Estava terminando a escola e todos zombavam de mim, foi quando decidi pregar minha primeira peça. Algumas horas de estudo, um pouco de gasolina, um monte de adolescentes bêbados, e pronto. Estava acabado. Bem, eu sei que contando assim parece que não tenho coração, mas é que elas mereceram, entende?
E depois desse incidente explosivo – literalmente – comecei a aperfeiçoar minha técnica; a idéia inicial não era matar todo mundo, só dar uma lição neles. O fato é que estão mortos agora; melhor para eles. Sim, sim, meu rapaz, melhor para eles; dei-lhes uma chance e eles desperdiçaram, a culpa não é minha.
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O jovem quis deixar o diário ali e ir embora, mas quem quer que fosse aquele homem o estava fazendo pensar, e pensar demais conduz algumas pessoas ao completo desengano. Agora, pelo menos, ele sabia – ou pensava que sabia – que não se tratava de um monte de boatos, mas aquilo não o confortava.
Não se tratava apenas de loucura, era alguma coisa bem maior.
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Bem, estamos quase no final da história, e você ainda não desistiu nem se assustou de verdade, meus parabéns. Mas falta uma coisinha, não é mesmo?
Não seria decepcionante se agora, depois de contar tudo isso a você, não mostrasse quem eu sou? Eu sei que seria, e eu detesto decepcionar meus admiradores. Disse, no inicio dessas páginas, que ao final da história você me odiaria ou adoraria para o resto da vida.
Se estivesse me odiando já teria ido embora, portanto, devo acreditar que me adora agora. E como não costumo me enganar, sugiro que suba as escadas e abra a segunda porta à esquerda, tenho uma surpresa para você.
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Junto ao corpo, eles encontraram o tal diário, quase uma semana depois daquele jovem – supostamente violento e supostamente louco – fugir da casa de repouso da cidadezinha. Os policiais concluíram que o diário pertencia ao jovem fugitivo, e que deveria ser algum tipo de justificativa para seu suicídio – um surto esquizofrênico ou coisa do tipo –, mas ninguém nunca soube muita coisa sobre aquele jovem, ou sobre aquele diário ao lado de seu corpo, ou sobre qualquer outra coisa naquela tal casa.
Isso aconteceu há muito, muito tempo, e ninguém nunca soube com certeza o que aconteceu de fato. As pessoas da tal cidadezinha continuaram inventando histórias sobre todo o tipo de coisa, e logo se esqueceram das lições que aquele tal homem lhes deu.
Os mortos estavam enterrados, e o diário ainda estava onde fora encontrado da primeira vez. E continuaria ali, passasse o tempo que passasse.
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