O Pós-Escrito
1 Capa preta
Notas iniciais
Tamborilava... terek... terek...
Um homem passou com uma bandeja de metal na mão.
Tamborilava... Dedos macios e finos...
O homem repousou um vinho tinto de muito tempo atrás, não se pode ler o ano.
Baque leve e contido... Unhas vermelhas enfeitavam a mão furiosa...
Olhar é difícil demais, olhar em volta é muito mais fácil.
Um lábio apertado sobre o outro, lábios rubros e finos...
Olha só, servem camarão.
Mão pequena sobre o rosto fino, o nariz cada vez mais arrebitado...
Aquele garçom deve estar paquerando a mulher! Não é possível que demore tanto para dizer o cardápio e os apelos do chefe.
Olhos esmeraldinos... Talvez frios como diamante. Queimava algo impaciente neles...
-James, pode prestar um pouco de atenção no que falo?! – se exaltava, ainda que falasse baixo, sua descompostura não era imperceptível. Olhou em volta e cobriu com a mão uma parte da face.
Responder seria inútil. Mas ela quer que eu olhe nos olhos dela... Estava melhor cutucar com o garfo as variedades do prato, talheres brilhantes, parecem ser feitos de prata...
-Olha para mim James! – quase rosnava.
Não sei o que dizer agora... Talvez se eu mudar o rumo...
-Rosália, já disse o quanto linda você fica envolta destas rosas? – mexia com o indicador a boca da taça vazia.
-Recordo muito disso, porem tu me presenteava de forma mais romântica. – impassível, já havia percebido a tentativa de mudar de assunto.
Não parece ter funcionado... Mais romântico? Não estou sendo romântico?... Ótimo, é um jantar a luz de velas, o que poderia ser mais romântico?
-Fala de joias? – olhos pétreos e cabisbaixo – Quando eu podia dar-lhe joias...
-Novamente este olhar cansado James. Você não se esforça nem um pouquinho.
-Não estamos tendo um encontro?
-Era para ser! Porem tudo ficou tão entediante que até eu esgotei meus assuntos.
-Ouvi-la reclamar do trabalho, do quanto lhe colocam pressão não é exatamente excitante...
-Antes não precisava, agora tenho que levantar sua moral todo momento! – falava com sinais discretos de raiva.
Sim... Antes era mais fácil. Eu girava a caneta, apanhava uma folha de papel e jogava tinta de um lado a outro, polindo linhas e entrando no “buraco da pagina” como diria Stephen King, escutava Vamps, e berrava as letras nas partes emocionantes da musica, outras vezes a musica não existia, o mundo não existia, tudo parecia distante, não era mudo, somente emitindo um som surdo. Parecia fácil, olhava artistas jovens de sucesso, olhava suas obras e acreditava piamente que possuía um dom muito maior que o deles, de desdobrar filosoficamente ou até fantasiosamente um tema qualquer. “Por que você fez contabilidade?”, era evidente e claro como a água, para não se dizer como a aurora que permeia os cabelos de minha furiosa amada... Que ainda está me encarando...
-Você não se lembra, não é? – seu olhar era de indignação, como se fosse uma esposa perguntando do dia que nos conhecemos, seguida de um longo e cansado suspiro.
-Vamos relembrar memórias do passado então? – olhou para ela, o olhar ficava mais agressivo que surpreso, ele recuou um pouco na cadeira, depois se ajeitou nela varias vezes.
Como eu era antigamente? Acho que era mais feliz, porem eu não sabia. Achei que poderia fazer qualquer coisa, achei que seria um dono do mundo, e de fato eu não estaria errado, porem algo deu errado... Mas não é isso que ela quer saber... Eu me lembro de como éramos?
Cabelos loiros como... Como os primeiros raios da aurora! Sim, ela era linda, não digo isso como todo homem apaixonado que se devota a fazer-se acreditar que sua amada é bela, eu não precisava me convencer disso, ela era formosa como Shakespeare declarava pela boca de Romeo. Sentia que se lhe beija-se sua mão ou estaria purificando meus lábios ou estaria maculando sua linda e pálida pele, porem não declarei como faria na cena da festa do Capuleto. Eu era tímido demais para isso, um tolo com livros na bolsa e um rostinho que devo a minha progenitora, pois meu pai... Eu era bonito.
