O Pórtico do Mal
1 Capítulo 1
Essa história que vou contar agora aconteceu a muito, muito tempo atrás. Tempo em que havia dragões e Trolls espalhados pelas montanhas, Orcs e criaturas rastejantes nas cavernas, Duendes e Goblins nas florestas e uma infinidade de outras criaturas vivendo com os humanos. Tempo em que era comum andar de cavalo e as lutas eram com espadas e arcos. Tempo em que havia heróis para defender as donzelas e os mais fracos dos monstros malvados. Tempo em que se podia fumar um cachimbo com um Duende na floresta, ou esbarrar com um Mago (muito improvável na verdade, pois são ou eram raríssimos). Um tempo em que tudo era bem diferente de hoje em dia.
Bom, acho que não há melhor forma de começar a contar uma história do que pelo começo, então vamos lá...
A nossa história começa na vila Listrabon, uma pequena vila ao Sul do mundo. Você provavelmente nunca ouviu falar dela, e receio que pouca gente tenha. Era uma vila realmente muito pequena, quase uma aldeia. Tinha poucas casas, além de um mercado, um padeiro, um moinho e uma estalagem (pouca usada, pois a vila não recebia muitos visitantes). Mas mantinha seu comércio bem ativo, vendendo abóboras para a cidade de Kuldran, a mais próxima da vila (uma hora de caminhada e bem menos a cavalo). A estrada que levava a Kuldran era de terra e cercada por árvores, assim como a vila Listrabon, pois era uma floresta e, como você bem deve saber, florestas têm árvores. Árvores essas que estavam bem coloridas no momento, por ser meados do Outono. A estrada estava realmente um espetáculo de beleza, como ficava todos os anos nessa época, com folhas coloridas espalhadas por todo lado, fazendo um tapete lindo para os olhos.
E para essa estrada estavam direcionados os olhos de Herman naquela tarde. O garoto magro de 16 anos não conseguia parar de olhar a estrada, enquanto esperava seu amigo Amandor chegar. Ele fitava-a quase sem piscar, esperando ver cavalo e cavaleiro fazendo a curva e surgindo de repente. Mas o Sol já ia se pondo e nada dele. Herman começava a ficar preocupado de que Amandor pudesse não aparecer. Amandor era cavaleiro do rei em Kuldran, e todas as quintas feiras a tarde vinha visitar o menino. Ele tinha uma ligação forte com ele: tinha jurado para seu amigo Thorn há 16 anos atrás, quando este morreu em uma batalha contra Orcs, que cuidaria de sua mulher Bela e do filho que essa esperava. Esse filho era Herman. Desde então ele sempre visitava a vila toda semana e cuidava para que não faltasse nada para os dois.
Mas parecia que nessa tarde ele não viria. As primeiras sombras da noite já começavam a tomar a floresta e o tempo começava a esfriar, mas nenhum sinal dele na estrada, o que deixava o menino preocupado. Herman vivera os 16 anos de sua vida ao lado de sua mãe, preso naquela vila, embora fosse contra sua vontade. Herman queria ser um aventureiro ou um grande guerreiro, assim como o pai, mas a ideia de perder também seu filho era assustadora demais pra a mãe dele. Com isso, Herman vivia plantando abóboras e ajudando o lenhador Holfen a derrubar árvores, dia após dia. O mais longe que ia da vila era até Kuldran, e mesmo assim poucas vezes, pois sua mãe não gostava que fosse sozinho. Privado desse jeito das aventuras que tanto queria, Herman só podia se contentar com as histórias que Amandor contava à ele. Por isso estava tão desesperado com a ideia de que ele não fosse aparecer. Em 16 anos, Amandor nunca faltara uma vez sequer as visitas, mas parecia que hoje seria a primeira vez. A noite chegou e Herman continuou esperando. Mesmo depois de sua mãe gritar umas 3 vezes para que entrasse, ele continuou esperando... Mas é claro que Amandor não apareceu. Ele achava que algo de muito grave deveria ter acontecido para ele faltar à visita, e ele estava certo, como vocês verão mais pra frente...
