O Pé Grande Mora no Banheiro da Minha Casa
1 Capítulo Único
Há quem diga que é mentira. Que é tudo balela.
A começar pelos meus amigos da escola.
Os meninos riem e contentam-se com uma bola de futebol.
As meninas nem chegam perto de mim. Me acham estranho.
Mas nem todas.
Tem essa menina, a Rafaela.
Ela me disse que uma sereia mora na banheira do banheiro da casa dela.
Há também quem leve o assunto à risca.
A professora sempre me chama para conversar.
Ela insiste para que eu pare de desenhá-lo e citá-lo nas aulas.
Inclusive ela já conversou com meus pais.
Meus pais acham que é tudo coisa da minha imaginação.
E me ignoram.
Não tem nada que me irrite mais que isso.
Não tenho uma mente “fértil”. É verdade.
O Pé Grande mora no banheiro da minha casa.
Há inclusive quem ache ele assustador.
Feio, horripilante e monstruoso.
Eu converso com ele todos os dias.
Gente finíssima.
E também é limpinho.
Escova sempre três vezes ao dia seus enormes dentes.
Penteia minuciosamente seu pelo azul depois dos longos banhos quentes.
Toda vez me ajuda com a lição de casa.
É superinteligente e crack em matemática.
Certa vez minha mãe me perguntou a origem dos pelos azuis enroscados no pente.
Sobre a quarta escova de dentes que havia achado no banheiro.
E como eu havia tirado dez na prova de matemática.
“O Pé Grande usa o pente e a escova. Além disso ele me ensina matemática”.
Foi o que eu disse.
“Chega! Eu quero ver esse Pé Grande”.
Eu e minha mãe fomos até o banheiro.
O Pé Grande saiu de dentro do cesto de roupa suja.
Minha mãe desmaiou.
No começo foi difícil, mas hoje o Pé Grande mora com a gente numa boa.
Ele administra o dinheiro da casa.
Faz o café da manhã e meu lanche da escola.
Dorme na cama de baixo do beliche, comigo, no meu quarto.
Aos sábados vamos todos ao parque. Eu, mamãe, papai e o Pé Grande.
Todos os meus amigos agora morrem de inveja quando o veem.
E se algum deles vem me perturbar, o Pé Grande dá um rugido e o espanta.
Aos domingos, o Pé Grande vai pra casa da Rafaela, se encontrar com a sereia dela.
Além de maneiríssimo, o cara também é bem resolvido.
Eu também queria ir na casa da Rafaela todo domingo.
Todo dia. Toda semana. Todo mês. Todo ano.
Ah, Rafaela...
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