Ela não estava distante, não, de forma alguma. Apanhava livros junto ao peito, justapostos ao seu corpo de boneca que conhecidos chamavam de varapau, a mim era como uma princesa, não havia encantos abundantes que me fizessem ver nela menor formosura. Rosália não estava distante pois carregava consigo um livro, por Zeus, não era Os olimpianos, pelas fadas da floresta, não era O amanhecer, ela não estava tão distante que era correr ou morrer. A capa negra me deixara curioso enquanto eu a observava, como se não fosse suficiente sua beleza extraordinária, da qual parecia ser prole de Feanor e Galadriel, porem o livro era tudo. É semelhante quando uma garota colegial quer saber as musicas do garoto por quem ela está interessada, tudo na melhor intensão de se informar e até mesmo, talvez comprar uma camisa da banda favorita dele, evidentemente usando-a, no intuito de chamar-lhe a atenção. Aquilo que ela espremia no peito significava algo mais forte, algo que diria: Ela é uma leitora de livros diferenciados? Aqueles apreciados por mim e um séquito de geeks que perambulam faculdades voltadas à informática.
Quando foi que falei com ela?... Era isso que eu deveria me lembrar... Bem, eu estava preocupado. Ela era como um narciso entre as buvardias. Seria terrível se olhasse outro livro da coleção de Lisboa, no qual não se julga capa ou sinopse, fins de estudo, os piores estudos.
Era quando eu começava querer bater no material dela para saber que livro segurava que finalmente, ela sentou-se em uma cadeira do refeitório, chegara cedo demais, seu séquito de amigos não estava ali, ela não queria perder tempo. Suas mãos pequeninas apanharam a bolsa e repentinamente emergiu uma capa negra, um reflexo de luz sobre letras vermelhas. Não conseguia ler, não sabia o que estava escrito, me lembrei de amaldiçoar a editora do livro que o fizera, e evidentemente torcia com todos os diabos que aquela noite não fosse noite de lua nova...
Não tinha jeito, fui até o caixa fazer meu pedido. Eu disse: Qualquer coisa! Por resposta o rapaz que me atendia, muito calmamente me respondeu que não tinha como anotar este tipo de pedido, falou da seguinte maneira: Vai se foder! Acha que o cardápio tá na parede por quê? Tem uma lista aqui, porra!
Não tendo jeito pedi um café. Aí eu me lembrei de que um café não era algo do qual necessitava de uma mesa para se consumir, então eu voltei para fila e meu tempo estava acabando. Quando cheguei ao educado atendente que sorriu agradavelmente, fui rápido e fiz um pedido, pedi um salgado assado, e até mesmo um molho. Vendo ao distante a mesa que parecia cada vez mais próxima, ali, com ela sentada, lembro-me de ter pensado na honra que tinha aquela cadeira que tantas pessoas assentaram, nela ter agora o anjo da aurora. Lembrei-me de Shakespeare novamente, e tentei esquece-lo. Ele não poderia ser mais inconveniente. As mulheres modernas o detestam.
Eu engolia em seco, transpirava. Eu tentei me acalmar. Qual é cara? Você nem tem certeza! E se esse livro for mais um... Daqueles...
Lembro-me de ter visto um sorriso no rosto dela. Minha mente me perturbava, fiquei imaginando quantos tons de cinza havia naquele casaquinho, nela ficava belo, mas também... Perturbador... A capa do livro era preta afinal!
Digo perturbador, por algo aterrorizante. Algo como quando uma garota toda alternativa, atrai para si o olhar interessado de um rapaz, até que este a encontra lendo Lemon... Ai ele perde todo o encanto...
Eu havia sentado, na mesa, era obvio que lhe perdi permissão, porem ela estava distante, estava concentrada, não me escutando, foi quando me escorando um pouco para o lado como todo curioso e olhando o livro...
Eu havia me surpreendido, eu havia me apaixonado no mesmo instante... Ela havia erguido os olhos, finalmente volvendo sua atenção a mim, olhos esmeraldinos, parecia ter sangue ancestral, parecia que iria citar Ithlinne a qualquer momento.
Eu havia juntado minhas coisas e me retirado, isso conseguinte de ter avistado o séquito de amigos que ia na direção dela naquele momento.
Fale com o autor