No outro dia Herman acordou cedo. Desanimado do jeito que estava, nem ajudou o lenhador Holfen a derrubar as toras. Ficou sentado no banquinho em frente sua casa, olhando distraído para a copa das árvores. O dia estava nublado e ainda fazia frio, mas estava melhor do que no dia anterior. O Outono era sempre bem frio para aqueles lados. Pelo menos Herman estava de folga e não precisaria trabalhar nas plantações de abóboras naquele dia.
–Ele deve ter partido em alguma missão para o Rei – disse uma voz atrás dele.
Era sua mãe. Ele estava tão distraído que nem tinha percebido sua presença.
–É, eu sei... – Disse Herman, desanimado.
–Não fique assim, tenho certeza de que ele fez de tudo para poder vir. Ele não pode simplesmente desrespeitar o Rei para visitar-nos – Disse Bela.
–Você tem razão – Disse Herman pensativo – Eu posso ir à cidade hoje?
Bela não queria que ele fosse, mas viu que ele já estava triste e negar iria aborrecê-lo mais:
–Pode. Mas volte antes das cinco.
–Tudo bem. Obrigado mãe – Disse ele, dando um beijo e partindo apressado.
Como não tinha cavalo, Herman sempre fazia o trajeto a pé. Era mais ou menos 1 hora de caminhada até a cidade, e a estrada era segura. Pouco depois da curva ficava o ponto dos Grifos, vigiado pelo Senhor Maknor. Os Grifos eram os melhores transportes naqueles dias, mas por serem raros, era caríssimo andar neles. O Grifo era uma criatura semelhante a um Dragão, mas menor e sem cuspir fogo. Além disso, tinham garras muito afiadas e eram animais extremamente difíceis de domar. A melhor chance que se tinha para domar um Grifo era cuidar dele desde bebê, quando saía do ovo. A questão é que pegar um ovo de Grifo é ainda mais difícil do que domar um. Conheço homens que se arriscariam numa batalha desarmada contra um Troll da montanha, mas não se arriscariam a tentar pegar um ovo de Grifo. E isso os tornava raros. Eram usados geralmente para viagens rápidas, além de levar cartas algumas vezes, como os pombos-correios.
Maknor acenou para Herman ao vê-lo passar e perguntou se queria um Grifo para a viagem. Ele sempre perguntava e Herman sempre dizia que não. Ele deveria saber que o menino não tinha dinheiro para pagar um, mas parecia que isso não importava para ele.
Quanto ao resto da “viagem”, não há muito pra dizer. A estrada estava bem vazia, e Herman encontrou apenas um Anão de barbas longas fazendo o caminho inverso ao dele. Era bem comum ver Anões passando por aqueles lados e até se hospedando na vila Listrabon. Herman sabia que eles tinham minas ao Sul, e às vezes tomavam aquele caminho, embora não fosse o melhor.
Logo depois disso chegou à cidade de Kuldran. Kuldran era uma cidade relativamente pequena, mas tinha um comércio bem ativo. Era conhecido pelo seu famoso “Pão vilhado”. Era um pão deliciosíssimo, preparado pelo Sr. Bongo, o padeiro da cidade. O Pão vilhado atraía visitantes de muito longe, fazendo com que a hospedaria estivesse sempre cheia, pelo o que os donos eram agradecidos ao Sr. Bongo. Fora isso a cidade não tinha nada de muito especial. Era governada por um Conde (Conde Rhold), assim como todas as cidades/distritos do reino, mas as ordens vinham do Rei.
Herman atravessou a ponte que levava a entrada da cidade e cumprimentou os guardas. A cidade era murada e tinha uma guarda armada bem forte, treinada pelo grande espadachim Mestre Mornet. Mornet era um guerreiro lendário. Tinha feito fama ao salvar a filha de um nobre, que tinha sido sequestrada por Orcs e trancada nas masmorras de um castelo abandonado, num país distante ao Norte. Mornet derrotou o castelo inteiro de Orcs sozinho e libertou a moça. Você provavelmente pode pensar que é exagero, como qualquer um pensaria, já que o povo gosta de inventar coisas tanto quando gosta de uma boa cerveja. Mas se você conhecesse as habilidades de Mornet certamente acreditaria na história. Sabia-se que ele tinha participado de muitas batalhas importantes também, e isso era repetido da boca do próprio Rei.
Herman sabia disso tudo, pois Amandor era amigo de Mornet e já tinha contado isso pra ele. E Amandor era quem o menino queria encontrar no momento. Ele sabia que os guardas que cuidavam da praça tinham mais afinidade com ele e provavelmente saberiam onde ele tinha se metido, então Herman se dirigiu para a praça. A cidade estava realmente lotada, mais do que o comum, com carroças e pessoas pra todos os lados, gritando, bebendo, correndo e apostando. Parecia que ia haver um grande espetáculo, mas era só uma execução, como Herman acabou descobrindo, o que não deixava de ser um espetáculo para o povo.
Um palanque tinha sido montado na praça, e em cima dele havia dois homens. Um deles era bem novo, 20 ou 21 anos talvez. Era magro e loiro, e mostrava sinais de desespero. O outro era mais velho, talvez uns 35 anos. Tinha cabelos longos e negros e barba grisalha. Usava roupas velhas, ao contrário de seu companheiro, que vestia uma manta de tecido fino. Ele não parecia muito triste com a ideia de que iria ser enforcado, e batia em seu companheiro para que parasse de chorar.
O povo ria e esperava ansioso para o momento da morte, e Herman não podia entender como as pessoas gostassem de ver tal cena. A crueldade das pessoas o assustava. Os discursos já deveriam ter ocorrido, porque os guardas já colocavam os homens na corda e preparava-os para serem enforcados. O motivo da morte, segundo algumas pessoas que resmungavam alto, era roubo. Era bem comum ocorrerem execuções na cidade. Muitas vezes, homens que cometiam crimes de menor importância, como o roubo, eram levados para Kuldran para serem julgados. Já outros crimes mais graves, como traição, por exemplo, eram levados para a Capital ou para alguma cidade maior.
Herman não queria terminar de ver aquilo, e simplesmente virou as costas e foi embora. Talvez os guardas do portão soubessem sobre Amandor. Ele se afastou da praça e começou a caminhar pra entrada da cidade. Uma explosão de gritos e palmas ecoou da plateia lá trás, um sinal de que provavelmente os condenados já não caminhavam mais entre a terra dos vivos.
Herman chamou um dos guardas, o qual sabia que se chamava Monteiro e perguntou:
–Bom dia Guarda Monteiro. Por acaso sabe se o cavaleiro Amandor está na cidade no momento?
–O que um garoto quer com um cavaleiro? – Respondeu o Guarda, ríspido.
–Amandor é meu amigo e amigo de minha mãe – Disse Herman – Preciso falar com ele.
Ele deu uma bolha olhada no menino e depois balançou os ombros.
–De qualquer forma você não vai poder falar com ele – Disse ele – Soube que ele foi para a Mitrar, a cidade dos Elfos, a leste. Foi levar alguma mensagem do Rei. Não sei mais do que isso.
–Obrigado. Tenha um bom dia.
Mitrar? Então Amandor tinha ido viajar sem nem mesmo avisá-lo? Ele não podia acreditar. Mais aborrecido do que antes, ele resolveu voltar para casa. Já era hora do almoço, e sua mãe ia gostar que ele voltasse pra comer.
Já chegando em casa, viu um viajante rumando através da vila (o mesmo caminho tomado pelo Anão naquela manhã), com mochila nas costas, espada na bainha e cachimbo na boca. Provavelmente iria tomar a trilha da montanha, que era o único caminho (pelo menos que ele tinha ouvido falar) para chegar as Terras Longínquas. Amandor tinha falado daquelas terras para o menino. Lá não havia cidades e as casas amigas eram poucas. As estradas não eram seguras e os monstros viviam livremente por lá. Era um dos poucos lugares do mundo em que ainda se achavam Demônios, e só por isso você já deve ter percebido que não era um lugar seguro.
Herman esqueceu o viajante e entrou em casa. Sua mãe já esperava com uma sopa de galinha e rodelas de porco na mesa. Ela percebeu que o desânimo do filho havia crescido, mas resolveu não comentar nada. Já tinha adivinhado que ele não tinha encontrado Amandor. Juntos, eles comeram a refeição em silêncio, mas um pensamento tinha se formado, e torturava o menino...
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